552. 552. Preparativos e acolhida em Efraim.


8 de janeiro de 1947.

552.1– Mestre, a paz esteja contigo, dizem Pedro e Tiago de Zebedeu, que estão voltando para casa, carregando umas vasilhas cheias d’água.

– A paz esteja convosco. De onde é que estais vindo?

– Da torrente. Fomos buscar água e lá teremos que voltar e buscar mais água para nossas limpezas. Uma vez que paramos aqui… não é justo que a velhinha fique se cansando por causa de nós. Também é de lá que se pode trazer o necessário para o fogo aquecer a água. Para isso o meu irmão foi até o bosque buscar lenha. Há muito tempo que não chove e a lenha pega fogo como capim seco –explica Tiago de Zebedeu.

– Sim. Mas o caso é que, ainda que o dia estivesse apenas começando, nós fomos vistos, tanto na torrente como no bosque. E pensar que eu tinha ido à torrente para não ir à fonte… –diz Pedro.

– E por que, Simão de Jonas?

– Porque na fonte há sempre muitas pessoas e podiam reconhecer-nos e virem para cá…

Enquanto estão falando, vão entrando pelo longo corredor que divide a casa os dois filhos de Alfeu, Judas de Keriot e Tomé. Por isso eles também ouviram as últimas palavras do Pedro e a resposta de Jesus:

– O que não teria acontecido nas primeiras horas de hoje, certamente teria acontecido mais tarde, amanhã ao mais tardar, porque nós permaneceremos aqui…

– Aqui? Mas eu achava que nos iríamos parar somente… –dizem muitos.

– Não é uma pausa para repouso. É a pausa. Daqui só sairemos para voltar a Jerusalém para a Páscoa.

– Ora! Eu havia entendido que Tu, quando falaste de uma terra de lobos e açougueiros, estavas falando desta região pela qual querias passar, como já o fizeste outras vezes, para daqui ires a outros lugares sem passar pelas estradas mais usadas pelos judeus e fariseus… –diz Filipe, que acabou de chegar, enquanto outros dizem:– Eu também pensava assim.

– Vós compreendestes mal. Esta não é a região dos lobos e açougueiros, por mais que sobre os seus montes se aninhem os verdadeiros lobos. Mas Eu não falo dos lobos animais.

– Oh! Isto se havia entendido! –exclama Judas de Keriot, um tanto irônico–. Para Ti, que te chamas Cordeiro, devemos entender que os lobos são os homens. Não somos completamente estultos.

– Não. Não sois estultos senão naquilo que não quereis entender. Ou seja, sobre a minha natureza e missão, e sobre a dor que me causais ao deixardes de trabalhar constantemente e preparar-vos para o futuro. É para o vosso bem que Eu falo, e vos ensino com atos e palavras. Mas vós rejeitais o que incomoda a vossa humanidade com presságios de dor ou com a exigência de esforços contra o vosso eu.

552.2Escutai, antes que aqui estejam os estranhos. Agora Eu vos dividirei em dois grupos de cinco e ireis sob a guia do chefe de cada grupo pelas terras vizinhas, como Eu vos mandava nos primeiros tempos. Lembrai-vos de tudo o que Eu disse naquele tempo e ponde-o em prática. A única diferença é que agora passareis anunciando que está próximo o dia do Senhor também aos samaritanos, para que estejam prontos quando Ele chegar, e mais fácil se torne para vós a conversão deles para o Único Deus. Sede cheios de caridade e de prudência, sem prevenções. Vós estais vendo, e vereis mais, que o que nos é negado em outros lugares, aqui nos é concedido. Por isso, sede bons com estes inocentes que pagam pela culpa de seus pais. Pedro será o chefe de Judas de Alfeu, de Tomé, de Filipe e de Mateus. Tiago de Alfeu será chefe de André, de Bartolomeu, de Simão Zelotes e de Tiago de Zebede. Judas de Keriot e João ficam comigo. A partir de amanhã, será assim. Hoje nós descansaremos, fazendo os preparativos para os dias futuros. O dia de sábado passaremos juntos. Portanto, fazei o possível para estardes aqui antes do sábado, para partirdes de novo quando ele tiver passado. Será o dia do amor entre nós, depois de termos amado o próximo no rebanho que saiu do ovil paterno. Ide cada um para vossas incumbências.

