256. 256. Parábola sobre a virtude da esperançaque sustenta a fé e a caridade.
18 de agosto de 1945.
256.1Avistados por alguns vinhateiros, que vão passando pelo pomar e levando cestos de uva loura, como se fosse feita de âmbar, os apóstolos são interrogados por eles.
– Sois peregrinos ou forasteiros?
– Somos galileus e peregrinos para o Carmelo –responde por todos Tiago de Zebedeu que, junto com os companheiros pescadores está se espreguiçando e espichando as pernas para acabar com algum resto de sonolência.
Iscariotes e Mateus estão despertando sobre a grama em que estão deitados e os mais velhos, por sua vez cansados, ainda dormem. Jesus está conversando com João de Endor e Hermasteu, enquanto Maria e a Maria de Cléofas, caladas, estão próximas dali, mas quietas.
Os vinhateiros dizem:
– Estais vindo de longe?
– Cesareia foi nossa última etapa. Antes estávamos em Sicaminon e mais para lá ainda. Agora viemos de Cafarnaum.
– Oh! É uma longa estrada nesta estação! Mas, por que não fostes à nossa casa? É aquela lá; estais vendo? Nós vos teríamos dado água fresca para revigorar os vossos membros e comida, de camponeses, mas boa. Ide agora.
– Estamos para partir. Deus vos pague do mesmo modo.
– O Carmelo não vai fugir do lugar num carro de fogo, como aconteceu com o seu profeta –diz um dos camponeses, meio sério.
– Não vem mais nenhum carro do Céu arrebatar os profetas. Não há mais profetas em Israel. Dizem que João já morreu –diz um outro camponês.
– Morreu? Quanto tempo faz?
– Assim disseram alguns que vieram do lado de lá do Jordão. Vós o veneráveis?
– Nós éramos discípulos dele.
– E por que foi que o deixastes?
– Para acompanhar o Cordeiro de Deus, o Messias, que ele anunciou. Ainda existe este em Israel, ó homens. E, muito mais do que um carro de fogo é o que seria necessário para ter-se um transporte digno dele para o Céu. 256.2Não credes vós no Messias?
– Se cremos nele? Nós decidimos que, depois da colheita, iríamos procurá-lo. Dizem que Ele zela pela obediência à Lei e que vai ao Templo nas solenidades prescritas. Nós iremos logo pela festa dos tabernáculos, e estaremos no Templo todos os dias para vê-lo. E, se não o encontrarmos, iremos à procura dele, até que o tenhamos encontrado. Vós, que o conheceis, dizei-nos: é verdade que Ele está quase sempre em Cafarnaum? E que é alto, jovem, claro, de cabelos louros, e que tem a voz diferente de todos os homens, uma voz que toca os corações, e que até os animais e as plantas a ouvem?
– Todos os corações, menos os dos fariseus, Gamala. Eles se mostram mais duros.
– Eles não são nem animais. São demônios, a começar por aquele de quem trago o nome. Mas, dizei-me: é verdade mesmo que Ele é assim, tão bom, que fala com todos, consola a todos, cura as doenças e converte os pecadores?
– Vós acreditais nisto?
– Sim. Mas quereríamos ficar sabendo por vós, que o acompanhais. Oh! se nos conduzísseis a Ele!
– Mas, não precisais cuidar das vinhas?
– Temos também a alma para cuidar dela e ela é mais do que as vinhas. Ele está em Cafarnaum? Fazendo marcha forçada, em dez dias poderíamos ir e voltar…
256.3– Está ali Aquele que procurais. Ele repousou no vosso pomar e agora está falando com aquele velho e aquele jovem, tendo de um lado sua Mãe e a irmã de sua Mãe.
– Aquele? Oh! Que vamos fazer?
Ficam enrijecidos pelo assombro. São todos olhos para olhar, toda a sua vitalidade parece estar em suas pupilas.
– E, então? Tanto desejo tínheis de vê-lo, e agora, nem vos moveis? Tereis virado estátuas de sal? –provoca-os Pedro.
– Mas… é que… Ele é mesmo assim simples o Messias?
– E que é que querias que Ele fosse? Alguém, assentado em um trono fulgurante e coberto com o manto real? Pensáveis que Ele fosse um novo Assuero1?
