321. 321. Chegada a Selêucia e licença de partir de Nicomedes.
6 de novembro de 1945.
321.1 Estava um belíssimo pôr do sol, quando a cidade de Selêucia começou a ser vista como um grande amontoado branco de casas, no limite das águas azuis do mar, que está agora plácido e risonho, todo ele com pequenas ondas brincando, por baixo de um céu que mescla sua cor de um cobalto sem nuvens com a púrpura do pôr do sol. O navio, com suas velas desdobradas, se dirige velozmente para a cidade ainda distante, e parece estar pegando fogo, pela alegria festiva por causa da próxima chegada, estando toda revestida com os resplendores do sol que se põe.
Sobre a ponte, por entre os marinheiros, que não estão mais azafamados e agitados, como antes, os passageiros vêem que está chegando a sua meta. E, sentado perto de João de Endor, ainda mais magro do que quando partiu, está o marinheiro ferido. Está ainda com a cabeça enfaixada por uma leve bandagem e com uma palidez de marfim, pelo muito sangue que perdeu. Contudo, ele está sorridente e falando com os seus salvadores ou com os companheiros que, ao passarem, se congratulam com ele, por tornarem a vê-lo na ponte.
321.2 Também o cretense o nota, e deixa por uns momentos o seu posto, confiando-o ao chefe da equipagem, para ir saudar o seu “ótimo Demete”, que está voltando à ponte pela primeira vez depois de ter-se ferido:
– E graças a todos vós –diz ele aos apóstolos–. Eu não acreditava mesmo que ele pudesse viver mais, ferido como foi pela trave pesada e pelo ferro qua ainda a tornava mais pesada. É verdade, Demete, estes te deram de novo a luz da vida, porque tu já estavas morto, duas vezes morto. A primeira, quando jazias como uma mercadoria sobre a ponte, e pelo sangue que se perdia, e por isso te teriam jogado ao mar, descendo tu para o reino de Netuno, onde irias morar entre as Nereides e os Tritões. E a segunda, por teres ficado curado com aqueles maravilhosos ungüentos. Queres deixar-me ver a ferida?
O homem tira a bandagem, e mostra a cicatriz bem fechada, lisa, parecendo um sinal vermelho, que vai da têmpora até à nuca, no limite dos cabelos, que parecem ter sido aparados, talvez por Síntique, para que não penetrassem na ferida. Nicomedes passa levemente a mão sobre aquele sinal:
– Até o osso se soldou! Amou- te a Vênus marinha! E não quis ver-te, a não ser sobre a superfície do mar e nas praias da Grécia. Que Éros te seja propício, agora que vamos descer à terra, e te ajude a te esqueceres da desventura e do terror de Tânatos, em cujo abraço já estavas.
O rosto do Pedro é um verdadeiro panorama de impressões, à medida que vai ouvindo todas essas fábulas da mitologia. Apoiado a um dos mastros de vela, com as mãos atrás das costas, tudo nele lhe está dizendo que aplique um bom apelido no pagão Nicomedes e no seu paganismo, e que dê a entender a sua repulsa por tudo o que é gentilismo.
Támbém os outros não ficam atrás… Judas de Alfeu está com o rosto fecha-do, como em seus piores momentos, o irmão dele gira ao redor de si mesmo, co-mo quem estivesse interessado em ver alguma coisa no mar. Tiago de Zebe-deu e André pensam bem e resolvem deixar todos no ar, descendo para pega-rem as sacolas e o tear, Mateus está brincando com a faixa que ele tem na cintura, e o Zelotes o imita dando demasiada atenção as suas sandálias, como se elas fôssem novas, e João de Zebedeu parece que ficou hipnotizado, olhan-do para o mar.
Tão claro é o desprezo e o aborrecimento dos oito, — e não é menor o mutis-mo dos dois discípulos, que estão sentados ao lado do ferido — que o creten-se cai em si, e se acusa:
– É a nossa religião, sabeis? Como vós credes na vos-sa, eu e nós todos cremos na nossa…
Ninguém responde nada, 321.3e o cretense pensa bem, e resolve deixar em paz os seus deuses e descer do Olimpo para a terra, ou melhor, para o mar, para o navio, convidando os apóstolos a irem à proa para verem bem a cidade que se aproxima.
– Lá está, estais vendo? Nunca estivestes aqui?
– Eu, uma vez, mas vindo por terra –diz o Zelotes, sério e breve.
– Ah! Está bem! Então sabes pelo menos que o verdadeiro porto de Antioquia é Selêucia, que está junto ao mar, na foz do rio Orontes, que acolhe com alegria os navios e que, nos tempos de águas profundas, dá passagem por ele às barcas mais leves, que sobem até Antioquia. Aquela que agora estais vendo é Seléucia, a maior. A outra, mais para o sul, não é cidade, mas apenas ruínas de um lugar devastado. Parece ser uma coisa, mas é outra: pois é um lugar morto. Aquela cadeia de montanhas é o Piério, que faz que a cidade seja chamada Selêucia Piéria. Aquele pico mais para dentro, além da planície, é o monte Cásio, que domina, como um gigante, a planície de Antioquia. A outra cadeia, ao norte, é a do Amano. Oh! Vereis que obras, os romanos fizeram na Selêucia e em Antioquia! Maiores não podiam fazer. Um porto com docas, que é um dos melhores, e canais, e antemurais e diques. Tais coisas não há na Palestina. Mas a Síria é melhor do que outras províncias do Império…
Suas palavras têm como resposta um silêncio glacial. Até Síntique que, por ser grega, e menos susceptível do que os outros, também cerra os lábios, e o seu rosto toma, mais do que nunca, o ar cortante de um rosto esculpido em uma medalha ou em um baixo-relevo: um rosto de deusa, desdenhosa para com os contatos terrenos.
