487. 487. No Templo, para a festa dos Tabernáculos.Discurso sobre a natureza de Cristo.


4 de tetembro de 1946.

487.1 O Templo está ainda mais lotado do que no dia anterior. No meio da multidão, que se agita no primeiro pátio, estou vendo muitos gentios, muitos mais do que ontem. Estão todos numa grande expectativa, tanto os israelitas, como os gentios. E falam gentios com gentios, hebreus com hebreus, entre si, nas pequenas cabanas que estão aqui e ali, sem perderem de vista as portas.

Os doutores, por baixo dos pórticos, se cansam de levantar a voz para chamarem a atenção e fazerem ostentação de eloquência. Mas o povo está distraído, e eles pregam a poucos alunos. Gamaliel está presente. Está em seu lugar. Mas não fala. Passeia, indo e voltando, por sobre o seu suntuoso tapete, com os braços cruzados, a cabeça inclinada, meditando, vestindo sua longa veste e o manto ainda mais longo, que ele desatou, e que está pendente de duas grandes rosas de prata, às suas costas, e lhe fazem uma cauda, que ele vai afastando com o pé, quando volta sobre os seus passos. Os seus discípulos mais fiéis, encostados aos muros, olham para ele em silêncio, com medo de perturbar a meditação de seu mestre.

Alguns fariseus, uns sacerdotes, mostram que têm muita coisa que fazer, e vão e vêm… O povo, que compreende bem quais são as suas verdadeiras intenções, os está mostrando e, a cada momento, parte sobre eles como um foguete aceso, para queimar sua hipocrisia. Mas eles fingem que não estão sentindo nada. Eles são poucos em comparação com os muitos que não odeiam a Jesus e que, pelo contrário, é que odeiam a eles, por isso acham mais prudente não reagir.

487.2 – Ei-lo! Ei-lo. Hoje Ele vem pela Porta Dourada!

– Corramos!

– Eu fico aqui. Ele virá falar. Não quero perder meu lugar.

– Nem eu. Mas aqueles que estão indo deixam lugar para nós que ficamos.

– Mas, será que o deixarão falar?

– Ora, se já o deixaram entrar!

– Sim, mas é outra coisa. Como a um filho da Lei, não podem impedi-lo de entrar. Contudo, como a um Rabi podem expulsá-lo, se o quiserem.

– Quantas diferenças! Se o deixam ir falar a Deus, por que não o podem deixar falar aos homens? –(isto foi um gentio que falou).

– É verdade –diz um outro gentio–. A nós que somos impuros, não nos deixais ir até lá, mas até aqui, sim, esperando que nos tornemos circuncisos…

– Cala-te, Quinto. É para isso que o deixam falar a nós. Esperando podar-nos, como se fôssemos umas árvores. Mas nós vimos para pôr suas ideias como uns ramos de enxerto em nós selvagens.

– Dizes bem. É o único que não nos odeia!

– Ah! É por isso! Quando se vai com uma bolsa de moedas fazer compras, não nos odeiam nem os outros.

– Olha! Nós gentios nos tornamos donos do lugar. Ouviremos bem. E veremos melhor! Eu gosto de ver os rostos dos inimigos dele. Por Júpiter! É uma luta entre rostos…

– Cala a boca! Não te deixes ouvir falando o nome de Júpiter. Aqui é proibido.

– Oh! Entre o Júpiter e o… Javé há muito pouca diferença. Entre deuses eles não se ofenderão… Eu vou com o bom desejo de escutar. Não vim para zombar. Fala-se tanto desse Nazareno, por toda parte! Eu disse: é boa ocasião, e eu vou ouvi-lo. Há pessoas que vão até mais longe para ouvir os oráculos…

– De onde vens?

– De Perge. E tu?

– De Tarso.

– Eu sou quase hebreu. Meu pai era um helenista de Icônio. Mas desposou uma romana em Antioquia de Cilícia e depois morreu, antes de eu nascer. Mas a semente é hebreia.

– Ele está tardando a chegar. Será que o terão capturado?

– Não tenhas medo. Os gritos da multidão já o teriam dito. Esses hebreus gritam como umas pegas irrequietas sempre…

– Oh! Ei-lo que vem. Virá também até aqui?

