625. 625. Aparição aos discípulos de Emaús.
5 de abril de 1945.
625.1Por um caminho montanhoso, dois homens de meia idade estão caminhando apressadamente, deixando para trás Jerusalém, cujas alturas vão desaparecendo cada vez mais por detrás das outras colinas que se apresentam numa ondulação ininterrupta de cumes e vales.
Eles estão falando um com o outro. O mais velho diz ao outro, que deve ter, quando muito, uns trinta e cinco anos:
– Podes crer que foi melhor fazer assim. Eu tenho família e tu também. Com o Templo não se brinca. Ele quer acabar com tudo. Terá razão? Ou não terá razão? Eu não sei. Eu só sei que ficou claro lá o pensamento de acabar com tudo isso para sempre.
– Com esse delito, Simão. Dá-lhe o nome justo. Porque pelo menos de um delito se trata.
– Em nós o amor fermenta contra o Sinédrio. Mas talvez… quem sabe!
– Não. O amor faz tudo ficar claro. Ele não conduz ao erro.
– Até os do Sinédrio, até os sacerdotes e os chefes amam. Eles amam Javé, Aquele a quem todo Israel tem amado desde que o pacto foi firmado entre Deus e os Patriarcas. Portanto, para eles também o amor é luz, e não leva ao erro!
– O amor deles não é para o Senhor. Sim. Israel, há séculos, vive naquela Fé. Mas, dize-me uma coisa. Podes dizer-me que ainda é uma fé aquela que nos ensinam os chefes do Templo, os fariseus, os escribas e os sacerdotes? Tu estás vendo. Com o ouro consagrado ao Senhor — já se sabia, ou pelo menos se suspeitava que iria acontecer o que aconteceu — com o ouro consagrado ao Senhor foi que eles pagaram ao Traidor e agora pagam aos guardas. Ao primeiro para que traísse ao Cristo, aos segundos para que mintam. Oh!Eu não sei como o Poder eterno se teha limitado a derrubar os muros e a rasgar o Véu! Eu te digo que eu teria querido que sob os escombros ficassem sepultados1 os novos filisteus. Todos eles!
– Cléofas! Tu terias sido muito vingativo.
– Vingativo eu seria. Porque, vamos admitir que Ele fosse apenas um profeta. Será lícito matar um inocente? Pois Ele era um inocente! Tu o terás visto algum dia cometendo um dos delitos de que ele foi acusado para poderem matá-lo?
– Não. Nenhum. 625.2Mas um erro Ele cometeu.
– Qual, Simão?
– Foi o de não exercer o seu poder lá do alto de sua Cruz. Para confirmar a nossa fé e para punir os sacrílegos incrédulos. Ele devia ter aceitado o desafio e descido da Cruz.
– Ele fez mais do que tudo isso. Ele ressuscitou.
– Então, será verdade? Ressuscitou como? Somente em seu Espírito, ou com o Espírito e a Carne?
– Mas o Espírito é eterno! Não tem necessidade de ressuscitar!
–exclama Cléofas.
– Disso eu também sei. Eu queria saber é se Ele ressuscitou em sua única natureza divina, superior a todas as insídias do homem. Porque agora o seu espírito foi tentado pelo terror feito pelo homem. Tu soubeste, não? Marcos diz que no Getsêmani, onde Ele ia rezar junto a uma rocha, tudo lá é sangue. E João, que falou com Marcos, lhe disse: “Não permitas que pisoteiem aquele lugar, porque lá está o sangue suado pelo Homem Deus?” Se Ele suou sangue, antes de sua tortura, deve ter ficado com horror dela!
– Pobre do nosso Mestre!…
E se calam, aflitos.
625.3Jesus os alcança e pergunta:
– De quem estavas falando? Escutei no silêncio as vossas palavras a intervalos. Quem morreu?
É um Jesus velado, sob uma aparência modesta de um pobre viajante apressado. Os dois não o reconhecem.
– És de outro lugar, homem? Não paraste em Jerusalém? A tua veste empoeirada e as tuas sandálias desgastadas parecem ser de um peregrino incansável.
– Eu sou. Venho de muito longe…
– Então, deves estar cansado. E vais para longe?
– Muito, muito longe, ainda mais do que Eu caminhei até agora.
– Tens negócios a fazer? Comércio?
