510. 510. A cura de um cego de nascimentoprovocada por uma manobra de Judas Iscariotes.


10 de outubro de 1946.

510.1Jesus vai junto com os seus apóstolos e José de Séforis, dirigindo-se para a sinagoga. O dia límpido e sereno está alegre como uma promessa de primavera, depois de dias de vento e de nuvens de inverno. Muitos de Jerusalém estão, por isso, pelas ruas; uns indo para as sinagogas, outros voltando delas ou de outros lugares, uns com a família, com a intenção de sair da cidade para irem tomar o sol nos campos. Da Porta de Herodes, que é visível da casa de José de Séforis, veem-se saindo as pessoas para alegres passatempos fora dos muros, a céu aberto. É como dar um mergulho no verde, ao largo, estar despreocupado, fora das ruazinhas estreitas por entre altas casas! Eu acho que a cinta agreste, que havia ao redor de Jerusalém, foi espontaneamente conservada pelos habitantes da cidade, que queriam conciliar o mandamento do sábado com o seu desejo de ar e de sol, sendo vistos pelas estradas e não somente sobre os terraços de suas casas.

Mas Jesus não vai para a Porta de Herodes. Ele vira as costas para ela, e se dirige para o interior da cidade. E ainda não deu mais do que alguns poucos passos pela rua mais larga, na qual desemboca a estradinha na qual está a casa de José de Séforis, quando Judas de Keriot chama sua atenção sobre um jovem que vem vindo para eles com um modo de andar característico dos cegos. Suas vestes são pobres, mas são limpas, e ele deve ser uma pessoa conhecida por muitos em Jerusalém, porque um grande número delas o está mostrando, e alguns vão até ele, dizendo:

– Homem, hoje tu erraste a estrada. Os caminhos do Monte Mória já ficaram todos para trás. Já estás em Bezeta.

– Eu não estou pedindo esmola em dinheiro hoje –responde com um sorriso o cego, e continua a ir para frente com aquele sorriso, para o norte da cidade.

510.2– Mestre, observa-o. Ele tem as pálpebras coladas. Eu te diria que ele não tem pálpebras. Sua fronte se une às faces, sem nenhuma cavidade, e parece que por baixo delas nem existem os globos dos olhos. O infeliz nasceu assim. E assim morrerá, sem ter visto nem uma vez a luz do sol, nem um rosto humano. Agora, dize-me uma coisa, Senhor. Para ter sido castigado assim, certamente deve ter pecado. Mas se ele é cego de nascimento, como ele com certeza é, como é que pode ter pecado antes de nascer? Terão talvez pecado os pais dele e Deus os castigou, fazendo que ele nascesse deste modo?

Também os outros apóstolos, Isaque e Marziam se aproximam de Jesus, para ouvirem o que Ele vai responder. E apressando o passo, como se estivessem sendo atraídos pela altura de Jesus, que ultrapassa a de todos os da multidão, vêm correndo dois de Jerusalém, de condição civil, e que estavam pouco atrás do cego. Ente eles está José de Arimateia, que não se aproxima, mas, encostando-se a um portão alto, acima de dois degraus, corre o olhar sobre todos os rostos, e os observa todos.

Jesus responde e suas palavras são claramente ouvidas no meio do silêncio que se fez:

