127. 127. Os discursos de Águas Belas. Não tentarásao Senhor teu Deus. Testemunho do Batista.
11 de março de 1945.
127.1 É um dia muito claro de inverno. Sol e vento e um céu sereno, uniforme, sem a menor sombra de nuvem. São as primeiras horas do dia. Ainda uma pequena camada de geada, ou melhor, de orvalho quase gelado, parece ter feito cair um pó de diamantes no chão e sobre o gramado.
Três homens vêm em direção à casa, caminhando firmes, como quem sabe para onde vão indo. Finalmente avistam João, que está atravessando a eira, levando ânforas de água tirada do poço. E o chamam.
João se vira, põe no chão as ânforas e diz:
– Vós aqui? Bem-vindos! O Mestre vos verá com alegria. Vinde, vinde, antes que o povo comece a chegar. Agora está vindo tanta gente!
São os três pastores, discípulos de João Batista. Simeão, João e Matias seguem contentes o apóstolo.
– Mestre, aqui estão três amigos. Olha –diz João, entrando na cozinha, onde está aceso um grande fogo de gravetos, espalhando um agradável odor de bosque e de louro queimado.
– Oh! A paz esteja convosco, meus amigos. Que aconteceu para virdes até Mim? Terá sucedido alguma desventura ao Batista?
– Não, Mestre. Foi com licença dele que viemos. Ele te saúda e te pede que recomendes a Deus o leão que está perseguido pelos arqueiros. Não se ilude quanto à sorte que o espera. Mas por ora está livre. E está feliz porque sabe que Tu tens muitos fiéis. Até aqueles que antes eram dele. Mestre… nós também desejávamos ardentemente sê-lo, mas… não queremos abandonar João agora que ele está sendo perseguido. Tu nos compreendes… –diz Simeão.
– Aliás, Eu vos abençoo pelo que estais fazendo. O Batista merece todo respeito e amor.
– Sim. Dizes bem. É grande o Batista e sempre mais se agiganta. Parece uma agave que, quando está perto de morrer se transforma no grande candelabro da flor de sete formas e flameja e perfuma. Assim é ele. E sempre diz: “Só queria vê-lo mais uma vez…” Ver a Ti. Nós recolhemos esse grito de sua alma e, sem dizermos a ele, o trouxemos a Ti. Ele é o “Penitente”, o “Abstinente.” E se mortifica também no desejo santo de te ver e te ouvir. Eu sou Tobias, agora Matias. Mas acho que o arcanjo não deveria ser dado ao pequeno Tobias. Tudo nele é sabedoria.
– Não quer dizer que Eu não o verei… 127.2Mas foi só para isto que vós viestes? É penoso viajar com um tempo assim. Hoje está sereno. Mas, há já três dias, choveu muito sobre as estradas!
– Não foi só para isso. Há alguns dias, Doras, o fariseu, foi purificar-se. Mas o Batista lhe negou o rito, dizendo-lhe: “A água não chega onde há uma grande crosta de pecado. Só há um que te pode perdoar. O Messias.” Então ele disse: “Eu irei a Ele. Quero sarar e acho que o mal que eu tenho é um malefício causado por Ele.” Aí o Batista o expulsou, como teria expulsado satanás. E, enquanto ele ia indo embora, encontrou-se com João, que ele conhecia desde o tempo em que ia ter com Jonas, do qual era meio parente, e lhe disse: “Eu vou. Todos estão indo. Esteve lá até o Manaém e até as… (eu digo meretrizes, mas ele disse um nome mais sujo) vão lá. Águas Belas está cheia de iludidos. Mas se Ele me curar e retirar a maldição de minhas terras, que estão escavadas, como por máquinas de guerra, por exércitos de toupeiras, vermes, gafanhotos e outros animais, que desenterram as sementes, roem as raízes das árvores, das frutíferas e das vinhas, sem que haja nada que os vença, eu me tornarei amigo Dele. Mas se não for assim… ai Dele!” Nós lhe respondemos: “É com este coração que vais até lá?” E ele respondeu: “E quem acredita no satanás? Afinal, como Ele convive com as meretrizes, pode fazer aliança também comigo.” Nós quisemos vir dizer-te isto, para que possas ver o que fazer com Doras.
– Já está tudo feito.