O cretense percebe isso, e se acusa:
– Que quereis? Afinal, com os romanos eu saio ganhando!…
A resposta da Síntique é clara, como um golpe de sabre:
– É que o ouro embota o fio da espada da honra nacional e da liberdade –e o diz de uma tal maneira e em um latim tão puro, que o outro fica pasmado.
Depois, ele cria coragem para perguntar:
– Mas tu não és grega?
– Eu sou grega. Mas tu amas os romanos. Eu te falo na língua dos teus patrões, não na minha, a da Pátria mártir.
O cretense fica confuso, e os apóstolos estão silenciosos, mas entusiasmados pela lição dada ao elogiador de Roma. 321.4Ele fica pensando, e resolve mudar o fio da conversa, perguntando com que meios eles irão de Selêucia para Antioquia.
– Com nossas pernas, homem –responde Pedro.
– Mas já está tarde. E já será noite, quando desembarcardes …
– Haverá lugar para dormir.
– Oh! Com certeza. Mas poderíeis dormir aqui mesmo até amanhã.
Judas Tadeu, que já viu como iam levando todo o necessário para um sacrifício aos deuses, que talvez irão fazer na chegada, diz:
– Não é preciso. Nós te agradecemos por tua bondade, mas preferimos desembarcar. Não é verdade, Simão?
– Sim, sim. Nós também temos que fazer as nossas orações e … ou tu e os teus deuses, ou nós e nosso Deus.
– Fazei como quiserdes. Eu teria o prazer de fazer uma coisa agradável ao filho do Teófilo.
– Também nós ao Filho de Deus, procurando persuadir-te de que há um só Deus. Mas tu és uma pedra que não se move. Como estás vendo, estamos em condições parecidas. Mas, quem sabe se um dia nos encontraremos, e tu estejas menos tenaz… –diz, sério, o Zelotes.
Nicomedes faz um gesto, como se dissesse: “Sabe-se lá quando!” É um gesto de indiferença e de ironia, quanto àquele convite para que ele reconheça o verdadeiro Deus e abandone os falsos. Depois, ele vai para o seu posto de piloto, porque o porto já está perto.
– Vamos descer, e pegar os baús. Façamos isso por nós mesmos. Não vejo a hora de nos afastarmos desse fedor pagão –diz Pedro.
E, menos Síntique e João, todos os outros descem.
321.5Eles, os dois exilados, estão perto um do outro, e estão olhando os diques, que vão ficando cada vez mais perto.
– Síntique, mais um passo, rumo ao desconhecido, uma ruptura com o doce passado, mais uma agonia, Síntique… Não sei se agüento mais…
Síntique segura a mão dele. Está muito pálida, angustiada. Mas é sempre a mulher forte, que sabe confortar:
– Sim, João, uma outra ruptura, uma outra agonia! Mas não digas um outro passo rumo ao desconhecido… Isso não é justo.Nós sabemos qual é a nossa missão aqui. Jesus disse qual é. Portanto, nós não estamos indo rumo ao desconhecido mas, pelo contrário, sempre mais nos unimos, com tudo o que sabemos, com a Vontade de Deus. Tambem não é justo falar em “uma outra ruptura.” Nós nos unimos à sua vontade. Uma ruptura separa. E por isso nós não nos separamos. Simplesmente nós nos afastamos de todas as delícias sensíveis do nosso amor para com Ele, o nosso Mestre, reservando para nós as delícias supra-sensíveis, transportando o nosso amor e o nosso dever para um plano ultraterreno. Estás persuadido de que é assim? Estás? E, então, não deves ficar falando nem em “uma outra agonia.” Agonia pressupõe uma morte próxima, mas nós, ao chegarmos aos que eram os nossos planos espirituais, e tendo nossa casa, nossa aragem, e nossa comida, não estamos morrendo, mas assim é que estamos “vivendo.” Porque o que é espiritual é eterno. Por isso nós subimos para uma vida mais viva, antecipação da grande Vida dos Céus. Coragem, pois! Esquece-te de que és o homem João, e lembra-te te de que és um destinado ao Céu. Raciocina, age, pensa e espera somente como cidadão desta Pátria imortal…
321.6 Estão voltando os outros com as suas cargas, justamente enquanto o navio vai entrando, majestoso, no amplo porto de Selêucia.
– E agora, vamos depressa, o mais depressa possível, ao primeiro albergue que virmos. Certamente haverá alguns por perto, e amanhã, ou de barca, ou com algum veículo, iremos para o nosso destino.
Por entre assobios secos do comando, o navio atraca, e descem pela passarela. Nicomedes vai pôr-se perto dos que vão saindo.
– Adeus, homem. E muito obrigado, diz Pedro por todos.
– Salve, hebreus. E obrigado também eu. Se fordes por aquela rua, encontrareis logo alojamentos. Adeus.
Os apóstolos descem por um lado, e ele se afasta para o lado do seu altar e, enquanto Pedro com os outros, levando suas cargas, vão tomar o seu repouso, o pagão está começando o seu inútil rito…