499. 499. Fuga de Esebom e encontrocom um mercador de Petra.
22 de setembro de 1946.
499.1 Não estou vendo a cidade de Esebon. Jesus e os seus já estão saindo de lá e, pelos rostos dos apóstolos, compreendo que ela foi uma desilusão. Eles estão acompanhados, ou melhor, perseguidos à distância de poucos metros por uma multidão vociferante e ameaçadora.
– Estes lugares ao redor do Mar Salgado são malditos como o próprio mar –diz Pedro.
– Este lugar! É sempre aquele do tempo de Moisés, e Tu és bom demais para não puni-lo, como foi punido1 naquela ocasião. Mas isso seria necessário. Subjuga-o com as forças do Céu e as da terra. Até o último homem e o último lugar –diz Natanael, que está desassossegado, com um lampejo de raiva nos olhos encovados.
A raça hebraica transparece fortemente no apóstolo magro e ancião sob o ímpeto do ódio e o faz tornar-se semelhante aos muitos rabis e fariseus que contrastam sempre com Jesus.
Ele se vira e levanta a mão, dizendo:
– Paz! Paz! Eles também serão atraídos pela Verdade. Mas é preciso haver paz. É preciso ter compaixão. Nós nunca viemos até aqui. Eles não nos conhecem. Outros lugares foram assim na primeira vez, mas depois mudaram.
– É que estes são lugares como Massada2. Eles estão vendidos! Voltemos para o Jordão –insiste Pedro.
Mas Jesus vai indo pela estrada miliária, pela qual entraram agora, em direção ao sul. Os mais irados contra Ele o perseguem, chamando a atenção dos viandantes.
499.2 Um deles — deve ser algum rico mercador, ou pelo menos alguém que depende de um mercador — que vai guiando uma longa caravana, que vai indo para o norte, observa pasmado, e faz o camelo parar. Com o dele, param todos os outros.
Ele olha para Jesus, olha para os apóstolos, todos inermes e de aspecto benigno, olha depois para os vociferantes ameaçadores, que já chegaram até bem perto, e, curioso, os interpela. Não ouço suas palavras, mas sim as que foram gritadas como resposta:
– É o Nazareno maldito, o doido, o endemoninhado. Não o queremos dentro dos nossos muros!
O homem não pergunta mais nada. Vira o camelo, grita qualquer coisa para um dos seus que o acompanhava de perto, instiga o animal que, com poucos passos, chega até os apóstolos.
– Em nome do vosso Deus, quem é entre vós o Jesus Nazareno?
–pergunta ele aos apóstolos Mateus, Filipe, Simão o Zelotes e Isaque que estão no último grupinho.
– Por que o perguntas? Tu também queres dar-lhe aborrecimentos? Já não bastam os dos compatriotas dele? Também tu te metes nisto? –diz, inquieto, Filipe.
– Eu sou melhor do que aqueles. E peço um favor. Não me rejeiteis. Eu o peço em nome do vosso Deus.
Qualquer coisa na voz do homem persuadiu os quatro e Simão diz:
– É o primeiro, que vai à frente de todos, junto com os dois mais jovens.
O homem instiga de novo o seu animal, porque Jesus, que já estava na frente, havia andado ainda mais para diante, durante aquele breve diálogo do qual Jesus nada sabia.
499.3 – Senhor! Escuta a um infeliz… –diz ele, logo que chegou perto de Jesus.
Jesus, João e Marziam viraram-se assustados.
– Que queres?
– Eu sou de Petra, Senhor. Por conta de outros, eu levo as mercadorias que vêm do Mar Vermelho até Damasco. Não sou pobre. Mas é como se o fosse. Tenho dois filhos. Senhor, uma doença lhes atacou os olhos e eles estão cegos, um totalmente — foi o primeiro que ficou doente —, e o outro já está quase cego e logo o ficará de todo. Os médicos não fazem milagres, mas Tu, sim.
– Como sabes disso?
– Conheço um rico mercador que te conhece. Ele se hospeda onde eu me hospedo. Algumas vezes eu trabalho para ele. Vendo os meus filhos, ele me disse: “Somente Jesus de Nazaré poderia curá- los. Procura-o.” Eu te teria ido procurar. Mas tenho pouco tempo e devo seguir as estradas mais recomendadas.
– Quando viste Alexandre?
– Entre as vossas duas festas da primavera. Desde então, já fiz duas outras viagens, mas não te encontrei mais. Senhor, tem piedade!
– Homem, Eu não posso descer até Petra, nem tu podes deixar a caravana…
– Sim que eu posso. Arisa é de confiança. Eu o mando para a frente, indo devagar. E eu vou, voando até Petra. Tenho um camelo mais veloz do que o vento do deserto e mais ágil do que uma gazela. Pego os filhos e um outro servo fiel. E te alcanço e Tu os curas… Oh! Que venha a luz aos olhos deles que são como umas estrelas negras, mas que agora estão cobertos como por uma espessa nuvem. Eu irei para a frente, enquanto que eles voltam para sua mãe. Estou vendo que tu também estás indo para a frente, Senhor. Para onde é que te diriges?
