56. 56. Simão Zelote e Judas Tadeu unidos na sorte.


28 de outubro de 1944.

56.1 Sois mesmo belas, ó margens do Jordão, assim como éreis no tempo de Jesus! Eu vos vejo e me deleito na vossa majestosa paz verde-azulada, soante de águas e frondes com um tom doce como melodia.

Estou andando por uma estrada muito longa e também muito bem conservada. Deve ser uma estrada mestra, ou melhor, militar, traçada pelos romanos para convergir as diversas regiões com a capital. Perto dela desliza o Jordão, mas ela não passa exatamente ao longo dele. Está separada do rio por uma zona silvestre, que parece cumprir a finalidade de reforçar as beiras oferecendo alguma resistência às águas nos tempos de cheia. Do outro lado da estrada os bosques continuam, de modo que a rua parece um túnel natural, sobre o qual se entrelaçam os ramos frondosos. É um bom lugar de descanso para os viajantes nestas regiões de sol ardente.

O rio, e naturalmente também a rua, têm, no ponto em que me encontro, uma curva lenta, de modo que eu vejo a continuação da margem frondosa, como se fosse uma muralha verde destinada a represar um açude de águas tranqüilas. Parece quase um lago de um parque senhoril. Mas a água não é a água parada de um lago. Ela desliza, se bem que lentamente. E a prova disso é o sussurro que ela faz contra os primeiros caniços, os mais audazes que nasceram justamente ali em baixo no leito do rio, e a ondulação que têm as longas fitas formadas por suas folhas, suspensas sobre a superfície da água e movidas por ela. Há também um grupo de salgueiros com flexíveis ramos pendentes, que confiaram as pontas de suas cabeleiras verdes ao rio que parece penteá-las com a graça de uma carícia, estendendo-as suavemente ao fio da água corrente.

Há silêncio e paz na hora matutina. Só os cantos, os chamados dos pássaros, o sussurro das águas e frondes e um grande brilho do orvalho sobre a erva verde, alta, que está entre as árvores; elas ainda não estão endurecidas e amareladas pelo sol do verão, mas tenras e novas para nascerem, depois da primaveril efusão de águas que vêm nutrir a ter­ra, até à profundidade, de umidade e de sucos vitais.

56.2 Três viajantes estão parados nesta volta da estrada bem no meio da curva. Estão olhando para baixo e para cima, para o sul, onde está Jerusalém e para o norte, onde fica a Samaria. Perscrutam entre a colunata das árvores, para ver se chega alguém que estão esperando. São eles Tomé, Judas Tadeu e o leproso curado. Estão conversando.

– Não estás vendo nada?

– Eu não.

– Nem eu.

– No entanto este aqui é o lugar.

– Tens certeza disso?

– Toda certeza, Simão. Um dos seis me disse enquanto o Mestre se afastava entre as aclamações da multidão, depois do milagre de um aleijado que pedia esmola, que foi curado junto à porta dos Peixes: “Nós agora vamos para fora de Jerusalém. Espera-nos a cinco milhas entre Jericó e Doco, na curva do rio, ao longo da rua arborizada.” É esta. Disse também: “Lá nós estaremos dentro de três dias, ao romper do dia.” Já é o terceiro dia, e a quarta vigília nos apanhou aqui.

– Ele virá? Talvez teria sido melhor segui-lo, a partir de Jerusalém.

– Não podias ainda andar por entre a multidão, Simão.

– Se meu primo disse que vem até aqui, até aqui virá. Ele cumpre sempre o que promete. É só esperar.

56.3 – Tu sempre estiveste com Ele?

– Sempre. Desde quando Ele voltou a Nazaré foi para mim um bom companheiro. Sempre estivemos juntos. Somos da mesma idade, sendo eu um pouco mais velho. Além disso, dos meus irmãos eu era o preferido do pai Dele, irmão de meu pai. Também a mãe me queria muito bem. Eu cresci mais com ela do que com minha mãe.

– Ela te queria… Então agora não te quer mais o mesmo bem?

– Oh! Sim. Mas nós temos estado um pouco divididos desde que Ele se fez profeta. Meus parentes não gostam disso.

– Quais parentes?

– Meu pai e os dois filhos mais velhos. O outro está titubeante… Meu pai está muito velho e não tive coragem de irritá-lo. Mas agora… agora, não mais. Agora eu vou onde o coração e a mente me levam. Vou a Jesus. Creio que não ofendo a Lei fazendo assim. Mas já… se não fosse justo o que eu quero fazer Jesus me diria. Eu farei o que Ele disser. É lícito a um pai criar obstáculos a um filho no caminho do bem? Se eu sinto que ali está a salvação, por que impedir-me de tê-la? Por que os pais, às vezes, são nossos inimigos?

Simão suspira, como quem se lembra de coisas tristes e inclina a cabeça, mas não fala.