– Não estás vendo que de propósito ocuparam todos os lugares, menos este canto? Não estás ouvindo quantos sapos estão coaxando para se fingirem de mestres?

– Mas aquele lá está calado. É verdade que ele é o maior doutor de Israel?

– Sim, mas… Como é pedante! Eu o ouvi um dia e, para digerir sua ciência, tive que beber muitas taças de falerno na casa do Tito em Bezeta.

Eles se riem.

487.3 Jesus vai-se aproximando lentamente. Passa diante de Gamaliel, o qual não levanta nem a cabeça, depois vai ficar no lugar em que estava ontem.

As pessoas, que agora formam uma mistura de israelitas, prosélitos e gentios, compreendem que Ele está para falar, e sussurram:

– Aí está como Ele fala publicamente, e não lhe dizem nada.

– Quem sabe se os Príncipes e os Chefes já reconheceram nele o Cristo. Ontem mesmo, o Gamaliel, quando foi-se embora o Galileu, falou muito com uns anciãos.

– Será possível? Como terão feito para reconhecê-lo, assim de repente, se pouco antes o reputavam como alguém digno de morte?

– Talvez Gamaliel tivesse provas…

– Mas, que provas? Que provas quereis que haja em favor daquele homem? –grita um.

– Cala essa boca, chacal! Não és mais do que o último dos escrivães. Quem foi que te perguntou alguma coisa? –e lhe dão uma

vaia.

Ele se afasta. Mas o substituem outros, que não pertencem ao Templo, e que certamente são uns judeus incrédulos, e dizem:

– As provas, somos nós que as temos. Nós sabemos de onde é esse homem. Mas o Cristo, quando vier, ninguém saberá de onde vem. Dele não sabemos a origem. Mas, desse aí, é filho de um carpinteiro em Nazaré, a cidade toda pode dar aqui testemunho contra nós, se estivermos mentindo.

Enquanto isso, ouve-se a voz de um gentio que diz:

– Mestre, fala um pouco para nós hoje. Foi-nos dito que Tu afirmas terem todos os homens vindo de um só Deus, o teu, tanto assim, que lhes chamas filhos do Pai. Uma ideia semelhante tiveram uns nossos poetas estóicos. Eles disseram: ‘Nós somos da raça de Deus’. Os teus conterrâneos dizem que nós somos mais impuros do que os animais. Como conciliar estas duas tendências?

A questão é exposta segundo o costume das disputas filosóficas, pelo menos assim creio eu. Jesus já estava para responder, quando mais se acendeu a discussão entre os judeus incrédulos e os que creem, e uma voz estrídula fica repetindo:

– Ele é um simples homem. O Cristo não será assim. Tudo nele será exceção. A forma, a natureza, a origem…

487.4 Jesus se vira para aquela direção, e diz em voz alta:

– Então, vós me conheceis, e sabeis de onde venho? Estais bem certos disso? E também esse pouco que sabeis não vos diz nada mais? Não há uma confirmação das profecias? Mas vós não conheceis tudo em Mim. Em verdade, em verdade, Eu vos digo que Eu não vim por Mim, nem de onde vós pensais que Eu tenha vindo. Foi a própria Verdade, que vós não conheceis, Quem me mandou.

Um grito de ira se eleva da parte dos inimigos.

– A própria Verdade. Vós não conheceis as suas obras. Vós não sabeis por onde vão os seus caminhos. Aqueles caminhos pelos quais Eu vim. O ódio não pode conhecer os caminhos nem as obras do Amor. As Trevas não podem suportar a vista da Luz. Mas Eu conheço Aquele que me mandou, porque Eu sou dele, sou sua parte, e faço tudo como Ele. Ele me mandou para que Eu cumpra o que o seu Pensamento quer.

Forma-se um tumulto, os inimigos se arrojam sobre Ele, tentando pôr-lhe as mãos, capturá-lo e bater-lhe. Os apóstolos, os discípulos, o povo, os gentios, os prosélitos reagem para defendê-lo. Vêm correndo outros em defesa dos primeiros, talvez conseguiriam ajudá-los, mas Gamaliel, que até aquele momento parecia estranho a tudo, deixa o seu tapete, vai até Jesus, é repelido por quem o quer defender sob os pórticos, e grita:

– Deixai-o aí. Eu quero ouvir o que Ele diz.

