359. 359. Na cabana de Matias perto de Jabes-Galaad.
3 de dezembro de 1945.
359.1 O vale, profundo e cheio de bosques, onde surge Jabes-Galaad, ressoa, por causa de uma pequena torrente, que está bem cheia e corre espumando, ao ir para o Jordão, que está próximo. A escuridão do crepúsculo, e do dia sombreado, acentua o aspecto sombrio dos bosques, e, por isso, o lugar se torna triste e pouco acolhedor, desde o nosso primeiro contato com ele.
Tomé, sempre de bom humor, apesar de suas vestes estarem do jeito que fica um pano, quando é tirado da tinada cabeça até os lados e dos lados até os pés é um barro só, e diz:
– Hum! Eu não gostaria que daqui a alguns séculos este povoado se desforrasse sobre nós, pela feia surpresa1 que de Israel ele recebeu. Basta. Vamos sofrer pelo Senhor.
Não os espancam, isso não. Mas os expulsam de todos os lugares, chamando-os de ladrões e de coisas piores ainda, e Filipe e Mateus precisam dar uma boa corrida para se salvarem de um canzarrão, que um pastor atiçou contra eles, que tinham ido bater no portão de um aprisco, pedindo abrigo para a noite, “pelo menos por baixo da coberta onde estavam os animais.”
– E agora, que faremos?
– Não temos pão.
– E nem dinheiro. Sem dinheiro não temos pão nem alojamento.
– E estamos muito molhados, gelados e com fome.
– E a noite vem chegando. Estaremos bem bonitos amanhã cedo depois de uma noite no bosque!
Dos doze que eles são, sete estão resmungando abertamente, três estão com um descontentamento visível em seus rostos e, ainda que estejam calados, é como se estivessem falando. Simão Zelotes vai de cabeça inclinada, numa postura indecifrável. João parece estar sobre brasas acesas e sua cabeça se vira velozmente dos queixosos para Jesus e deste para aqueles, com uma grande pena que transparece em seu rosto. Jesus continua a andar sozinho, visto que os apóstolos se recusam, ou o fazem com medo, ir bater de casa em casa, percorrendo paciente as estradinhas que estão transformadas em brejos escorregadios e fedorentos. Mas por toda parte Ele é rejeitado.
359.2Chegaram a extremidade do lugarejo onde o vale se alarga formando as pastagens da planície da Transjordânia. Apenas uma casa ou outra é o que ainda se vê… E cada uma delas é uma desilusão.
– Vamos procurar nos campos. João, tu consegues subir por este olmo? Lá do alto podes ver.
– Sim, meu Senhor.
– O olmo está escorregadio por causa da chuva. O rapaz não conseguirá e vai se machucar. Assim, além de tudo mais, ainda teremos um ferido –resmunga Pedro.
E Jesus, com mansidão, diz:
– Eu vou subir.
– Mas, isso não –gritam todos em coro.
E, mais do que todos, gritam os pescadores, acrescentando:
– Se já é perigoso para nós que somos pescadores o que vais poder fazer Tu que nunca subiste por quinas e por cordas?
– Eu o ia fazer por vós. Para procurar-vos um abrigo. Para Mim é indiferente. Não é a chuva que me faz sofrer…
Que tristeza! Quanto pedido para que tenham dó dele está naquela voz. Cada um deles percebe isso e se cala. Outros, e são o próprio Bartolomeu e Mateus, dizem:
– Já está muito tarde para tomarmos providências. Devíamos ter pensado antes.
– É certo, e não ir atrás de caprichos e ficar querendo partir de Péla quando estava chovendo. Tu foste teimoso e imprudente e agora todos sofremos as conseqüências. Que queres providenciar agora? Se nós tivéssemos tido uma bolsa bem cheia, verias como todas as casas se nos abririam! Mas Tu… Por que não fazes agora um milagre para os teus apóstolos, Tu que os fazes até para os indignos? –diz Judas de Keriot, gesticulando como um doido, agressivo, a tal ponto que os outros, ainda que no fundo estejam pensando um pouco como ele, sentem a necessidade de fazê-lo guardar respeito.
Jesus já está parecendo o Condenado que olha mansamente para os seus carrascos.
