378. 378. A parábola dos passarinhos, contestadapelos inimigos judeus que preparam uma emboscada.
378.1Colocar a visão de 14 de agosto de 1944: a ovelhinha no redil, aos pés do bom Pastor.
6 de fevereiro de 1946.
378.2 Jesus está na fértil e florida Betânia, neste belo mês de Nisã, tão sereno e puro, como se aqui a natureza tivesse sido lavada de toda sujeira. Mas as turbas o encontram, depois de certamente o terem ido procurar em Jerusalém, pois elas não querem partir, sem antes tê-lo ouvido, para poderem levar consigo, no coração, a sua palavra. São tão numerosas, que Jesus manda reuni-las, a fim de que possa ensiná-las. E os doze, com os setenta e dois, que se reuniram em tal número, ou pouco menos, com os novos discípulos, que se agregaram a eles nestes últimos tempos, espalham-se por toda parte, para cumprirem a ordem recebida.
Nesse meio tempo, Jesus, no jardim de Lázaro, se despede das mulheres, e especialmente de sua Mãe, que, por sua ordem, voltam para a Galileia, escoltadas por Simão de Alfeu, Jairo, Alfeu da Sara, Marziam, o esposo da Susana, e Zebedeu. Há saudações e lágrimas. Haveria também muita vontade de não obedecer. Uma vontade ditada ainda pelo amor ao Mestre. Entretanto, mais forte ainda é a força do amor perfeito, pois ele é todo sobrenatural, para com o Verbo Santíssimo, e essa força as faz obedecer, aceitando aquela penosa separação.
A que menos fala é Maria, a Mãe. Contudo, o seu olhar diz mais do que tudo o que estão dizendo todas as outras juntas. Jesus interpreta aquele olhar, a consola, a cobre de carícias, se é que se pode consolar o coração de uma mãe, e especialmente daquela Mãe, toda amor, e toda cheia de aflição por seu Filho perseguido. E as mulheres lá se vão, enfim, virando-se, e tornando a virar-se, para saudar o Mestre, para saudar os filhos e as felizes discípulas judias, que ficam ainda com o Mestre.
– Elas ficaram tristes por terem ido… –observa Simão, o Zelotes.
– Mas é bom que tenham ido, Simão.
– Estás prevendo dias tristes?
– Pelo menos, agitados. As mulheres não são capazes de suportar o cansaço, como nós. Afinal, agora que já há um número quase igual de judias e de galileias, é bom que sejam separadas. Por turnos, elas me terão, tendo cada turno a alegria de servir-me, elas, e o conforto do afeto delas, Eu.
378.3 Enquanto isso, o povo vai aumentando cada vez mais. O pomar, que fica entre a casa de Lázaro e a que era do Zelotes, parece um formigueiro de gente. Há pessoas de todas as castas e condições, e não faltam os fariseus da Judeia, os sinedritas e as mulheres veladas.
Da casa de Lázaro estão saindo em grupos, que vão unir-se ao redor de uma liteira sobre a qual ele vem sendo transportado, os sinedritas que, no sábado da Páscoa estavam de visita a Lázaro em Jerusalém, e mais outros. Lázaro ao passar, faz um gesto e tem um sorriso para Jesus. E Jesus lho retribui, enquanto vai-se colocando atrás do pequeno cortejo, que vai indo para lá onde o povo o está esperando.
Os apóstolos se unem a Ele, e Judas Iscariotes, que está triunfante há alguns dias, numa fase sumamente feliz, lança seus olhares para um lado e para o outro, com aqueles seus olhos muito pretos e brilhantes, e anuncia, aos ouvidos de Jesus, as descobertas que vai fazendo.
