102. 102. Encontro com o ex-pastor Jônatase cura de Joana de Cusa.
8 de fevereiro de 1945.
102.1 Os discípulos estão ceando na ampla oficina de José.
O balcão serve de mesa, sobre a qual está tudo o que vai ser servido. Mas vejo que a oficina se usa também como dormitório. Sobre outras duas mesinhas de carpinteiro há esteiras que as transformam em enxergas, e pequenas camas baixas (esteiras sobre grades) que foram colocadas ao longo das paredes. Os apóstolos falam entre si e com o Mestre.
– Então, vais mesmo ao Líbano? –pergunta Iscariotes.
– Nunca prometo para não cumprir. E isso prometi duas vezes: aos pastores e à nutriz de Joana de Cusa. Esperei os cinco dias de que lhe havia dito, e, por prudência, esperei ainda o dia de hoje. Mas agora vou. Logo que a lua surgir, partiremos. Será longo o caminho, mesmo se usarmos o barco até Betsaida. Mas quero dar alegria ao meu coração, saudando também a Benjamim e a Daniel. Tu estás vendo que almas têm os pastores. Oh! Merece que Eu vá honrá-los, porque nem Deus se diminui honrando um servo seu, mas, ao contrário, aumenta a sua justiça.
– Com este calor! Olha bem o que estás fazendo. Eu digo por Ti.
– As noites já estão menos sufocantes. O sol, por pouco tempo ainda estará em Leão, e os temporais tornam menos ardente o calor. Além disso, Eu vo-lo repito: Não obrigo ninguém a ir. Tudo é espontâneo em Mim e ao meu redor. Se tendes negócios a fazer, ou se estais cansados, ficai. Nós nos reencontraremos depois.
– Isto mesmo. É como dizes. Eu teria que pensar nos negócios lá de casa. Está chegando o tempo da vindima, e minha mãe me tinha pedido que eu fôsse ver uns amigos… Sabes, no fundo, eu sou o chefe da família. Quero dizer: sou o homem da minha família.
Pedro resmunga:
– Ainda bem que ele se lembra de que a mãe é sempre a primeira depois do pai.
Judas, ou porque não esteja ouvindo, ou porque não quer ouvir, não demonstra ter entendido o resmungo, que Jesus freou com um olhar, enquanto Tiago de Zebedeu, sentado perto de Pedro, lhe deu um puxão na veste para fazê-lo calar-se.
– Então, vai, Judas. Aliás, deves ir. Não se deve faltar com a obediência à mãe.
– Então eu vou logo, se me permites. Chegarei a Naim ainda em tempo de encontrar hospedagem. Adeus Mestre, adeus amigos.
– Sê amigo da paz, e procura merecer ter sempre Deus contigo. Adeus –diz Jesus, enquanto os outros o saúdam com uma saudação coletiva.
Não há muita pena em vê-lo partir, ao contrário… Pedro, talvez por medo de que Judas se arrependa, o ajuda a apertar as correias do saco e a pô-lo à tiracolo, acompanha-o até à porta da oficina, já aberta, como está também a outra que dá para a horta, certamente para ventilar o cômodo, sufocante após um dia tórrido. Ele está junto à porta, olhando-o ir e, quando o vê afastar-se, faz um gesto de alegria e de um adeus irônico, e volta esfregando as mãos. Não diz nada… mas já disse tudo. Alguém, que viu, ri disfarçadamente.
102.2 Mas Jesus não nota isso, porque perscruta seu primo Tiago, que ficou corado e entristecido, parando de comer suas azeitonas. E lhe pergunta:
– Que é que tens?
– Disseste: “Não se deve faltar com a obediência à mãe…” E nós, então?
– Não tenhas escrúpulo. Em princípio, assim se deve, quando somos apenas homens e filhos de uma carne. Mas, quando assumimos uma outra natureza e uma outra paternidade, não. Esta, mais alta, segue-se em suas ordens e desejos. Judas chegou antes de ti e de Mateus… Mas está tão atrás ainda. É preciso que se forme, e o fará muito lentamente. Tende caridade para com ele. Tem caridade, Pedro! Eu compreendo… mas te digo: tem caridade. Suportar as pessoas importunas não é uma virtude qualquer. Usa-a.
– Sim, Mestre… Mas, quando o vejo assim… assim… Bem, cala-te, Pedro, que Ele compreende… parece-me que sou uma vela esticada demais pelo vento… Fico rangendo, rangendo pelo esforço, e sempre alguma coisa se rompe em mim… Mas Tu sabes, isto é, não sabes porque como barqueiro não vales nada, e por isso te digo que, se rompe os ligames todos de uma vela por excesso de tensão, te juro que ela dará uma tal bofetada no tolo barqueiro, que o deixará atordoado… Eis, eu sinto que… me arrisco a ter os laços todos rompidos… e então… É melhor, sim, que, de vez em quando ele se vá. Assim a vela se acalma por falta de vento, e eu tenho tempo para reforçar os ligames.
