459. 459. O perdão a Samuel de Nazarée lições sobre más amizades.


17 de julho de 1946.

459.1 – No quarto alto há uns homens de Nazaré. E ontem vieram os teus irmãos procurar-te. Mais tarde, vieram os fariseus e muitos doentes. Um é de Antioquia.

Isto foi o que comunicou Iscariotes, logo que os viu entrar na casa.

– Será que já terão partido de novo?

– Não. O de Antioquia foi para Tiberíades. Mas ele volta depois do sábado. Os doentes estão espalhados pelas casas. Mas os fariseus, tratando-os com muitas honras, quiseram que ficassem com eles os teus irmãos. Eles se hospedaram, todos na casa de Simão, o fariseu.

– Hum! –muge Pedro.

– Que tens? Não estás contente, que eles prestem honra ao Mestre, ao tratarem bem os parentes dele? –pergunta Iscariotes.

– Oh! Se for uma verdadeira honra e um encontro útil… estarei muito feliz!

– Desconfiar é julgar. O Mestre não quer que julguemos.

– Mas certo que sim. Está certo. Mas, para estar seguro, esperarei, antes de julgar. Assim não serei estulto e pecador.

– Vamos lá para cima com os Nazarenos. Amanhã veremos os doentes –diz Jesus.

Iscariotes vira-se para Jesus:

– Não podes. É sábado. Queres ser censurado pelos fariseus? Se Tu não pensas nisso, nisso penso eu, em tua honra –diz, muito teatralmente Judas.

E termina assim:

– O melhor mesmo, visto que eu estou entendendo o teu desejo de ir logo curar estes que estão perto de Ti, será irmos nós e impormos as mãos em Teu Nome e…

Não.

É um “não” tão cortante, que não admite discussão.

– Não queres que façamos milagre? Queres ser Tu quem vai fazê- lo? Pois bem… iremos, então, dizer que estás aqui, que prometes curá-los. Já ficarão felizes…

– Não é preciso. Os pescadores já nos viram, portanto, que eu esteja aqui, já se sabe. E que Eu curo a quem tem fé em Mim, também eles o sabem, tanto é assim, que vieram procurar-me.

Judas se cala, descontente, fica com aquele rosto sombrio dos seus momentos sinistros.

459.2 Jesus sai, sem preocupar-se com o temporal, que já está despejando rios de água sobre a terra, e sobe para o quarto alto. Empurra a porta e entra. Os apóstolos o acompanham. As mulheres já estão lá em cima, estão falando com os nazarenos. A um canto, está um homem, que eu não conheço.

– A paz esteja convosco.

– Mestre!

Os Nazarenos se inclinam, e depois dizem:

– Eis o homem –e acenam para o desconhecido.

– Vem cá! –ordena Jesus.

– Não me amaldiçoes!

– Para fazer isso, Eu não precisava chamar-te aqui. É só isso que tens a dizer ao Salvador?

Jesus está austero, mas, ao mesmo tempo, encorajador.

O homem olha para Ele… Depois, tem um frouxo de choro, e grita, jogando-se no chão:

– Se Tu não me perdoas, eu não terei paz…

– Quando Eu queria fazer-te bom, por que foi que não me quiseste? Agora é tarde para reparar. A tua mãe está morta.

– Ah! Não me digas isso! Tu és cruel!

– Não. Eu sou a Verdade. Eu era a Verdade quando te dizia que terias matado tua mãe. E o sou agora. E tu, naquele tempo, zombavas de Mim. Por que é que agora me procuras? Tua mãe está morta. Tu pecaste, continuaste a pecar, mesmo sabendo que estavas pecando. Eu to havia dito. Esta é a grande culpa: tu quiseste pecar, rejeitando a Palavra e o Amor. Por que te queixas agora de não teres paz?

– Senhor! Senhor! Piedade! Eu estava louco, me curaste, esperei em Ti, quando antes não esperava em ninguém. Não decepciones a minha esperança.

– E, por que não tinhas esperança?

– Porque fiz minha mãe morrer de dor… até na última tarde… ela estava extenuada… e eu não tive piedade… Eu a ataquei, Senhor!

É um verdadeiro grito de desesperado este que enche o quarto.

– Eu a ataquei… Ela morreu de noite! E só me dizia que eu fosse bom… Minha mãe! Eu a matei…

– Já há anos que tu a mataste, Samuel! Desde quando deixaste de ser um justo. Pobre Ester! Quantas vezes a vi chorar! E quantas vezes me pedia uma carícia de filho, em lugar das tuas… E tu sabes que não foi por amizade para contigo, meu contemporâneo1 e da mesma idade que Eu, mas, sim, por piedade para com ela, que Eu ia à tua casa… Eu não deveria perdoar-te. Mas duas mães rezaram por ti e o teu arrependimento é sincero. Por isso, Eu te perdoo. Com uma vida intemerata, procura cancelar em teu coração a lembrança de um Samuel pecador, reconquista a tua mãe. E tu o farás, se, com uma vida de justo, conquistares o Céu e tua mãe com ele. Mas, lembra-te, lembra-te bem que o teu pecado foi muito grande, que por isso grande, em proporção, deve ser a tua justiça para cancelar a dívida.

