529. 529. Admoestações aos apóstolos, enquantofazem trabalhos manuais em casa de João de Nobe.


12 de novembro de 1946.

529.1Estão frios, mas serenos, estes dias do inverno. No cume do pequeno monte, onde Nobe está construída, o vento quase nunca cessa, mas é temperado pelo sol, que desde a aurora até o ocaso acaricia com os seus raios as casas e as hortas verdejantes com suas hortaliças de inverno. Pequenas hortas sob o anteparo das casas, pequenos canteiros verdes de hortaliças e outros da cor da terra quando é bem adubada, canteiros vazios, já prontos para a semeadura de legumes. Nossos olhos, se olharmos ao redor, por onde não se vê o acinzentado das oliveiras sem as sinuosas fileiras das videiras sem folhas, verão os pequenos campos arados, certamente já semeados com cereais, prontos para germinar com os primeiros calores da primavera precoce da Palestina, ainda morna com o calor do sol. Eu quase diria que nos dias serenos, como é este que eu estou vendo, por aí já há uma mornidão de primavera, uma temperatura favorável à germinação, a tal ponto que nas amendoeiras, que estão próximas das casas, os brotos já vêm aparecendo sobre os ramos que, há apenas poucos dias antes, estavam completamente lisos. São brotos que mal se mostraram sobre os galhos escuros e, escuros eles também, já dão um sinal de que a vida vem subindo e de que já vem perto o despertar do tronco robusto.

Na pequena horta de João, que está atrás da casa, há uma estreita faixa de terreno cultivado, enquanto que o que está ao redor dele está coberto pela nogueira. E na pequena faixa levanta-se uma grande amendoeira, talvez mais velha do que o seu dono, tão perto da casa, que teve, numa boa extensão de seu tronco, de lançar os seus ramos somente para três lados, porque do quarto lado o muro da cozinha a impedia de fazê-lo. Mas, mais acima, a planta se despenteia em um cruzamento de galhos que, quando estiverem floridos, deverão formar uma pequena nuvem, flutuando sobre o pobre terraço que é uma preciosa tenda, ainda mais bonita do que um baldaquino do rei.

Somente para não ficarem à toa, Jesus e os apóstolos estão trabalhando sob a luz do sol, que os alegra e aquece. Com vestes curtas, os que entendem de carpintaria e de fechaduras estão ajustando ou vendo de novo os utensílios e mísulas. Outros estão capinando o terreno, robustecendo os pés das videiras transplantadas, reforçando uma sebe de caniços secos e de pilriteiros verdes que fecha dos dois lados a pequena horta; ou, então, estão podando a amendoeira e a nogueira, amarrando os sarmentos da videira que o vento do inverno soltou. Eu notei que onde Jesus está ninguém fica à toa. Ele, por primeiro, ensina a beleza do trabalho manual, quando os trabalhos de evangelização estão pesados. Também hoje Jesus, junto com seus primos, está ajustando uma porta, que embaixo estava podre e com o ferrolho meio despregado. Enquanto isso, Filipe e Bartolomeu trabalham com tesouras e uma podadeira sobre as velhas árvores frutíferas, enquanto os pescadores estão trabalhando com cordas e velhas cobertas, uns dando pontos para ajustá-las e outros colocando argolas e roldanas, talvez com a intenção de fazer sobre o terraço uma coberta útil no tempo do verão.

529.2– Tu estarás muito bem aqui, Elisa –promete-lhe Pedro, pendurando as pernas no murinho do terraço e falando com a velha discípula, que está fiando, sentada sobre o muro ensolarado.

– Sim. Quando a videira estiver estendida e a amendoeira posta em seu lugar, ficará bom mesmo este lugar no verão –diz Filipe, por entre os dentes, porque ele está com a boca cheia de juncos, com os quais ele vai amarrando os sarmentos nos espeques.

Jesus levanta a cabeça para olhar, enquanto Elisa levanta a sua para olhar o Mestre, e diz:

– Quem sabe se estaremos aqui no verão…

– Por que não deveríamos estar, mulher? –pergunta Andre.

– Ora… eu não sei… Eu não faço mais cálculos sobre o futuro, desde quando… Desde quando vi que todos os meus prognósticos acabavam em um sepulcro.

– É! Mas teria que morrer o Mestre para que nós não estivéssemos mais aqui! Afinal o Mestre escolheu este lugar para seu domicílio. Não é verdade, Mestre? –diz Tomé.

– É verdade. Mas é também verdade o que diz Elisa… –responde Jesus, enquanto está trabalhando com a plaina na parte detrás da porta, que Ele está ajustando.

– Mas, Tu és jovem. E sobretudo tens boa saúde.

– Não é só de doença que se morre –diz ainda Jesus.