Jesus sorri, e sacode a cabeça, suportando seu justo e impetuoso Pedro.
102.3 Um grande barulho de cascos ferrados e um vozerio de moleques se ouvem ao longo da estrada.
– É aqui! É aqui! Para, homem.
E, antes que Jesus e os discípulos se deem conta, diante do vão da porta se apresenta o corpo escuro de um cavalo transpirando suor, e dele desce um cavaleiro que se precipita dentro da casa, como um bólide, e se prostra aos pés de Jesus, beijando-os com veneração.
Todos olham admirados.
– Quem és tu? Que queres?
– Eu sou Jônatas.
A resposta é um grito de José, que, por estar sentado atrás do alto balcão e por causa da rapidez da chegada, não tinha podido reconhecer o amigo. O pastor corre para perto do que está prostrado:
– Tu, és tu mesmo!…
– Sim. Estou adorando ao meu adorado Senhor! Trinta anos de esperança, oh! que longa espera! Mas, ei-los aí, agora floridos, como uma agave solitária, e floridos de repente, em um êxtase feliz, mais feliz ainda do que aquele de outrora! Oh! O meu Salvador!
Mulheres, meninos e alguns homens, entre os quais o bom Alfeu de Sara, que está ainda com um pedaço de pão e queijo na mão, aglomeram-se na porta, e até dentro do quarto grande.
– Levanta-te, Jônatas. Eu estava para ir à tua procura, e contigo ir achar o Benjamim e o Daniel….
– Eu sei….
– Levanta-te, para que Eu te dê o beijo que dei aos teus companheiros.
Jesus o força a levantar-se e o beija.
– Eu sei –repete o robusto velho, de bom porte e bem vestido–. Eu sei. 102.4Ela tinha razão. Não era um delírio de moribundo! Oh! Senhor Deus! Como a alma te vê e como te ouve, quando Tu a chamas!
Jônatas está comovido.
Mas se recobra. Não perde o seu tempo. Como adorador ativo, vai direto ao seu assunto:
– Jesus, nosso Salvador e Messias, eu vim pedir-te que vás comigo. Falei com a Ester, e ela me disse… Mas antes, antes Joana havia falado de Ti e me disse… oh! não vos fiqueis rindo de um homem feliz, vós que estais ouvindo, feliz e angustiado, enquanto não tiver o teu “Vou.” Sabes que eu estava em viagem com a patroa moribunda. Que viagem! De Tiberíades até Betsaida, foi boa. Mas depois, tendo deixado o barco e pego um carro, por mais que o tivesse aparelhado o melhor que pude, foi uma tortura. Ia-se devagar, de noite, mas ela sofria. Em Cesareia de Filipe, ela esteve para morrer, vomitando sangue. Paramos… Na terceira manhã, há sete dias, ela mandou me chamar. Parecia já morta, de tão branca e extenuada que estava. Mas, quando eu a chamei, ela abriu seus doces olhos de gazela moribunda, e sorriu para mim. Com sua mãozinha gelada fez-me sinal para que eu me inclinasse para ela, pois só tinha um fio de voz, e me disse: “Jônatas, leva-me de novo para casa. Mas depressa.” Era tão grande a força da sua ordem — ela que sempre foi mais doce do que uma criança boa — que as cores lhe voltaram às faces e seus olhos, por um momento, se tornaram brilhantes. E continuou: “Eu sonhei com a minha casa de Tiberíades. Dentro dela havia Alguém com o rosto de estrela, alto, loiro, com olhos celestes e uma voz mais doce do que o som da harpa. Dizia-me: ‘Eu sou a Vida. Vem. Volta. Eu te espero, para dá-la a ti’. Eu quero ir.” E eu dizia: “Mas, patroa! Não podes! Estás mal! Quando estiveres melhor, veremos.” Eu pensava que era um daqueles delírios dos moribundos. Mas ela chorou e depois… — oh! é a primeira vez que ela me disse nestes seis anos que é minha patroa, e até sentou-se, ela que nada pode, pela ira — e depois me disse: “Servo, eu quero. Eu sou a tua patroa. Obedece.” Em seguida deixou-se cair em cima do seu sangue. Achei que ia morrer… e disse: “Vamos fazê-la contente. Morrer por morrer!! Não ficarei com remorso por tê-la contrariado em seu fim, depois de sempre ter procurado contentá-la.” Que viagem! Não queria repousar, exceto entre as horas terça e sexta. Esgotados ficaram os cavalos para irmos mais depressa. Chegamos a Tiberíades na hora nona, esta manhã… E Ester me disse… Então eu entendi que eras Tu que a tinhas chamado. Porque a hora era aquela e o dia aquele no qual Tu prometias o milagre a Ester e aparecias ao espírito de minha patroa. Ela quis partir de novo, mal chegou a hora nona, e me mandou ir na frente… Oh! Vem, meu Salvador!