459.3 – Oh! Tu és bom! Não como aquele dos teus que saiu, logo depois de ter entrado. E que veio a Nazaré somente para aterrorizar-me. Estes o podem dizer…

Jesus se vira… Dos apóstolos falta somente Iscariotes. Portanto, foi ele o que maltratou o Samuel. Que deve fazer Jesus? Para não fazer que critiquem o apóstolo como apóstolo, se não como homem, diz:

– Nenhum homem pode ser severo com o teu pecado. Quando se faz o mal, seria necessário pensar que os homens julgam, pensar que damos a eles o modo de julgar-nos… Mas que não se tenha rancor. A humilhação que recebeste, coloca-a como expiação nas balanças de Deus. Vamos. Aqui entre os justos, há uma alegria pela tua redenção. Estás entre irmãos, que não te desprezam. Porque todo homem pode pecar, mas só é desprezível quando persiste em pecar.

– Eu te bendigo, Senhor. Eu te peço perdão também por todas as vezes que zombei de Ti… Eu nem sei como agradecer… E a paz, sabes? A paz que volta a mim –e agora ele chora, com um choro calmo.

– Agradece a minha Mãe. Se tu estás perdoado, se Eu te curei do delírio para dar-te a faculdade de arrepender-te, é por meio dela.

459.4Vamos lá para baixo. A ceia está pronta e repartiremos a comida.

E sai, segurando o homem pela mão.

A ceia de fato está pronta. Mas Judas nem lá em baixo está. E em nenhum outro lugar da casa. A dona da casa explica:

– Ele saiu. E disse: “Eu volto logo.”

– Tudo bem. Sentemos e comamos.

Jesus oferece, abençoa e reparte a comida. Mas uma sombra de gelo está no quarto, iluminado por duas lanternas e pelo fogão. Do lado de fora o temporal continua…

Judas volta, ofegante, molhado como se tivesse caído no lago. Seus cabelos, mesmo tendo ele posto o manto sobre a cabeça, quando ele joga no chão o manto ensopado, aparecem suas roupas íntimas, que estão coladas ao rosto e ao pescoço. Todos olham para ele. Mas ninguém fala nada.

Ele quer desculpar-se, sem que ninguém lhe pergunte nada:

– Eu fui correndo até os teus irmãos, para lhes dizer que Tu estás aqui. Mas eu te obedeci. Não fui aos doentes. Já não se podia. Um aguaceiro! Mas eu quis prestar logo honras aos teus parentes… Não estás contente, Mestre? Não falas!

– Eu te estou ouvindo. Pega e come. 459.5E, enquanto esperamos a hora do repouso, vamos falar entre nós.

Escutai: está escrito2 que não devemos confiar nosso coração a um estranho, porque não conhecemos os costumes dele. Mas poderíamos dizer que conhecemos o coração pelo menos de quem é nosso compatriota? Ou o coração do amigo? Ou o do parente? Somente Deus conhece de modo perfeito o coração do homem. O homem só tem um meio para conhecer o coração de seu semelhante e conhecer se ele é um verdadeiro seu compatriota, ou amigo verdadeiro, e verdadeiro parente. Qual é esse meio? Onde é que ele se encontra? No próximo mesmo e em nós. Nas ações e nas palavras dele e em nosso reto juízo.

Quando nas palavras do próximo, em suas ações, ou nas ações que ele quereria de nós, percebemos, com o nosso reto juízo, que não há nada de bem, então podemos dizer: “Este homem não tem um coração bom, eu devo desconfiar dele”. Deve-se tratá-lo com caridade, porque é um infeliz, doente da mais grave das enfermidades: a do espírito doente, mas não devemos acompanhá-lo em suas ações, não aceitar as suas palavras como verdadeiras e sábias, e, menos ainda, seguir os seus conselhos. Que não vos arruine este orgulhoso pensamento: “Eu sou forte e o mal dos outros não penetra em mim. Eu sou justo e, mesmo ouvindo o que dizem os injustos, justo eu me conservo.”

O homem é um abismo profundo, no qual estão todos os elementos do bem e do mal. Ajudam a crescer e a se tornarem reis, os primeiros: são as ajudas se Deus. Ajudam a se desenvolver e a reinar fazendo mal as paixões e as amizades más. Todos os germes do mal e todos os anseios do bem estão latentes no homem pela vontade amorosa de Deus e pela vontade malvada de Satanás, que sugestiona, que tenta, que odeia, enquanto que Deus atrai, conforta, ama. Satanás tenta seduzir. Trabalha para tomar de Deus. E nem sempre Deus vence, porque a criatura eé pesada, enquanto não escolhe o amor à Sua lei, e, sendo pesada, desce, apetece mais facilmente o que dá uma satisfação imediata e nas partes mais baixas do homem.