– Não pecou nem ele nem os pais dele mais do que peca cada homem, e talvez até menos: porque a pobreza é até um freio contra o pecado. Mas ele nasceu assim para que mais uma vez sejam manifestados nele o poder e as obras de Deus. Eu sou a Luz que veio a este mundo para que aqueles do mundo, que se esqueceram de Deus ou desfiguraram sua imagem espiritual, vejam e se recordem, e para que aqueles que procuram a Deus ou que já a Ele pertencem, sejam confirmados em sua fé e em seu amor. O Pai me mandou para que neste dia, que ainda é concedido a Israel, Eu complete o conhecimento de Deus em Israel e no mundo. Portanto, eis que Eu devo cumprir as obras daquele que me mandou, para dar testemunho de que Eu posso aquilo que Ele pode porque sou um só com Ele, e para que o mundo saiba e veja que o Filho não é diferente do Pai, e creia em Mim por aquilo que Eu sou. Depois virá a noite, na qual não se poderá mais trabalhar; virão as trevas, e quem não tiver gravado em si o meu sinal e a fé em Mim já não poderá mais fazê-lo nas trevas e na confusão, na dor, na desolação que abalarão esses lugares e deixarão atordoados os espíritos, com ansiedades e aflições. Mas enquanto Eu estiver no mundo, sou Luz e Testemunho, a Palavra, o Caminho, a Vida, a Sabedoria. 510.3Vai, pois, vai ver onde está o cego de nascimento e traze-o aqui a Mim.

– Vai, tu, André. Eu quero ficar aqui e ver o que o Mestre faz –responde Judas, mostrando Jesus, que está inclinado para a rua poeirenta, cuspiu em uma pequena porção de terra e, com o dedo, está dissolvendo o pó com a saliva, formando uma bolinha de barro; e que, enquanto André, sempre condescendente, vai buscar o cego que já está quase virando para o outro lado do alto onde está a casa de José de Séforis, amassa a bolinha com os dois indicadores, ficando daquele modo como ficam os sacerdotes na Santa Missa, quando leem o Evangelho e a Epístola.

Mas Judas se retira de seu posto de observação, dizendo a Mateus e a Pedro:

– Vinde cá, vós que sois de baixa estatura, e vereis melhor.

E vai colocar-se atrás de todos, quase escondido pelos filhos de Alfeu e por Bartolomeu, que são altos.

André volta, trazendo pela mão o cego, que se afoba para dizer:

– Não quero dinheiro. Deixa-me andar. Eu sei onde está aquele chamado Jesus. E vou para pedir…

– Este é Jesus, este que está diante de ti –diz André, parando na frente do Mestre.

Jesus, ao contrário do que costumeiramente faz, não pergunta nada ao homem. De repente lhe passa um pouquinho de barro, que ele tem nos dedos indicadores, sobre as pálpebras fechadas, e lhe dá esta ordem:

– E agora vai, o mais depressa que puderes, à cisterna de Siloé, sem parar para conversar com ninguém.

O cego, com o rosto empastado de barro, fica perplexo por um instante e abre os lábios para falar. Depois ele os fecha e obedece. Seus primeiros passos são lentos, como os de alguém que está pensativo ou decepcionado. Depois, apressa o passo, e com o bastãozinho vai batendo no muro cada vez mais depressa, quanto um cego pode fazer, e talvez até mais, como se estivesse sendo guiado…

Os dois de Jerusalém se riem, zombando dele e sacudindo a cabeça, e se vão. José de Arimateia — e esse fato me causou estranheza — vai acompanhando-os sem nem saudar o Mestre, e vai voltando sobre seus passos, isto é, indo para o Templo, daquela mesma direção de onde veio. Desse modo, tanto o cego como os dois, como também José de Arimateia, vão indo para o sul da cidade, enquanto Jesus dobra para o ocidente e eu o perco de vista, porque a vontade do Senhor me faz acompanhar o cego e os que vão com ele.

510.4Tendo deixado Bezeta para trás, todos entram no vale que fica entre o Monte Mória e Sião (parece-me ter ouvido outras vezes dar a este vale o nome de Tiropeon), e o percorrem todo até Ofel, indo por sua margem e saindo dele pela rua que vai até à fonte de Siloé, e vão sempre nesta ordem: em primeiro lugar, o cego, que deve ser conhecido nesta parte da cidade, depois os dois; e por último, a alguma distância, José de Arimateia.