– Eu vou logo. A fé merece um prêmio. Quem me quer, me tem. Vamos.
– Espera. Joguei uma bolsa a um rapaz, dizendo: “Três, cinco, quantos jumentos quiseres, se não tendes cavalos, e ide depressa à casa de Jesus.” Devem estar para chegar. Iremos mais depressa. Espero encontrá-la perto de Caná. Se ao menos…
– O que, Jônatas?
– Se ao menos estiver viva….
– Ela está viva. Mas, mesmo que estivesse morta, Eu sou a Vida. 102.5Eis a minha Mãe.
A Virgem, certamente avisada por alguém, de fato está chegando depressa, seguida por Maria de Alfeu:
– Filho, Tu partes?
– Sim, Mãe. Vou com o Jônatas. Ele veio. Eu sabia que ia poder mostrá-lo a ti. Por isso, esperei um dia a mais.
Jônatas primeiro saudou profundamente com os braços cruzados sobre o peito, agora se ajoelha e ergue de leve a veste de Maria, e beija-a na orla, dizendo:
– Eu saúdo a Mãe do meu Senhor!
Alfeu de Sara diz aos curiosos:
– Oh! Que dizeis a isso? Não é de se envergonhar por sermos só nós sem fé?
Um barulho de muitos cascos se ouve na estrada. São os burrinhos. Creio que são todos os burrinhos de Nazaré, e são tantos, que dariam para formar um esquadrão. Enquanto Jônatas escolhe os melhores, e os contrata, pagando sem regatear, e toma dois nazarenos com outros burrinhos, por temor de que algum animal perca as ferraduras pelo caminho, e a fim de que possam trazer de volta toda esta zurrante cavalaria asinina, Maria e a outra Maria estão ajudando a fechar sacos e alforjes.
Maria de Alfeu diz a seus filhos:
– Deixarei aqui os vossos leitos. E os acariciarei… Parecer-me-á estar acariciando-vos. Sede bons, dignos de Jesus, filhos… e eu… eu estarei feliz… –e entrementes chora com grandes lágrimas.
Maria, ao invés, ajuda ao seu Jesus, e o acaricia com amor, fazendo-lhe mil recomendações e incumbências para os outros dois pastores libaneses, porque Jesus declara que não voltará antes de tê-los encontrado.
102.6 Partem. A tarde desceu, e o primeiro quarto da lua levanta agora. À frente vão Jesus e Jônatas, atrás todos os outros. Enquanto estão na cidade, vão passo a passo, porque as pessoas se aglomeram. Mas, logo que saem fora, vão a trote em uma caravana sonante de cascos e guizos.
– Está no carro com Ester –explica Jônatas–. Oh! A minha patroa! Que alegria fazer-te feliz! Trazer-te Jesus! Oh! Meu Senhor! Ter-te aqui, ao meu lado! Ter-te! Tens mesmo o rosto de uma estrela que ela viu, és loiro e de olhos do azul do céu e a tua voz é exatamente como um som de harpa… oh! Mas tua Mãe! Levá-la-ás à minha patroa um dia?
– Tua patroa irá a Ela. Serão amigas.
– Sim? Oh!! Sim, ela o pode ser. É esposa e foi mãe, a Joana. Mas tem uma alma pura como uma virgem. Ela pode estar perto de Maria, a bendita.
Jesus se vira, por causa de uma boa risada de João, que foi imitada por todos os outros.
– Sou eu, Mestre, que faço rir. No barco, eu estou mais firme do que um gato… mas aqui em cima! Pareço uma pipa deixada solta na ponte de um navio apanhado pelo vento do sudoeste! –diz Pedro.
Jesus sorri, e o encoraja, prometendo acabar logo com aquele trotear.
– Oh! Não é nada. Se os rapazes riem, não faz mal. Vamos, vamos fazer feliz essa boa mulher.
Jesus se vira de novo, por causa de outra explosão de riso.
Pedro exclama:
– Não. Isto eu não te digo, Mestre. Mas, por que não? Sim, que eu digo. Eu dizia: “O nosso supremo ministro roerá as unhas, quando souber que faltou justamente quando chegou a hora de bancar o pavão, junto à uma dama.” E eles riem. Mas é assim. Tenho a certeza de que, se ele tivesse pensado nisto, não teria mais que tutelar as vinhas paternas.
Jesus não rebate.
102.7A viagem se faz depressa, com estes burrinhos bem alimentados.
No clarão da lua Caná é superada.
– Se me permites, eu te precedo. Vou parar o carro. As sacudidelas a fazem sofrer muito.