– Quem é que está falando de morte? Tu, Mestre? Para Ti?… 529.3Na verdade, há algum tempo que parece ter-se acalmado o ódio. Olha, ninguém mais nos perturba. Eles sabem que estamos aqui. Ontem mesmo eles se encontraram conosco quando voltávamos da cidade com as compras e não nos perturbaram –diz Bartolomeu.

– Sim. Também a nós, enquanto íamos pelos povoados vizinhos para avisar que Tu estás aqui. Nunca houve nenhuma perturbação. No entanto, encontramo-nos com Elquias e Simão, depois com Sadoque e Samuel, e ainda com Naum e até com Doras. E eles até nos saudaram. Não é verdade, Tiago? –diz João, voltando-se para seu irmão.

– Sim. Devemos reconhecer que Judas de Keriot de fato trabalhou, fazendo o bem, enquanto nós, nos nossos corações, o criticávamos. Tendo voltado para cá, não houve mais nenhuma perturbação! Os fatos confirmaram as palavras dele. Parece termos voltado aos belos tempos de Águas Atraentes. Aos primeiros daqueles tempos… Oh! Se fosse verdade! –diz Tiago de Zebedeu.

– Se fosse mesmo verdade! –suspira Pedro.

– Quando o raio não estronda, nem sempre quer dizer que o tempo está sereno –observa Elisa, acelerando o seu fuso.

– Que quererias dizer com isso? –pergunta-lhe Pedro.

– Eu digo que às vezes a grande paz, onde é lugar de borrascas, é uma preparação para tempestade mais perigosa do que nunca. Tu o deverias saber, pois és pescador.

– É verdade. Eu sei disso, mulher! O lago é uma enorme tina cheia de um óleo azul, às vezes. Mas, quase sempre, quando a vela está pendurada e a água está mansa assim, a borrasca já se formou, e das mais feias. Vento de calmaria, para os navegantes, é vento de sepulcro.

– Hum! De acordo. Por isso, se eu fosse vós, desconfiaria de tanta paz. É paz demais!

– Mas se quando é guerra se sofre porque é guerra, e quando é paz se sofre porque pode vir outra guerra mais cruel ainda, então, quando se tem alegria? –pergunta Tomé.

– Na outra vida. Aqui o que temos sempre é a dor.

– Oh! Como és agourenta e manhosa, ó mulher! Então, meu tempo de alegria ainda está muito longe. Eu sou um dos mais jovens. Alegra-te, Bartolomeu, pois tu estás muito perto de gozá-lo. Tu e o Zelotes –graceja Tiago de Zebedeu.

– Agourenta e manhosa mulher! Sim. As mulheres anciãs. Elas às vezes até adivinham. Também minha mãe é assim. Quando diz a um de nós: “Cuidado! Estás a caminho de fazer alguma tolice nisto ou naquilo”, adivinha quase sempre –diz Tomé que, inclinado, está esgaravatando o chão.

– As mulheres são malignas ou ladinas, mais do que raposas. Nós não valemos nada em comparação com elas para compreender certas coisas, que se desejaria que não fossem compreendidas –sentencia Pedro.

– Tu, cala a boca. Encontraste uma mulher que acreditaria até mesmo que tu lhe dissesses que o Líbano foi feito de manteiga. Porque o que tu lhe disseres, para ela é lei. Ela escuta, crê e se cala –diz André a seu irmão.

– Sim. Mas a mãe dela vale por ela e por mais outras cem mulheres. Que víbora!

Todos riem, inclusive Elisa e o velho que está ajudando os jovens a capinar.

529.4Tornam a entrar Zelotes, Mateus e Judas de Keriot.

– Está tudo feito, Mestre. Estamos cansados! Demos um giro longo. Mas amanhã vou descansar. Amanhã tocará a vós –diz Iscariotes aos que estão capinando o terreno.

E vai até eles, tendo apanhado uma enxada para trabalhar.

– Mas se estás cansado, por que trabalhar? –pergunta-lhe Tomé.

– Porque eu quero plantar no chão umas mudinhas. Este lugar está pelado como a cabeça de um velho, é uma lástima! –diz ele, enquanto vai enfiando a enxada no chão, calcando-a com o pé.

– Não era assim nos belos tempos, mas depois… Muitas coisas foram morrendo, e para mim não valia a pena trabalhar para refazê-las. Eu estou velho e, mais do que velho, eu estava sozinho –responde o velho.

– Mas que buracos estás fazendo? Esses são para árvores e não para plantinhas, como disseste –observa Filipe, que desce, depois de ter amarrado as videiras.

– Quando uma árvore é nova, é sempre uma plantinha. As minhas estão nesse ponto. E o tempo está bom. Assim me garantiu aquele que as deu. Sabes quem foi, Mestre? Aquele parente do Elquias, que é agricultor. E ele cultiva bem. Que pomar ele tem! E que oliveiras! Ele estava renovando uma parte do olival. Então, eu lhe disse: “Dá-me dessas plantas.” “Para quem?”, perguntou ele. “Para um velhinho de Nobe, que nos hospeda. Servirão para que ele me perdoe todos os escândalos que lhe dei.”

