522. 522. Chegada a Jericó. O amor terreno da multidãoe o amor sobrenatural do convertido Zaqueu.


1 de novembro de 1946.

522.1Jesus está sendo esperado por muitos. Pessoas e mais pessoas estão paradas pelos campos próximos da cidade, que o está esperando e, um homem que foi colocar-se no alto de uma nogueira mal lança um grito, dizendo: “Lá vem o Cordeiro de Deus!”, o povo todo se põe de pé e vai correndo para Jesus, que vem à frente, com as primeiras névoas do crepúsculo.

– Mestre! Mestre! Nós te ficamos esperando tanto tempo! Os nossos doentes! As nossas crianças! A tua bênção! Os velhos te esperam para morrerem em paz. Se Tu nos abençoares, Senhor, ficaremos preservados da desventura! –dizem todos ao mesmo tempo, enquanto Jesus vai levantando a mão em repetidos gestos de bênção e dizendo sempre:

– Paz, paz, paz a todos vós!

Os apóstolos, que estão ainda com Ele, são agarrados e arrastados pelo meio da multidão e separados de Jesus, que está quase impedido de caminhar por aqueles mesmos que se queixaram docemente de o terem esperado muito.

522.2O pobre Zaqueu luta com todas as forças para chegar até Jesus e fazer-se ouvir por Ele, ou pelo menos para ser visto. Mas, tão baixo como ele é, e não sendo muito ágil e forte, vai, sendo sempre empurrado pelas novas ondas de gente; e o grito dele desaparece no meio do grande clamor e da confusão de cabeças, de braços e de vestes, que se agitam, e a pessoa dele desaparece. Inutilmente ele suplica e algumas vezes até os censura, sem conseguir um pouco de piedade. As pessoas são sempre egoístas quanto ao uso das coisas que lhes causam prazer, e cruéis com os fracos. O pobre Zaqueu, extenuado pelos esforços que fez e convencido da inutilidade deles, perde a vontade de lutar e se resigna a ficar onde está. Na verdade, como conseguir ir mais adiante se de todas as estradas estão chegando pessoas e mais pessoas, e os caminhos são como outros tantos córregos, que vertem suas águas em um único rio, que é a estrada, por onde Jesus vai? E cada novo afluente forma mais uma onda, que torna mais densa a multidão, até chegar ao ponto de muitos ficarem com medo do lugar onde estão. E também se afasta dali o pobre Zaqueu.

Tadeu o vê e procura abrir caminho para arrancá-lo daquele canto da estrada para o qual a multidão o tinha empurrado e fechado. Por sua vez, Judas de Alfeu é empurrado por alguém que o encalça e o segura pelos ombros, mas essa tentativa não dá certo. Tomé, fazendo de seu corpo robusto uma arma, trabalha com os cotovelos, grita com seu forte vozeirão: “Abri alas!”, tentando a mesma coisa… Mas, nada! As pessoas são uma muralha mais sólida do que uma rocha e, ao mesmo tempo, flexível como a borracha. Dobra-se, mas não quebra. O dela já não é um abraço, é uma corrente inquebrantável. Até Tomé se resigna.

E Zaqueu perde toda esperança, porque Dídimo é o último dos apóstolos apanhados pela enchente. Mas esta finalmente passa… Já passou… Pedaços de pano, flores, franjas, grampos de mulheres, broches de vestidos estão espalhados pelo chão, a testemunhar a violência que houve. Há até uma pequena sandália de menino, que parece estar esperando, com tristeza, pelo pezinho que a perdeu… Zaqueu vai pôr-se atrás de todos, triste também ele como aquela sandália pequena arrancada do seu pequeno dono pela multidão.