– Eu preciso adquirir um número sem limites de rebanhos para o maior dos Senhores. Eu devo andar pelo mundo inteiro para escolher ovelhas e cordeiros, e procurá-los até entre os rebanhos selvagens, pois também eles, quando ficarem domesticados, poderão ser até melhores do que os que já não são mais selvagens.
– É um trabalho difícil. E tu vieste por teu caminho sem parar em Jerusalém?
– Por que o perguntais?
– Porque só Tu é que pareces não estar sabendo de nada do que aconteceu em Jerusalém estes dias.
– Que foi que aconteceu por lá?
– Tu estás vindo de longe e talvez não o saibas. Mas o teu sotaque é galileu. Por isso, mesmo que sejas servo de algum rei estrangeiro, ou filho de galileus expulsos de sua terra, deverás saber, se Tu és circuncidado, que há três anos surgiu em nossa pátria um grande Profeta, Jesus de Nazaré, poderoso em suas obras e palavras, diante de Deus e dos homens, e que andou pregando por toda esta região. Ele se dizia o Messias. Suas palavras e suas obras eram realmente do Filho de Deus, como Ele se dizia ser… Agora sabes o porquê… 625.4Mas és circuncidado?
– Eu sou primogênito e consagrado ao Senhor.
– Então, Tu conheces a nossa Religião?
– Não deixo de conhecer nem uma sílaba dela. Conheço os preceitos e os usos. O halasha, o midrasha, e o ágada são por Mim conhecidos como conheço os elementos: a água, o fogo e a luz, que são os primeiros para os quais nossa inteligência se inclina, e o instinto, as necessidades que sente o homem, que acabou de sair do seio.
– Pois bem. Então Tu sabes que Israel tinha por prometido o Messias, que seria um rei poderoso, que teria reunido Israel. Mas não era assim que Ele pensava.
– Como era, então?
– Ele não se preocupava com os poderes terrenos. Mas Ele se dizia um rei de um reino eterno e espiritual. Ele não reuniu, mas, ao contrário, dividiu Israel, pois agora Israel está dividido entre os que creem Nele e os que O chamam de malfeitor. Na verdade, para ser rei Ele não estava apto, porque só falava em mansidão e perdão. E quem é que pode subjugar e vencer só com essas armas?…
– E então?
– Agora os chefes dos sacerdotes e os anciãos de Israel o prenderam e o julgaram réu de morte… acusando-o, é verdade, de culpas que não eram verdadeiras. A culpa dele era ser bom demais e severo demais…
– Como podia ser isto, como é que Ele podia ser uma coisa e a outra?
– Podia, porque era severo demais ao dizer a verdade aos chefes de Israel, e bom demais por não fazer sobre eles o milagre de matá-los, fulminando os seus inimigos?
– Seria Ele severo como era João Batista?
– Isto eu não saberia dizer. Ele censurava duramente, especialmente nos últimos tempos, aos escribas e fariseus, e ameaçava aos do Templo como marcados pela ira de Deus. Mas depois, se alguém era pecador e se arrependia, e Ele via naquele coração um verdadeiro arrependimento, pois o Nazareno lia nos corações melhor do que um escriba lendo no texto, nesses casos Ele era mais bondoso do que uma mãe.
– E Roma consentiu que se matasse um inocente?
– Quem o condenou foi Pilatos. Mas ele não queria fazer aquilo, e dizia que se tratava de um justo. Contudo, ele ficou com medo de que o acusassem a César, pois disso o haviam ameaçado. 625.5Em resumo, Ele foi condenado à cruz e nela morreu. E isso, juntamente com o medo dos sinedristas, nos deixou muito abatidos. Porque eu sou Clofé, filho de Clofé e este é Simão, ambos de Emaús, e parentes, porque eu sou o esposo da sua primeira filha, e éramos discípulos do Profeta.
– E agora não o sois mais?
– Nós esperávamos que seria Ele que libertaria Israel e também que, com um prodígio, confirmasse suas palavras. Mas, pelo contrário!…
– Que palavras foram as que Ele havia dito?
