623. 623. Aparição a José de Arimateia,a Nicodemos e a Manaém.
4 de abril de 1945.
623.1Manaém, com os pastores, vai apressado pelos declives que conduzem de Betânia a Jerusalém. Uma estrada bonita leva diretamente ao Horto das Oliveiras. E Manaém se encaminha nessa direção depois de ter deixado os pastores, que querem entrar na cidade isoladamente para ir ao Cenáculo.
Pouco antes, eu suponho pelas conversações deles, devem ter encontrado João, que estava indo para a Betânia levando a notícia da Ressurreição, e a ordem de ficarem todos na Galileia por uns poucos dias. Os pastores se afastam, porque eles querem repetir pessoalmente a Pedro aquilo que já disseram a João, isto é, que o Senhor apareceu a Lázaro e mandou que eles se reunissem no Cenáculo.
Manaém vai subindo por uma estrada secundária para ir a uma casa que fica no meio do olival. É uma bela casa, que tem ao seu redor uma fileira de cedros do Líbano, que domina, com seus imponentes volumes, as muitas oliveiras do monte. Ele entra com segurança e, ao servo que corre ao seu encontro, ele diz:
– Onde está o teu patrão?
– Está lá com José. Ele chegou faz tempo.
– Vai dizer-lhe que eu estou aqui.
O servo vai e volta com Nicodemos e José. As vozes dos três se misturam em um só grito:
– Ele ressuscitou!
Eles olham um ao outro, espantados por saberem disso todos juntos.
623.2Depois Nicodemos pega o amigo e o conduz a uma sala interna. José os acompanha.
– Tiveste coragem de voltar?
– Sim. Pois ele disse: “Ao Cenáculo.” E eu bem que quero ver, agora que Ele está glorioso, para tirar-me o pesar da lembrança de tê-lo visto amarrado e coberto de imundícies, como se Ele fosse um bandido tratado com desprezo pelo mundo.
– Oh! Nós também gostaríamos de vê-lo… E para tirar de nós o horror da lembrança de o termos visto supliciado, dos ferimentos sem número que Ele recebeu… Mas Ele só se tem mostrado às mulheres –murmura José.
– Mas isso é justo. Somente elas é que lhe têm sido fiéis sempre, durante estes anos. Nós estávamos sempre com medo. A Mãe bem que o disse: “É um amor bem pobre o vosso, que ficou esperando até esta hora para manifestar-se!” –objeta Nicodemos.
– Mas para desafiar Israel, que lhe foi mais contrário do que nunca, teríamos necessidade de vê-Lo. 623.3Se tu soubesses!… Os guardas falaram… Agora os chefes do Sinédrio e os fariseus, não ainda convertidos com tanta ira do Céu, estão em busca de todos aqueles que sabem da sua Ressurreição para prendê-los. Eu enviei o pequeno Marcial — um menino escapa mais e melhor — para avisar os que estão na casa para ficarem atentos. Tiraram o dinheiro sagrado do Tesouro do Templo para pagar os guardas, para que digam que os discípulos o raptaram e que aquilo que haviam dito antes, sobre a Ressurreição, era mentira por medo da punição. A cidade está fervendo como um caldeirão. E entre os discípulos alguns estão saindo dela por medo… Quero dizer, os discípulos que não estão em Betânia…
– Sim. Nós teríamos necessidade de sua bênção para termos coragem.
– A Lázaro Ele já apareceu… Era quase a hora terça, Lázaro parecia transfigurado.
– Oh! Lázaro bem que o merece! Nós… –diz José.
– Sim. Nós estamos ainda cheios de dúvidas e de pensamentos humanos, como quem está com uma lepra mal curada… E ninguém como Ele pode dizer: “Eu quero que fiqueis limpos dela!” Será que Ele agora não falará mais, agora que ressuscitou, não falará a nós que somos os menos perfeitos?” –pergunta Nicodemos.
– E não fará mais milagres, para castigar o mundo, agora que Ele ressuscitou da morte e das misérias da carne? –pergunta novamente José.
Mas as perguntas deles não podem ter senão uma só resposta. A Dele. E a Dele não lhes é dada. Os três ficam desanimados.
623.4Depois Manaém diz:
– Pois bem. Eu vou ao Cenáculo. Se me matarem, Ele absolverá a minha alma e eu o verei no Céu. Senão o verei aqui na terra. Manaém é tão inútil em suas fileiras que, se cair, deixará o mesmo vazio que deixa uma flor colhida em um prado repleto de corolas: ninguém notará sua falta…
E se levanta para sair. Mas, enquanto ele vai-se virando para a porta, esta se ilumina toda pela presença do Divino Ressuscitado que, com as palmas das mãos abertas em um gesto de abraço, o faz ficar parado, dizendo:
– A paz a ti! Para vós a paz! Mas ficai onde estais tu e Nicodemos. José pode ainda ir, se crê. Mas aqui me tendes, e eu digo a palavra que pedistes: “Eu quero que fiqueis limpos de tudo o que de impuro ainda há na vossa fé.” Amanhã descereis para a cidade. Ide às casas dos irmãos. Nesta tarde Eu vou falar somente aos apóstolos. Adeus. E Deus esteja sempre convosco. Manaém, obrigado. Tu creste mais do que estes. Obrigado também ao teu espírito. A vós muito obrigado pela vossa piedade. Fazei que ela se mude em algo mais elevado, com uma vida cheia de fé intrépida.
Jesus desaparece por detrás de uma incandescência deslumbrante.
Os três se sentem felizes, mas perturbados.
– Mas, era Ele? –pergunta José.
– E não ouviste a sua voz? –responde Nicodemos.
– A voz… Poderá tê-la um espírito também… Tu, Manaém, que estavas bem perto dele, que te parece?
– Um corpo verdadeiro. Belíssimo. Ele respirava. Eu percebia a respiração dele. E seu corpo tinha calor. Além disso… as Chagas, eu as vi. Pareciam abertas agora. Não estavam sangrando, mas eram carne viva. Oh! Não fiqueis duvidando mais! Que Ele não vos castigue. Nós vimos o Senhor. Quero dizer, vimos Jesus glorioso, como a sua Natureza exige! E… Ele nos ama ainda… Em verdade, se agora Herodes me oferecesse o Reino, eu lhe diria: “Para mim é pó e esterco o teu trono e tua coroa. Nada supera aquilo que eu possuo. Eu tenho o feliz conhecimento do Rosto de Deus.”