– Tudo feito? Ah! É verdade. Ele tem carros e cavalos, nós, somente as pernas. Quando foi que ele veio?
– Ontem.
– E que foi que aconteceu?
– Aconteceu o seguinte: que, se vos agrada ocupar-vos com o Doras, podeis ir à sua casa em Jerusalém para o seu velório. Estão preparando-o para ser sepultado.
– Morreu?
– Morreu. Aqui. Mas não falemos mais nele.
– Sim, Mestre… 127.3Somente… dize-nos uma coisa. É verdade tudo o que ele disse de Mananen?
– Sim. Isso vos desagrada?
– Oh! Isso é a nossa alegria! Tanto que nós lhe falamos sobre Ti, lá no Maqueronte! E que quer o apóstolo, senão que o Mestre seja amado? Isto é o que João quer, e nós com ele.
– Falas bem, Matias. A sabedoria está contigo.
– Eu não o creio. Mas agora a encontramos… Antes da Festa dos Tabernáculos, ele foi te procurar onde nós estávamos. E nós lhe dissemos: “O que procuras não está aqui. Mas logo estará em Jerusalém para a Festa dos Tabernáculos.” Assim dissemos, porque o Batista nos disse: “Vede aquela pecadora: é uma crosta de sujeira, mas dentro tem uma chama que deve ser alimentada E que vai tornar-se tão forte, que irromperá da crosta e tudo queimará. Cairá a sujeira e ficará somente a chama.” Assim disse ele. Mas… é verdade que dorme aqui, como foram dizer-nos dois poderosos escribas?
– Não. Está em uma das estrebarias do feitor, a mais de um estádio daqui.
– Línguas de inferno! Ouviste? E eles!!
– Deixai que falem. Os bons não creem nas palavras deles, mas em minhas obras.
– João também diz isso. 127.4Há dias, alguns discípulos dele lhe disseram, na nossa presença: “Rabi, Aquele que estava contigo, do lado de lá do Jordão e do qual deste testemunho, agora está batizando. E todos vão para Ele. Tu ficarás sem fiéis.” E João respondeu: “Feliz o meu ouvido, que ouve este anúncio! Vós não sabeis que alegria me estais dando. Sabei que o homem não pode tomar nada, se não lhe for dado pelo Céu. Vós bem podeis dar testemunho de que eu disse: ‘Eu não sou o Cristo, mas aquele diante de quem eu fui mandado para preparar-lhe o caminho’. O homem justo não se apropria de um nome que não é seu e, mesmo que alguém quisesse elogiá-lo, dizendo-lhe: ‘Tu és Aquele’, ou seja, o santo, ele diz: ‘Não. Na verdade, não. Eu sou servo dele’. E igualmente tem grande alegria, porque diz: ‘Eu pareço um pouco com Ele, se está me tomando por Ele’. E o que deseja aquele que ama, senão parecer-se com o seu amado? Somente a esposa tem prazer com o esposo. O paraninfo não poderia ter prazer com ela, porque seria imoralidade e furto. Mas o amigo do esposo, que está perto dele e ouve suas palavras cheias de alegria nupcial, sente uma alegria tão viva, que é quase semelhante àquela que torna feliz a virgem que ele desposou, antegozando o mel das palavras nupciais. Esta é a minha alegria, e é completa. Que é que faz ainda o amigo do esposo, depois de ter durante meses servido ao amigo e ter acompanhado a esposa até a casa? Retira-se e desaparece. Assim eu! Um só fica, o esposo com a esposa: o Homem com a Humanidade. Oh! Que palavra profunda! É necessário que Ele cresça e que eu diminua. Quem vem do Céu está acima de todos. Patriarcas e Profetas desaparecem à sua vinda, porque Ele é como o sol, que tudo ilumina de uma luz tão viva, que os astros e os planetas que não têm luz própria, se vestem com ela, e aqueles que têm luz própria se anulam, diante do seu supremo esplendor. Assim acontece porque Ele vem do Céu, enquanto que os Patriarcas e os Profetas irão para o Céu, mas não vieram do Céu. Quem vem do Céu é superior a todos. E anuncia o que viu e ouviu. Mas ninguém pode aceitar o seu testemunho entre aqueles que não aspiram pelo Céu e, por isso, renegam a Deus. Quem aceita o testemunho Daquele que desceu do Céu, confirma pela sua crença, que Deus é verdadeiro, e não uma fábula sem verdade alguma, e sente a Verdade porque tem a alma cheia do seu desejo. Porque Aquele que Deus enviou pronuncia palavras de Deus, porque Deus lhe dá o Espírito com plenitude, e o Espírito diz: ‘Eis-me aqui. Toma-me, pois Eu quero estar Contigo, Tu, delícia do nosso amor’. O Pai ama o Filho sem medida e pôs todas as coisas em sua mão. Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna. Mas quem se recusa a crer no Filho, não verá a Vida. E a cólera de Deus cairá sobre ele.”