Mais do que o pelotão de legionários, que vem da Torre Antônia para apaziguar o tumulto, é o que faz a voz de Gamaliel. O tumulto desaparece como um redemoinho que cessa, e o clamor se transforma em um murmúrio. Os legionários, por prudência, ficam perto da faixa exterior, mas sua presença já é inútil.

– Fala –ordena Gamaliel a Jesus–. Responde aos que te acusam.

O tom imperioso, mas não escarninho.

487.5Jesus anda para a frente, na direção do pátio. Pacatamente, Ele retoma a palavra. Gamaliel fica onde está, os seus discípulos se esforçam para levar-lhe o tapete e o escabelo, a fim de que ele se acomode melhor. Mas ele fica em pé, com os braços cruzados, a cabeça inclinada, os olhos fechados, concentrado para escutar.

– Vós me acusastes sem razão, como se Eu houvesse blasfemado, em vez de dizer a verdade. Eu, não é para defender-me, mas para dar-vos a Luz, a fim de que possais conhecer a verdade, que Eu falo. Não falo por Mim mesmo. Mas Eu falo, lembrando-vos as palavras nas quais vós credes e sobre as quais jurastes. Elas dão testemunho de Mim. Vós, Eu o sei, não vedes em mim mais do que um homem semelhante a vós, e inferior a vós. Ou, pelo menos, pensais que deveria ser um anjo este Messias, e que Ele deve ser de uma origem de tal modo misteriosa, que possa ser rei, bastando-lhe para isso a autoridade que sua origem lhe confere. Mas, quando foi, na história do nosso povo, nos livros que formam a nossa história e que serão livros tão antigos como o mundo, para que a eles os doutores de todos os países, de todos os tempos, hajam de recorrer para consolidarem sua ciência e suas pesquisas sobre o passado, com as luzes da verdade, quando foi que nesses livros foi escrito que Deus tenha falado a um dos seus anjos para dizer-lhe1: “De agora em diante, Tu serás meu Filho, porque Eu te gerei?”

Vejo Gamaliel mandar que lhe deem uma tabuinha e pergaminhos e assentar-se para escrever…

487.6 – Os anjos, criaturas espirituais, servos do Altíssimo e seus mensageiros, foram criados por Ele, como o homem, como os animais, como tudo mais que foi criado. Mas não foram gerados por Ele. Porque Deus somente pode gerar um outro Si mesmo, não podendo o Perfeito gerar outro que não seja um Perfeito, um outro Ser igual a Si mesmo, para não aviltar a sua pefeição, ao gerar uma criatura inferior a Si. Portanto, se Deus não pode gerar os anjos, nem elevá-los à dignidade de filhos seus, qual será o Filho, ao qual Ele diz: “Tu és o meu Filho, hoje te gerei? E de que natureza será , se gerando te dirá2 indicando a seus anjos: “E que o adorem todos os anjos de Deus”? Como será esse Filho, para merecer ouvir o Pai dizer-lhe que existe por sua graçar se os homens podem dizer o seu Nome, aniquilando-se para adorá-lo: “Vem sentar-te à minha direita, até que Eu faça dos teus inimigos o escabelo de teus pés”? Esse Filho não poderá ser outro, senão Deus, com o qual Ele divide os atributos e os poderes, e com o qual goza da Caridade que os alegra nos inefáveis e incognoscíveis amores da Perfeição por Si mesma.

Mas, se Deus não julgou conveniente elevar ao grau de Filho um anjo, teria, porventura podido dizer de um homem o que Ele disse deste que vos está falando — e muitos de vós, que agora me estais combatendo, estáveis presentes, quando Ele o disse lá no vau de Betábara, há dois anos? Vós ouvistes e tremestes. Porque a voz de Deus é inconfundível e, sem uma graça especial, abate a quem a ouve e lhe sacode o coração.

Que é, então, o Homem que vos fala? Será talvez um nascido da semente e da vontade do homem, como todos vós? Poderia o Altíssimo ter posto o seu Espírito a habitar em uma carne privada da graça, como é a dos homens nascidos de um desejo carnal? Poderia o Altíssimo, para dar uma satisfação pela grande culpa, ser pago pelo sacrifício de um homem? Pensai nisso. Ele, que não escolhe um homem para ser messias e Redentor, poderá então, escolher um homem para sê-lo? Poderia o Redentor ser somente Filho do Pai, sem assumir Natureza humana, mas com meios e poderes que estão acima das capacidades humanas? E o Primogênito de Deus poderia ter pais, se Ele é o Primogênito Eterno? Não ficam confusos os vossos pensamentos diante dessas interrogações que se levantam contra os reinos da Verdade, cada vez mais perto dela, e que encontram resposta somente em um coração humilde e cheio de fé?