– Não, meu filho. Não será com as plantas, mas com uma boa conduta que isso pode acontecer. E com Deus. Eu… eu olho, rezo e perdoo… Mas pelas plantas eu te agradeço… Ainda que… Achas tu que eu poderei comer dos frutos dela?

– Por que não? É preciso esperar sempre. E também querer triunfar. E assim se triunfa.

– Contra a velhice ninguém triunfa. E eu não quero isso.

– Também contra muitas outras coisas não há triunfo. Se o só querer já bastasse para ter! Eu teria os meus filhos –suspira Elisa.

529.5– Mestre, as palavras da Elisa me fazem lembrar de uma pergunta que nos fizeram hoje na estrada. Eles perguntavam, por causa de um fato acontecido no povoado, se é verdade que fazer um milagre é sempre prova de santidade. Eu dizia que sim. Mas eles, que não, porque naquele povoado, perto dos limites com a Samaria, quem havia feito coisas extraordinárias com toda a certeza não era nenhum justo. Eu os fiz calar a boca, dizendo-lhes que o homem julga sempre mal e que aquele que eles diziam que não era justo, talvez o fosse mais do que eles. Que achas Tu disso Mestre? –pergunta Mateus.

– Eu digo que todos vós tínheis razão. Cada um a seu modo. Tu, por dizeres que o milagre é sempre prova de santidade. Pois geralmente é assim. E também quando disseste que não se deve julgar, para não errar. Mas tinham razão também eles para suspeitar que houvesse outras fontes para o que havia de extraordinário no homem.

– Que outras fontes? –pergunta Iscariotes.

– As forças das Trevas. Existem criaturas, que já são adoradoras de Satanás por praticarem o culto da soberba, que além de se imporem aos outros, vendem-se ao Príncipe das Trevas para o terem como amigo –responde-lhe Jesus.

– Mas pode haver mesmo isso? Não é uma lenda dos lugares pagãos que o homem pode fazer contratos com o demônio ou com os espíritos infernais? –pergunta, assustado, João.

– Pode haver. Não como é narrado nas lendas pagãs. Nem com moedas e contratos materiais. Mas com a adesão ao Mal, com a escolha, a doação de si mesmo ao Mal contanto que tenham uma hora de triunfo, seja qual for. Em verdade, Eu vos digo que aqueles que se vendem ao Maldito, contanto que consigam o que querem, são mais numerosos do que se pensa.

– E eles conseguem? Recebem mesmo o que pedem? –interroga André.

– Nem sempre, e não tudo. Mas alguma coisa recebem.

– E como pode ser isso? Será tão poderoso o demônio a ponto de poder simular que é Deus?

– Até esse ponto… mas não poderia nada, se o homem fosse santo. Contudo, muitas vezes o homem, por si, já é um demônio. Nós combatemos as possessões evidentes, rumorosas, vistosas. Dessas todos se lembram… Elas são… incômodas para os familiares e os cidadãos, e são sobretudo de formas materiais. O homem fica sempre atingido por aquilo que pesa, que choca os seus sentidos. O que é imaterial e perceptível somente com o imaterial — a razão e o espírito — ele não percebe e, se o percebe, não procura precaver-se desse mal, especialmente se não o está molestando. Essas possessões ocultas escapam, pois, ao nosso poder de exorcistas. E são as mais nocivas, porque elas trabalham na parte mais seleta, do lado da parte seleta, e para as outras partes seletas, de razão para razão, de espírito para espírito. São como uns miasmas corruptores, impalpáveis, imperceptíveis, até que a febre da doença dá sinais a quem por ela foi atacado.

529.6– E Satanás ajuda? Ajuda mesmo? Mesmo depois que Tu reinares? –perguntam todos.

– Satanás ajuda para conseguir escravizar. Deus lhe permite que o faça, porque é dessa luta entre o Alto e o Baixo, entre o Bem e o Mal, que se conhece o valor da criatura. O valor e a vontade. E o deixará sempre fazer. Mesmo depois que Eu tiver subido. Mas, então, Satanás terá contra si um inimigo bem forte, e o homem terá uma amiga bem poderosa.

– Quem é? Quem é?

– A Graça.

– Oh! Ainda bem! E então para os do nosso tempo, que estão sem a graça, será mais fácil serem escravizados, mas também será menos grave a queda –diz Iscariotes, enquanto continua capinando.

– Não, Judas. O julgamento será igual.

– Será uma coisa simples, então, porque, se formos menos ajudados, por consequência seremos menos condenados.