522.3Jesus nem se vê mais. Uma curva da rua o encobriu aos olhos do pobre Zaqueu… Mas quando ele chega à praça, como o último da multidão, ali onde tempos atrás ele tinha a sua banca, vê que o povo parou, vociferando, pedindo, suplicando. E vê que Jesus, tendo subido à pequena escadaria de uma casa, faz com os braços e a cabeça sinal de que não. E diz alguma coisa que não se pode entender por causa da gritaria da multidão. E, enfim, vê que Jesus, tendo descido com dificuldade do seu pedestal, começa a andar de novo e muda de direção, isso mesmo, muda de direção, indo precisamente para onde está a casa dele. Então, Zaqueu, toma coragem. As pessoas são muitas, mas a praça é larga e, portanto, a multidão aí fica menos compacta. E pode ser… atravessada, como uma sebe não muito fechada, por alguém que tenha vontade de fazê-lo e não tenha medo de ficar ferido. E Zaqueu, agindo como se fosse uma cunha, uma catapulta, um aríete, bate, choca-se, penetra, recebe e distribui socos nos rostos e cotoveladas nos estômagos, pontapés nas canelas, e vai abrindo caminho e avançando… E ei-lo que chega pelo lado oposto… Mas aqui termina a largura e ei-lo na frente da muralha impenetrável. Poucos passos já o separam de Jesus, que está parado perto da casa dele. Mas se o separassem desertos e rios ele poderia ter mais esperança de sair-se bem e alcançá-lo. Ele se inquieta e brada, impondo suas ordens:

– Preciso ir para minha casa! Deixai-me passar! Não estais vendo que Ele quer ir à minha casa?

Antes ele não o tivesse dito! Suas palavras alertaram ainda mais a multidão e muitos, agora, querem ter o Mestre em suas casas. Uns se riem, zombando do pobre Zaqueu, e outros lhe dão uma má resposta. Ninguém tem piedade. Pelo contrário, põem-se todos a gritar e a se agitar, a fim de que o Mestre não veja nem ouça Zaqueu. E alguns deles gritam:

– Já conseguiste dele demais, velho pecador!

Eu acho que em toda essa má vontade não deixa de estar presente a lembrança das antigas cobranças e dos vexames… O homem, ainda que esteja profundamente bem disposto para o sobrenatural, conserva quase sempre um cantinho no qual está vivo o amor às suas economias, e no qual está ainda mais viva a lembrança de quem esbanjou aquelas economias…

522.4Mas a hora da prova já passou para Zaqueu e Jesus o premia por sua constância. Jesus grita, com toda a força de sua voz:

– Zaqueu, vem cá! Vem a Mim. Deixai-o passar que Eu quero entrar na casa dele.

Obedecer é necessário. A multidão se comprime para abrir passagem e Zaqueu vai para frente, vermelho de tão cansado, e procura arrumar os cabelos despenteados, a veste desabotoada, com a cinta que caiu, com as franjas mais para cima dos rins do que para diante. Ele procura o manto… Mas quem vai saber onde ficou o manto… Não importa. Ele já está diante de Jesus, meio inclinado para reverenciá-lo. Não pode fazer mais do que isso, porque o espaço só dá para curvar-se um pouco.

– A paz esteja contigo, Zaqueu. Vem, pois, para que Eu te dê o beijo da paz. Bem que tu o mereceste –diz Jesus, sorrindo, com um sorriso realmente alegre, juvenil, que de fato o faz parecer rejuvenescido.

– Oh! Sim, Senhor. Eu bem que o mereci. Como é difícil chegar até Ti –diz Zaqueu, erguendo-se o mais que pode para pôr-se à altura de Jesus, que se curva para beijá-lo.

E ao fazer isso, deixa ver um rosto que está sangrando por um arranhão na face direita, com um olho arroxeado por alguma cotovelada que o acertou na órbita.

Jesus o beija e depois diz:

– Mas Eu não te estou recompensando por este cansaço. E, sim, pelos outros, que muitas pessoas não conhecem, mas que por Mim são conhecidos. Sim, é verdade. Chegar até Mim é difícil e não é a multidão o único obstáculo, e nem é este o obstáculo mais difícil que se encontra para chegar até Mim. Mas, ó povo que quase me transportaste em triunfo, o obstáculo mais difícil, o mais complexo, e que se torna cada vez mais complexo depois que se tentou quebrá-lo ou vencê-lo, é o próprio eu.