E cala. Este silêncio, que vem acontecendo sempre com mais freqüência em Jesus de tempos para cá, é o prelúdio do “grande silêncio” diante do Sinédrio, de Pilatos e de Herodes, e me causa muita dó. Parecem-me aquelas pausas de silêncio que se ouvem de entremeio aos lamentos de um moribundo e que não significam um alívio nas dores, mas um prelúdio da morte. Parecem-me estar gritando esses silêncios de Jesus, mais fortes do que todas as palavras, quando Ele se cala. Mas que falam de toda a dor de Jesus diante da incompreensão dos homens e do seu desamor. E aquela mansidão, que não reage, e ficar Ele daquele modo com a cabeça um pouco inclinada, me faz parecer como quando Ele foi amarrado e entregue ao ódio dos homens.
– Por que não falas? –perguntam-lhe.
– Porque Eu diria palavras que o vosso coração não entenderia nesta hora… Vamos. Caminhemos, para não ficarmos enregelados… E perdoai…
E se vira rapidamente, vai para frente da comitiva, que está um pouco com dó dele e um pouco o acusando, um pouco dando razão aos companheiros.
359.3 João vai indo devagar lá atrás, de tal modo que ninguém lhe presta atenção. Depois, ele se dirige a uma árvore nova que me parece um choupo ou um freixo e, tendo tirado o manto e a veste põe-se a subir, seminu, com muito trabalho, enquanto os primeiros galhos o atrapalham na subida. Vai subindo, subindo como um gato. De vez em quando, escorrega ainda, mas prossegue com coragem. Já está quase no alto. Examina o horizonte com as últimas luzes do dia que aqui, em plena planície, com o adelgaçamento das nuvens cinzentas, estão mais claras do que no vale. Ele procura firmar o olhar em todos os pontos. E tem, finalmente, um gesto de alegria. Deixa-se escorregar rapidamente até o chão, veste suas roupas e se põe a correr, alcançando os companheiros e os ultrapassando. Já chegou ao lado do Mestre. E diz, com o fôlego curto por causa do esforço que fez e pela corrida que acabou de fazer:
– Uma cabana, Senhor, uma cabana do lado do oriente… Mas é preciso voltar atrás… Eu subi sobre uma árvore… Vem, vem…
– Eu vou com João por este lado. Se quiserdes vir, vinde. Se não, prossegui até o próximo povoado à margem do rio. Lá nos encontraremos –diz Jesus, sério e decidido.
Acompanham-no todos, através do prado encharcado.
– Mas estamos voltando para Jabes!
– Eu não estou vendo casas…
– Quem vai saber o que o rapaz viu.
– Talvez seja algum palheiro.
– Ou a cabana de algum leproso.
– Assim, acabaremos por encharcar-nos. Estes prados parecem umas esponjas –resmungam os apóstolos.
359.4 Mas, não se trata de nenhuma cabana de leprosos nem de um palheiro. É outra coisa o que apareceu por detrás de uma fileira de troncos. É uma cabana, sim. É larga, baixa, parece um pobre aprisco, é coberta de palha pela metade e com paredes de barro que, com dificuldade, mantêm os quatro esteios dos cantos, feitos com pedras rústicas. É um recinto de palafitas, ao redor do casebre e, do lado de dentro, há verduras que foram tiradas da água.
João dá um grito. Aparece um velho.
– Quem é?
– Somos peregrinos que estamos indo para Jerusalém. Pedimos um abrigo, em nome de Deus! –diz Jesus.
– Sempre. É nosso dever. Mas vos acomodareis mal. Eu tenho pouco espaço e não tenho camas.
– Não faz mal. Pelo menos, terás fogo.
O homem leva a mão à fechadura e a abre.
– Entrai, e a paz esteja convosco.
Eles passam por uma pequenina horta. Entram no único quarto, que serve de cozinha e de quarto de dormir. O fogo arde na lareira. Mas tudo está em ordem e pobreza. Não há nenhum utensílio desnecessário.
– Estais vendo. Eu só tenho de grande e ornado o coração! Mas, se vos ajeitardes… Tendes pão?
– Não. Um punhado de azeitonas…
– Eu não tenho pão para todos. Mas farei para vós alguma coisa com leite. Tenho duas ovelhas. Para mim bastam. Vou tirar-lhes o leite. Quereis dar-me os vossos mantos? Eu os estenderei no aprisco, aqui atrás. Eles ir-se-ão enxugando um pouco e amanhã, com as chamas, faremos o resto.
