251. 251. Aos pescadores siro-fenícios,a parábola do mineiro perseverante.Ermasteu de Ascalon.


12 de agosto de 1945.

251.1São as primeiras horas da manhã quando Jesus chega diante de uma cidade à beira do mar. Quatro barcas seguem a sua.

A cidade é impelida ao mar a dentro estranhamente, como se tivesse sido construída sobre um istmo. Como se um pequeno istmo ajuntasse a parte que se espalha sobre o mar com a que se estendeu pela margem1.

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Olhada do mar, ela parece mais um enorme cogumelo colocado sobre as ondas com o seu cume e fincado por suas raízes na costa: o istmo é o pé. Do lado de cá e do lado de lá dele, dois portos; um, aquele do norte, menos fechado, é pleno de pequenas embarcações; o outro, do sul, mais abrigado, para grandes navios, que chegam ou que partem.

É preciso ir lá –diz Isaque, acenando para as pequenas barcas–. Lá é que ficam os pescadores.

Fazem a volta à ilha e aí é que posso ver como o istmo é artificial: é uma espécie de dique ciclônico, que une a pequena ilha à terra firme. Naquele tempo se construía sem fazer economia. Isto é o que eu deduzo por esta obra e pelo número dos navios nos portos, quanto a cidade era rica e de grande atividade comercial. Atrás da cidade, depois de uma zona plana, há pequenas colinas de belo aspecto e, muito ao longe, se vê o grande Hermon e a cordilheira do Líbano. Deduzo também que esta aqui era uma das cidades que eu via do Líbano.

A barca de Jesus está entrando agora pelo porto setentrional e já está no ancoradouro do porto, mas ela não atraca, mas vai lenta, à força de remos adiante e atrás, até Isaque avistar os que ele estava procurando, e os chama em alta voz.

251.2Veem vindo na frente duas belas barcas de pesca, e toda a equipagem se inclina para as barcas menores dos discípulos.

O Mestre está aqui conosco, meus amigos. Vinde, se quereis ouvir sua palavra. Esta noite retorna para Sicaminon –diz Isaque.

Nós já vamos indo. Para onde devemos ir?

Para um lugar tranquilo. O Mestre não vai descer em Tiro, nem à cidade da terra. Ele vai falar da barca. Escolhei um lugar que tenha sombra e que seja bem abrigado.

Vinde atrás de nós, no rumo dos penhascos. Lá há enseadas tranquilas e sombreadas. Podereis até descer.

E vão indo para uma reentrância que há nos rochedos, mais ao norte. A costa, cortada a pique, serve como abrigo contra o sol. O lugar é solitário. Só as gaivotas e os pombos selvagens é que vivem aqui, daqui saindo para suas ligeiras excursões por sobre o mar, de onde voltam, com grandes gritos de protesto, para os seus ninhos na rocha.

Mas outras pequenas naves já se uniram às que vão à frente, formando uma flotilha. No fundo deste pequenino golfo há um arremedo de praia. É realmente um arremedo: trata-se de uma praiazinha toda coberta de pedras. Mas uma centena de pessoas pode caber nela.

Descem, fazendo uso de uma pedra larga e chata, que se estende sobre as águas fundas, como se fosse um molhe natural, e vão-se colocando sobre a praiazinha pedregosa, sobre a qual o sal cristalizado está brilhando. São homens morenos, magros, queimados pelo sol e pelo mar. Por debaixo de suas curtas vestes, veem-se, descobertas, as suas pernas ágeis e delgadas. É bem visível a diversidade desta raça da dos judeus presentes, e ela se parece mais com a dos galileus. Eu diria que estes siro-fenícios têm mais semelhança com os longínquos filisteus do que com os povos que lhes são mais vizinhos. Pelo menos assim são os que eu estou vendo.

251.3Jesus vira as costas para a terra, e começa a falar.

-se2 no livro dos Reis como o Senhor ordenou a Elias que fosse a Sarepta dos Sidônios, durante a seca e a carestia que vinham afligindo a terra, havia mais de três anos. O Senhor não tinha falta de meios para matar a fome do seu profeta em qualquer lugar, e o mandou a Sarepta, não porque essa cidade fosse rica em alimentos. Não. Pelo contrário, lá se estava morrendo de fome. Por que, então, terá Deus mandado para lá Elias, o Tesbita?

Havia em Sarepta uma mulher de coração reto, viúva e santa, mãe de um menino, pobre, sozinha e, apesar de tudo, não era rebelde ao castigo, não era egoísta em sua fome, não era desobediente. Deus quis premiá-la, dando-lhe três milagres. Um, pela água que ela levou a um sedento; outro, pelo pequeno pão cozido debaixo das cinzas, quando ela já não tinha nada mais do que um punhado de farinha; e outro, pela hospitalidade de que usou para com o profeta. Deus lhe deu o pão e o óleo, a vida do filho e o conhecimento da palavra de Deus.