– Eu ia indo para Debon…
– Não vás para lá. Está cheia de… daqueles lá de Maqueronte. São lugares malditos, Senhor. Não te negues aos infelizes, Senhor, para te dares aos malditos.
– É o que dizia eu –resmunga Bartolomeu, por entre a barba, e muitos lhe dão razão.
499.4Agora já estão todos ao redor de Jesus e do homem de Petra. Os cidadãos de Esebon, ao contrário, tendo visto que a caravana parece favorável ao Perseguido, voltam para trás. A caravana está parada, esperando o resultado e a decisão.
– Homem, se Eu não for pelas cidades do sul, volto para o norte. Não está dito que eu te atenda.
– Eu sei que para vós de Israel eu sou um imundo. Eu sou incircunciso e não mereço ser atendido. Mas Tu és o Rei do mundo, e no mundo estamos também nós…
– Não se trata disso. É… Como podes crer que Eu faça o que os médicos não puderam fazer?
– Porque Tu és o Messias de Deus, e eles são homens. Tu és o Filho de Deus. Quem me disse foi o Misace, e eu creio que Tu podes fazer tudo, até para um pobre como sou eu.
A resposta é garantida, pois o homem a completa, deixando-se deslizar até o chão, mesmo sem ter feito antes o camelo ajoelhar-se, e se prostra completamente na poeira da estrada.
– A tua fé é maior do que a de muitos. Vai. Sabes onde fica o Nebo?
– Sim, Senhor. Aquele monte lá é o Nebo. Nós também sabemos a história de Moisés, o Grande. Grande demais para deixar de ser conhecido. Mas Tu és maior. Como uma rocha comparada a um monte, assim são Moisés e Tu.
– Vai para Petra. Eu te esperarei no alto do Nebo…
– Há um lugar aos pés do Monte para os visitantes. Lá há albergues… Eu lá ficarei uns dez dias, quando muito. Instigarei o animal e, se aquele que te manda me protege, não encontrarei tempestades.
– Vai. E volta o mais depressa que puderes. Eu preciso ir a outros lugares…
– Senhor! Eu… não sou circunciso. A minha bênção para Ti seria uma desonra. Mas a de um pai nunca o seria. Eu te abençoo, e me vou.
Ele pega um pequeno apito de prata e apita três vezes. O homem que está à frentre da caravana vem a galope. Falam um com o outro. Saúdam-se. Depois o homem volta para a caravana e ela se põe em movimento. O outro torna a montar em seu camelo e vai-se embora para o sul a galope.
499.5 Jesus e os seus se põem a caminho.
– Iremos mesmo para Nebo?
– Sim. Deixaremos as cidades das encostas dos Montes Abarim. Muitos pastores estarão lá. Conheceremos, por meio deles, o caminho para o Monte Nebo, e eles, por meio de nós, conhecerão o caminho para o Monte de Deus. Depois permaneceremos alguns dias como fizemos nos montes de Arbela e junto ao Carit.
– Oh! Como vai ser bonito! E nos tornaremos melhores. Sempre daqueles lugares nós descemos mais fortes e melhores –diz João.
– E nos falarás de tudo o que o Nebo nos faz lembrar. Irmão, tu te lembras de quando éramos pequenos, um dia em que3 fazias o papel de Moisés que abençoava a Israel antes de morrer? –diz Judas de Alfeu.
– Sim. Tua Mãe gritou ao ver-te como morto. Pois agora estamos indo mesmo para o Nebo –diz Tiago de Alfeu.
– Tu abençoarás a Israel. És o verdadeiro chefe do Povo de Deus!
–exclama Natanael.
– Mas lá não se morre. Tu não morrerás nunca, não é, Mestre?
–pergunta, com um risinho estranho, Judas de Keriot.
– Eu morrerei e ressurgirei, como foi dito. Muitos homens morrerão. Muitos homens morrerão sem terem morrido naquele dia. Enquanto os justos ressurgirão, mesmo que tenham morrido há anos, e estejam vivos em sua carne, mas no espírito definitivamente mortos naquele dia não ressurgirão. Toma cuidado para não seres tu um destes.
– Tu, toma cuidado para que não te ouçam dizer que ressurgirás. Dirão que isso é uma blasfêmia, replica Judas de Keriot.
– É verdade. E Eu a digo.
– Que fé a daquele homem! E a daquele Misace! –diz Zelotes, tentando mudar de assunto.
– Mas, quem é o Misace? –perguntam aqueles que não estavam presentes no ano passado, durante a viagem ao Além-Jordão4.
Afastam-se, falando dessas coisas, enquanto Jesus, com Marziam e João, retomam o assunto que antes havia sido interrompido.
1 foi punido, como se narra em Gênesis 19,23-29; Deuteronômio 29,22.
2 como Massada, em 392.
3 um dia que..., em 38.3/5.
4 viagem ao Além-Jordão, nos capítulos 286-294.
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