– Não estás completamente errado –diz Tomé

– Pelo contrário, ele está errado, Tomé. Porque nós, de Israel, temos já tanta fé, esperança e caridade, e tantas luzes da Sabedoria, que não podemos desculpar-nos por ignorância. Vós, pois, vós que tendes a Graça como Mestra vossa há quase três anos, sereis já julgados como os do tempo novo –diz Jesus, que levantou a cabeça e fica pensativo, olhando para o vazio.

Depois Judas de Keriot sacode a cabeça, como conclusão de um raciocínio interno e, tornando a enfiar a enxada no chão, pergunta:

– E quem se entrega assim ao demônio, o que se torna?

– Torna-se um demônio.

– Um demônio! De tal modo que, se eu, por exemplo, ainda que afirme que o teu contato dá um poder sobrenatural… se eu fizesse coisas que Tu censuras, seria eu um demônio?

– É como acabas de dizer.

– Eu espero muito que tu não as faças, porém… –diz André, meio espantado.

– Eu? Ah! Ah! 529.7Eu planto as plantinhas para o nosso velho –e sai correndo para o outro lado da horta, com cinco das mudinhas, ainda com o torrão ao redor das raízes, que as torna mais pesadas.

– Mas tu vieste de Beteron com esta carga nas costas? –pergunta-lhe Pedro.

– De além de Gabaon, deves dizer! Elas são de lá onde fica uma parte dos pomares de Daniel. Que terra magnífica. Olhai!… –e esboroa entre os dedos a terra que envolve as raízes.

Depois desfaz o nó que conserva amarrados os cinco pequenos fustes, que já estão da grossura de um braço. Somente dois deles têm um pouco de folhas. E são folhas de oliveira.

– Aqui estão. Esta para Jesus e esta para Maria. Porque eles são a paz do mundo. Eu as planto já na cova, em primeiro lugar, porque eu sou um homem de paz. Aqui… e aqui.

E as coloca nos dois extremos da estreita faixa de terra.

– E aqui… está uma macieira, nova e boa, como aquela do Éden para fazer-te lembrar, ó João, que tu também vens de Adão e que não te deves espantar, se… eu posso ser pecador. Toma cuidado tu, com a Serpente… E aqui… Não, aqui não está bem. Lá, bem na frente, junto ao muro, esta figueira nova. Como se faz, se não houver uma figueira na horta, quando elas aqui nascem como tiririca? E no buraco do centro poremos esta amendoeira nova. Ela aprenderá daquela centenária a virtude de produzir. Aí está tudo. A tua pequena horta será bonita no futuro… e olhando para ela te lembrarás de mim.

– Eu me lembrarei de ti igualmente por teres estado aqui com o Mestre. 529.8Tudo me falará deste tempo. E olhando para as coisas, eu direi: “Como um filho, ele quis pôr em ordem a casa!” Mas… se eu pudesse ter uma vontade diferente daquela que talvez já esteja escrita no Céu, eu gostaria de não ter que recordar-me deste tempo tão belo para mim, mais belo do que quando estas árvores, que agora já estão velhas, eram novas; e jovem éramos eu e minha esposa, e por aqui brincava a filha pequenina… E se tinha prazer de cuidar da macieira e da romãzeira, da figueira e da videira, porque desejosas delas estavam as mãozinhas de minha filha, e era tão bonito ver a esposa sentada à sombra das plantas verdes, tecendo ou fiando… Depois, tendo partido a filha… e tão esquecida!… Enferma, depois, morreu a esposa… Por que e por quem ficar cuidando de uma coisa que noutros tempos foi bela? Hoje tudo morreu, menos os dois velhotes, que se lembram da minha infância!… Eu gostaria de morrer para não ter que ficar recordando, e enquanto aí está uma mulher justa, como era Lia. Eu te agradeço pelas plantas, pelo trabalho, por tudo. Eu agradeço a todos. Mas peço ao meu Senhor que arranque a minha velha planta dos torrões antes que chegue ao fim esta hora de paz para o velho João…

Jesus vai para perto dele e lhe põe a mão sobre o ombro, ao mesmo tempo com doçura e austeridade:

– Muitas coisas tu soubeste fazer em tua longa vida. Mas uma ainda te falta fazer: aceitar de Deus a hora da morte, sem ficar pedindo que ela seja antecipada ou deixada para depois, nem um minuto. Tu te resignaste a tantas coisas. Por isso, Deus te ama. Procura saber resignar-te à mais difícil delas: viver quando só se desejaria morrer. E agora vamos entrar. O sol já vai descendo atrás dos montes e o frio vem aumentando depressa. O sábado está começando. Depois dele, nós terminaremos os trabalhos…

E apanhando o serrote, a plaina e o martelo, torna a entrar na casa, enquanto os outros acabam de ajuntar os ramos podados, de regar as plantas colocadas nas covas e pôr em seu lugar a porta que foi consertada.