Quem deve ser o Cristo? Um anjo? Mais do que um anjo. Um Deus? Sim, um Deus. Mas, estando unido a uma carne, afim de que essa possa cumprir a expiação de uma carne culpada. Cada coisa há de ser redimida por meio da matéria com a qual pecou. Por isso, Deus teria devido mandar um anjo para expiar as culpas dos anjos decaídos e, que expiasse por meio do Lúcifer e dos anjos seus seguidores. Porque, como sabeis, também Lúcifer pecou. Mas Deus ama o homem, e lhe manda o Homem, o Único perfeito, para redimir o homem e obter a paz com Deus. É justo que somente um Homem-Deus possa cumprir a redenção do homem e aplacar a Deus.

487.7 O Pai e o Filho se amam e se compreendem. O Pai disse: “Eu quero. E o Filho disse: Eu quero.” Depois o Filho disse: “Dá-me”, e o Pai disse: “Toma”, e o Verbo assumiu uma carne, cuja formação é misteriosa, e esta carne se chamou Jesus Cristo, o Messias, Aquele que deve redimir os homens, levá-los ao Reino, vencer o demônio, acabar com a escravidão.

Vencer o demônio! Um anjo não podia, nem pode fazer o que o Filho do Homem pode. Por isso, para a grande obra, eis que Deus não chama os anjos, mas o homem. Eis o homem, de cuja origem vós não tendes certeza, ó negadores, ou pensadores. Eis o Homem. O Homem aceitável por Deus. O homem representante de todos os seus irmãos. O homem que é, como vós, pela semelhança. Mas o Homem superior a vós, diferente de vós por sua proveniência, o qual não por homem, mas por Deus foi gerado e, consagrado ao seu ministério, estando diante do excelso altar para ser Sacerdote e Vítima, pelos pecados do mundo, eterno e supremo Pontífice, Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.

Não tremais. Eu não estendo as mãos para a tiara pontifical. Uma outra grinalda me espera. Não tremais. Eu não tomarei de vós o Racional. Um outro já está pronto para Mim. Mas tremei somente que não sirva para vós o Sacrificio do Homem e a Misericórdia do Cristo. Eu vos amei tanto, que obtive do Pai que pudesse aniquilar a Mim mesmo. Eu vos amei tanto, e vos amo tanto, que pedi para assumir toda a dor do mundo, a fim de dar-vos a salvação eterna.

487.8 Por que não quereis acreditar em Mim? Ainda não podeis crer?

Não está dito3 do Cristo: “Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque”? Mas, quando foi que teve início o sacerdócio? Terá sido nos tempos de Abraão? Não. E vós o sabeis. O Rei de Justiça e de Paz, que aparece para anunciar-me, com uma figura profética, ainda na aurora do nosso povo, não vos adverte que existe um sacerdócio mais perfeito, que vem diretamente de Deus, assim como Melquisedeque, do qual ninguém nunca pôde dizer quais eram suas origens e que é chamado “o sacerdote”, e sacerdote que permenecerá para sempre? Não credes mais nas palavras inspiradas? E, se credes nisso, como nunca acreditastes, ó doutores, não sabeis dar uma explicação aceitável daquelas palavras que dizem, que falam de Mim: “Tu és sacerdote eternamente segundo a ordem de Melquisedeque”?

Portanto, existe um outro sacerdócio, além e antes de Aarão. E dele, se disse “tu és.” Não se diz: “tu foste.” Não se diz “serás.” És sacerdote eternamente. Eis, pois, que esta frase preanuncia que o eterno sacerdote não nascerá da conhecida estirpe de Aarão, não será de nenhuma estirpe sacerdotal. Mas será de uma proveniência nova, misteriosa, como a de Melquisedeque. É dessa proveniência. E, se o poder de Deus comanda, isso é sinal de que quer renovar o sacerdócio e o rito, para que se torne proveitoso a toda a Humanidade.