José para perto de uma casinha pobre, meio escondido por uma sebe de bucho, que desponta contornando a pequena horta da pobre casa. Mas os dois já estão chegando perto da fonte e observam o cego que, cauteloso, vai-se aproximando da larga bacia e, tateando o muro úmido, espicha uma mão para dentro da cisterna, e a tira gotejando água, e ele a leva aos olhos uma, duas, três vezes. Na terceira vez, ele aperta sobre o rosto a outra mão, deixando cair o bastão e dando um grito, como se sentisse dor.

Depois ele afasta lentamente as mãos, e aquele seu primeiro grito de dor se transforma em um grande grito de alegria:

– Oh! Altíssimo! Eu estou vendo!

E se joga por terra como um vencido pela emoção, com as mãos colocadas a proteger os olhos, apertadas sobre as têmporas pela ânsia de enxergar, mas temendo sofrer com a luz, e repetindo:

– Estou vendo! Estou vendo! Esta aqui é a terra! E esta é a luz! Esta é a erva que eu conhecia somente por seu frescor…

Ele se levanta e, estando encurvado como se estivesse transportando um peso, o seu peso de alegria, vai até o riozinho, por onde sai o excesso de água, e o fica olhando escorrer, brilhante e sorridente, e murmura:

– Esta é a água… Eis! É esta que eu percebia por entre meus dedos –(e mergulha nela as mãos)–, fria, que nem se suporta, e eu não te conhecia… Ah! Que bonita! Como tudo é bonito!

Ele levanta o rosto e vê uma árvore… vai até perto dela, nela toca, estende uma mão, puxa um raminho para o seu lado, olha para ele e ri, faz um anteparo para os olhos e olha para o céu, para o sol, e duas lágrimas descem de suas pálpebras virgens, agora abertas para contemplar o mundo… E abaixa os olhos por sobre a grama, onde vê uma flor que se balança, presa ao pedúnculo, e se vê a si mesmo, refletido pela água do riozinho, olha-se bem, e diz:

– É assim que eu sou!

E observa, espantado, uma pomba que veio beber um pouco para lá dele, e uma cabrita que está arrancando as últimas folhas de um roseiral silvestre, e uma mulher que o faz lembrar-se de sua mãe, cujo rosto ele não conheceu; e levantando os olhos para o céu, ele grita:

– Bendito sejas Tu, Ó Altíssimo, pela luz, pela mãe e por Jesus! e sai correndo, deixando no chão o seu bastão, que agora já é inútil…

Os dois não esperavam ver tudo isso. Mas logo que viram que o homem estava enxergando, saíram dali correndo para a cidade. José, ao contrário, quer ficar até o fim. E quando o cego, que não é mais cego, passa rápido como uma flecha pela frente dele, entrando no labirinto de vielas do bairro popular de Ofel, deixa, por sua vez, o seu lugar, e volta sobre os próprios passos para a cidade, muito pensativo…

510.5O bairro de Ofel, sempre muito barulhento, neste momento está em um alvoroço total. Uns correm para a direita, outros para a esquerda. Uns perguntam, outros respondem.

– Mas, com certeza, confundistes um com o outro…

– Eu te digo que não. Eu lhe falei assim: “Mas és tu realmente Sidônias, chamado Bartolomeu?”, e ele me disse: “Sou eu mesmo.” Eu queria perguntar-lhe como foi, mas ele correu e foi-se embora.

– Onde está ele agora?

– Na casa da mãe dele, com certeza.

– Quem? Quem foi que o viu? –perguntam os que chegaram por últimos.

– Eu. Eu –respondem muitos…

– Mas, que foi que aconteceu?

– … Eu o vi correndo sem o bastão, com dois olhos no rosto, e disse: “Olha! Assim seria o Bartolomeu, se…”

– Eu te digo que estou toda tremendo. Ao entrar, ele gritou: “Mãe, eu estou vendo!”