– Não…Mas… tão simples, Ele que é tão santo!
– Ele é simples, porque é santo, homem! Bem: façamos assim… Mestre! Tem paciência, vem aqui fazer um milagre. Há aqui uns homens que Te estão procurando e que, ao Te verem, ficaram petrificados. Vem dar-lhes de novo o movimento e a palavra.
Jesus, que se vira ao ouvir que estava sendo chamado, levanta-se sorrindo e vai na direção dos vinhateiros, que olham tão assombrados para Ele, que até parecem amedrontados.
– A paz esteja convosco. Me queríeis? Eis-me aqui –e faz seu gesto habitual, abrindo os braços e estendendo-os um pouco, como se oferecendo a eles. Os vinhateiros caem de joelhos e ficam calados.
– Não temais. Dizei-me o que quereis.
Estendem os cestos plenos de uvas, sem falar. Jesus admira aquelas esplêndidas frutas, e diz: “Obrigado”, estende uma mão para pegar um cacho e começa a comer os bagos.
– Ó Deus Altíssimo! Ele come como nós –suspira aquele que tem o nome de Gamala.
É impossível deixar de rir com esta saída. Até Jesus mostra um sorriso mais significativo e, como que para se desculpar, diz:
– Eu sou o Filho do homem!
256.4Mas aquele gesto de Jesus venceu a rigidez, quase extática em que estavam, e Gamala diz:
– Não entraríeis em nossa casa até à tarde, pelo menos? Somos muitos: somos sete irmãos, com nossas esposas e os meninos, além dos velhos que estão esperando a morte em paz.
– Vamos. Vós, chamai os companheiros, e ajuntai-vos. Mãe, vem tu com Maria.
E Jesus se põe a caminho, atrás dos camponeses que se levantaram e vão caminhando um pouco enviesados, por causa da vontade de vê-lo caminhar. O caminho é curto, por entre os troncos das árvores, unidos um ao outro pelos ramos das videiras.
Chegam logo à casa, ou melhor, às casas, porque é um pequeno quadrado de casas, tendo ao centro um amplo pátio, no qual há um poço, e a ele se chega indo-se por um profundo corredor que serve de vestíbulo e que certamente é fechado à noite com um pesado portão.
– A paz esteja nesta casa e com quem nela mora –diz Jesus, ao entrar, levantando a mão para abençoar e abaixando-a depois para acariciar um pequenino seminu, que olha para Ele extasiado, de uma beleza encantadora, vestido com uma camisa sem mangas, que desliza pelas costas gorduchas e está de pé sobre os pezinhos descalços, com um dedinho na boca e uma crosta de pão untado com óleo na outra mãozinha.
– É Davi, o filho do meu irmão menor –explica Gamala, enquanto um outro dos vinhateiros entra na casa mais próxima para dar o aviso, e depois sai dela para entrar em outra e assim faz com todas as outras, de sorte que aparecem rostos de todas as idades e depois desaparecem para tornarem a aparecer, logo que puderam arrumar-se um pouco.
256.5Sentado à sombra de um telheiro saliente, coberto por uma gigantesca figueira, está um velho com uma bengala nas mãos. Ele nem levanta a cabeça, como se nada mais lhe interessasse.
– É nosso pai –explica Gamala–. É um dos velhos da casa, porque também a mulher de Jacó trouxe para cá seu pai, que tinha ficado sozinho e depois veio a mãe da Lia, a mais nova das casadas. Nosso pai é cego. Formou-se um véu sobre as pupilas dele. Com tanto sol nos campos! Com tanto calor na terra! Pobre pai! Ele vive muito entristecido. Mas ele é muito bom. Agora está esperando os netinhos, que são sua única alegria.
Jesus se dirige ao velho:
– Deus te abençoe, pai.
– Sejas tu quem fores, que Deus te dê a mesma bênção –responde o velho, levantando a cabeça na direção da voz.
– É triste a tua sorte, não é mesmo? –pergunta-lhe Jesus e faz sinal para que ninguém diga quem é que está falando.