Conheceis vós a minha origem? Não. Sabeis quais são as minhas obras? Não. Será que estais percebendo bem os frutos delas? Não.Vós não conheceis nada a respeito de Mim. Estais vendo, pois, que também neste ponto Eu sou o “Cristo”, cuja Origem, Natureza e Missão devem ficar desconhecidas, até quando a Deus lhe aprouver revelá-las aos homens. Felizes daqueles que irão saber, que sabem crer, antes que a Revelação tremenda de Deus os esmague, com o seu peso, sobre o chão, e os pregue e esmague, sob os raios da fulgurante e poderosa verdade, trovejada pelos céus e proclamada aos brados pela Terra: “este era o Cristo de Deus…”

Vós dizeis: “Ele é de Nazaré. Seu pai era José. Sua Mãe é Maria. Não. Eu não tenho pai que me tenha gerado como homem. Eu não tenho mãe, que me tenha gerado como Deus. Contudo Eu tenho uma carne e a assumi pela misteriosa obra do Espírito Santo, vim até o meio de vós, passando por um tabernáculo santo. Vos salvarei, depois de ter formado a Mim mesmo, pela vontade de Deus, vos salvarei, fazendo sair o verdadeiro Mim mesmo do Tabernáculo do meu Corpo, para consumar o grande sacrifício de um Deus que se imola para a salvação do homem.

487.9 Pai, meu Pai! Eu te disse no começo dos dias: “Eis-me aqui para fazer a tua vontade.” Eu te disse, naquela hora de graça, antes de deixar-te para ir revestir-me de carne, com a qual Eu pudesse padecer: “Eis-me pronto a fazer a tua vontade.” Eu te direi ainda, e sempre, até que a tua vontade se cumpra…

Jesus, que está com os braços elevados para o céu, está rezando, mas agora já os vai abaixando, os recolhe sobre o peito, inclina a cabeça, fecha os olhos, e mergulha em uma oração secreta.

As pessoas estão cochichando, nem todos compreenderam, e, pelo contrário, a maior parte (e eu com ela) não compreendeu. Nós somos ignorantes demais. Mas percebemos que Ele falou de grandes coisas. E nos calamos, admirados.

Os de má vontade, que não compreenderam, ou que não quiseram compreender, escarnecem dele, dizendo:

– Ele está delirando!

Mas não ousam dizer mais nada, e se afastam dali, ou se dirigem para as portas, balançando a cabeça. Tanta prudência eu creio que seja produzida pelas lanças e pelas adagas romanas, que reluzem ao sol, ao lado do último muro.

487.10 Gamaliel abre caminho por entre os que ficaram. Chega até perto de Jesus, que ainda está rezando, absorto, longe da multidão e do lugar, e o chama:

– Rabi Jesus!

– Que queres, rabi Gamaliel? –pergunta Jesus, levantando a cabeça, com os olhos ainda absortos em uma visão interna.

– Quero de Ti uma explicação.

– Fala.

– Retirai-vos todos! –ordena Gamaliel, e em tom tão alto, que os apóstolos, os discípulos, os seguidores, os curiosos, e até os próprios discípulos de Gamaliel, se afastam imediatamente.

Os dois ficam sozinhos, um em frente do outro. E se olham. Jesus está sempre em sua postura de doçura e mansidão, e o outro, autoritário, sem querer, involuntariamente soberbo em seu aspecto. Essa sua apresentação certamente lhe adveio por causa dos anos que ele passou fazendo reverências exageradas.

– Mestre… Foram-me contadas algumas de tuas palavras. Elas foram ditas em um banquete… que eu não aprovei porque não era sincero. Eu combato, ou não, mas sempre abertamente… Fiquei meditando naquelas palavras. E as fiquei comparando com aquelas que estão na minha lembrança… E te fiquei esperando aqui, para fazer-te umas perguntas sobre elas. Mas antes, Eu quis ouvir-te falar… Eles não entenderam. Eu espero poder entender. Escrevi tuas palavras, enquanto Tu as dizias. Para meditar nelas. Não para te ofender. Acreditas em mim?

– Acredito. Queira o Altíssimo fazer que elas inflamem o teu espírito.

– Assim seja. Escuta. As pedras, que vão estremecer, serão por acaso, os nossos corações?