522.5Eu parecia não estar vendo, mas vi tudo, e a tudo dei o seu valor. E que foi que Eu vi? Vi um pecador convertido, um que era duro de coração, que era amante de comodidades, que era soberbo, vaidoso, luxurioso e avarento. E o vi despojar-se do seu eu antigo, até nas menores coisas, transformar-se em suas maneiras e afetos para ir correndo ao seu Salvador, e lutar para chegar até Ele, suplicar humildemente, receber as caçoadas e censuras com paciência, sofrer no corpo os empurrões da multidão, e sofrer no coração por ver-se repelido por todos lá para trás, sem poder nem mesmo receber um olhar meu. Eu vi outras coisas nele. Coisas que vós também conheceis, mas que não quereis levar em conta mesmo se por meio delas tenhais recebido alívio.

Vós direis: “E como é que Tu as conheces se Tu não moras no meio de nós?” Eu vos respondo: assim como Eu leio no coração dos homens, assim também não deixo de saber quais as ações dos homens. E sei ser justo e recompensar na proporção do caminho feito para chegar até Mim, dos esforços feitos para arrancar a floresta selvagem que cobria o seu espírito, beneficiá-lo, tirar dele tudo o que não fosse a árvore da vida e fazê-lo rei sobre o seu eu, rodeá-lo com as plantas das virtudes, a fim de que seja honrado, velando para que nenhum animal imundo, ou algum ser rastejante, ou insaciável na corrupção da lascívia, ou ocioso — estas são as diversas paixões más — viesse fazer seu ninho logo na parte mais viçosa, mas somente habitasse em vosso espírito o que é bom e capaz de louvar ao Senhor, isto é, os afetos sobrenaturais, como outros tantos pássaros canoros e mansos cordeirinhos dispostos a ser imolados, dispostos ao louvor perfeito, por amor de Deus.

522.6E como Eu não deixava de conhecer as obras de Zaqueu, os seus pensamentos, os seus cansaços, assim também não deixei de saber que, em muitos desta cidade, que me aclamaram, existe mais um amor sensível do que espiritual. Se Me amásseis de um modo justo, teríeis tido piedade do vosso concidadão e não o teríeis humilhado, recordando-lhe o seu passado. Aquele passado que ele cancelou e do qual Deus não se lembra1, porque se o perdão já foi concedido não precisa ser dado de novo, a não ser que o homem volte a pecar. E torna a julgá-lo pelo pecado novo, não o faz quanto àquele que já lhe foi perdoado.

Agora Eu vos digo, e vo-lo dou como companheiro nas meditações da noite, que não consiste somente em fazer aclamações de que me amais de verdade, mas em fazer aquilo que Eu faço e ensino, em praticar o amor recíproco, em ser humildes e misericordiosos, lembrando-vos de que um mesmo barro vos formou quando à parte material, e que o barro está sempre inclinado para o pântano e que, por isso, se até agora aquilo que em vós é força, o espírito, vos conservou acima do pântano e nunca conheceu desfeitas — o que é uma coisa impossível, porque o homem é pecado, e só Deus é sem pecado — amanhã o vosso espírito poderia conhecê-las em número e grau ainda maiores do que as do velho pecador, que agora renasceu pela Graça, tornado novo por ela, como um menino que acabou de nascer, tendo a seu favor a humildade, que lhe vem da lembrança de ter sido pecador, e a vontade ardente de fazer, para o resto de sua vida, tanto bem, quanto for necessário para encher uma vida longa e toda consagrada ao bem; e também para reparar, com medida cheia e transbordante, todos os males que possa ter praticado.

Amanhã Eu vos falarei. Para esta tarde, Eu já falei. Ide com a minha admoestação e bendizei a Deus que vos manda o médico, que faz a amputação de vossa sensualidade oculta, escondida por baixo de um véu de sanidade espiritual, como umas doenças ocultas que roem a vida por baixo de aparências de saúde… 522.7Vem aqui, Zaqueu.

– Sim, meu Senhor. Não tenho mais do que um velho servo e eu mesmo é que abro a porta, e com ela também o meu coração comovido, oh! E quanto! Pela tua infinita bondade.

E tendo aberto a cancela, faz Jesus entrar, com os apóstolos e o guia, rumo à casa, pelo meio do jardim que se transformou em uma horta… Até sua casa está despojada de tudo o que é supérfluo. Zaqueu acende uma luz e chama o servo.