– Ela vem de Deus, depois de tanto bem que Ele me deu, durante minha longa vida. Como eu recebi o bem de Deus, devo receber também a desventura de estar sem a vista. Mas, afinal, ela não é eterna. Ela acabará no seio de Abraão.
– Dizes bem. Pior seria se fosse cega a alma.
– Eu sempre procurei conservá-la com a vista.
– Como foi que fizeste?
– Deves ser jovem, tu que estás falando, pois a tua voz o diz. Não serás como esses jovens de agora, que são todos cegos, porque são sem religião, não é? Olha que é uma grande desventura não crer nem cumprir o que Deus mandou. É um velho quem te diz isso, rapaz. Se abandonares a Lei, estarás cego nesta terra e na outra vida. Nunca mais verás a Deus. Porque chegará um dia em que o Messias Redentor nos abrirá as portas de Deus. Eu já estou velho demais para ver chegar esse dia sobre a terra. Mas eu o verei, lá do seio de Abraão. Por isso, eu não me queixo de nada. Porque eu espero que, com estas minhas sombras, eu hei de descontar o que eu tiver feito que não agradou a Deus e ter algum merecimento para a vida eterna. Mas tu és jovem. Sê fiel, meu filho, de modo que possas ver o Messias. Porque o tempo dele está perto. O Batista já o disse. Tu o verás. Mas, se tiveres a alma cega, serás como aqueles de que nos fala2 Isaías. Terás olhos, e não verás.
– Tu gostarias de vê-lo, pai? –pergunta Jesus, pousando-lhe uma das mãos pela cabeça branca.
– Eu gostaria de vê-lo, sim. Mas eu prefiro ir-me embora sem vê-lo, antes que eu o veja, mas meus filhos não o reconheçam. Eu ainda tenho a fé antiga e isso me basta. Eles… Oh! Este mundo de hoje!…
– Pai, vê, pois, o Messias, e que a tua tarde fique coroada de alegria –e Jesus faz deslizar sua mão, dos cabelos brancos para baixo, descendo pela fronte até o queixo barbudo do velho, como se estivesse fazendo-lhe uma carícia e, ao mesmo tempo, se inclina para colocar-se à altura do seu rosto de ancião.
– Oh! Altíssimo Senhor! Mas eu estou vendo! Estou vendo… Quem és tu, com este rosto desconhecido, mas que me parece tão familiar, como se eu já o tivesse visto?… Mas…Oh! Que tolo sou eu! Tu, que me restituíste a vista, és o Messias bendito! Oh! Oh!
O velho chora sobre as mãos de Jesus, que ele agarrou, cobrindo-as de beijos e de lágrimas. Todos os parentes dele estão alvoroçados.
Jesus solta uma das mãos e acaricia ainda o velho, dizendo:
– Sim, sou Eu. Vem, para que, além de recuperar a vista, fiques conhecendo a minha palavra.
E Jesus se dirige para uma escada, que leva a um terraço sombreado por um frondoso suporte, que o cobre todo. E todos o acompanham.
256.6– Eu havia prometido aos meus discípulos falar sobre a Esperança e que teria trazido para a explicação uma parábola. A parábola é esta: este velho israelita. Quem a dá é o Pai do Céu, como um tema, a fim de ensinar a todos vós a grande virtude que, como os braços de um jugo, sustenta a Fé e a Caridade..
Doce é este jugo. Patíbulo da humanidade, como braço que atravessa a cruz, trono da salvação, como apoio da serpente, que dava saúde, quando foi elevada no deserto. Patíbulo da humanidade. Ponte para a alma, de onde ela pode fazer a decolagem de seu vôo para a Luz. E ela está colocada no meio, entre a indispensável Fé e a perfeitíssima Caridade, porque, sem a Esperança não pode haver Fé; sem Esperança, morre a Caridade.
Fé pressupõe esperança firme. Como crer que se chega a Deus, se não se espera em sua Bondade? Como manter-se nesta vida, se não se espera uma eternidade? Como poder persistir na justiça, se não se anima a esperança de que toda nossa boa ação esteja sendo vista por Deus, que nos dará o prêmio por ela? Igualmente, como fazer viver a Caridade, se não houver esperança em nós? A Esperança vem antes da Caridade e a prepara. Porque um homem tem necessidade de esperar para poder amar. Os desesperados já não amam mais. A escada é esta, feita com degraus e parapeito: a Fé são os degraus, a Esperança o parapeito. No alto está a Caridade, para a qual se sobe por meio das outras duas. O homem espera para crer. E crê para amar.
