54. 54. O encontro com Judas de Keriot e com Tomé.Simão Zelote curado da lepra.
26 de outubro de 1944.
54.1 Jesus está junto aos seus seus discípulos. Tanto no outro dia, como hoje, não vejo Judas Tadeu que também havia dito querer ir a Jerusalém com Jesus.
Devem ainda estar sendo celebradas as festas pascais, pois vê-se muita gente pela cidade. Está anoitecendo e muitos se apressam em ir para as suas casas.
Jesus também está indo para a casa onde está hospedado. Não é a casa do Cenáculo, que fica mais na cidade, ainda que nas imediações desta. A casa onde está Jesus hospedado é uma verdadeira casa de campo entre bastas oliveiras. Da rústica pracinha, que está à sua frente, vêem-se as árvores que descem pelos declives ao longo da colina, detendo-se num lugar onde há um pequeno córrego de poucas águas, que se vai por entre uma enseada que está entre duas colinas pouco altas. Sobre uma das colinas está o Templo, sobre a outra só oliveiras e mais oliveiras. Jesus está no começo do declive desta branda colina, que sobe suavemente, na mansidão de suas árvores pacíficas.
– João, aí fora estão dois homens esperando o teu amigo –diz um homem já de idade que deve ser o camponês ou o dono do olival. Diria que João o conhece.
– Onde estão? Quem são?
– Não sei. Um deles certamente é judeu. O outro… eu não saberia dizer. Não perguntei a ele.
– Onde estão?
– Na cozinha, esperando e… e… sim… há também um outro que está todo cheio de feridas… Eu o mandei esperar lá porque… não queria que ele fosse um leproso… Diz ele que quer ver o Profeta que falou no Templo.
Jesus, que até aquele momento havia permanecido calado, diz:
– Vamos primeiro a esse. Diz aos outros que venham, se quiserem. Falarei aqui no olival com eles.
E se dirige para o ponto indicado pelo homem.
– E nós? Que fazemos? –pergunta Pedro.
– Vinde, se quiserdes.
54.2 Um homem todo coberto está encostado ao pequeno muro rústico que sustenta um outeiro, bem perto do limite do sítio. Deve ter subido ali por um pequeno atalho que lá conduz costeando o córrego.
Quando vê Jesus vir em sua direção, grita:
– Para trás, para trás! Mas também piedade!
E descobre o seu tronco, deixando cair a veste. Se o rosto já está coberto de crostas, o tronco é um bordado de chagas. Algumas já reduzidas a buracos fundos, outras simplesmente como queimaduras vermelhas, outras esbranquiçadas e lúcidas como se sobre elas tivesse um vidro branco.
– És leproso! Que queres de Mim?
– Não me amaldiçoes! Não me apedrejes! Disseram-me que na outra tarde Te manifestaste como Voz de Deus e Portador da Graça. Disseram-me que Tu asseguraste que, erguendo o teu sinal, curas com ele todos os males. Ergue-o sobre mim. Eu venho dos sepulcros… lá… Eu rastejei como uma serpente por entre as sarças da beira do córrego para chegar até aqui sem ser visto. Esperei que a tarde chegasse para poder vir, porque na penumbra vê-se menos quem eu sou. Eu ousei… encontrei este, que é da casa e que é muito bom. Ele não me matou. Somente me disse: “Espera junto ao muro.” Tem piedade, Tu também!
Visto que Jesus se aproxima (sozinho, porque os seis discípulos e o dono do lugar, com os dois desconhecidos, estão longe e mostram claramente aversão) diz ainda:
– Não te adiantes mais! Não mais! Eu estou infeccionado!
Mas Jesus prossegue. Olha para ele com tanta piedade, que o homem se põe a chorar, ajoelha-se com o rosto quase ao chão e geme, dizendo:
– O teu sinal! O teu sinal!
– Ele será elevado, quando chegar a sua hora. Mas, a ti Eu digo: levanta-te! Sê curado. Eu quero. E sê tu o meu sinal nesta cidade que precisa conhecer-me. Levanta-te. Eu te digo! E não peques mais, em reconhecimento a Deus!
O homem se levanta devagar. Parece que ele emerge por entre as ervas altas e floridas como de um lençol do túmulo… e está curado. Ele se olha, aos últimos raios da luz do dia. Está mesmo curado. E grita:
– Eu estou limpo! Oh! Que é que devo fazer agora por Ti?
– Obedecer a Lei. Vai ao sacerdote. Sê bom daqui em diante.Vai.
O homem faz um movimento para se jogar aos pés de Jesus, mas ele se lembra de que ainda está impuro, segundo a Lei, e se detém. Mas ele beija suas próprias mãos e manda o beijo a Jesus e chora. De alegria.
54.3 Os outros estão imobilizados, como que petrificados. Jesus volta as costas ao curado e, sorrindo, os faz voltarem a si.