É Tomé quem responde:

– Eu já superei esse obstáculo. Meu pai me ouviu e me compreendeu. Ele me abençoou dizendo: “Vai. Que esta Páscoa seja para ti a libertação da escravidão de uma expectativa. Feliz de ti que podes crer. Eu espero. Mas, se for Ele mesmo, e ao segui-lo perceberes que é, vem dizer ao teu velho pai: ‘Vem. Israel já tem o Esperado’.”

– És mais feliz do que eu. E dizer que nós temos vivido ao seu lado!… E não cremos, logo nós da família!… E dizemos, ou melhor, eles dizem: “Ele perdeu o juízo!”

56.4 – Olhai, lá vem um grupo de pessoas –grita Simão–. É Ele, é Ele! Reconheço a sua cabeça loira! Oh! Vinde. Vamos correr!

E põem-se a caminhar em passos rápidos para o sul. Agora que o alto do arco foi alcançado, as árvores escondem o resto da rua, de modo que os dois grupos se encontram quase de frente quando menos esperam. Jesus parece estar subindo do rio, porque está entre as árvores da margem.

– Mestre!

– Jesus!

– Senhor!

Os três gritos do discípulo, do primo e do curado ressoam cheios de adoração e de festiva acolhida.

– Paz a vós!

Eis a bonita, inconfundível voz, cheia, sonora, tranqüila, expressiva, clara, viril, doce e incisiva:

56.5 – Tu também estás aqui, meu primo Judas?

Eles se abraçam. Judas chora.

– Por que este pranto?

– Oh! Jesus! Eu quero estar Contigo!

– Eu te esperei sempre. Por que não vieste?

Judas inclina a cabeça e fica calado.

– Eles não quiseram! E agora?

– Jesus, eu… eu não posso obedecer a eles. Eu quero obedecer somente a Ti.

– Mas Eu não te dei uma ordem.

– Não. Tu, não. Mas é a tua missão que nos dá ordem! É Aquele que Te mandou que fala aqui, no meio do meu coração, e me diz: “Vai a Ele!” É aquela que te gerou e que para mim tem sido uma mestra suave que, com seu olhar de pomba, me diz, sem fazer uso de pala­vras: “Sê de Jesus!” Poderei eu não fazer conta daquela voz excelsa que me perfura o coração? Desta oração de santa que certamente me suplica para o meu bem? Só porque eu sou teu primo por parte de José, não deverei Te conhecer por aquilo que és, enquanto o Batista Te conheceu, aqui, nas margens deste rio, ele que nunca Te havia visto, e Te saudou como o “Cordeiro de Deus”? E eu, eu que cresci junto Contigo, eu que procurei tornar-me bom Te imitando, eu que me tornei filho da Lei pelo merecimento de tua mãe, e que dela aprendi, não os seiscentos e treze preceitos dos rabinos, além da Escritura e das orações, porém a alma disso tudo, eu não deveria ser capaz de nada?

– E o teu pai?

– Meu pai? Não lhe falta pão nem assistência, e depois… Tu me dás o exemplo. Tu tiveste o pensamento no bem do povo, mais do que no pequeno bem de Maria. E ela está sozinha. Diz-me, Tu, meu Mestre, não é lícito talvez, sem faltar com o respeito, dizer a um pai: “Pai, eu te amo. Mas acima de ti está Deus, e a Ele eu sigo”?

– Judas, meu parente e amigo, Eu te digo: tu estás bem adiantado no caminho da Luz. Vem. É lícito falar ao pai assim quando é Deus que chama. Não há nada acima de Deus. Até as leis do sangue cessam, ou seja, sublimam-se, porque com as nossas lágrimas damos aos pais, às mães, uma ajuda muito maior e por coisas mais eternas do que a jornada do mundo. Conosco os conduzimos para o Céu e pelo mesmo caminho do sacrifício dos afetos, os levamos para Deus. Portanto, fica, Judas. Eu te esperei e estou feliz por reaver-te, amigo da minha vida nazarena.

Judas está comovido.

56.6 Jesus se volta para Tomé:

– Obedeceste fielmente. É a primeira virtude do discípulo.

– Eu vim para ser-te fiel.

– E o serás. Eu te digo. Vem, tu que estás envergonhado na sombra. Não temas.

– Meu Senhor!

O ex-leproso está aos pés de Jesus.

– Levanta-te. Qual o teu nome?

– Simão.

– Qual a tua família?

– Senhor… era poderosa… eu também era poderoso… mas o ódio de seitas e… erros da juventude estragaram o seu poder. Meu pai… Oh! Devo falar contra ele que me custou lágrimas, e não para o céu. Tu o vês, já viste que presente ele me deu!

– Ele era leproso?

– Não. Não era leproso, como eu também não. Mas era doente de uma enfermidade de outro nome, que nós de Israel costumamos pôr junto com outros diversos tipos de lepra. Ele… — naquele tempo a sua casta ainda triunfava — e ele viveu e morreu prestigiado em sua casa. Eu… se Tu não me tivesses salvado, iria morrer nos sepulcros.

– Tu és sozinho?