– Oh! olha só! estão aí também os sacerdotes!… Olha, olha! Até! Simão sinedrita está. E Elquias. Olha só, que mentiroso! Há poucos meses ele dizia as piores coisas contra Lázaro, e agora lhe presta obséquios como a um deus!… E lá estão Doro, o Ancião, e Trisão. Estás vendo como ele saúda a José? E o escriba Samuel, com Saulo… E o filho de Gamaliel. E lá está um grupo dos de Herodes… E aquele grupo de mulheres veladas daquele jeito, só pode ser de romanas. Elas estão apartadas, mas estás vendo como estão observando para onde estás indo, a fim de poderem escolher um lugar, de onde possam ouvir-te? Eu conheço as identidades delas, mesmo com aqueles grandes mantos. Estás vendo? Duas são altas, uma menos alta, mas robusta, e as outras são de mediana estatura, com equilibradas proporções. Posso ir saudá-las?
– Não. Elas querem vir como desconhecidas, querem ser anônimas, vindas para ouvir as palavras do Rabi. E, como elas desejam é que as devemos considerar.
– Como quiseres, Mestre. Eu iria para… recordar à Cláudia o que ela prometeu…
– Não há necessidade. E, ainda que houvesse, não iremos nunca tornar-nos uns discutidores, Judas. Não é verdade? O heroísmo da fé há de formar-se entre dificuldades.
– Mas, era por… por Ti, Mestre.
– E pela tua ideia perene de um triunfo humano. Judas, não fiques criando ilusões, nem quanto ao meu modo de agir no futuro, nem quanto às promessas recebidas. Tu crês naquilo que dizes a ti, sobre ti mesmo. Mas nada poderá mudar o pensamento de Deus, e é que Eu seja Redentor e Rei de um Reino espiritual.
Judas não replica nada.
Jesus já está em seu lugar, no meio do grupo dos apóstolos. Quase junto a Ele, está Lázaro em sua caminha, estão as discípulas judias, isto é, as irmãs de Lázaro, Elisa, Anastásica, Joana com os menininhos, Anália, Sara, Marcela e Nique. As romanas, isto é, aquelas que Judas disse que o eram, estão mais atrás, quase no fim, misturadas a um grupo de pessoas do povo. Os sinedritas, os fariseus, os escribas, os sacerdotes, estão, como é inevitável, na primeira fila. Mas Jesus lhes pede que abram passagem para três pequenas macas em que estão uns doentes, aos quais Jesus faz umas perguntas, mas não os cura logo.
378.4 Jesus, a fim de fazer uso de um assunto em sua pregação, começa chamando a atenção dos presentes para o grande número de passarinhos que foram fazer seus ninhos nas copas das árvores do jardim de Lázaro, e para o pomar onde estão reunidos os ouvintes.
– Observai. Há os naturais deste lugar e os que vieram de fora, de todas as raças e tamanhos. E, quando descerem as sombras, eles serão substituídos pelos pássaros da noite, que também são numerosos, e por isso é quase impossível esquecermo-nos deles, só pelo fato de não os vermos. Por que é que há tantos passarinhos do ar aqui? Porque aqui eles acham com que viverem felizes. Aqui há sol, há descanso, aqui há alimento com fartura, abrigos seguros e águas frescas. E eles se reúnem, vindo do oriente e do ocidente, do sul e do norte, quando são emigradores, e vêm sempre a este lugar os naturais daqui. E, então? Iremos ver que os pássaros do ar são superiores em sabedoria aos filhos dos homens? Quantos, entre aqueles passarinhos, filhos de passarinhos que já morreram, mas que, no ano passado, ou até mais tempo antes, aqui faziam os seus ninhos, pois aqui encontravam sossego. Eles o disseram aos seus filhos, antes de morrerem. E lhes falaram deste lugar, e eles, os filhos, obedeceram e vieram para cá. O Pai, que está nos Céus, o Pai de todos os homens, não terá, por acaso, dito aos seus santos as suas verdades, e dado as indicações possíveis para o bem-estar de seus filhos? Deu todas as indicações, tanto as que dizem respeito ao bem da carne, como as que dizem respeito ao bem do espírito. Mas, que vemos nós? Nós vemos que o que foi ensinado pela carne — desde as túnicas de pele, que Ele fez para os nossos progenitores, que estavam desnudos aos seus próprios olhos, depois de perderem a veste que o pecado rasgou, até às últimas descobertas que, pela luz que Deus lhe deu, o homem conseguiu fazer — são recordadas e transmitidas, ensinadas, enquanto que a outra parte, o que foi ensinado, ordenado e indicado para o espírito não é conservado, ensinado nem praticado.