Assim ele disse. Estas palavras ficaram gravadas em minha mente para eu dizê-las a Ti –diz Matias.
– E Eu te agradeço e louvo por isso. 127.5O último Profeta de Israel não é Aquele que desce do Céu, mas, agraciado com os dons divinos desde o ventre de sua mãe — vós não o sabeis, mas Eu vo-lo digo — é aquele que mais se aproxima do Céu.
– Qual é? Qual é? Conta para nós! Ele diz de si mesmo: “Eu sou o pecador.”
Os três pastores estão ansiosos para saber e os discípulos estão igualmente desejosos de saber.
– Quando minha Mãe me trazia consigo, estando grávida de Mim-Deus, como Ela é Humilde e Amorosa, foi ajudar a mãe de João, prima Dela por parte de mãe e também grávida, em sua velhice. O Batista já tinha a sua alma1, porque já estava no sétimo mês de sua formação. E o embrião do homem, fechado no ventre materno, saltou de alegria, ao ouvir a voz da Esposa de Deus. Precursor até nisto, ele precedeu aos redimidos, porque de um ventre ao outro difundiu-se a Graça, que penetrou nele, saindo a culpa original da alma do menino. Onde Eu digo que na terra são três os possuidores da Sabedoria, assim como no Céu três são os que são Sabedoria: o Verbo, a Mãe e o Precursor, na terra. O Pai, o Filho e o Espírito Santo, no Céu.
– Nossa alma está cheia de espanto… Quase como quando nos foi dito: “Nasceu o Messias…” Porque Tu eras a imensidão da Misericórdia e este nosso João é a imensidão da humildade.
– E minha Mãe é a imensidão da pureza, da graça, da caridade, da obediência, da humildade, de todas as outras virtudes que são de Deus e que Deus infunde em seus santos.
127.6 – Mestre –diz Tiago de Zebedeu–. Já veio muita gente.
– Vamos. Vinde vós também.
A multidão é bem grande.
– A paz esteja convosco –diz Jesus.
Ele está sorridente como poucas vezes. O povo está cochichando e apontando-o. Há muita curiosidade.
– “Não tentarás ao Senhor teu Deus”, foi dito2.
Muitas vezes se esquece este mandamento. Tenta-se a Deus, quando se quer impor a Ele a nossa vontade. Tenta-se a Deus, quando, imprudentemente, se age contra as regras da Lei, que é santa e perfeita e no seu lado espiritual, o principal, se ocupa e se preocupa também com a carne que Deus criou. Tenta-se a Deus, quando, perdoados por Ele, torna-se a pecar. Tenta-se a Deus quando, beneficiados por Ele, transforma-se em prejuízo os benefícios que deveriam ser um bem para nós e nos fazerem lembrar de Deus.
Com Deus não se brinca e de Deus não se zomba. E isto acontece muitas vezes. Ontem pudestes ver qual o castigo que espera aos que zombam de Deus. O Deus eterno, todo piedoso para quem se arrepende, é, ao contrário, cheio de severidade para com o impenitente, que por nada muda o seu procedimento.
Vós viestes a Mim, para ouvirdes a palavra de Deus. Aqui viestes para receberdes milagre. Viestes para receberdes o perdão. E o Pai vos dá palavra, milagre e perdão. Eu não fico com saudade do Céu, porque vos posso dar o milagre e o perdão fazendo-os conhecer a Deus.
