407. 407. Nas campinas de Nicodemos.A parábola dos dois filhos.


29 de março de 19461.

407.1 Jesus chega a este lugar em uma fresca manhã. São bonitas estas férteis campinas do bom Nicodemos, quando chegam aqui os primeiros raios do Sol. São bonitas, ainda que muitos dos campos já tenham sido ceifados, e estejam mostrando um aspecto cansado, após a ceifa das hastes dos trigais, que em montões cor de ouro, aí estão ainda espalhados como uns despojos sobre o chão, esperando para serem levadas para as eiras. E com elas morrem as flores-de-lis estreladas ou as cor de safira, as arroxeadas bocas-de-leão, as corolas diminutas das saudades, os efêmeros cálices das campainhas, as risonhas auréolas das camomilas e das margaridas gigantes, as violáceas papoulas e as centenas de outras flores que, em forma de estrelas, ou de panículas, em cachos de formas raiadas, que antes se riam. Lá de onde estavam neste lugar que agora se transformou em uns restolhos amarelados. Mas, para consolar a tristeza da terra desnudada dos trigais, estão as copas das árvores frutíferas, sempre mais alegres por causa dos frutos, e já se pincelam com suas esfumaturas que, a esta hora, estão brilhando como se estivessem cobertos de uma poeira de diamantes, por causa das orvalhadas, ainda não evaporadas pelo sol.

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Os camponeses já estão trabalhando, contentes, por já estarem perto do fim do penoso trabalho da colheita. E, enquanto vão ceifando, eles cantam, e se riem de alegria, estimulam-se para ver quem é mais rápido e hábil em manejar a foice ou em amarrar os feixes… São grupos e mais grupos de camponeses bem nutridos, que se sentem muito satisfeitos, também por estarem trabalhando para um bom patrão. E, às beiras dos campos, ou pelo meio dos amarradores de feixes, estão uns meninos, umas viúvas, uns velhos, esperando poder respigar, mas esperando sem ansiedade, porque eles sabem que haverá para todos, como sempre, “por ordem do Nicodemos”, como explica uma viúva a Jesus, que lhe fez a pergunta.

– Ele vigia –diz ela–, para que de propósito sejam deixadas hastes e mais hastes fora dos feixes, para nós. E, não satisfeito ainda com tão grande caridade, depois de ter calculado o justo lucro, em proporção ao que foi semeado, ainda distribui o que sobra para nós. Oh! Ele não fica esperando o ano sabático2 para fazer isso! Mas sempre o faz, procurando beneficiar o pobre com os seus cereais, e assim também faz com as azeitonas e os vinhedos. Por isso Deus o abençoa com colheitas milagrosas. As bênçãos dos pobres são como umas orvalhadas sobre as sementes e as flores, e fazem que cada semente dê mais espigas, e que nenhuma flor caia, sem chegar a ser fruto. 407.2Este ano, então, ele nos faz saber que tudo é nosso, por ser este o ano da graça. De que graça ele fala, eu não sei. A não ser que seja porque, como se diz em segredo, entre nós pobrezinhos e entre os seus servos felizes, que ele é discípulo daquele que se diz o Cristo e que prega o amor aos pobres, para mostrar o amor a Deus… Talvez Tu o conheças, se és amigo de Nicodemos… Porque os amigos quase sempre têm os mesmos afetos… José de Arimateia, por exemplo, é um grande amigo de Nicodemos, e dele também se fala que é amigo do Rabi. Oh! Que foi que eu disse? Deus me perdoe. Prejudiquei aos dois bons da planície!…

A mulher fica consternada. Jesus sorri, e pergunta:

– Por que, mulher?

– Porque… Oh! Dize-me, és Tu verdadeiro amigo de Nicodemos e de José, ou és um dos do Sinédrio, um dos falsos amigos, que prejudicariam aos dois bons se tivessem a certeza de que eles são amigos do Galileu?

– Fica tranquila. Eu sou verdadeiro amigo dos dois bons. Mas tu sabes de muitas coisas, ó mulher! Como é que as ficas sabendo?

– Oh! Todos nós as sabemos. No alto, com ódio. Em baixo, com amor. Porque, ainda que nós não o conheçamos, nós amamos o Cristo, nós, uns abandonados, que só Ele ama e ensina a amar. E trememos por causa dele, pois são muito pérfidos os judeus, os fariseus, escribas e sacerdotes!… Mas eu estou te escandalizando… Perdoa-me. A língua da mulher não sabe se calar… Mas é porque toda dor nos vem é deles, dos poderosos, que nos oprimem sem piedade, e nos obrigam a jejuns não prescritos pela Lei, mas impostos pela necessidade de achar dinheiro para pagar todos os dízimos que eles, os ricos, lançam sobre os pobres… E é porque toda esperança nós a pomos no Reino desse Rabi que, se é bom agora que é perseguido, que não será quando for o Rei.