O homem sai levando as vestes úmidas. Todos estão perto do fogo e se alegram com o calor.
O homem volta com uma esteira rústica. E a estende.
– Tirai as vossas sandálias, que eu as passarei na água e as pendurarei até que se enxuguem. E vos trarei água quente para lavardes a lama de vossos pés. A esteira é rústica, mas está limpa e é larga. Sempre ela vos dará mais comodidade do que o chão frio.
Ele apanha um caldeirão, cheio de uma água verdolenga, porque as verduras estão sendo cozidas nele, e põe a metade da água num alguidar e a outra metade numa bacia. Ele misturou com água fria, e diz:
– Aqui está. Ela vos restaurará. Lavai-vos. Este pano está limpo.
Enquanto isso, ele cuida do fogo, o atiça, passa o leite para uma caldeira e leva esta sobre o fogo. Logo que começa a fervura, faz cair nela umas sementes, que me parecem ou de cevada triturada ou de painço esbagoa-do. E começa a remexer o seu mingau.
359.5 Jesus, que foi um dos primeiros a lavar-se, vai até perto dele:
– Deus te ajude por tua caridade.
– Não estou fazendo nada mais do que dar o que recebi dele. Eu era um leproso. Leproso dos trinta e sete até aos cinqüenta e um anos. Depois fiquei curado. Mas em minha terra meus pais tinham morrido e também minha mulher. Minha casa estava devastada. E, além disso, eu era “o leproso”… Por isso vim ficar aqui. Aqui fiz o meu ninho. Foi feito por mim mesmo e com a ajuda de Deus. Primeiro, uma cabana coberta de sapé. Depois, uma de madeira. Depois, com paredes. E cada ano uma coisa nova. No ano passado arranjei lugar para as ovelhas. Eu as comprei com o dinheiro de umas esteiras e vasilhas de madeira, que eu fabrico e vendo. Eu tenho uma macieira, uma pereira, uma figueira e uma videira. Aqui atrás tenho um pequeno campo de cevada, antes de chegar às hortaliças. Tenho quatro casais de pombos e duas ovelhas. Daqui a pouco irei ter cordeirinhos. E desta vez espero que sejam fêmeas. Eu bendigo o Senhor e não peço nada mais. E Tu quem és?
– Sou um galileu. Tens prevenções?
– Nenhuma, ainda que eu seja da raça judaica. Se tivesse tido filhos, teria podido ter um como Tu… Eu me faço de pai para os pombinhos… Eu me habituei a viver sozinho.
– E pelas festas?
– Encho as manjedouras e vou. Tomo um burro alugado. Corro, cumpro o rito e volto. Nunca me faltou nem uma folha. Deus é bom.
– Sim, é bom para com os bons e para com os menos bons. Mas os bons estão debaixo de suas asas.
– Sim. Também Isaías diz2… A mim Ele tem protegido.
– Mas tu foste um leproso –observa Tomé.
– E fiquei pobre e sozinho. Mas, aí está, esta é a graça de Deus, voltar a ser um homem e ter casa e pão. Em minha desventura3 meu modelo foi Jó. Espero merecer, como ele, a bênção de Deus. Não as riquezas, mas a graça.
– Tu a terás. Pois és um justo. 359.6Como te chamas?
– Matias.
E pega o seu caldeirão, leva-o para cima da mesa, leva também manteiga e mel, prova, torna a levar ao fogo, e diz:
– Tenho somente seis peças de louça, entre pratos e tigelas… Vós usareis delas por turnos.
– E tu?
– Quem hospeda se serve por último. Primeiro os irmãos que Deus nos manda. É isto. Está pronto. E isto faz bem.
E despeja algumas conchas de papa fumegante em quatro pratos e duas tigelas. Colheres de madeira, ele tem.
Jesus aconselha os mais jovens a comer.
– Não. Tu, Mestre –diz João.
– Não, não. É bom que Judas se sacie e veja que sempre há alimento para os filhos.
Iscariotes muda de cor, mas começa a comer.
– Tu és um rabi?
– Sim. Estes são os meus discípulos.