– Olha: o Mestre está aqui. Ele vai dormir aqui com os seus e vai cear aqui. Será que tu preparaste tudo como eu mandei?

– Sim. Exceto as verduras que eu agora vou colocar na água fervendo, tudo o mais está pronto.

– Então, muda a tua roupa e vai dizer àqueles que tu sabes que Ele está aqui, e que venham.

– Eu vou, patrão. Bendito és Tu, Mestre, pois me fazes morrer contente!

E lá se vai.

– É o servo de meu pai, que ficou comigo. Os outros, eu os licenciei todos. Mas ele me é muito querido. Ele foi a voz que não se calava nunca, quando eu pecava. E eu por isso o maltratava. Agora, depois de Ti, é a pessoa que amo mais do que qualquer outra… Vinde, meus amigos. Lá dentro há fogo e o que pode restaurar os membros cansados e gelados. Tu, Mestre, fica no meu próprio quarto… –e o vai guiando para um cômodo, no fim de um corredor.

522.8Ele entra, fecha a porta, põe água quente em um jarro, tira as sandálias de Jesus e coloca-se a serviço. Antes de pôr-lhe de novo as sandálias, beijando-lhe o pé nu, o põe sobre seu pescoço, dizendo:

– Para que esmagues o que resta do velho Zaqueu!

Depois ele se levanta, olha para Jesus com um sorriso que lhe treme nos lábios, um sorriso humilde, meio misturado com as lágrimas nos olhos. Depois faz um gesto, como para mostrar tudo ao redor. E diz:

– Eu pequei muito neste ambiente. Mas agora mudei tudo. Para que as coisas que tinham para mim aquele sabor não estivessem mais diante de mim. As lembranças… Eu sou fraco… Eu somente deixei que ficasse viva a recordação da minha conversão com estas paredes nuas, com esta cama dura… O resto eu vendi, porque tinha ficado sem dinheiro e queria fazer o bem. Senta-te, Mestre…

Jesus se assenta em uma cadeira de madeira e Zaqueu, no chão, diante de seus pés, meio sentado e meio ajoelhado. E começa a falar de novo.

– Não sei se fiz bem e se podes aprovar o que eu fiz. Talvez eu tenha começado por onde devia acabar. Mas eles também estão aqui. E somente um velho publicano é que pode não ter repugnância deles em Israel. Não. Eu disse mal. Não somente um velho publicano, mas Tu também, aliás, foste Tu que me ensinaste a amá-los verdadeiramente. Antes eles eram meus cúmplices no vício, mas eu não os amava. Agora eu os repreendo, mas os amo. Tu e eu. O todo Santo e o pecador convertido. Tu, porque nunca pecaste e queres dar-nos a alegria, que é a tua de Homem sem culpa. E eu, porque pequei muito e sei como é doce a paz que nos vem ao sermos perdoados, redimidos, renovados. Eu a quis para eles. E os procurei. Oh! No começo foi difícil. Eu queria fazê-los bons e precisava fazer-me bom… Que trabalho! Vigiar-me, porque eu percebia que estavam me vigiando. Bastaria qualquer coisinha para fazer com que eles se afastassem… E depois… Muitos não podiam evitar o pecado, por causa do tipo de serviço em que trabalhavam. Eu vendi tudo para ter o dinheiro com que mantê-los até que achassem outros serviços, talvez até não muito bem pagos e mais cansativos, mas honestos. E sempre há alguns deles que vêm, uns um pouco por curiosidade, outros cheios da vontade de se mostrarem homens e não somente uns animais. E a estes eu devo dar hospedagem até que se tornem obedientes ao novo jugo. Muitos foram circuncidados. Já era o primeiro passo em direção do verdadeiro Deus. Mas eu não o imponho. Eu tenho braços generosos para abraçar as misérias, pois eu não posso ter nojo delas. Eu gostaria de poder dar a essa gente o que Tu gostarias de dar a todos: a alegria de ficar sem remorsos, uma vez que não podemos ser como Tu és, sem culpa. Agora, dize-me, Ó meu Senhor, se eu me adiantei demais.