Muitos do Templo começam a cochichar. Mas Jesus os acalma com um gesto.
378.5 – O Pai, que é bom, como o homem nem de longe pode pensar, manda o seu Servo para recordar o seu ensinamento, para reunir os passarinhos nos lugares saudáveis e dar-lhes um exato conhecimento do que é útil e santo para fundar o Reino, onde todos os pássaros angélicos, todos os espíritos, encontrarão graça e paz, sabedoria e salvação. E, em verdade, em verdade, Eu vos digo que, como os passarinhos nascidos neste lugar, na primavera irão dizer aos outros de outros lugares: “Vinde conosco, porque há um lugar bom, em que gozareis da paz e da abundância do Senhor,” e assim se verá no ano novo passarinhos afluírem para cá, do mesmo modo, de todas as partes do mundo, assim como está dito pelos profetas1: “Muitos virão do oriente e do ocidente, e sentar-se-ão com Abraão e Jacó no Reinos dos Céus. Mas os filhos deste reino serão lançados nas trevas exteriores.”
378.6 – Os filhos de Deus nas trevas? Tu estás blasfemando! –grita um dos sinedritas contrários.
É o primeiro borrifo da baba dos répteis, que haviam ficado calados por muito tempo, e que não suportam mais ficar em silêncio, porque ficariam afogados em seu próprio veneno.
– Os filhos de Deus, não! –responde Jesus.
– Foste Tu que o disseste! Tu disseste: “Os filhos deste reino serão lançados às trevas exteriores.”
– E Eu o repito. Os filhos deste reino. Do reino onde a carne, o sangue, a avareza, a fraude, a luxúria e o delito são os patrões. Mas esse não é o “meu” Reino. O meu Reino é o Reino da Luz. Esse vosso reino é o reino das trevas. Ao Reino da Luz virão do oriente e do ocidente, do sul e do norte, os espíritos retos, e até aqueles que, por enquanto, são pagãos, idólatras, considerados desprezíveis por Israel. E viverão em santa comunhão com Deus, tendo acolhido em si a Luz de Deus, à espera de poderem subir para a verdadeira Jerusalém, onde não há mais lágrimas nem dores e, sobretudo, não haverá mentira. A Mentira, que agora governa o mundo das trevas, e sacia os filhos dele, a tal ponto, que nele não cabe mais nem uma migalha de Luz divina. Oh! Que venham os filhos novos, para o lugar dos filhos renegadores! Venham! E, seja lá qual for a sua proveniência, Deus os iluminará, e eles reinarão pelos séculos dos séculos!
– Tu falaste assim para nos insultar! –gritam os judeus inimigos.
– Eu falei para dizer a verdade.
– O teu poder está na língua, com a qual, como uma nova serpente, seduzes as multidões e as desencaminhas.
– O meu poder está na autoridade que Eu tenho, por ser Um com o meu Pai.
– Blasfemador! –gritam os sacerdotes.
– Salvador! 378.7Ó tu, que estás aos meus pés, de que sofres?
– Eu quebrei a espinha, quando era pequeno, e há trinta anos que eu vivo deitado de costas.
– Levanta-te, e caminha! E tu, ó mulher, de que sofres?
– As minhas pernas estão aí penduradas, mas inertes, desde quando este, que com meu marido me transporta, viu a luz.
E mostra um jovenzinho de, pelo menos, dezesseis anos.
– Tu também, levanta-te, e louva o Senhor! E aquele menino, por que é que não caminha sozinho?
– Porque ele é assim de nascença; é surdo, cego e mudo. É um pedaço de carne, que respira –dizem os que estão com o infeliz.
– Em nome de Deus, recebe a inteligência, a palavra, a vista e a audição. Eu assim quero!
E, tendo realizado o terceiro milagre, vira-se para os seus inimigos, e diz:
– E vós, que tendes a dizer?
– São milagres duvidosos. Por que não curas o teu amigo e defensor, então, se tudo podes?