– Foi uma grande alegria para os seus pais. Agora ele poderá ajudar o pai e ganhar a comida…

– Pobre daquela mulher! Ela se sentiu mal de tanta alegria. Oh! Uma coisa! Uma coisa! Eu tinha ido pedir um pouco de sal e…

– Vamos correr, para que ouçamos dele mesmo…

José de Arimateia está cercado no meio de toda esta vozearia e, não sei se por curiosidade ou por espírito de imitação, ele acompanha a correnteza e vai até o fim de um beco sem saída que, se continuasse naquele rumo, iria dar no Cedron, onde a multidão se comprime, dominando, com o seu falatório, o barulho das águas da torrente, agora aumentado pelas chuvas do outono. E José chega até lá, quando de um outro beco, que desemboca neste, vêm vindo os dois de antes, com outros três: um escriba, um sacerdote e um outro, que pela veste eu não consigo identificar. Eles abrem caminho com prepotência e procuram entrar na casa atulhada de gente.

A casa se compõe de uma vasta cozinha escura como breu, com um canto cortado do lado de fora por um tabique rústico, para lá do qual há uma enxerga e uma porta que dá para outro quarto, com uma cama maior. Outra porta, aberta na parede oposta, deixa que se veja uma pequena horta de uns poucos metros quadrados. E é tudo.

510.6O cego curado está falando, encostado à mesa, respondendo aos que lhe fazem perguntas, todos eles gente pobre como ele, os moradores mais humildes de Jerusalém, que pertencem a este bairro, talvez o mais pobre de todos. Sua mãe, de pé perto dele, olha para ele e chora, enxugando as lágrimas com seu véu. O pai, um homem consumido pelo trabalho, esfrega a barba com a mão agitada por um arrepio. Entrar na casa é impossível, até para a prepotência dos judeus e dos doutores, e os cinco devem ficar do lado de fora para ouvirem as palavras do curado.

– Como é que me foram abertos os olhos? Aquele homem, que se chama Jesus, me passou barro sobre os olhos e me disse: “Vai lavar-te na fonte de Siloé.” Eu fui, lavei- me, abriram-se os meus olhos e eu vi.

– Mas como fizeste para achares o Rabi? Dizias sempre que eras um infeliz, porque nunca o achavas, nem mesmo quando sempre passavas por aqui para ires da casa do Jonas até o Getsêmani. E hoje, logo agora, que nunca se sabe onde Ele esta…

– É. Ontem de tarde, veio um discípulo dele e me deu duas moedas, dizendo: ‘Por que não procuras enxergar?’ E eu lhe disse: “Eu tenho procurado. Mas nunca me encontro com aquele Jesus que faz milagres. Eu o procuro, desde quando Ele curou Anália, que é do meu bairro, mas quando eu venho para cá, Ele já vai para lá…”, e o discípulo me disse: “Eu sou um apóstolo, e o que eu quero Ele faz. Vem amanhã a Betesda e procura a casa de José, o galileu, aquele do peixe seco, José de Séforis, perto da Porta de Herodes e do arco da praça, do lado do oriente, e verás que antes ou depois Ele vem vindo de lá; ou, então, entra na casa e eu te mostrarei ao Mestre.” Então, eu disse: “Mas amanhã é sábado.” E ele me disse: “Se queres ficar curado, esse é o dia, porque depois Ele sai da cidade e nem sabes se o poderás encontrar mais.” Eu lhe disse ainda: “Eu sei que o estão perseguindo. Ouvi falar isso nas portas da cinta do Templo, onde costumo ir pedir esmola. E por isso eu digo que, agora que o estão perseguindo assim, menos Ele quererá ser perseguido, e não me curará no sábado.” E ele: “Faze o que te estou dizendo e no sábado verás o sol.” Então eu fui. Quem não teria ido? Quem diz isso é um apóstolo dele! Mas ele me disse também: “Eu sou o que Ele mais escuta e vim de propósito, porque me causas dó, e porque quero que brilhe o poder dele, depois de o terem vilipendiado. Tu, um cego de nascença, o farás brilhar. Eu sei o que estou dizendo. Vem, e verás.” Eu fui, e ainda não tinha chegado à casa do José quando um homem me tomou pela mão, mas pela voz não era o de ontem, e me disse: “Vem comigo, irmão”, e eu não queria ir, pensando que ele me ia dar pão e dinheiro, ou talvez roupas, e eu lhe dizia que me deixasse ir, porque havia sido informado sobre onde encontrar aquele chamado Jesus, e o homem me disse: “Este é Jesus, este que está diante de ti.” Mas eu não vi nada, pois estava cego. Percebi que dois dedos cobertos com terra molhada me estavam tocando aqui e aqui, e ouvi uma voz que me dizia: “Vai logo a Siloé e lava-te, e não fales com ninguém”, e eu assim fiz. Mas eu fiquei desanimado logo, e quase acreditando que fosse alguma brincadeira de jovens sem coração e quase que não queria ir para frente. Mas ouvi dentro de mim uma espécie de voz que dizia: “Espera e obedece”, e, então, fui até a fonte, lavei-me e enxerguei.