– Tu trabalhaste bem, Zaqueu. Tu dás a eles mais do que aquilo que tu mesmo esperas e do que pensas que eu queira dar aos homens. Não somente a alegria de serem perdoados e ficarem sem remorsos, mas a de passarem, e logo, a ser cidadãos do meu Reino celeste. Eu não deixava de saber destas tuas boas obras. Mas Eu te acompanhava no teu modo de proceder, pela estrada árdua mas gloriosa da caridade, pois isso é caridade, e da mais genuína. Tu compreendeste a palavra do Reino. Poucos a compreenderam, porque ainda sobrevive neles a convicção de já serem santos e doutos. Tu, tendo tirado do coração o passado, ficaste vazio, e pudeste, e até mesmo quiseste, colocar dentro de ti as palavras novas, o futuro, o eterno. Continua assim, Zaqueu, e serás o coletor do teu Senhor Jesus –termina Jesus, sorrindo e pondo a mão sobre a cabeça de Zaqueu.

– Tu me aprovas, Senhor, em tudo?

– Em tudo, Zaqueu. 522.9Eu disse isto também a Nique, que me estava falando de ti. Nique te compreende. Ela está aberta à piedade universal.

– Nique me ajudava muito. Mas agora só a vejo em cada Lua Nova. Eu teria gostado de acompanhá-la. Mas Jericó é própria para o meu novo trabalho…

– Ela não ficará por muito tempo em Jerusalém… Tu te mudarias para lá sem motivo. Depois Nique voltará para cá…

– Depois de quando, Senhor?

– Depois que o meu Reino houver sido proclamado.

– O teu Reino… Eu tenho medo daquele momento. Os que agora se dizem teus fiéis saberão ser naquela hora? Pois certamente haverá sublevações e lutas entre os que te amam e os que te odeiam… Tu sabes disso, Senhor, que os teus inimigos estão assalariando até ladrões, a ralé da sociedade, para terem sequazes preparados para fazerem número e se imporem aos outros? Eu fiquei sabendo que um dos meus pobres irmãos… Oh! Entre os que roubam legalmente, os que roubam a honra e os que despojam um viandante, por acaso haverá muita diferença? Eu também roubei legalmente até que Tu me salvaste, mas eu não teria, nem mesmo então, ajudado a quem te odeia… Este é um jovem. Um ladrão. Certa tarde, eu senti um impulso para ir até Adomim esperar lá três dos meus colegas, que vinham de Efraim com alguns animais comprados por preço menor, e encontrei-o emboscado em um desfiladeiro. E eu lhe falei… Eu nunca tive família e, no entanto, creio que se tivesse tido filhos lhes teria falado como a este, para mudarem de vida. Então ele me explicou como e porquê se tinha tornado ladrão… É assim. Quantas vezes os verdadeiros culpados são aqueles que parecem não estar fazendo nada de mal!… Eu lhe disse: “Não roubes mais. Se tens fome, sempre um pão há para ti. Acharei para ti um trabalho honesto. E, visto que ainda não te tornaste um homicida para, salva-te!” E o persuadi. Ele me disse que tinha ficado sozinho porque os outros haviam sido comprados com muito dinheiro por quem te odeia, agora estão prontos para fomentar sublevações, a se dizerem teus para escandalizar o povo, escondidos na gruta do Cedron, no sepulcro para o lado do Faselo, nas cavernas que há ao norte da cidade, por entre as tumbas dos Reis e dos Juízes, por toda parte… Que é que eles querem fazer, Senhor?

– Josué pôde parar o sol. Mas eles, ainda que usem de todos os meios, não poderão parar a vontade de Deus.

– Eles estão com o dinheiro! O Templo é rico, e não é corbã2 para eles o ouro oferecido ao Templo, desde que lhes sirva para triunfar.

– Eles não têm nada. A força é minha. O edifício deles cairá, como se fosse feito com as folhas que os ventos do outono secaram, e com as quais um menino faz um castelo. Não temas, Zaqueu. O teu Jesus será Jesus.

– Assim queira Deus, Senhor!… Estão nos chamando. Vamos!…

1 não se lembra, no sentido expresso em Ezequiel 18,21-22; 33,14-16.
2 corbã é a oferta sacra para doar ao Templo e apropriada pelo uso profano. Os fariseus abusavam disso, que Jesus condena em 300.8, bem como em Marcos 7,11.


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