– Porque Deus quer outra coisa.
– Ah! Ah! Esta é boa! Que desculpa jeitosa! Se nós te trouxéssemos um doente, ou dois, tu os curarias?
– Sim. Se vós o merecerdes.
– Espera-nos, então.
E saem depressa dando risadas zombeteiras.
– Mestre, toma cuidado. Eles te estão preparando alguma armadilha! –dizem muitos.
Jesus faz um gesto, como se dissesse: “Deixai que a preparem!”, 378.8e se inclina para acariciar algumas crianças que, pouco a pouco, tinham ido aproximar-se dele, deixando os seus pais. Algumas mães fazem como elas, levando-lhe nos braços aqueles que estão ainda com os passos pouco firmes, ou os que estão ainda mamando.
– Abençoa nossos filhos, Tu, que és bendito, para que eles sejam amantes da Luz! –dizem as mães.
E Jesus vai impondo as mãos, e abençoando. Isso produz um grande movimento por entre a multidão. Todos os que têm crianças querem também a bênção, e empurram, e gritam, pedindo passagem. Dos apóstolos, alguns, porque ficaram nervosos com as costumeiras maldades dos escribas e fariseus, e outros, por compaixão para com Lázaro que está se arriscando a ser arrastado pela onda dos pais que estão levando os pequeninos para receberem a bênção divina, se inquietam, e gritam, censurando isto ou aquilo, especialmente as criancinhas que vão chegando até ali, desacompanhadas.
Mas Jesus, sempre afável e amoroso, diz:
– Não, não. Não façais assim. Não impeçais nunca as crianças de virem a Mim, nem aos seus pais de as trazerem. Porque desses inocentes é o Reino. Eles serão inocentes do grande Delito, e crescerão na minha Fé. Deixai, pois, que a ela Eu os consagre: são os anjos delas que a Mim as conduzem.
Jesus está agora à frente de uma cerca de crianças que, extáticas, estão olhando para Ele. São muitos rostinhos que estão levantados, virados para Ele, muitos olhinhos inocentes, muitas boquinhas sorridentes…
As mulheres veladas se aproveitam da confusão para passarem por detrás da multidão, e irem ficar às costas de Jesus, como se a curiosidade as estivesse estimulando a fazer isso.
378.9 Voltam os fariseus, os escribas e mais outros, e eles vêm trazendo dois, que parecem estar sofrendo muito. Um deles, especialmente, está gemendo, em sua pequena maca, e está todo coberto por um manto. O outro é, pela aparência, um caso menos grave, mas com certeza se trata de alguém muito doente, pois ele está muito emagrecido e arquejante.
– Eis os nossos amigos. Cura-os. Estes estão verdadeiramente doentes. Sobretudo este –e mostram o que está gemendo.
Jesus abaixa o olhar sobre os doentes, depois o fixa sobre os judeus. Fulmina os seus inimigos com um olhar terrível. Depois, à frente da cerca das inocentes crianças, que ainda não chegam nem à altura da cintura deles, parece estar-se erguendo de uma base de pureza, para ser o Vingador, como se da pureza Ele estivesse extraindo forças para o ser. Ele abre os braços, e grita:
– Mentirosos! Este não está doente! Eu vo-lo digo. Descobri-o! Ou então, ele ficará morto, dentro de um instante, por causa da trapaça de que quereis fazer uso para com Deus.
O homem pula para fora da maca, gritando:
– Não, não! Não me mates. E vós, malditos, tomai as vossas moedas!
E joga uma bolsa aos pés dos fariseus, que fogem, correndo a bom correr.
A multidão dá um uivo prolongado, depois explode em grandes risadas, e assobia, castigando os intrusos com uma grande vaia, e, no outro lado, se manifesta em calorosos e veementes aplausos.
O outro doente diz:
– E eu, Senhor? Fui apanhado em minha cama à força, e desde esta manhã venho sofrendo uma perturbação… Mas eu não sabia que estava nas mãos dos teus inimigos.
– Tu, meu pobre filho, fica bom e sejas abençoado!