Vós estais vendo que um ato de caridade não só mata a fome do corpo, tira a dor da morte, mas instrui a alma na sabedoria do Senhor. Vós também destes alojamento aos servos do Senhor e Ele vos dá a palavra da sabedoria. A esta terra aonde não chega a palavra do Senhor, eis que um ato bom a faz chegar. Eu posso comparar-vos àquela única mulher de Sarepta que acolheu o Profeta. Porque, se Eu tivesse descido à cidade dos ricos e dos poderosos, eles não me teriam acolhido, e os atarefados mercadores e marinheiros teriam feito pouco caso de Mim, e inútil teria sido a minha vinda.

Agora, Eu vou deixar-vos, e vós direis: “Mas, que somos nós? Um punhado de homens. Que possuímos nós? Uma gota de sabedoria.” E, no entanto, Eu vos digo: “Eu vos deixo o encargo de anunciar a hora do Redentor.” Eu vos deixo, repetindo as palavras do Profeta Elias: “A ânfora de farinha não se esvaziará. O óleo não diminuirá mais, até que venha quem com mais abundância o distribua.”

Vós já o fizestes. Porque aqui há fenícios misturados a vós, que sois do outro lado do Carmelo. Isto é sinal de que falastes, assim como vos foi falado. Vede que o punhado de farinha e a gotinha de óleo não se esgotaram, mas sempre cresceram. Continuai a fazê-las crescer. E, se vos parecer que seja estranho que Deus vos tenha escolhido para esta obra, e não vos sentirdes dispostos a executá-la, dizei a palavra da grande confiança: “Farei o que tu dizes, confiando em tua palavra.”

251.4 Mestre, mas como teremos que comportar-nos com estes pagãos? Estes, nós os conhecemos pela pesca. O mesmo trabalho nos leva a viver uma vida em comum. Mas, com os outros? –pergunta-lhe um pescador de Israel.

O trabalho em comum nos leva a vivermos todos em comum, dizes tu. E, então, não deveria tornar comum uma proveniência comum? Deus criou os israelitas, como criou os fenícios. Os da planície de Saron e os da Alta Judeia não são diferentes dos deste litoral. O Paraíso havia sido feito para todos os filhos do homem. E o Filho do Homem veio para levar ao Paraíso todos os homens. A meta é conquistar o Céu e dar glória ao Pai. Vós vos encontrais, pois, no mesmo caminho:amai-vos espiritualmente, assim como vos amais por motivo de trabalho.

Isaque nos falou muitas coisas. Mas nós quereríamos saber algumas mais. É possível termos um discípulo que de nós fique tão longe?

Manda para o meio de nós, Mestre, João de Endor. Ele é muito capaz de agir e está habituado a conviver com os pagãos –sugere Judas de Keriot.

Não. João fica conosco –responde curtamente Jesus.

E depois, dirigindo-se aos pescadores:

Quando termina a pesca dos moluscos?

Com as tempestades do outono. Depois delas, o mar fica agitado demais por aqui.

Voltareis então para Sicaminon?

Ali mesmo. E também para Cesareia. Nós fazemos fornecimento aos romanos.

Podereis, então, encontrar-vos de novo com os discípulos. E, enquanto isso, perseverai.

251.5 Há a bordo de minha barca um que eu não queria e que veio em teu nome, como se fosse dos teus.

Quem é?

Um jovem pescador de Ascalon.

Faze-o descer e vir até aqui.

O homem vai a bordo, e volta com um rapazinho, muito confuso, por estar sendo alvo de tantas atenções. O apóstolo João o reconhece:

É um daqueles que nos deram o peixe, Mestre –e se levanta para ir saudá-lo–. Tu vieste, Hermasteu? Até aqui? Estás sozinho?

Sozinho. Em Cafarnaum eu fiquei envergonhado. Eu permaneci na costa, esperando…

Esperando o quê?

Esperando ver o teu Mestre.

Que ainda não é o teu? Por que, meu amigo, ficas ainda hesitando? Vem à Luz que te espera. Olha como Ele está te observando e sorrindo.

Como é que eu vou ser tratado?

Mestre, vem conosco um pouco.

Jesus se levanta, e vai até João.

Ele não tem coragem, porque é estrangeiro.

Para Mim não há estrangeiros. E os teus companheiros? Não éreis muitos?… Não te perturbes, Só tu soubeste perseverar. Mas, até contigo somente Eu já estou feliz. Vem comigo.