E o jovem para, extático, ao sentir a alegria de ver a primeira vez…

510.7– Fazei o homem sair. Nós o queremos interrogar –gritam os cinco.

O jovem abre caminho e aparece na soleira.

– Onde está aquele que te curou?

– Eu não sei –diz o jovem, ao qual um amigo sussurrou–: São escribas e sacerdotes.

– Como é que não sabes? Agora mesmo dizias que o sabias. Mas não mintas aos doutores da Lei e ao sacerdote! Ai de quem procura enganar os magistrados do povo!

– Eu não engano ninguém. Aquele discípulo me disse: “Ele está naquela casa”, e era verdade, porque eu estava perto, quando fui segurado e levado a Ele. Mas onde é que Ele está agora, eu não sei. O discípulo me disse que vão-se embora. Ele poderia até já ter saído pelas portas.

– Mas para onde ia?

– E que sei eu disso? Talvez fosse para a Galileia… Porque como Ele vem sendo tratado aqui!…

– Estulto e desrespeitoso! Olha bem como falas, ó escória do povo! Eu te perguntei para que estrada Ele se dirigia.

– Mas como quereis que eu saiba, se estava cego? Pode um cego dizer para onde vai um outro?

– Está bem. Acompanha-nos.

– Aonde quereis levar-me?

– Aos chefes dos fariseus.

– Para quê? Que é que eles têm comigo? Será que foram eles que me curaram, para que eu tenha que ir agradecer-lhes? Quando eu estava cego e pedia esmolas, as minhas mãos nunca sentiam o peso das moedas deles, os meus ouvidos não ouviram nunca uma palavra de piedade deles e o meu coração nunca sentiu o amor deles por mim. Que devo eu dizer a eles? Eu só tenho um ao qual devo dizer obrigado, depois de dizê-lo ao meu pai e à minha mãe, ao ter o prazer de ver os seus rostos e eles os meus olhos, que nasceram agora, tendo passado já tantas primaveras depois daquela na qual nasci, mas sem ver a luz.

– Deixa de tantas palavras. Vem e acompanha-nos!

– Eu não. Eu não vou! Por acaso tereis enxugado uma só lágrima ou o suor de minha mãe humilhada pela minha desventura, ou a meu pai, consumido por trabalhar? Agora que eu posso fazer tudo isso, com a minha presença junto a eles, agora é que eu deveria deixá-los para acompanhar-vos?

– Nós te ordenamos. Não és tu que dás ordens, mas o Templo e os chefes do povo. Se a soberba de teres sido curado te faz ficar com a mente obtusa para lembrar-te que nós é que mandamos, nós te faremos recordar. Adiante! Caminha!

– Mas por que devo ir? Que quereis de mim?

– O teu depoimento sobre o assunto. Hoje é sábado. E o trabalho foi feito no sábado. E deve ser registrado pelo pecado. Pecado teu e daquele Satanás.