E lhe impõe as mãos, abrindo para isso, a cerca viva das crianças.
O homem se levanta num instante, com a coberta estendida sobre o corpo. Assim ele aparece nu, das coxas para baixo. E grita, grita até ficar rouco:
– O meu pai! O meu pai! Mas, quem és Tu, que restituis as coisas perdidas?
E cai aos pés de Jesus, depois se levanta, dá um salto sobre sua caminha, e grita:
– A doença me estava roendo os ossos, o médico já me havia amputado os dedos, queimado a carne, e aberto cortes até chegar ao osso do joelho. Olhai! Olhai aqui os sinais. Com tudo isso, eu ia morrendo assim mesmo. A agora… Estou completamente curado! O meu pé! O meu pé todo feito de novo! E não sinto mais dor! Tenho forças e sinto um bem-estar. Estou com o peito livre. meu coração está bem! Oh! Minha mãe! Minha mãe, eu vou dar-te alegria!
Ele procura correr para ir. Mas depois o reconhecimento o faz parar. Torna a voltar a Jesus, e beija e torna a beijar os seus pés benditos, até que Jesus lhe diga, acariciando-o sobre os cabelos:
– Vai, vai à tua mãe, e sê bom.
378.10 E depois olha para os seus inimigos envergonhados, e troveja:
– E agora? Que Eu vos deveria fazer? Que deveria Eu fazer, ó turbas, depois deste juízo de Deus?
A multidão grita:
– Sejam apedrejados os inimigos de Deus! Que morram! Basta de ficar armando ciladas ao Santo. Que sejais malditos!
E se põem a apanhar torrões, galhos de árvores e pequenas pedras, para começarem um apedrejamento.
Jesus os fez parar.
– Esta é a palavra do povo. Esta é a sua resposta. A minha é diferente. Eu digo: Ide. Eu não vou sujar-me, ferindo-vos. O Altíssimo tome conta de vós. Ele é a minha defesa contra os ímpios.
Os culpados, em vez de se calarem, mesmo tendo medo do povo, não se contêm sem ofender ao Mestre, e, espumando de raiva, gritam:
– Nós somos judeus, e poderosos! Nós te ordenamos que te vás embora. Nós te proibimos de ensinar. Nós te expulsamos. Vai-te embora. De Ti já basta. Nós temos o poder nas mãos, e usamos dele, e sempre mais o iremos usar, perseguindo-te, ó maldito, ó usurpador, ó…
Estão para dizer outra coisa, por entre um tumulto de gritos, quando, tendo chegado mais para a frente, até colocar-se entre Jesus e seus inimigos, com um movimento rápido e dominador, com um olhar e uma voz ainda mais imperiosos, a mulher velada mais alta descobre o rosto e, cortantes e escarnecedoras, mais do que um açoite sobre os galeotes e do que um machado sobre o pescoço, caem as suas palavras:
– Quem aqui está esquecido de ser escravo de Roma?
É Cláudia. Ela torna a baixar o véu. Inclina-se levemente para o Mestre. E volta para o seu lugar.
Mas bastou. Os fariseus se acalmam de repente. Só um, em nome de todos, e com um servilismo rastejante, diz:
– Domina, perdoa. Mas Ele perturba o velho espírito de Israel, Tu, que és poderosa, deverias impedi-lo, fazê-lo impedir pelo justo e probo Procônsul, e vida e saúde para ele.
– Isto não nos interessa. O que é preciso é que não se perturbe a ordem de Roma. E não o faz! –responde, desdenhosa, a patrícia, depois de uma ordem seca às companheiras, e se afasta dali, indo para um capão de árvores no fim do caminho, atrás do qual ela desaparece, para depois voltar, num carro coberto e chiador, do qual faz que se abaixem todos os toldos.
378.11 – Estás contente por nos teres feito insultar? –perguntam, voltando ao ataque, os judeus, os fariseus, os escribas e companheiros.