– Amigos, não era mais que uma lepra da carne. Mas vós vereis cair a lepra dos corações. Sois vós que me procurais? –diz aos dois desconhecidos–: Eis-me aqui. Quem sois?
– Nós Te ouvimos na outra tarde… no Templo. E Te procuramos pela cidade. Um que se diz teu parente, nos disse que estavas aqui.
– Por que me estais procurando?
– Para seguir-te, se nos quiseres, porque Tu tens palavras de verdade.
– Para seguir-me? Mas sabeis para onde me dirijo?
– Não Mestre. Mas com certeza para a glória.
– Sim. Mas para uma glória que não é da terra. Para uma glória que tem sua sede no Céu e que se conquista com a virtude e o sacrifício. Por que quereis me seguir? –torna a perguntar.
– Para termos parte na tua glória.
– Segundo o Céu?
– Sim, segundo o Céu.
– Nem todos podem chegar ali. Porque Mamon arma ciladas aos desejosos do Céu, mais do que aos outros. E só quem sabe querer fortemente é quem resiste. Por que seguir-me se o seguir-me quer dizer uma luta contínua com o inimigo que está em nós, com o mundo inimigo e com o Inimigo, que é Satanás?
– Porque assim quer o nosso espírito, que ficou conquistado por Ti. Tu és santo e poderoso. Nós queremos ser teus amigos.
– Amigos!!!
Jesus se cala e suspira. Depois, olha fixo àquele que sempre vinha falando e que agora deixou cair o manto da cabeça apresentando-a toda descoberta. É Judas de Keriot.
– Quem és tu, que falas melhor do que um homem do povo?
– Sou Judas, de Simão. Sou natural de Keriot. Mas sou do Templo (ou estou no Templo). Espero o Rei dos judeus; vivo sonhando com ele. Rei te reconheci na palavra e Rei te vi no gesto. Toma-me Contigo.
– Tomar-te? Agora? Tão depressa? Não.
– Por que, Mestre?
– Porque é melhor pesar-nos a nós mesmos, antes de pegarmos caminhos muito íngremes.
– Não crês em minha sinceridade?
– Tu o disseste. Eu creio no teu impulso. Não creio na tua constância. Pensa nisso, Judas. Agora Eu vou-me embora, e voltarei para a festa de Pentecostes. Se estiveres no Templo, me verás. Pesa-te a ti mesmo. 54.4E tu, quem és?
– Um outro que te viu. Queria estar contigo. Mas agora sinto temor.
– Não. A presunção é uma ruína. O temor pode ser um obstáculo, mas, se ele vem da humildade, pode até ajudar. Não temas. Pensa, tu também, e, quando Eu vier…
– Mestre, tu és muito santo. Tenho medo de não ser digno. Não de outra coisa. Porque sobre o meu amor eu não temo.
– Como te chamas?
– Tomé, chamado o Dídimo.
– Eu me lembrarei do teu nome. Vai em paz.
Jesus se despede deles e se retira para a casa onde está hospedado, para o jantar.
54.5 Os seis, que já estão com Ele, querem saber de muitas coisas.
– Por que, Mestre, fizeste diferença entre os dois?… Porque uma diferença houve! Os dois tinham o mesmo impulso… –pergunta João.
– Amigo, também o mesmo impulso pode ter diversa substância e produzir efeito diferente. É verdade que os dois têm o mesmo impulso. Mas um não é igual ao outro, quanto ao fim a que visam. E aquele que parece o menos perfeito é o mais perfeito, porque não está seduzido pela glória humana. Ele me ama, porque me ama.
– Eu também.
– E eu também.
– E eu.
– E eu.
– E eu.
– E eu.
– Eu sei. Eu conheço quem sois.
– Então, somos perfeitos?
– Oh! Não! Mas, assim como Tomé, vós também o sereis, se permanecerdes em vossa vontade de amor. Perfeitos?! Oh! Meus amigos! E quem é perfeito, a não ser Deus?
– Tu o és.
– Em verdade vos digo que não sou perfeito por Mim, se pensais que Eu sou um profeta. Nenhum homem é perfeito. Mas perfeito Eu sou, porque Este que vos está falando é o Verbo do Pai. Ele é parte1 porque aniquilo a Mim mesmo, pondo em minhas costas todas as misérias do homem para levá-las comigo, primeiro ao meu patíbulo e depois de tê-las levado, anulá-las, mas não por as ter tido como minhas. Que peso, amigos! Mas, Eu o levo com alegria. Levá-lo é a minha alegria porque sendo o Filho da humanidade, tornarei a humanidade filha de Deus, como foi no primeiro dia.
Jesus fala docemente, sentado à pobre mesa, com as mãos que gesticulam calmamente sobre a mesma, o rosto um pouco inclinado, iluminado de alto a baixo pela luz de uma pequena candeia colocada sobre a mesa. Ele sorri levemente, já Mestre na imponência e tão amigo no trato. Os discípulos o escutam atentos.
54.6 – Mestre, por que é que o teu primo, mesmo sabendo onde moras, não veio?