– Não, rabi. São estas –fazendo um gesto ao redor de si, mostra as muralhas do Templo–. Por que perguntas isso?

– Porque o meu coração tremeu, quando me foram referidas as tuas palavras no banquete, e as tuas respostas aos provocadores. Eu pensei que aquele tremor fosse o sinal…

– Não, rabi. Ainda é pouco demais o tremor do teu coração e o de poucos outros, para ser aquele sinal que não deixa dúvidas. Ainda que tu, com um raro juízo do humilde conhecimento de ti mesmo, te estejas referindo ao teu coração como a uma pedra. Oh! Rabi, é verdade mesmo que tu não podes fazer do teu empedernido coração um luminoso altar que acolha a Deus? Não para vantagem minha, rabi. Mas para que a tua justiça seja completa…

Jesus olha docemente para o mestre ancião, que está segurando a barba e faz que os dedos entrem por baixo do capuz, fecha o rosto e, murmurando, curva a cabeça para dizer:

– Não posso… Ainda não posso… Mas eu espero… Aquele sinal, Tu o darás mesmo?

– Eu o darei.

– Adeus, Rabi Jesus.

– Que o Senhor venha a ti, rabi Gamaliel.

Separam-se. Jesus faz um sinal aos seus, e com eles sai do Templo.

487.11 Escribas, fariseus, sacerdotes, discípulos do rabi se precipitam, como uns abutres, ao redor de Gamaliel, que está pondo na cintura as folhas que escreveu.

– E, então? Que te parece? É um louco? Fizeste bem em escrever aqueles delírios. Eles nos servirão. Já te decidiste? Estás persuadido? Ontem… Hoje… Que não ocorra mais nada para persuadir-te.

Todos falam tumultuosamente, e Gamaliel fica calado, enquanto arruma a cintura, fecha o tinte iro, que nela está pendurado, entrega ao seu discípulo a tabuinha sobre a qual se apóia para escrever no pergaminho.

– Não respondes? Desde ontem, não dizes nada… –acossa-o um seu colega.

– Estou ouvindo. Não a vós. A Ele. Estou procurando reconhecer nas palavras de hoje a palavra que Ele me disse um dia, aqui mesmo.

– Por acaso, a encontras? –dizem, rindo, muitos deles.

– Assim como um trovão, que faz um barulho diferente, conforme estejamos mais perto ou mais longe dele. Mas sempre é o rumor de um trovão.

– Um som sem conclusões, então? –zomba um.

– Não te rias, Levi. No trovão pode estar até a voz de Deus, e nós sermos tão estultos, para crermos que ela é um barulho de nuvens, que se rasgam… Não te rias, tu também, Elquias, nem tu, Simão, de que o trovão não tenha produzido um raio, que nos reduza a cinzas…

– Então… tu… estás quase dizendo que o Galileu é aquele menino que, em companhia de Hilel, tu creste que era um profeta, e que aquele menino, que é o homem de hoje, seja o Messias… –perguntam-lhe os motejadores, ainda que em surdina, pois Gamaliel se faz respeitar.

– Não digo nada. Digo que o rumor do trovão é sempre um rumor de trovão.

– Mais perto, ou mais longe?

– Ai de mim. As palavras são mais fortes, como a idade o exige. Mas os vinte anos passados tornaram vinte vezes mais fechada a minha inteligência sobre o tesouro que ela possui. O som já penetra mais fracamente.

Gamaliel deixa a cabeça cair sobre o peito, meditativo.

– Ah! Ah! Ah! Estás ficando velho e te tornando um estulto, Gamaliel! Tomas os fantasmas por realidades. Ah! Ah! Ah!

Todos se riem.

Gamaliel faz um desdenhoso encolher de ombros. Depois apanha o seu manto, pois ele é muito amplo, vira as costas para todos, sem responder nada, orgulhoso em seu silêncio.

1 para dizer-lhe, como no Salmo 2,7.
2 dirá, no Salmo 97,7 (vulgata: vós todos, ou sois anjos; neo-vulgata: todos os deuses); merecer ouvir o Pai dizer-lhe, como no Salmo 110,1.
3 é dito no Salmo 110,4; Rei de Justiça e de Paz é Melquisedeque, anota Maria Valtorta em uma cópia datilografada, onde remete ao Gênesis 14,18-20.


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