A multidão grita, cheia de raiva. José, Nicodemos e todos aqueles que se tinham mostrado amigos — e com eles, sem se ajuntarem a eles, mas com as mesmas palavras, está o filho de Gamaliel — todos eles sentem a necessidade de intervir, censurando os outros por estarem passando da medida. A discussão passa dos inimigos de Jesus para os dois grupos opostos, deixando fora da discussão o que era o mais interessado nela.
E Jesus fica calado, com os braços cruzados, escutando, enquanto, — como creio — parece estar liberando uma força para conter a multidão, especialmente os apóstolos, que estão impelidos pela ira.
– Nós precisamos defender-nos e defender –grita um judeu muito agitado.
– Basta de ver as turbas fascinadas atrás dele –diz um outro.
– Nós somos os poderosos. Nós somente! E somente nós somos escutados e seguidos –diz um escriba.
– Que se vá embora daqui! Jerusalém é nossa! –brada um sacerdote, vermelho como um peru.
– Vós sois uns pérfidos!
– Sois mais do que uns cegos!
– As turbas vos abandonam, porque vós o mereceis.
– Sede santos, se quereis ser amados. Não é cometendo abusos que se conserva o poder que se baseia na estima do povo para com quem o governa –gritam por sua vez os do partido oposto, e muitos da multidão.
– Silêncio! –impõe Jesus.
E, tendo-se feito o silêncio, Ele diz:
– A tirania e as imposições não podem mudar os afetos e as consequências do bem recebido. Eu recolho aquilo que Eu dei: o amor. Vós, ao me perseguirdes, não fazeis mais do que aumentar esse amor que me quer dar uma compensação pelo vosso desamor. Não sabeis, com toda a vossa sabedoria, que perseguir uma doutrina, não serve senão para fazer crescer o poder dela, especialmente quando, ela corresponde com os fatos com aquilo que ensina? Ouvi uma minha profecia, ó vós de Israel. Quanto mais perseguirdes o Rabi da Galileia e os seus seguidores, tentando, com a tirania, anular a sua Doutrina, que é divina, tanto mais a fareis prosperar e estender-se pelo mundo. Cada gota do sangue dos mártires, derramada por vós, que esperais triunfar e reinar com as vossas leis e os vossos preceitos corrompidos e hipócritas, que não são mais a Lei de Deus, e cada lágrima dos santos espezinhados, será semente de futuros crentes. E vós ficareis vencidos, quando pensáveis que éreis triunfadores. Ide-vos. Que Eu também me vou. Aqueles que me amam, me procurem nos confins da Judeia e no Além-Jordão, ou então me esperem por lá, porque, como o relâmpago, que desliza do oriente para o ocidente, igualmente será o andar do Filho do homem, até chegar o tempo em que Ele subirá ao altar e ao trono, neste mundo e nos Céus, em uma das suas muitas epifanias, que só os bons é que são capazes de compreender.
378.12 Os fariseus hostis, e os seus companheiros, já se foram embora. Ficam os outros. O filho de Gamaliel está lutando consigo mesmo para ir a Jesus, mas depois vai-se embora, sem falar…
– Mestre, Tu não nos odiarás, porque somos das mesmas castas que eles? –pergunta Eleazar.
– Eu não firo nunca com anátema o indivíduo, por ser a classe dele culpada. Não temas –responde Jesus.
– Agora, eles nos odiarão –diz Joaquim.
– Honra será para nós que assim seja! –exclama João sinedrita.
– Que Deus fortaleça os vacilantes, e abençoe os fortes. Eu a todos abençoo em nome do Senhor –e, abrindo os braços, dá a bênção de Moisés a todos os presentes.
Depois, Ele se despede de Lázaro e das irmãs, de Maximino e das discípulas, e se põe a caminho…
As verdes campinas, que estão às margens da estrada, que vai direta para Jericó, o acolhem com o seu verde, que já vai se avermelhando por um pôr-do-sol esplendoroso.
2 dito pelos profetas, por exemplo por Isaías 2,1-4; 45,14-25; 60; Jeremias 16,19-21; Miqueias 4,1-8; Sofonias 3,9-10; Zacarias 8,20-23.
1 dito outras vezes, como em 177.4 e 363.7.
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