– Ah! Meu Pedro!… Tu serás uma das minhas pedras, a primeira. Mas nem todas as pedras são fáceis de se usar. Já viste os mármores do palácio pretório? Arrancados, com muito trabalho, do seio das montanhas, agora fazem parte do Pretório. Por outro lado, olha aquelas pedras, que estão brilhando lá longe à luz do luar, por entre as águas do Cedron. Elas vieram por si mesmas para o leito do rio e se alguém as quiser, elas logo se deixam levar. O meu primo é como as primeiras pedras da qual falo… O seio do monte, a família, o disputa Comigo.
– Mas eu quero ser em tudo como as pedras do Cedron. Por Ti, estou pronto a deixar tudo: casa, esposa, pesca, irmãos. Tudo, Rabi, por Ti.
– Eu sei, Pedro. Por isto Eu te amo. Mas Judas também virá.
– Quem? Judas de Keriot? Não o levo muito em conta. É um belo moço, mas… eu prefiro… prefiro a mim mesmo…
Riem-se todos da piada de Pedro.
– Não há nada para rir. Quero dizer que prefiro um galileu franco, rude, um pescador, mas sem fraude, a… homens da cidade que… não sei… Mas o Mestre entende o que eu quero dizer.
– Sim, entendo. Mas não julgues. Temos necessidade uns dos outros nesta terra e os bons estão misturados com os maus, como as flores em um campo. A cicuta está ao lado da saudável malva.
54.7 – Eu queria perguntar uma coisa….
– Qual, André?
– João me contou o milagre feito em Caná… Nós tínhamos muita esperança de que Tu fizesses um deles em Cafarnaum… e Tu disseste que não farias milagre, se antes não tivesses cumprido a Lei. Por que então o fizeste em Caná? E por que não em tua pátria?
– Toda obediência à Lei é união com Deus e, por isso, um aumento de nossa capacidade. O milagre é a prova da união com Deus, da presença benévola e consciente de Deus. Por isso Eu quis cumprir o meu dever de israelita antes de iniciar a série de prodígios.
– Mas Tu não estavas obrigado pela Lei.
– Por que? Como Filho de Deus, não. Mas, como filho da Lei,
sim. Israel, por enquanto, só me conhece como tal… E, mesmo depois, quase todo Israel me conhecerá como tal, aliás, como menos ainda. Mas Eu não quero dar escândalo a Israel e por isso obedeço a Lei.
– Tu és santo.
– A santidade não exclui a obediência. Ao contrário, a aperfeiçoa. Além de tudo mais, é preciso dar o exemplo. Que diríeis de um pai, de um irmão mais velho, de um mestre, de um sacerdote, que não desse bom exemplo?
– E então, o caso de Caná?
– Em Caná, era a alegria que à minha mãe devia ser dada. Caná é a antecipação que se deve à minha mãe. Ela é a antecipadora da Graça. Aqui Eu presto honra à Cidade santa, fazendo dela publicamente o lugar do início do meu poder de Messias. Mas lá, em Caná, Eu prestava honra à santa de Deus, à toda santa. O mundo me tem por meio dela. É justo que para ela seja feito o meu primeiro prodígio no mundo.
54.8 Batem à porta. É Tomé de novo. Ele entra e se lança aos pés de Jesus.
– Mestre… eu não posso ficar esperando a tua volta. Deixa-me ficar Contigo. Eu sou cheio de defeitos, mas tenho este amor, único, grande, verdadeiro, o meu tesouro. Ele é teu, é para Ti. Deixa-me Mestre…
Jesus põe-lhe a mão sobre a cabeça.
– Fica, Dídimo. Segue-me. Felizes aqueles que são sinceros e de vontade firme. Benditos sois vós. Para Mim sois mais do que parentes, porque me sois filhos e irmãos, não segundo o sangue, que morre, mas segundo a vontade de Deus e a vossa vontade espiritual. Agora Eu digo que não tenho parente mais chegado do que aquele que faz a vontade de meu Pai; e vós a fazeis, porque quereis o bem.
Assim termina a visão. 54.9São 16:00 horas, e já caem sobre mim as sombras do malestar que sinto que será violento, lógica conseqüencia da penosa hora de ontem…
Mas também em 24 de Outubro estava muito mal. Tanto que, terminada a visão, escrita com uma dor de cabeça própria de meningite, não tive coragem de acrescentar que vi finalmente Jesus vestido como me aparece quando é todo para mim: de uma suave veste de lã branca quase da cor marfim e com o manto igual. A veste que trazia2 na sua primeira manifestação em Jerusalém como Messias.
1 Filho do homem, é provavelmente o mais recorrente dos títulos atribuídos a Jesus e que Jesus atribui a Si próprio. O seu significado genérico é ilustrado em 343.4; mas o seu significado messiânico encontra-se aqui e, por exemplo, em 126.3 e em 603.1.
2 veste que trazia, em 53.3.