– Satanases sois vós! O pecado é vosso! E eu haveria de ir depor contra quem me fez o bem? Vós estais bêbados. Ao Templo eu irei. Para bendizer ao Senhor. E nada mais do que isso. Na sombra da cegueira eu estive durante muitos anos. Mas as pálpebras fechadas só fizeram sombra para os olhos. Meu intelecto continua sempre na luz, na Graça de Deus, e me diz que eu não devo fazer mal ao Único Santo que há em Israel.

– Homem, basta! Não sabes que há castigos para os que se opõem aos magistrados?

– Eu não sei de nada. Aqui estou e aqui fico. E não convém que me procureis fazer mal. Não estais vendo que todo o bairro de Ofel está do meu lado?

– Sim! Sim! Deixai-o. Chacais! Ele é protegido por Deus. Não toqueis nele. Deus está com os pobres! Deus está conosco, ó exploradores e hipócritas!

O povo grita e ameaça com uma daquelas manifestações populares espontâneas, que são explosões de ódio dos humildes contra quem os oprime, ou de amor para com quem os protege. E grita:

– Ai de vós, se feris o nosso Salvador! O amigo dos pobres! O Messias três vezes Santo. Ai de vós. Não se teve medo das iras do Herodes, nem dos governadores, quando assim se quis. E não tememos as vossas, ó velhas hienas de maxilas desdentadas! Chacais de unhas aparadas! Inúteis prepotentes! Roma não quer tumultos e não oprime o Rabi, porque Ele é de paz. Mas a vós Ele conhece. Ide embora! Fora dos quarteirões dos que vós oprimis, com dízimos mais pesados do que as forças deles suportam, a fim de terdes dinheiro para saciar as vossas fomes e para levar a termo torpes negócios. Descendentes de Jason1! De Simão! Torturadores dos verdadeiros Eleazares, dos Santos Onias. Espezinhadores dos Profetas! Fora! Fora!

E o tumulto vai crescendo sempre mais feroz.

510.8José de Arimateia, agachado perto de um pequeno muro, e que até aqui ficou como um expectador atento mas inativo, nada fazendo, com uma agilidade que não era de esperar-se de um velho, e, ainda mais, todo enrolado em vestes e mantos, pula, fica em pé sobre a mureta, e grita:

– Silêncio, cidadãos. E escutai José, o Ancião!

Uma, duas, dez cabeças vão-se virando para a direção do grito. Todos veem José. Gritam o nome dele. Deve ser muito conhecido José de Arimateia, e deve gozar do favor do povo, porque os gritos de ódio do povo se transformam em gritos de alegria:

– José de Arimateia está aqui. Viva ele! Paz e longa vida ao justo! Paz e bênção ao benfeitor dos infelizes! Silêncio, que vai falar José! Silêncio!

O silêncio vai-se fazendo com dificuldade, e se ouve por alguns minutos o barulho do Cedron, do outro lado do beco. Todas as cabeças estão viradas para José e todos já se esqueceram da causa que antes os fazia virá-las para a direção oposta: os cinco infelizes e incautos que suscitaram o tumulto.

– Cidadãos de Jerusalém, homens de Ofel, porque quereis deixar-vos cegos pela suspeita e pela ira? Por que faltar com o respeito e os costumes, vós que sempre fostes tão fiéis às leis dos pais? De que tendes medo? Talvez de que o Templo seja um Moloch2, que não entrega o que apanhou? Talvez porque os vossos juízes sejam todos cegos, mais que vossos amigos, cegos em seus corações e surdos na justiça? Por acaso, não é de uso, diante de um fato prodigioso, que haja depoimentos sobre ele, que ele seja escrito e conservado pelos que assim devem fazer para que conste nas crônicas de Israel? Deixai, pois, que até por amor ao Rabi, que vós amais, o miraculado suba, para ir depor sobre a obra por Ele feita. Ainda estais duvidando? Pois bem. Eu me faço fiador de que nada acontecerá de mal a Bartolomeu. E vós sabeis que eu não minto. Como a um filho por mim querido, eu o escoltarei até lá em cima e vo-lo trarei até aqui de volta depois. Crede em mim. E do sábado não façais um dia de pecado, com essa revolta contra os vossos chefes.

