107. 107. Jesus e a Mãe na casa de Joana de Cusa.


13 de fevereiro de 1945.

107.1 Vejo Jesus ir para a casa de Joana de Cusa. Quando o servo porteiro vê quem é que está chegando, dá um grito tão alto de alegria, que ecoa pela casa toda. Jesus entra sorridente, abençoando.

Joana acorre do jardim, todo florido, e se precipita aos pés do Mestre para beijá-los. Também vem Cusa que primeiro se inclina profundamente, e depois beija a orla da veste de Jesus.

Cusa é um bonito homem dos seus quarenta anos. Não é muito alto, mas de compleição robusta, de cabelos negros, que somente nas têmporas têm algum fio prateado. Tem olhos vivos e escuros, o rosto de um colorido pálido e uma barba quadrada, negra, bem tratada.

Joana é mais alta do que o marido. De sua enfermidade passada não conserva senão uma acentuada esbelteza que, no entanto, já é menos esquelética do que naquele tempo. Parece-se com uma palmeira leve e flexível que termina em uma cabeça pequena e formosa, com profundos olhos negros e muito doces. Tem uma massa de cabelos muito escuros e graciosamente penteados. A fronte, lisa e alta, parece ainda mais branca, sob aquele negro genuíno, e a pequena boca, bem desenhada, sobressai, com o seu vermelho sadio, entre as faces, levemente pálidas, semelhantes às pétalas de certas camélias. É uma mulher muito bonita… e é aquela que dá a bolsa a Longino no Calvário. Lá está chorosa, transtornada e coberta com um véu. Aqui sorri e está com a cabeça descoberta. Mas é ela.

– A que devo a alegria de ter-te como meu hóspede? –pergunta Cusa.

– À minha necessidade de uma parada à espera de minha Mãe. Venho de Nazaré… e preciso que minha Mãe venha Comigo por algum tempo. Iremos para Cafarnaum.

– Por que não em minha casa? Eu não sou digna, mas… –diz Joana.

– Tu és bem digna disso. Mas minha Mãe tem consigo a cunhada, que enviuvou, há poucos dias.

– A casa é grande para hospedar mais de um. E Tu me deste tanta alegria, que para Ti estão livres todos os espaços dela. Ordena, Senhor, Tu que afastaste a morte desta morada, e lhe restituíste a minha rosa florida e florescente –diz Cusa, apoiando a mulher, a quem deve amar muito. Compreendo isso pelo modo com que ele a olha.

– Não ordeno. Mas aceito. Minha Mãe está cansada e tem sofrido muito nestes últimos tempos. Ela teme por Mim, e Eu lhe quero mostrar que ainda há quem me ama.

– Oh! Então traze-a aqui! Eu a amarei como filha e serei sua serva –exclama Joana.

Jesus consente.

Cusa sai para, imediatamente, dar ordens sobre o assunto, e, enquanto a visão vai-se desdobrando, deixando Jesus no esplêndido jardim, ocupado em conversar com Cusa e a mulher, 107.2 eu acompanho e vejo a chegada do carro cômodo e veloz, com o qual Jônatas foi buscar Maria em Nazaré.

Naturalmente, a cidade de Nazaré está em alvoroço pelo fato. E quando Maria e a cunhada, tratadas por Jônatas como duas rainhas, sobem ao carro, depois de terem entregado a Alfeu de Sara as chaves da casa, o alvoroço cresce. O carro parte, enquanto Alfeu se vinga das grosserias feitas a Jesus na sinagoga, dizendo:

– Os samaritanos são melhores do que nós! Estais vendo como um funcionário de Herodes venera a Mãe do Senhor? E nós! Eu me envergonho de ser nazareno.

Há então um verdadeiro tumulto entre os dois partidos. Há quem deserta o partido adverso, vindo para o lado de Alfeu, perguntando mil coisas.

– Mas certamente! –responde Alfeu–. Vão ser hóspedes da casa do Procurador. Vós ouvistes o que disse o seu intendente: “O meu patrão te suplica que vás honrar a sua casa.” Honrar, entendestes? E é o rico e poderoso Cusa, a mulher dele é uma princesa real. Honrar! E nós, ou seja, vós, o expulsaste a pedradas. Que vergonha!

Os nazarenos não rebatem e Alfeu toma mais vigor:

– Sim, tendo-se Ele, tem-se tudo! E para nada serve o prestígio humano. Mas parece-vos inútil ter Cusa como amigo? Parece-vos propício que ele nos despreze? Sabeis que ele é o Procurador do Tetrarca? Não dizeis nada?! Imitai os samaritanos com o Cristo! Atraireis sobre vós o ódio dos grandes. E então… oh! então é que eu vos quero ver! Sem ajuda do Céu, e sem ajuda da terra! Tolos! Malvados! Descrentes!

A saraivada de impropérios e repreensões continua, enquanto os nazarenos vão-se, acabrunhados como uns cães fustigados. Alfeu fica sozinho, como um arcanjo vingador, na porta da casa de Maria.

107.3 … Já era noite, quando, pela esplêndida estrada ao longo do lago, chega, ao trote de robustos cavalos, o carro de Jônatas. Os servos de Cusa, já de sentinela à porta, dão o sinal, e acorrem com lâmpadas, aumentando o clarão do luar.

Joana e Cusa se aproximam. Também Jesus aparece sorridente, e atrás Dele, o grupo apostólico. Quando Maria desce, Joana se prostra até ao chão e a saúda:

– Louvor à Flor da estirpe real. Louvor e bênção à Mãe do Verbo Salvador!

E Cusa faz uma inclinação que mais profunda não podia ser, nem mesmo diante de Herodes, e diz:

– Seja bendita esta hora que a mim te conduz. Bendita sejas tu, Mãe de Jesus.

Maria responde suave e humilde:

– Bendito seja o nosso Salvador e benditos sejam os bons que amam o meu Filho.

Entram todos em casa, acolhidos com os mais vivos sinais de deferência.

Joana segura Maria pela mão e lhe sorri, dizendo:

– Permites-me que eu te sirva, não é verdade?

– Não a mim. A Ele. Ama e serve sempre a Ele. E já me terás dado tudo. O mundo não o ama… E isso é a minha dor.

– Eu sei. Por que esse desamor de uma parte do mundo, enquanto outros por Ele dariam até a própria vida?

– Porque Ele é o sinal de contradição para muitos. Porque Ele é o fogo que purifica o metal. O ouro fica limpo. As escórias caem no fundo e são jogadas fora. Isto me foi dito, desde quando Ele era pequeno… E dia a dia a profecia vai-se cumprindo…

– Não chores, Maria. Nós o amaremos e o defenderemos! –diz Joana para confortá-la.

Mas Maria continua o seu choro silencioso, que só Joana vê, em um canto semi-escuro, onde estão sentadas.

Tudo termina.