– Então, vai.
Jônatas põe seu cavalo a galope.
Ainda viajam no clarão da lua. Depois aparece a forma escura de um carro grande e coberto, parado à beira da estrada. Jesus incita seu burrinho, que começa um pequeno galope, meio enviesado. Ei-lo junto ao carro. Desmonta.
– O Messias! –anuncia Jônatas.
A velha nutriz se joga do carro na estrada, e da estrada na poeira!
– Oh! Salva-a! Está morrendo.
– Eis-me aqui.
E Jesus sobe ao carro, onde está um monte de almofadas, e sobre elas um débil corpo. Em um canto há uma lamparina e copos e ânforas. Há também ali uma jovem serva, que está chorando e enxugando o suor gelado da moribunda. Jônatas acorre com uma das lanternas do carro.
Jesus se inclina sobre a mulher abandonada, verdadeiramente moribunda. Não há diferença entre o candor da veste de linho e a palidez levemente azulada das mãos e do rosto emaciados. Só as cerradas sobrancelhas e os longos cílios muito escuros é que dão uma cor naquele rosto de neve. Não há nem mesmo aquele vermelho infausto dos tísicos nas maçãs do rosto definhadas. Os lábios são apenas uma sombra de um cor-de-rosa violáceo, semi-abertos na respiração difícil.
Jesus se ajoelha ao lado dela, e a observa. A nutriz a toma pela mão, e a chama. Mas a alma, já no limite da vida, não ouve mais nada.
Chegaram os discípulos e os dois jovens de Nazaré, e se ajuntam perto do carro.
Jesus põe uma mão sobre a fronte da moribunda, que abre por um momento os olhos enevoados e vagos, e depois os torna a fechar.
– Ela não ouve mais –geme a nutriz. E chora mais forte.
Jesus faz um gesto:
– Mãe, ela ouvirá. Tem fé.
E depois chama:
– Joana! Joana! Sou Eu! Sou Eu que te chamo. Eu sou a Vida. Olha para Mim, Joana.
A moribunda, com um olhar mais vivo, abre os seus grandes olhos negros, e olha para o rosto que está inclinado sobre ela. Tem um movimento de alegria e um sorriso. Move devagar os lábios em uma palavra que porém não tem som.
– Sim. Sou Eu. Tu vieste e eu vim. Para salvar-te. Podes crer em Mim?
A moribunda anui com a cabeça. Toda a vitalidade está reunida no olhar e toda a palavra, que não pode exprimir de outra maneira.
– Pois bem (Jesus permanecendo de joelhos e com a mão esquerda sobre a fronte dela, se endireita e toma o aspecto de milagre), pois bem, Eu assim quero. Sê curada. Levanta-te.
Tira a mão e fica em pé.
Uma fração de minuto e depois, Joana de Cusa, sem nenhuma outra ajuda, se assenta, dá um grito e se lança aos pés de Jesus, gritando com voz forte e feliz:
– Oh! Amar-te, ó minha Vida! Para sempre! Tua! Para sempre tua! Nutriz! Jônatas! Eu estou curada! Oh! Depressa! Correi, e ide dizer ao Cusa. Que ele venha adorar o Senhor! Oh! Abençoa-me ainda, ainda, ainda! Oh! Meu Salvador.
Ela chora e ri, beijando as vestes e as mãos de Jesus.
– Eu te abençoo, sim. Que mais queres que te faça?
– Nada, Senhor. Exceto que Tu me ames e deixes que eu te ame.
– E um menino, não o quererias?
– Oh! Um menino!! Mas faze Tu, Senhor. Eu te entrego tudo: o meu passado, o meu presente e o meu futuro. Tudo te devo e tudo te dou. Dá Tu, à tua serva, o que sabes que é melhor.
– A vida eterna, então. Sê feliz. Deus te ama. 102.8Eu vou. Eu te abençoo e vos abençoo.
– Não, Senhor. Para na minha casa, que agora, oh! agora é realmente um roseiral florido. Permite-me reentrar nela, Contigo… Oh! como sou feliz!
– Eu vou. Mas tenho os meus discípulos.
– Os meus irmãos, Senhor. Joana terá para eles, como para Ti, alimento, bebida e o com que restaurar as forças. Faz-me feliz!
– Vamos. Mandai de volta os burrinhos, e acompanhai-nos a pé. A distância agora é pouca. Iremos devagar, para que nos possais seguir. Adeus, Ismael e Aser. Saudai ainda à minha Mãe por Mim e aos meus amigos.
Os dois nazarenos, atordoados, vão com os seus burrinhos zurrantes, enquanto o carro empreende a viagem de volta, agora com a sua carga de alegria. Atrás, em grupo, vêm os discípulos comentando o fato. E tudo termina.