127.7 O homem caiu ontem fulminado, como Nadab e Abiud3, pelo fogo da ira divina. Mas vós, abstende-vos de julgá-lo. Só o que aconteceu, um novo milagre, vos faça meditar sobre como agir para ter Deus como amigo. Ele queria a água da penitência, mas sem o espírito sobrenatural. Ele a queria por espírito humano. Como uma prática mágica que o curasse da doença e o livrasse da ruína. Queria o corpo e a colheita. Eis os seus fins. Não a sua pobre alma. Para ele, a alma não tinha valor. O que tinha valor era a vida e o dinheiro.
Eu digo: “o coração está onde estiver o tesouro, e o tesouro está onde estiver o coração. Por isso o tesouro está no coração.”
Ele no coração tinha a sede de viver e de possuir muito dinheiro. Como possuí-lo? De qualquer modo. Até por meio do delito. E, nesse caso, pedir o batismo não era tentar a Deus, zombar de Deus? Teria bastado o arrependimento sincero pela sua longa vida de pecado, para dar-lhe uma santa morte e também tudo o que era justo que ele tivesse sobre a terra. Mas ele era o impenitente. Não tendo nunca amado ninguém, exceto a si mesmo, chegou a não mais amar nem a si mesmo. Porque o ódio mata também o amor egoísta e animal do homem a si mesmo. O pranto do arrependimento sincero devia ter sido a sua água lustral. E assim seja para todos vós, que me estais ouvindo. Porque sem pecado não existe ninguém, por isso, tendes necessidade dessa água. Ela desce, espremida pelo coração, lavando, santificando a quem está profanado, levantando quem está prostrado, revigorando quem tem culpa.
Aquele homem se preocupava só com a miséria da terra. Mas há uma única miséria que deve tornar o homem pensativo. É a miséria eterna, que é perder a Deus. Aquele homem não deixava de fazer as ofertas rituais. Mas não sabia oferecer a Deus sacrifícios espirituais, ou seja, afastar-se do pecado, fazer penitência, pedir o perdão com atos. As ofertas hipócritas feitas com riquezas mal adquiridas são semelhantes a convites feitos a Deus para que se torne cúmplice das más obras do homem. Pode isso acontecer? Ousar isso, não é zombar de Deus? Deus repele aquele que diz: “Eis que ofereço um sacrifício”, mas almeja continuar em seu pecado. Terá valor o jejum corporal, quando a alma não jejua do pecado?
A morte do homem aqui ocorrida, vos faça meditar sobre as condições necessárias para ser amados por Deus. Agora, em seu rico palácio, os parentes e as pranteadeiras estão fazendo velório ao redor do cadáver que, dentro de pouco tempo será levado para o sepulcro. Oh! Verdadeiro pesar e verdadeiro cadáver! Nada mais do que um desolado pesar! Porque a alma já morta será para sempre separada daqueles que amou, por parentesco, ou por afinidade de ideias. E, ainda que uma mesma morada os una para sempre, o ódio que lá reina, os manterá divididos. E então, a morte é uma “verdadeira” separação. Melhor seria que, em lugar dos outros, o próprio homem chorasse sobre si mesmo, quando está com a alma morta. E, por aquele choro de um coração contrito e humilde, devolvesse à alma a vida, com o perdão de Deus.
Ide. Sem ódio ou comentários. Nada mais do que humildade. Como Eu que, sem ódio, mas por justiça falei dele. A vida e a morte são mestras para viver e morrer bem,conquistando a Vida sem a morte. A paz esteja convosco.
127.8 Não há doentes nem milagres, Pedro diz aos três discípulos do Batista:
– Lamento por vós.
– Oh! Não precisa. Nós cremos sem ver. Já vimos o milagre do seu natal para fazer-nos crentes. E agora temos a sua palavra para confirmar a nossa fé. Não pedimos senão que possamos trabalhar por esta palavra até o Céu, como Jonas, nosso irmão.
Tudo termina.
1 já tinha a sua alma, porque já estava no sétimo mês… Estas palavras, dirigidas a pessoas simples, não obrigam a excluir que a alma venha infusa no mesmo instante da concepção do corpo, até porque a sacralidade da vida humana desde o seu início foi afirmada já antes, em 126.4/6
2 foi dito, em: Deuteronômio 6,16
3 Nadab e Abiú, cuja morte se fala em: Levítico 10,1-2; Números 3,4; 26,61; 1 Crônicas 24,2.