– Eu ia ao Batista, quando ele estava em Betábara. Não sabes nada do Messias? Dizem que Ele já veio e que João já o mostrou. Quando eu vou a Jerusalém sempre vou com a esperança de vê-lo. Mas nunca consegui. Eu cumpro o rito, mas não fico por lá. Talvez seja por isso que não o vejo. Aqui eu vivo isolado, porque… Há pessoas que não são boas na Peréia. Falei com alguns pastores, que vêm até aqui a procura de pastagens. Eles sabiam. E me disseram. Que palavras! E que palavras não serão quando forem ditas por E-le.
Jesus não se revela. Agora é a sua vez de comer, e Ele o faz com simplicidade ao lado do bom velho.
– E agora? Como faremos para dormir? Eu vos cedo minha cama. Mas é uma só… E eu irei para junto das ovelhas.
– Não, nós é que iremos para lá. O feno é bom para quem está cansado.
Terminou a ceia e estão pensando em ir deitar-se, a fim de poderem partir de manhã bem cedo. Mas o velho insiste e em sua cama quem vai dormir é Mateus, que está muito constipado.
359.7Quando chega a manhã, o que se vê é uma chuva forte. Como poderão eles partir por baixo daquelas cataratas? Dão, então, ouvidos ao velho e permanecem.
Enquanto isso, suas roupas já foram lavadas, enxugadas, já limparam as sandálias e deram descanso aos seus membros. O velho torna a cozinhar cevada no leite para todos e depois põe algumas maçãs nas cinzas. Isso vai ser a refeição deles. E eles a estão comendo quando se ouve lá fora uma voz.
– Será um outro peregrino? Como faremos? –diz o velho.
Mas ele se levanta e sai, enrolado com uma coberta de lã crua, impermeável. Na cozinha está bom o calor do fogo, mas não o calor do bom humor.
Jesus está calado.
O velho volta com os olhos arregalados. Olha para Jesus, olha para os outros. Parece estar com medo… Parece estar na dúvida e desejando saber uma coisa. Enfim, ele diz:
– Entre vós está o Messias? Dizei-o logo, porque as pessoas de Péla o estão procurando para adora-lo por causa de um grande milagre feito por Ele. Eles foram bater, desde ontem à tarde, à porta de todas as casas até à beira do rio e até o povoado mais próximo. E agora, estando já de volta, pensaram em vir até minha casa. Alguém lhes falou de mim. E estão aí fora, com os seus carros. É muita gente.
Jesus se levanta. Os doze lhe dizem:
– Não vás lá. Se Tu já disseste que era prudente ter-se evitado permanecer em Péla, agora é inútil que te mostres.
– Mas, então!… Oh! Bendito! Bendito Tu e quem te mandou. E feliz de mim que te acolhi! Tu és o Rabi Jesus, aquele… Oh!
O homem está de joelhos com a fronte no chão.
– Sou Eu. Mas deixa-me ir a esses que me estão procurando. Depois Eu vi-rei a ti, meu bom homem.
Jesus se livra das mãos do velho que o estão agarrando, e sai para a horta, que está inundada.
359.8 – Eis! Eis! Hosana!
Eles pulam dos carros. São homens e mulheres e aí estão também o cegui-nho de ontem e a mãe dele, juntos com a gerasena. Sem se preocuparem com a lama, eles se ajoelham e suplicam:
– Volta, volta para trás. Volta para nós, volta para Péla.
– Não. Vai a Jabes –gritam outros que certamente são de Jabes.
– Nós te queremos! Estamos arrependidos de termos te expulsado –gritam os de Jabes.
– Não. Vem conosco. Vem a Péla, onde está vivo o teu milagre. A ele deste os olhos. A nós dá-nos a luz para as nossas almas.
– Eu não posso. Devo ir a Jerusalém. Lá me encontrareis.
– Estás zangado porque nós te expulsamos.
– Estás descontente porque sabes que havíamos acreditado nas calúnias de um pecador.
A mãe de Marcos cobre o rosto, chorando.
– Vai dizer-lhe, Jaia, àquele que gostou de ti, que volte.
– Vós me encontrareis em Jerusalém. Ide, e não desanimeis. Não sejais como os ventos, que vão para todos os rumos. Adeus.
– Não. Vem conosco. Se não vens, nós te agarramos, e te levamos à força.