Vós, pelo que Eu digo sobre a fraqueza humana, podeis compreender quanto é necessário desconfiar de vós mesmos e prestar muita atenção ao nosso próximo, para não ajuntar o veneno de uma consciência impura com o que Já fermenta dentro de nós. Quando se compreende que um amigo está sendo ruína de um coração. Quando os seus conselhos nos escandalizam, é preciso abandonar aquela amizade que nos está sendo nociva. Se ela persistisse, acabaria perecendo em seu lado espiritual, porque começaria a praticar ações que afastam de Deus, pois que impedem à consciência endurecida de compreender as inspirações de Deus. Se todos os homens culpados de graves pecados pudessem e quisessem falar como foi que chegaram àqueles pecados, ver-se-ia que nos começos sempre houve uma má amizade…

– É verdade! –confessa, em voz baixa, Samuel de Nazaré.

459.6 – Desconfiai daqueles que, depois de haver-vos combatido sem motivo, de repente passam a cumular-vos com honras e presentes. Desconfiai daqueles que louvam todas as vossas ações, e são homens que tudo louvam, isto é, louvam tanto o preguiçoso, como o bom trabalhador; o homem adúltero, como o marido fiel; tanto o ladrão, como o honesto; o violento, como o manso; e o mau fiel como o péssimo discípulo, como se estes fossem uns modelos. Fazem assim para arruinar-vos e servirem-se de vossa ruína para os seus planos astutos. Fugi daqueles que vos querem embriagar com louvores e promessas, para levar-vos a praticar ações que, se não estivésseis embriagados, não aceitarieis fazer. E, quando juraste fidelidade a alguém, não fiqueis tratando com os inimigos dele. Estes não fazem outra coisa, senão ajuntarem-se para fazer mal àquele que eles odeiam, fazer esse mal com a vossa própria ajuda.

Abri os olhos. Eu disse3: sede astutos como as serpentes e também simples como as pombas. Porque, para tratar das coisas do espírito, é santa a simplicidade. Mas para viver no mundo, sem prejudicar a si mesmo e aos amigos, requer-se astúcia para se saber descobrir as astúcias de quem odeia os santos. O mundo é um ninho de serpentes. Sabei conhecer o mundo e seus sistemas. E depois, ficando como as pombas, não sobre a lama onde estão as serpentes, mas na parte alta do rochedo, conservai o coração simples de filhos de Deus. E rezai, rezai, porque em verdade Eu vos digo que a Grande Serpente está assobiando ao redor de vós, que estais em grande perigo, e quem nãovigiar, perecerá. 459.7Sim. Entre os discípulos haverá quem perece, para grande júbilo de Satanás, e uma dor infinita do Cristo.

– Quem será Senhor? Talvez um que não é dos nossos, algum prosélito, um não da Palestina, um…

– Não fiqueis indagando. Por acaso não está escrito4 que a abominação entrará como já entrou, no lugar santo? Agora que se pode pecar até junto ao Santo, não poderá pecar alguém que seja galileu ou judeu entre os meus seguidores? Vigiai, vigiai, meus amigos. Vigiai a vós mesmos e aos outros, vigiai o que vos dizem os outros e o que vos diz a vossa consciência. Se estiverdes sozinhos, e não tiverdes uma luz para ver, vinde a Mim. Eu sou a Luz.

Pedro começa a bracejar, e sussurra, por detrás das costas de João, o qual faz sinal de que não, que não. Jesus volve para lá o seu olhar e vê. Pedro se detém e faz como quem vai afastar-se. Jesus se levanta, sorri levemente… Depois entoa a oração, abençoa e se despede. Mas Ele fica sozinho, continuando a rezar.

1 contemporâneo, ao invés de coetâneo é correção nossa. MV pode ter escrito apenas por distração: meu coetâneo e de mesma idade. Por dentro da capa do caderno manuscrito, correspondentes aos capítulos de 453 a 459, MV escreveu: Peço desculpas se este caderno é particularmente escrito mal. São episódios vistos enquanto estava entre a vida e a morte depois do infausto 2 de julho de 1946… Escrevi deitada e com febre altíssima, além… de dores fortíssimas… Isto justifica também a indecisão que indicamos em nota em 457.2. A razão do infausto 2 de julho de 1946 está em 454.8. Outros inconvenintes da escritora estão declarados em 54.9 - 113.1 - 131.6 - 154.9 - 165.11 - 215.7 (em nota) - 227.1 - 230.1 - 361.1 - 402.1 - 456.1 (verso entre parênteses) - 487.2 (em nota) - 515.6 (últimas linhas) - 574.4 (em nota) - 590.4 - 634.18. O modo diferente modo de aceitar as “visões” e os “ditados” está explicado em 3.1 - 21.7 - 361.1.
2 está escrito, em Siraque 8,18-19.
3 Eu disse, em 265.7.
4 não está escrito, em Daniel 9,27; 11,31; 12,11.


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