– Ele fala com justiça. Não se deve. Podemos crer nele. Ele é um justo. Nas boas deliberações do Sinédrio sempre estão as ideias dele.

O povo troca ideias e termina por gritar:

– A ti, sim. O nosso amigo nós o confiamos a ti.

E ele se vira de novo para o jovem:

– Vem. Não tenhas medo. Com José de Arimateia estás seguro como e mais do que com o teu pai.

E abre caminho para que o jovem possa ir à casa de José, que acaba de descer de sua tribuna improvisada; e enquanto vai passando, as pessoas lhe dizem:

– Nós também vamos. Não tenhas medo!

José, em suas ricas vestes de lã, põe uma mão sobre o ombro do jovem e sai caminhando. A túnica cinzenta e surrada do jovem e o seu pequeno manto se roçam contra a veste ampla, de um vermelho escuro, do velho sinedrita. Atrás dele vão os cinco e, depois destes, muitos de Ofel.

510.9Eis que estão no Templo, depois de terem atravessado as ruas centrais, chamando a atenção de muitos que mostram com o dedo aquele que foi cego, dizendo:

– Mas é aquele o cego que pedia esmola? E agora ele está enxergando. Ou talvez seja alguém parecido com ele! Não. É ele mesmo, e o estão levando ao Templo. Mas vamos lá ouvir.

O cortejo aumenta sempre mais, até que as paredes do Templo engolem a todos.

José guia o jovem para uma sala, que não é o Sinédrio, mas onde estão muitos fariseus e escribas. Entra José, e com ele Bartolomeu e os cinco. Os populares de Ofel são repelidos no pátio.

– Aqui está o homem. Eu mesmo vo-lo trouxe, tendo assistido, sem ser visto, ao seu encontro com o Rabi e à cura. E eu vos posso dizer que, por parte do Rabi, foi tudo casual. Ao homem, vós também o ouvireis. Ele foi conduzido, ou melhor, foi convidado a ir aonde estava o rabi, por Judas Iscariotes, que vós conheceis. E eu ouvi, e estes dois também comigo ouviram, por estarem lá presentes, como foi Judas que conseguiu levar Jesus a fazer o milagre. Agora, eu aqui deponho que (se há alguém que deva ser punido) não é o cego, nem o Rabi, mas o homem de Keriot, que, Deus está vendo se eu minto ao dizer o que o meu intelecto pensa, é o único autor do fato, por ser quem, por uma manobra estudada, provocou sua realização. Tenho dito.

– As tuas palavras não anulam a culpa do Rabi. Se um dos seus discípulos peca, o Mestre não deve pecar. E Ele pecou, curando no sábado. Ele fez um trabalho servil.

– Cuspir na terra não é fazer um trabalho servil. E tocar nos olhos de uma pessoa não é fazer um trabalho servil. Eu também toco no homem e não acho estar pecando.

– Ele fez o milagre no sábado. E nisso está o pecado.

– Honrar o sábado com um milagre é uma graça de Deus e bondade dele. É o dia dele. E não poderá o Onipotente celebrá-lo com um milagre que faça brilhar o seu poder?

– Não estamos aqui para ouvir-te. Tu não és o acusado. É ao homem que queremos interrogar. 510.10Responde, tu. Como foi que obtiveste a vista?

– Eu já o disse. E esses aí me ouviram. O discípulo daquele Jesus me disse ontem: “Vem, que eu te farei ficar são.” E eu vim. E percebi que punham barro aqui, e uma voz que me dizia que eu me fosse lavar em Siloé. Eu assim fiz e estou vendo.