Jesus fica sozinho e se retira para um dos quartos, no fundo do corredor.

A casa se enche com o barulho dos passos e das vozes, mesmo estando todos nos quartos e não se veja ninguém a não ser a velhinha, que atravessa muitas vezes o corredor para ir tratar de suas tarefas, entre as quais uma é fazer o pão, pois ela está com farinha sobre os cabelos e com as mãos cobertas de massa.

552.3Jesus sai depois de algum tempo e sobe para o terraço da casa. Passeia lá em cima, meditando, e olha de vez em quando o que acontece ao redor.

Ele é encontrado por Pedro e por Judas de Keriot, que não estão muito alegres, na verdade. Talvez para Pedro seja muito penoso separar-se de Jesus. Talvez para Iscariotes seja penoso não poder fazer a mesma coisa, e ir expor-se pela cidade. Uma coisa é certa, estão muito sérios, quando sobem ao terraço.

– Vinde cá. Olhai que belo panorama se vê daqui.

E mostra o horizonte com os mais variados aspectos. A noroeste, altos montes cobertos de selvas que se estendem como uma espinha dorsal de norte a sul. Um deles fica atrás de Efraim e é um gigante verde que domina sobre os outros. A nordeste e a sudeste, há um ondular mais suave de colinas. O povoado fica em uma bacia verde, com fundos mais longínquos, tendentes a se tornarem mais planos por entre as duas cordilheiras mais altas e os terrenos mais baixos que, do centro da região, descem para a grande planície do Jordão. Por uma abertura entre os dois pequenos montes mais baixos, se entrevê esta pequena planície verde, além da qual está o Jordão azul. Na plena primavera este deve ser um lugar muito bonito, todo verde e fértil. Por enquanto, os vinhedos e os pomares interrompem, com sua cor escura, o verde dos campos de cereais, que já lançam suas tenras hastes para fora das covas e dos pastos nutridos pelo solo fecundo.

Se isso que há além de Efraim é chamado1 por João de deserto, é sinal de que o deserto da Judéia era bem ameno, pelo menos nesta faixa, ou, então, era deserto unicamente no sentido de ser privado de povoados, todo cheio de bosques e pastos por entre alegres pequenas torrentes, bem diferentes das terras perto do Mar Morto, que é justo serem chamadas de ‘deserto’, porque são áridas, sem vegetação, se excetuarmos as pequenas moitas espinhosas, contorcidas, cobertas de sal, por entre os penhascos e a areia carregada de sais. Mas este agradável deserto, que fica para lá de Efraim, ainda por um longo espaço se orna com vinhedos, olivais e pomares, e agora as amendoeiras estão sorrindo ao sol, pintalgadas de um branco rosado aqui e ali, nos declives que logo estarão cobertos com os festões das videiras, que desabrocham em folhas novas.

– Até parece-me estar na minha cidade –diz Judas.

– Parece também com Juta. Com a diferença de que lá a torrente passa em baixo, e a cidade é no alto. Aqui, ao contrário, o povoado parece estar dentro de uma grande concha, tendo o rio no centro. Que terra rica em videiras! Para quem é dono delas deve ser bonito e muito bom ter umas terras assim –observa Pedro.

– “Que a terra dele seja abençoada pelo Senhor com os frutos do céu e com as orvalhadas, com as nascentes que brotam do abismo, com os frutos produzidos pelo sol e pela lua, com os frutos dos cumes de seus montes antigos, com as frutas das colinas eternas e com os cereais da terra em abundância”, como foi dito2. E sobre estas palavras do Pentateuco é que eles fundam sua orgulhosa persistência em crer-se superiores. Assim é. Mas também a palavra de Deus e os dons de Deus, se caem em corações presos pela soberba, tornam-se causa de ruína. Não por eles, mas pela soberba que altera neles o que é bom –diz Jesus.

– Sim. E eles mantiveram do justo José somente a fúria do touro e a cerviz de rinoceronte. 552.4Não gosto de estar aqui. Porque não me deixas ir com os outros? –diz Iscariotes.

– Não gostas de estar comigo? –pergunta Jesus, deixando de observar a paisagem e voltando-se para observar Judas.

– Contigo, sim. Mas não com os de Efraim.