– Nós já as dissemos a ti: “Eu vim ao Reino de Davi. Eu sou o Rei pacífico,” e assim por diante. E dizia: “Venham ao Reino,” mas depois não nos deu o reino. E dizia ainda: “No terceiro dia ressuscitarei.” Hoje já é o terceiro dia, e até já se completou, pois a hora nona já passou, e Ele ainda não ressuscitou. Algumas mulheres e alguns guardas dizem que sim, que Ele já ressuscitou. Mas nós ainda não O vimos. Agora os guardas estão dizendo que eles assim falaram a fim de justificarem o furto do cadáver, feito pelos discípulos do Nazareno. Mas os discípulos!… Nós todos o abandonamos por medo, enquanto Ele estava vivo… e certamente não o roubamos, agora que está morto. E as mulheres… quem é que vai acreditar nelas? Nós estávamos conversando sobre isso. E queríamos saber se Ele quis dizer ressurgir só com o Espírito, tornado divino, ou se foi também com a Carne. As mulheres dizem que os anjos — pois elas dizem terem visto até os anjos, depois do terremoto, e pode ser, porque já na tarde da Sexta-feira, apareceram os justos fora dos sepulcros — dizem que os Anjos falaram que Ele é como alguém que nunca morreu. E as mulheres tiveram a impressão que foi assim mesmo que o estavam vendo. Mas dois dos nossos, dois dos chefes, foram ao Sepulcro. E o acharam vazio, como as mulheres haviam dito, mas não o viram nem lá nem em nenhum outro lugar. E isso é uma grande desolação, porque não sabemos mais o que pensar!
625.6– Oh! Como sois estultos e quanta dificuldade tendes para compreender! E lentos em acreditar nas palavras dos profetas! Não foi isso a ser predito? O erro de Israel é esse: o de ter interpretado mal a realeza de Cristo. Por isso não acreditaram Nele. Por isso Ele foi temido. Por isso é que agora vós duvidais. No alto, embaixo, no Templo e nos vilarejos, por toda parte se pensava em um rei conforme a natureza humana. A reconstrução do reino de Israel, no pensamento de Deus, não estava limitada nem no tempo, nem no espaço, nem nos meios, como aconteceu convosco.
No tempo: Toda realeza, até a mais poderosa, não é eterna. Lembrai-vos dos poderosos Faraós que oprimiram2 os hebreus nos tempos de Moisés. Quantas dinastias se acabaram, e delas restam as múmias sem alma no fundo dos hipogeus secretos! E resta uma lembrança, se é que resta ainda, do seu poder de uma hora, e até de menos, se compararmos os seus séculos com o Tempo eterno. Este Reino é eterno.
No espaço: Falava-se em Reino de Israel. Porque de Israel veio a estirpe da raça humana; porque em Israel, Eu direi assim, está a semente de Deus e, por isso, falar em Israel significa dizer o Reino dos que foram criados por Deus. Mas a realeza do Rei Messias não é limitada ao pequeno espaço da Palestina, mas se estende do Oriente ao Ocidente, por toda parte onde houver um ser que na carne tenha um espírito, isto é, em todos os lugares onde houver um homem. Como teria podido um só concentrar em si todos os povos, inimigos entre si, e fazer deles todos um único reino, sem deixar escorrer rios de sangue, e submeter todos por homens armados com opressões cruéis? E, nesse caso, como poderia ser o rei pacífico do qual falam os profetas?
No meio: O meio humano, eu disse, é a opressão. E o meio sobre-humano é o amor. O primeiro é sempre limitado, porque os povos se revoltam contra os opressores. O segundo é limitado, porque o amor ou é amado ou, se não é amado, é escarnecido. Mas, sendo ele uma coisa espiritual, não pode ser diretamente agredido. E Deus, o Infinito, quer meios que sejam como Ele é. Quer aquilo que não é finito porque é eterno: o espírito; o que é próprio do espírito; o que leva ao Espírito. Este é que tem sido o erro: ter concebido na mente uma ideia messiânica errada nos meios e na forma.
Qual é a realeza mais alta? A de Deus. Não é verdade? Portanto, este Admirável, este Emanuel, este Forte, este Pai do século futuro, este Príncipe da Paz, este Deus que é como Aquele do qual Ele vem, pois assim é chamado e assim é o Messias, não terá uma realeza semelhante à daquele que o gerou? Sim, que terá. Uma realeza toda espiritual e eterna, limpa de rapinas e de sangue, desconhecedora do que são as traições e abusos. A Sua realeza! O que a Bondade eterna concede aos pobres homens, a fim de prestar honra e alegria ao seu Verbo.