– Sozinho. Eu tenho um servo fiel que cuida de tudo o que me resta. Mandei já um aviso a ele.

– E tua mãe?

– Ela… morreu.

O homem parece embaraçado. Jesus o observa atentamente:

– Simão, tu me disseste: “Que devo fazer por Ti?” E agora Eu te respondo: “Segue-me”.

– Imediatamente, Senhor!… Mas… mas eu… deixa que eu Te diga uma coisa. Eu sou, eu era chamado “Zelote”1 pela casta, e “cananeu” por minha mãe. Tu vês. Eu sou escuro. Em mim eu tenho sangue de escrava. Meu pai não tinha filhos de sua mulher e me teve de uma escrava. A mulher dele, boa mulher, me criou como filho e cuidou de mim em minhas muitas doenças até morrer…

– Aos olhos de Deus, não há escravos ou libertos. Aos seus olhos só há uma escravidão: a do pecado. E Eu vim para removê-la. Eu vos chamo a todos porque o Reino é de todos. Tens cultura?

– Tenho. Eu tinha também o meu lugar entre os grandes. Isso, enquanto o meu mal ficou escondido sob as roupas. Mas, quando subiu ao rosto… meus inimigos aproveitaram-se de meu mal para me confinarem entre os “mortos.” No entanto, como disse um médico de Cesaréia, romano, a quem eu fui consultar, a minha não era verdadeira lepra, mas uma impigem hereditária, pelo que bastava que eu não procriasse para não propagá-la. Posso eu não maldizer meu pai?

– Deves não maldizê-lo. Ele te fez todos os males…

– Oh, sim. Dilapidador dos bens, vicioso, cruel, sem coração nem afeto. Ele me negou a saúde, as carícias, a paz, me carimbou com um nome de desprezo e com uma doença que é uma marca de opróbrio… De tudo ele se fez dono. Também do futuro de seu filho. Tudo ele me tirou: até a alegria de ser pai.

– Por isso é que Eu te digo: “Segue-me.” Ao meu lado, e seguindo-me, encontrarás Pai e filhos. Levanta o olhar, Simão. Lá o verdadeiro Pai te está sorrindo. Olha pelos espaços da terra, pelos continentes, pelas regiões. Há neles filhos e filhos, filhos de alma para os sem filhos­. Estão à tua espera e a espera de muitos outros como tu. Sob o meu sinal não há mais abandonos. No meu sinal não há mais solidões nem diferenças. É um sinal de amor. E amor dá. 56.7Vem, Simão, que não tiveste filhos. Vem, Judas, que deixas teu pai por amor de Mim. Eu vos uno na sorte.

Ele está com os dois junto a si. Tem as mãos sobre os seus ombros, como quem toma posse, como para impor um jugo comum. Depois, diz:

– Eu vos uno. Mas agora vos separo. Tu, Simão, ficarás aqui, com Tomé. E prepararás com ele os caminhos da minha volta. Daqui a não muito tempo Eu voltarei e quero que povos e povos me esperem. Dizei aos doentes, e tu o podes dizer, que vai chegar Aquele que cura. Dizei aos povos que esperam, que o Messias está entre o seu povo. Dizei aos pecadores que já há quem perdoa a fim de dar a força para subir…

– Mas, seremos capazes disso?

– Sim. Basta que faleis assim: “Ele já chegou. Ele vos está chamando. Ele vos espera. Ele vem trazer-vos a graça. Ficai aqui prontos para vê-lo”; e às palavras, acrescentai a narração do que já sabeis. E tu, Judas, meu primo, vem Comigo e com estes. Mas tu ficarás em Nazaré.

– Por que, Jesus?

– Porque deves preparar-me o caminho em minha pátria. Achas que é uma missão pequena? Na verdade, não há nenhuma outra mais grave…

Jesus suspira.

– E eu conseguirei?

– Sim e não. Mas isso será suficiente para justificar-nos.

– Justificar-nos de quê? E junto à quem?

– Junto a Deus. Junto à pátria. Junto à família. Não poderão censurar-nos, porque temos oferecido o bem. E se a pátria e a família desprezarem o que fazemos, não teremos culpa de sua perdição.

– E nós?

– Vós, Pedro? Vós voltareis às redes.

– Por que?

– Porque Eu vos instruirei lentamente e virei buscar-vos quando vos achar preparados.

– Mas Te veremos, então?

– Com certeza. Eu virei a vós freqüentemente, ou vos farei chamar, quando Eu estiver em Cafarnaum. Agora, saudai-vos, amigos, e vamos. Eu vos abençôo, a vós que ficais. Minha paz esteja convosco.

E termina a visão.



1 “Zelote” pela casta, a dos zelotes, assim chamados pelo seu zelo em observar a lei e em opor-se a toda a dominação estrangeira sobre o povo eleito. Mas o significado da expressão escapa a Maria Valtorta, que em rodapé à página autografa anota: quem são os zelotes? Igualmente ignoradas pela escritora as palavras “sciemanflorasc” (em 503.9/10) e “gulal” (em 542.7).