– Vós não levantareis vossas mãos sobre Mim. Isto é- idolatria, não é verdadeira fé. A fé crê, mesmo sem ver. Ela é constante, ainda que combatida. Ela cresce, mesmo sem milagres. Eu fico com Matias, que soube crer sem ter visto nada, e que é muito justo.
– Pelo menos, aceita o que te damos. Dinheiro, pão. Disseram-nos que destes tudo o que tínheis para Jaia e a mãe dele. Toma um carro, viajarás com ele. Depois o deixarás em Jericó com o albergueiro Timon. Toma-o. Está chovendo, e vai chover mais ainda. Ficarás mais abrigado. E farás o que queres mais depressa. Mostra-nos que não nos guardas ódio.
Eles estão do lado de fora da paliçada e Jesus do lado de cá. Eles se olham uns para os outros e começam a tumultuar. Atrás de Jesus, o velho Matias está de joelhos, de boca aberta, e atrás dele, de pé, estão os apóstolos.
Jesus estende a mão e diz:
– Aceito para os pobres. Mas não aceito o carro. Eu sou Pobre entre os pobres. Não insistais. Jaia, mulher e tu de Gerasa vinde cá para que eu vos abençoe em particular.
E, quando eles chegaram perto dele, depois de Matias ter aberto a paliçada, Ele os acaricia e abençoa, e depois se despede deles. Abençoa em seguida aos outros que estão apinhados junto à soleira, dando aos apóstolos suas moedas e víveres, e imediatamente se despede deles.
359.9 E volta para casa.
– Por que não lhes falaste?
– Conta o milagre dos dois cegos.
– Por que não tomaste o carro?
– Porque é bom andar a pé.
Depois Ele se volta para Matias:
– Eu quereria recompensar-te com minhas bênçãos. Mas agora vou ajuntar a elas um pouco de dinheiro para as despesas que tiveste conosco…
– Não, Senhor… Eu não quero. Tudo fiz de bom coração. E agora, agora sei que o estou fazendo a serviço do Senhor. E o Senhor não paga. Ele não é obrigado a isso. Fui eu que recebi e não Tu! Oh! Que dia este! A lembrança dele ficará comigo até a outra vida!
– Disseste bem. Tua misericórdia para com os peregrinos, tu a encontrarás escrita no Céu, assim como também a tua fé, sempre pronta a crer… Mas, logo que o dia clarear um pouco, Eu te deixarei. Eles poderiam voltar. Insistem, enquanto o milagre os comove, mas depois… ficam entorpecidos como antes, ou se tornam inimigos. Eu me vou. Até agora tenho me detido para procurar convertê-los. Mas agora vou, indo para diante sem parar. Vou para o meu destino que me faz andar. Deus e o homem Me impelem e Eu não posso ficar parado. Por um lado me esporeia o amor e por outro o ódio. Quem me ama pode me acompanhar. Mas o Mestre não vai mais correr atrás de ovelhas teimosas.
– Elas não te amam, Mestre divino? –pergunta Matias.
– Elas não me compreendem.
– Eles são maus.
– As concupiscências os fazem ficar lerdos.
O homem perde a coragem de dizer suas confidências como antes. Parece-lhe que está diante do altar. Jesus, ao contrário, agora que Ele não é mais o Desconhecido, está menos reservado e fala ao velho como a um seu parente.
E assim passam as horas até perto do meio dia. A nuvem, que se espalhou, está prometendo que vai parar de chover. Então Jesus ordena a partida. E, enquanto o velho vai apanhar os mantos enxutos, Ele põe em uma gaveta algumas moedas e faz que se ponham pães e queijos em uma masseira.
O velho volta e Jesus o abençoa. Depois retoma o caminho, virando-se mais uma vez para olhar aquela cabeça branca, que está aparecendo por cima da paliçada escura.
1 feia surpresa, como disse em 1 Macabeus 5,9-36.
2 diz quanto ao conceito, em vários pontos e com diferentes formas, como por exemplo em: Is 3,10.
3 desventura, exposto no prólogo do livro: Jó 1-2; bênção, que está no epílogo: Jó 42,10-17. O modelo de Jó, também lembrou em 544.6.8 (pela boca agonizante de Lázaro), em 555.5 (de Pedro) e 579.6/7, é o homem justo, no sofrimento sem culpa.
1
2
3
4
5
6