625.7Mas, não está dito3 de Davi que este Rei poderoso teve colocadas teve sob seus pés todas as coisas, que lhe foram colocadas para servirem de escabelo? Não foi descrita por Isaias toda a Paixão e, pode-se dizer, enumeradas por Davi também as torturas? E não foi dito que Ele seria o Salvador e Redentor, que com o seu holocausto salvaria o homem pecador?
E não foi especificado — e Jonas é o sinal — que por três dias teria sido engolido pelo ventre insaciável da Terra e depois seria expulso como o profeta o foi da baleia? E não foi dito sobre Ele: “O meu Templo, ou seja, o meu Corpo, no terceiro dia depois de ter sido destruído, será por Mim (ou seja, por Deus) reconstruído”? E o que vós pensáveis? Que por magia Ele levantaria de novo as paredes do Templo? Não. Não as paredes. Mas a Si mesmo. E somente Deus podia fazer ressurgir a Si mesmo. Ele reergueu o Templo verdadeiro: o seu Corpo de Cordeiro. Imolado, assim como Moisés recebeu a ordem e a profecia, para preparar a “passagem” da morte para a Vida, da escravidão para a liberdade, dos homens que são filhos de Deus e escravos de Satanás.
“Como foi que Ele ressuscitou?”, é o que estais perguntando. Eu vos respondo. Ele ressuscitou com sua verdadeira Carne e com seu Divino Espírito, que nele habita, assim como em toda carne mortal a alma habita como rainha no coração. Assim Ele ressuscitou depois de ter sofrido tanto, a fim de expiar tudo, e reparar a primeira Ofensa e as infinitas outras ofensas que cada dia são praticadas pela Humanidade. Ele ressuscitou como estava predito sob o véu das profecias. Ele veio em seu tempo, e Eu vos faço lembrar de Daniel, e em seu tempo Ele foi imolado. E, ouvi e lembrai-vos, no tempo predito, depois de sua morte, a cidade deicida será destruída.
625.8Eu vos aconselho: deveis ler com a alma, não com a mente soberba, os profetas, desde o princípio do Livro até as palavras do Verbo imolado; deveis recordar o Precursor que o indicava como o Cordeiro; trazei à memória qual era o destino do simbólico cordeiro de Moisés. Por aquele sangue foram salvos os primogênitos de Israel. Por este Sangue serão salvos os primogênitos de Deus, ou seja, aqueles que com a boa vontade se tornaram sacros ao Senhor. Lembrai-vos e compreendei o salmo messiânico de Davi e o profeta messiânico Isaías. Recordai Daniel, trazei à memória, mas elevando-a da lama ao azul celeste, cada palavra sobre a realeza do Santo de Deus, e compreendei que nenhum outro sinal mais justo não podia ser-vos dado e mais forte do que essa vitória sobre a Morte, essa Ressurreição realizada por Ele mesmo.
Lembrai-vos que não teria sido conforme a sua misericórdia e a sua missão ter punido do alto da Cruz aqueles que O haviam colocado sobre ela. Ele era ainda o Salvador, mesmo se era o Crucificado escarnecido e pregado a um patíbulo! Estavam crucificados os membros, mas livres o espírito e a vontade. E assim quis ainda esperar, para dar tempo aos pecadores de acreditar e de invocar — não com um grito de blasfêmia, mas com um gemido de contrição — o seu Sangue sobre eles.
625.9Agora Ele ressuscitou. Tudo está consumado. Glorioso Ele era antes da sua encarnação. Três vezes glorioso é agora que, depois de ter estado aniquilado por tantos anos em uma carne, imolou a Si mesmo, levando a Obediência à perfeição de saber morrer numa cruz para cumprir a Vontade de Deus. Gloriosíssimo, numa carne glorificada, agora Ele sobe ao Céu e entra na Glória eterna, iniciando o Reino que Israel não compreendeu.
A esse Reino Ele, mais do que nunca, com urgência, com o amor e a autoridade plena de que está revestido, Ele convoca as tribos do mundo. Todos, como viram e previram os justos de Israel e os Profetas, todos os povos virão ao Salvador. E não estarão aí somente os Judeus ou os Romanos, os Citas ou os Africanos, os Iberos ou os Celtas, os Egípcios ou os Frígios. Os do além Eufrates se unirão às fontes do Rio Perene. Os Hiperbóreos, ao lado dos Númidas virão ao seu Reino, e desaparecerão as raças e as línguas. Os costumes, a cor da pele e dos cabelos não terão importância em seu Reino, mas haverá um só povo, brilhante e puro, haverá uma só linguagem, um só amor. Será o Reino de Deus. O Reino dos céus. Um monarca Eterno: o Imolado, que ressuscitou. Os súditos eternos serão os que creem em sua Fé. Desejai crer para serdes dele.