Jesus volta ao seu lugar, com sua nova conquista.

Este, sim, que daremos a João de Endor –diz ao Iscariotes.

251.6E depois o diz a todos:

Um grupo de escavadores desceu a uma mina, onde eles sabiam que existiam alguns tesouros, mas que estavam muito escondidos nas vísceras do solo. E começaram a escavação. O terreno, porém, era duro e o trabalho, cansativo.

Muitos deles ficaram cansados, jogaram para longe as picaretas, e foram-se embora. Outros praguejaram contra a sua sorte, contra o trabalho, contra a terra, contra o metal e, cheios de raiva, feriram com violência a terra e despedaçaram o filão, transformando-o em migalhas inúteis, e depois, tendo conseguido fazer ruínas sem ganharem nada, também eles foram-se embora. Só ficou o mais perseverante. Bem disposto, ele foi abrindo as camadas da terra dura, perfurando-a com cuidado, procurou examinar bem, aprofundou mais e, finalmente, um esplêndido filão precioso ficou exposto à vista. A paciência do escavador foi premiada e, com o metal puríssimo que ele encontrou, pôde conseguir fazer muitos trabalhos de ourivesaria, conquistou muita glória e muitos clientes, porque todos querem é daquele metal, que só a perseverança soube encontrar lá onde os outros, preguiçosos ou iracundos, nada haviam conseguido.

Mas o ouro que foi encontrado, para ficar bonito a ponto de já servir ao ourives, precisa, por sua vez, perseverar na vontade de deixar-se trabalhar pelo homem. Se o ouro, depois do primeiro trabalho da escavação, não quiser mais sofrer nada, ficaria sendo um metal bruto e não trabalhável. Vós estais vendo, pois, que não basta o primeiro entusiasmo para ter logo bons resultados, nem como apóstolos, nem como discípulos, nem como fiéis. É necessário perseverar. Eram muitos os companheiros de Hermasteu, e, naquele primeiro entusiasmo, haviam prometido que viriam todos. Mas só ele veio. Muitos são os meus discípulos e mais ainda serão. Mas, só a terça parte da metade é que saberão sê-lo até o fim. Perseverar. Eis a grande palavra. Para todas as coisas boas.

Vós, quando jogais o tresmalho para arrancar as conchas dos moluscos, será que o fazeis uma vez só? Não. Mas uma vez depois da outra, durante muitas horas, muitos dias, durante meses, prontos a voltar àquele ponto no ano seguinte, porque esse trabalho é que dá pão e fartura a vós e às vossas famílias. E, então, quereríeis agir de modo diferente, quando se trata de coisas maiores, como são os interesses de Deus e de vossas almas, se fordes fiéis, das vossas e das dos vossos irmãos, se fordes discípulos? Em verdade Eu vos digo que para extrair a púrpura para as vestes eternas, é preciso perseverar até o fim.

251.7E agora fiquemos bons amigos, até a hora de voltarmos. Assim nos conheceremos melhor, e será fácil reconhecermo-nos uns aos outros…

E eles se espalham pela pequena enseada rochosa, cozinhando mexilhões e caranguejos, arrancados dos penhascos e peixes apanhados com pequenas redes, dormindo em uma cama de algas secas, dentro de cavernas abertas por terremotos ou por ondas da costa rochosa, enquanto o céu e o mar estão com um azul ofuscante, e se encontram um com o outro no horizonte. As gaivotas fazem um contínuo carrossel de voos, do mar para os ninhos, com gritos e bater de asas, e são as únicas vozes que, unidas à do bater leve das ondas, ainda estão falando nestas horas mormacentas do verão.

1 pela margem. Segue o desenho que reproduzimos na mesma posição na qual se apresenta no caderno manuscrito. Precisa virá-lo para ler a escrita: cidade sobre a costa – istmo – Parte da cidade sobre o mar.
2 -se… O episódio da viúva de Sarepta, feito alusão já em 106.3, é narrado em 1 Reis 17 e não será mais registrado. Da história do profeta Elias é um dos episódios mais citados juntamente com aquele do rapto, narrado em 2 Reis 2,1-13 e recordado em Siraque48, 9. Este último episódio já foi registrado em 41.3 e 192.1, será mencionado ainda 256.1, 507.3, 648.4 e 651.6. Outras referências a Elias e a o seu sucessor Eliseu estão em 63.3 - 140.2 (citação não encontrada) - 253.2 - 258.7.9 - 266.12 (Elias comparado com João Batista) - 322.2 - 349.8 - 380.3 - 381.9 - 454.5 - 483.8 - 554.6.7.


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