407.3 – O seu Reino não é deste mundo, ó mulher. Ele não terá nem palácios, nem forças armadas. Não imporá leis humanas, não fará doações em dinheiro. Mas ensinará os melhores a fazerem isso. E os pobres encontrarão não dois ou dez ou cem amigos entre os ricos, mas todos aqueles que crerem no Mestre unirão os seus bens para ajudar aos irmãos que não têm bens. Porque, de agora em diante, não será mais chamado “próximo” o nosso semelhante, mas “irmão,” em nome do Senhor.

– Oh!

A mulher está pasmada, ao sonhar com essa era de amor. Ela acaricia os seus meninos, sorri, depois levanta a cabeça, e diz:

– Então, me garantes que eu não prejudiquei a Nicodemos… ao ter falado contigo? Aquilo me veio de um modo tão espontâneo… Os teus olhos são tão doces!… O teu aspecto é tão sereno!… Não sei, não… Eu me sinto segura, como se estivesse ao lado de um anjo de Deus… Por isso é que falei…

– Não o prejudicaste. Fica certa disso. Pelo contrário, fizeste do meu amigo um grande elogio, e por isso Eu o elogiarei, e ele me será mais querido do que nunca… És tu destes lugares?

– Oh! não, Senhor. Eu nasci entre Lida e Betegon. Mas, quando se precisa correr atrás de socorro, Senhor, vai-se correndo, ainda que a estrada seja longa! Mais longos são os meses do inverno e de fome…

– E mais longa do que a vida é a eternidade. Seria preciso que pela alma se tivesse mais preocupação do que a que se tem pela carne, e correr para onde estão as palavras de vida…

– E eu faço isso com os discípulos do Rabi Jesus, aquele bom, sabes? O único que é bom entre todos esses rabis demais que nós temos.

– Fazes bem, mulher –diz Jesus sorrindo, mas fazendo sinal a André e a Tiago do Zebedeu, que estão com Ele, enquanto os outros já foram para a casa de Nicodemos, para evitar que se apronte algum grande espetáculo e que eles expliquem à mulher que o rabi Jesus é Ele mesmo, que está falando.

– É certo que eu faço bem. Eu quero ficar sem o pecado de não tê-lo amado nem acreditado nele… Dizem que é o Cristo… Eu não o conheço. Mas quero crer. Porque eu acho que castigos haverão de receber aqueles que não querem aceitá-lo como tal.

– E, se os discípulos dele estivessem enganados? –diz Jesus.

– Não pode ser, Senhor. Eles são muito bons, humildes e pobres, para se pensar que eles sejam seguidores de um que não seja santo. E além disso… Eu falei com pessoas curadas por Ele. Não cometas o pecado de não crer, Senhor, Ele te condenaria a alma… Enfim… mesmo que todos estivéssemos enganados, e Ele não fosse o rei prometido, certamente, o santo e amigo de Deus, depois, Ele diz aquelas palavras, e cura as almas e os corpos… pois, na verdade, estimar aos bons faz sempre bem.

– Disseste bem. Continua em tua fé… 407.4Eis Nicodemos…

– Sim. Com uns discípulos do Rabi. Eles estão pelas campinas, de fato, evangelizando os que fazem a colheita. Ainda ontem, comemos o pão deles.

Nicodemos, com a veste arregaçada, vem vindo para a frente, sem ter visto o Mestre, e diz aos camponeses que não tirem nem uma espiga daquelas que foram ceifadas.

– Para nós, já temos com elas o pão… Demos o dom de Deus aos que estão privados dele. E demos-lho sem temor. Podíamos ter nossas plantações destruídas pelo gelo temporão. Mas não perdemos nem uma só semente. Entreguemos a Deus o seu pão, dando-o aos seus filhos infelizes. E eu vos garanto que ainda mais frutuosa, a mil por cento, será a colheita do ano vindouro, porque Ele assim o disse3:

“uma medida transbordante será dada a quem houver dado.”

Os camponeses, de acordo e alegres, escutam o patrão. E Nicodemos, de campo em campo, de fila em fila, repete a sua boa ordem.

Jesus, semiescondido por uma cortina de canas perto de um fosso divisório, aprova e sorri. Sempre mais sorri, tanto mais Nicodemos se aproxima, aproximando-se também o momento do encontro e da surpresa.

Ei-lo saltando o rego, a fim de ir para outros campos… E ei- lo a ficar petrificado defronte de Jesus, que lhe estende os braços. Afinal, ele recupera a palavra:

– Mestre, mas como, Tu, bendito, vens a mim?