625.10Ali está Emaús, amigos. Eu vou prosseguir. Não é permitida uma parada para o Viajante que tem ainda muito caminho a percorrer.
– Senhor, Tu és mais instruído do que um rabi. Se ele não tivesse morrido, diríamos que foi Ele quem nos falou. Ainda gostaríamos de ouvir de Ti outras e extensas verdades. Porque agora nós, ovelhas sem pastor, perturbadas pela tempestade produzida pelo ódio de Israel, não sabemos mais compreender as palavras do Livro. Queres que vamos contigo? Olha, continuarias a instruir-nos, cumprindo a obra do Mestre que nos foi tirado.
– Vós o tivestes convosco durante todo esse tempo e Ele não pôde ainda fazer-vos perfeitos? Será isso uma sinagoga?
– Sim. Eu sou Cléofas, filho de Cléofas, o sinagogo4 que morreu feliz ter conhecido o Messias.
– E mesmo assim ainda não conseguiste crer claramente? Mas isso não é culpa vossa. Depois do Sangue, ainda vem o Fogo. E só então vós crereis, porque tereis compreendido. Adeus.
– Ó Senhor, a tarde já vem chegando, o sol já vai sumindo, Tu estás cansado e com sede. Entra. Fica conosco. Aqui nos falarás de Deus e dividiremos o nosso pão e o nosso sal.
625.11Jesus entra e é servido, com a costumeira hospitalidade judaica, recebendo bebidas e água para os pés cansados.
Depois eles se põem à mesa, e os dois lhe pedem que abençoe por eles o alimento.
Jesus se levanta, tendo nas palmas das mãos o pão e, levantando os olhos para o céu avermelhado da tarde, dá graças pelo alimento e se assenta. Parte o pão e dá dele aos seus dois companheiros. E, ao fazer isso, Ele se revela por aquilo que Ele é: o Ressuscitado. Não é o brilhante ressuscitado como apareceu aos outros por Ele mais queridos. Mas é um Jesus cheio de majestade, com as chagas bem nítidas nas palmas de suas longas Mãos, que são como rosas vermelhas sobre o marfim da pele. É um Jesus bem vivo, em sua Carne refeita. Mas Ele é também Deus, na imponência de seus olhares e em todo o seu aspecto.
Os dois o reconhecem e caem de joelhos… Mas quando criam coragem para levantar os olhos, de Jesus só ficou o pão partido. Eles o apanham e o beijam. Cada um deles pega o seu próprio pedaço, e o coloca como se fosse uma relíquia, envolvido em um linho, sobre o peito.
E eles choram dizendo:
– Era Ele. E nós não o conhecemos. Tu também não sentias arder-te o coração no peito enquanto Ele nos estava falando e explicava as Escrituras?
– Sim. E agora me parece estar vendo-o de novo. E na Luz que vem do Céu. É a luz de Deus. E eu vejo que Ele é o Salvador.
625.12– Vamos. Eu não sinto mais cansaço nem fome. Vamos contar aos amigos de Jesus, aos de Jerusalém.
– Vamos. Oh! Se o meu velho pai tivesse podido gozar desta hora!
– Mas, não digas isso! Ele gozou dela mais do que nós. Sem o véu usado por piedade para com a nossa fraqueza carnal, ele, o justo Cléofas, viu com o seu espírito o Filho de Deus tornar a entrar no Céu. Vamos! Vamos! Quando chegarmos, já será noite alta. Mas, se Ele quiser, nos dará alguma maneira de passar. Se Ele abriu as portas da morte, bem que poderá abrir as portas dos muros! Vamos!
E diante de um pôr do sol todo purpúreo eles vão apressados para Jerusalém.
1 ficassem sepultados…, como em: Juízes 16,23-30.
2 Faraós que oprimiram… a começar por aquele de quem se narra em: Êxodo 1,8-22.
3 está dito, em: Salmo 110. As numerosas citações do capítulo atual já têm as suas notas, às quais orienta o índice temático no final do volume.
4 Cleofás, o sinagogo, encontrado em 126.1 e no capítulo 140.
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