– Que bela razão! E nós, então, que iremos pela Samaria ou pela Decápole — porque não poderemos andar senão nestes lugares no tempo que vai de um sábado a outro — será que iremos andar entre santos? –diz Pedro, censurando Judas, que nada responde.

– Que te importa quem é teu vizinho se souberes amar tudo por amor de Mim? Ama-me em teu próximo e todos os lugares ficarão iguais para ti –diz calmamente Jesus.

Judas não responde nem a Ele.

– E pensar que eu preciso ir… Eu estaria de muito boa vontade aqui, eu! Enfim… por aquilo que eu sei fazer! Pelo menos, põe Filipe como chefe ou o teu irmão, Mestre. Eu… enquanto for só para dizer: vamos fazer isso, vamos para tal lugar, isso eu ainda sei. Mas se eu tiver que falar!… Estragarei tudo.

– A obediência te ajudará a fazer tudo bem. E o que fizeres me ajudará.

– Então… se agrada a Ti, agrada a mim. Basta-me fazer-te contente. 552.5Mas veja! Eu já disse! Eis que vem vindo a metade da cidade… Olha só! O sinagogo… os notáveis… as mulheres deles… as crianças e o povo!…

– Desçamos ao encontro deles –ordena Jesus, e se apressa em descer pela escada, chamando os apóstolos, a fim de que desçam com Ele para fora da casa.

Os habitantes de Efraim se apresentam com os sinais da mais viva deferência e. depois das saudações rituais, um deles, que talvez seja o sinagogo, fala por todos:

– Bendito seja o Altíssimo por este dia e bendito seja o seu Profeta que veio até nós, porque Ele ama a todos os homens em nome de Deus Altíssimo. Bendito és Tu, Mestre e Senhor, que te lembraste do nosso coração e das nossas palavras, e vieste repousar entre nós. Nós te abrimos nossos corações e nossas casas, pedindo-te a tua palavra para a nossa salvação. Bendito seja este dia. Porque graças a ele verá frutificar o deserto todo aquele que souber acolhê-Lo com um espírito reto.

– Disseste bem, Malaquias. Quem sabe acolher com espírito reto Aquele que veio em nome de Deus verá frutificar o seu deserto e tornarem-se domésticas as plantas robustas, mas selvagens, que nele estão. Eu estarei entre vós. E vós vireis a Mim. Como bons amigos. E estes levarão a minha palavra àqueles que a sabem acolher.

– Não ensinarás Tu, Mestre? –pergunta, um pouco desiludido, Malaquias.

– Eu vim até aqui para recolher-me e orar. A fim de me preparar para as grandes coisas futuras. Será que vos desagrada ter Eu escolhido o vosso lugar para meu repouso?

– Oh! Não. Ver-te rezar já nos tornará sábios. Obrigado por nos teres escolhido para isso. Nós não perturbaremos as tuas orações e não permitiremos que elas sejam perturbadas pelos teus inimigos. Porque já se sabe o que aconteceu e está acontecendo na Judéia. Nós faremos uma boa guarda. E nos contentaremos com alguma palavra tua quando te for possível dá-la. Aceita, por enquanto, os dons da hospitalidade.

– Eu sou Jesus e não rejeito ninguém. Aceito por isso o que me ofereceis para mostrar-vos que não vos rejeito. Mas se me quereis amar, de agora em di ante, dai o que queríeis dar a Mim aos pobres da cidade ou aos que estão de passagem. Eu só preciso de paz e de amor.

– Nós o sabemos. Sabemos de tudo. E esperamos dar-te aquilo de que tens necessidade, a ponto de fazer-te exclamar: “A terra que devia ser para Mim Egito, isto é, minha dor, foi, como para José de Jacó, terra de paz e de glória.

– Eu assim direi, se vós me amardes aceitando a minha palavra.

Os cidadãos fazem suas ofertas aos apóstolos e se retiram, menos Malaquias e outros dois que ficam falando em voz baixa com Jesus. E permanecem os meninos, absorvidos pelo costumeiro fascínio que Jesus exerce sobre eles. Eles ficam, surdos às vozes de suas mães que os estão chamando, e não vão embora enquanto Jesus não os acaricia e abençoa. Depois, tagarelando como umas andorinhas que esvoaçam, eles saem de lá acompanhados por três homens.

1 chamado… deserto, em João 11,54.
2 foi dito, em Deuteronômio 33,13-16.


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