256.7Este homem soube esperar. Ele nasceu. Foi um dos meninos de Israel, como todos os outros. Cresceu recebendo os mesmos ensinamentos que os outros. Tornou-se filho da Lei, como todos os outros. Tornou-se homem, esposo, pai, velho, sempre esperando nas promessas feitas aos patriarcas e repetidas pelos profetas. Na velhice, desceram sombras sobre suas pupilas, mas não sobre seu coração. Neste sempre ficou acesa a Esperança. Esperança de ver a Deus. De ver a Deus na outra vida. E, na esperança desta vista eterna, uma outra, mais íntima e querida, a de “ver o Messias”. E ele me disse, sem saber ainda quem era o jovem que lhe falava: “Se abandonares a Lei, ficarás cego na terra e no Céu. Não verás a Deus, nem reconhecerás o Messias.” Ele falou como sábio.
Muitíssimos há agora em Israel que estão cegos. Eles não têm mais esperança, porque a matou neles a rebelião contra a Lei, que é sempre rebelião, mesmo quando revestida de paramentos sagrados, se não estiver com a aceitação integral da palavra de Deus, Eu digo de Deus, e não dessas superestruturas que nela foram colocadas pelo homem e que, por serem muitas, e todas humanas, acabam sendo desprezadas por aqueles mesmos que as colocaram e são cumpridas maquinalmente, forçadamente, cansadamente, de modo estéril pelos outros. Eles não têm mais esperança. Tratam com irrisão as verdades eternas. Não têm, pois, nem mais Fé, nem Caridade. O divino jugo de Deus dado ao homem para que fizesse dele um motivo de obediência e merecimento, a celeste cruz que Deus deu ao homem para ser um esconjuro contra as serpentes do Mal, a fim de que com ela conseguisse saúde e vida, perdeu o seu braço transversal, o que segurava a chama cândida e a chama vermelha: a Fé e a Caridade e, então, as trevas desceram aos corações.
O velho me disse: “É uma grande desventura não crer e não cumprir o que Deus mandou.”
É verdade. Eu o confirmo. É pior do que a cegueira material, que ainda pode ser curada, para dar a um justo a alegria de tornar a ver o sol, os prados, os frutos da terra, os rostos dos filhos e dos netos e, sobretudo, o que era a esperança de sua esperança: “Ver o Messias do Senhor.” Eu desejaria que uma virtude semelhante estivesse viva na alma de todo Israel, e especialmente nas daqueles que são os mais instruídos na Lei. Não basta ter estado no Templo, ou ter sido do Templo. Não basta saber de cor as palavras do Livro. É necessário saber fazer delas a nossa vida, por meio das três virtudes divinas.
Vós tendes disso um exemplo: onde estas estão vivas, tudo é fácil, até uma vida de desventura. Porque o jugo de Deus é sempre um jugo leve, que aperta somente sobre a carne, sem abater o espírito.
256.8Ide em paz, vós que estais em casa de bons israelitas. Vai em paz, velho pai. De que Deus te ama, disso tens certeza. Fecha até o fim os teus dias, depositando a tua sabedoria no coração dos pequeninos nascidos do teu sangue. Não posso permanecer, mas minha bênção fica entre estas paredes com abundância de graças, como abundantes são os cachos desta vinha.
E Jesus quereria ir-se embora. Mas Ele precisa pelo menos deter-se o tempo necessário para conhecer esta tribo formada por todas as idades e para receber o que eles vão querendo dar, até que os sacos de viagem fiquem bojudos como odres… Depois Ele pode retomar seu caminho, por um atalho que vai por entre as videiras, e que lhe mostram os vinhateiros que o deixam, quando chegam à estrada mestra, já à vista de um lugarejo, onde Jesus e os seus poderão passar a noite.
1 Assuero, rei persa, cuja aparência real é apresentada em Ester 5,1c.
2 fala em Isaías 6,9-10.
1
2
3
4