– Para conhecer-te, se ainda fosse preciso, depois das palavras das tuas verazes testemunhas: aqueles a quem fazes o bem…

Nicodemos está de joelhos, inclinado quase até o chão, e de joelhos estão os discípulos chefiados por Estevão e José dos lados de Emaús, que, fica entre os montes. Os camponeses já o perceberam. E também os pobres e todos os outros estão prostrados, cheios de espanto e de veneração.

– Levantai-vos. Até pouco tempo atrás, Eu era o Viandante que inspira confiança… E vós ainda me vedes como Eu era. Mas amai-me sem medo. 407.5Nicodemos, eu mandei os dez que faltam à tua casa…

– Eu pernoitei fora de casa para vigiar, a fim de que se cumprisse uma ordem…

– Sim. Uma ordem, pela qual Deus te abençoa. Qual foi a voz que te disse que este é o ano da graça, e não o ano que vem, por exemplo?

– Não sei… E já sei… Não sou profeta. Mas tolo também eu não sou. E, à minha inteligência veio unir-se uma luz do Céu. Mestre meu… eu queria que os pobres gozassem dos dons de Deus, enquanto Deus está entre os pobres… E eu não ousava esperar que te teria aqui, para dar um sabor suave e um poder santificador a estas plantas, às minhas oliveiras, às minhas vinhas, e pomares, que serão para os pobres filhos de Deus, meus irmãos, mas, agora que estás aqui, levanta tua mão bendita, e abençoa, para que, nutrindo a carne, desça sobre aqueles que se alimentarão com todas aquelas coisas, a santidade que emana de Ti.

– Sim, Nicodemos. É um justo desejo, que o Céu aprova.

E Jesus abre os braços para abençoar.

– Oh! Espera aí. Espera que eu chame os camponeses –e, com um apito, ele apita três vezes, num tom agudo que se espalha pelo ar tranquilo, e põe em movimento os ceifadores, que saem correndo, bem como os respigadores que, curiosos, acorrem de todos os lados. É uma pequena multidão…

Jesus abre os braços e diz:

– Pela virtude do Senhor, pelo desejo do seu servo, a graça da salvação do espírito e da carne desça sobre cada um dos grãozinhos, sobre cada cacho, cada azeitona. Cada fruto, para fazer prosperar e santificarem-se aquele que deles se alimentam com um espírito reto, livre das concupiscências, e dos ódios, e desejosos de servir ao Senhor na obediência à sua divina e perfeita Vontade.

– Assim seja! –respondem Nicodemos, André, Tiago, Estevão e os outros discípulos…

– Assim seja! –repete a pequena multidão, que se pôs de pé, pois estava ajoelhada para receber a bênção.

407.6– Suspende o trabalho, meu amigo. Quero falar a esses.

– Graça sobre graça. Obrigado por eles, ó Mestre!

Vão para a sombra de um vicejante pomar, e ficam esperando ser alcançados pelos dez que foram mandados à casa, e que estão chegando, ofegantes, e decepcionados, por não terem encontrado Nicodemos.

Depois Jesus fala:

– A paz esteja convosco. A vós todos que estais ao redor de Mim, Eu quero apresentar uma parábola. E cada um tire dela o ensinamento e a lição que mais lhe convier. Ouvi:

Um homem tinha dois filhos. Aproximando-se do primeiro, lhe disse: “Meu filho, vai hoje trabalhar na vinha do teu pai.” Fazer aquilo era, como pensava o pai, sinal de uma honra! Ele achava que o filho já era capaz de trabalhar no lugar onde até então o pai é que havia trabalhado. Era sinal de que ele via no filho boa vontade, constância, capacidade, experiência e amor para com seu pai. Mas o filho, um pouco influenciado pelas coisas do mundo, e com vergonha de aparecer vestido como um dos servos — pois Satanás lança mão de tais miragens, para afastar o homem do bem — com medo de zombarias e até de represália, feitas pelos inimigos de seu pai, que para ele não tinham a coragem de levantar a mão, mas que menos temores haveriam de ter do filho, respondeu: “Para lá eu não vou. Não tenho vontade.” O pai dirigiu-se então ao outro filho, dizendo-lhe o que havia dito ao primeiro. E o segundo filho respondeu-lhe logo: “Sim, meu pai. Eu já vou.”

Mas, que foi que aconteceu? O primeiro filho, tendo um ânimo reto, depois de um primeiro momento de fraqueza, de revolta, arrependido de ter desagradado ao pai, sem dizer nada, foi para a vinha e lá trabalhou o dia inteiro, até o fim da tarde, voltando depois satisfeito para sua casa, com a paz no coração pelo dever cumprido. O segundo, ao contrário, mentiroso e fraco, saiu de casa, na verdade, mas foi para ir perder-se na vagabundagem, indo pela cidade em inúteis visitas a amigos influentes, dos quais ele esperava conseguir algum proveito. Ele dizia em seu coração: “Meu pai está velho e não sai de casa. Eu direi a ele que fui à vinha, e ele acreditará.” Mas, quando chegou a tarde também para ele, tendo voltado para casa, o seu aspecto, de alguém cansado por não ter feito nada, suas vestes não amarrotadas e a saudação feita de um modo desconfiado ao pai, que estava olhando para ele, e o comparava com o primeiro, que de fato estava cansado, sujo, com os cabelos despenteados, mas jovial e sincero, com um olhar humilde, bom, e sem querer gabar-se pelo dever cumprido, mas que, no entanto, queria dizer ao pai: “Eu te amo, e com verdade. E, tanto assim é, que, para te ver contente, eu venci a tentação,” e estas palavras falaram claramente à inteligência do pai. E, tendo ele abraçado ao seu filho, disse: “Bendito sejas tu, porque compreendeste o que é o amor.”

E, então, que é que vos parece disso? Qual dos dois é que lhe tinha amor? Certamente vós direis: “O que fez a vontade de seu pai.” E, qual foi que a fez: o primeiro, ou o segundo?

– O primeiro –respondeu, unânime, a multidão.

– O primeiro, sim. 407.7Também em Israel, e vós vos lamentais disso, não são os que dizem “Senhor, Senhor!” batendo no peito, sem ter no coração o verdadeiro arrependimento de vossos pecados, e bem verdade que os vossos corações se irão tornando cada vez mais duros, não os que exibem ritos devotos para serem chamados santos, os que, em particular, são sem caridade e justiça, e se revoltam, na verdade contra a vontade de Deus que ordena, e a atacam como se fosse a vontade de Satanás, e isso não lhes será perdoado. Não são esses que são os santos aos olhos de Deus. Mas o são aqueles que, reconhecendo que Deus faz tudo bem o que faz, acolhem o Enviado de Deus, e escutam sua Palavra, para saberem agir melhor, fazer melhor o que é que o Pai quer, são esses os que são santos e amados pelo Altíssimo.

Em verdade, Eu vos digo: os ignorantes, os pobres, os publicanos, as meretrizes passarão à frente de muitos que são chamados “mestres,” “poderosos,” “santos,” e entrarão no reino de Deus.

E isso será justiça. Porque veio João a Israel, para conduzi-los pelo caminho da Justiça, e a maior parte de Israel não creu nele, esse Israel que, falando de si mesmo, se diz “douto” e “santo,” enquanto os publicanos e as meretrizes acreditaram nele. Eu vim, e os doutos e santos não creem em mim, mas em mim creem os pobres, os ignorantes, os pecadores. E Eu fiz milagres, mas nem neles eles creram, nem se arrependeram por não crerem em Mim. Pelo contrário, é o ódio deles que vem sobre Mim, e sobre os que me amam.

Pois bem. Eu digo: “Felizes aqueles que sabem crer em Mim e fazer esta vontade do Senhor, na qual há salvação eterna.” Aumentai a vossa fé, sede constantes e possuireis o Céu, porque tereis sabido amar a Verdade.

Ide. Deus esteja sempre convosco.

Jesus os abençoa, despede-se deles, e depois, ao lado do Nicodemos, vai para a casa do discípulo, para lá fazer uma parada, enquanto o sol está muito quente.

1 29 de março de 1946. É o início de um novo caderno autografado. Na parte frontal da página e, portanto, no interior da capa, MV fez o desenho que reproduzimos na página ao lado. Nele lemos, indo de cima para baixo e da esquerda para a direita: planície, montanhas altas, Emaús da planície, planície, pequena elevação, montanhas altas, Beter, colina pouco alta.
2 o ano sabático era o último ano de uma série de sete, os quais se observavam as prescrições estabelecidas em Êxodo 21,2-6; 23,10-11; Levítico 25,3-7.20-22; Deuteronômio 15. A instituição do ano sabático se liga aquela do sábado, isto é, do repouso do sétimo dia, como prescrito em Êxodo 20,8-11; 23,12; 31,12-17; Levítico 23,3; 25,1-2; Deuteronômio 5,15. Na obra valtortiana se fala frequentemente da lei do sábado a qual é dedicado um discurso em 125.2/4. Essa foi confirmada pelo profeta Neemias (como se lê em 50.8) e finalmente estabelecia a distância máxima por percorrer (como é lembrado em 84.1, 472.4, 585.1).
3 o disse, em 171.4.


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