– Mas sabes tu quem foi que te curou?

– Certamente que eu sei. Jesus. Eu já vo-lo disse.

– Mas sabes exatamente quem é Jesus.

– Eu não sei nada. Sou um pobre e um ignorante. E até pouco tempo atrás eu estava cego. Isto eu sei. E sei que Ele me curou. E que, se Ele pode fazer isso, Deus está com Ele, certamente.

– Não blasfemes! Deus não pode estar com quem não observa o sábado –gritam alguns.

Mas José e os fariseus Eleazar, João e Joaquim fazem esta observação:

– Mas também um pecador não pode fazer tais prodígios.

– Estais seduzidos vós também, por acaso, por aquele possesso?

– Não. Sejamos justos. E digamos que, se Deus não pode estar com quem trabalha no sábado, também não pode o homem sem Deus fazer que um cego de nascimento veja –diz calmamente Eleazar.

E os outros concordam com ele.

– E o demônio, onde o colocais? –gritam eles, obstinados e maldosos.

– Eu não posso crer, e nem vós credes nisso, que o demônio possa fazer uma coisa capaz de dar louvor ao Senhor –diz o fariseu João.

– E quem é que o está louvando?

– O jovem, os seus pais, Ofel inteiro, e eu com eles; e comigo todos aqueles que são justos e santamente cheios do temor de Deus”

–rebate José.

Os maldosos, envergonhados, não sabendo mais o que objetar, investem contra Sidônias, chamado Bartolomeu:

– E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?

– Para mim, ele é um profeta. E maior do que Elias no que ele fez ao filho da viúva de Sarepta. Porque Elias fez que voltasse a alma do menino. Mas este Jesus me deu aquilo que eu nunca tinha perdido, porque nunca o tive: a vista. E se Ele me pôs os olhos neste estado e num instante, e sem fazer nada a não ser aquele pouco de barro, enquanto com nove meses minha mãe, com carne e sangue não conseguiu fazê-los em mim, ele deve ser grande como Deus que com o barro fez o homem.

– Fora! Fora! Blasfemador! Mentiroso! Mercadoria de encomenda!

E expulsam o homem dali, como se fosse um condenado.

510.11– O homem mente. Não pode dizer a verdade. Todos podem dizer que quem é cego de nascença não pode ficar são. Deverá ser alguém parecido com Bartolomeu, e que o Nazareno aproveitou… ou, então, Bartolomeu nunca foi cego.

Diante de uma surpreendente afirmação como esta, José de Arimateia não aguentou:

– Que o ódio cegue é uma coisa que se sabe, desde o tempo de Caim. Mas que faça tolos, isso ainda não se sabia. Parece-vos que alguém possa chegar à maturidade da juventude fingindo-se de cego para… presumir algum presumível acontecimento estrepitoso e um grande futuro? Ou, então, que os pais de Bartolomeu não reconheçam o seu filho ou que se prestem a ajudar uma mentira?

– O dinheiro tudo pode. E eles são pobres.

– O Nazareno o é mais do que eles.

– Tu estás mentindo! Somas que passam pelas mãos dos sátrapas são as que passam pelas mãos dele.

– Mas elas não param lá nem um instante. São dos pobres, aquelas somas. São usadas para o bem e não para a mentira.

– Como tu o defendes! E és um dos Anciãos!

– José tem razão. A verdade deve ser dita, seja lá qual for o cargo que alguém exerce –diz Eleazar.

510.12– Ide chamar o cego de novo. Trazei-o de novo aqui. E outros vão à casa dos pais dele e os tragam aqui –grita Elquias, escancarando a porta e dando ordens a alguns, que as estão esperando do lado de fora. E a boca dele está quase coberta de baba, por causa da ira que o está sufocando.

Uns saem correndo para um lado e outros para outro. O primeiro que chega é Sidônias chamado Bartolomeu, espantado e aborrecido. Colocam-no em um canto como uma malta de cães encantoa uma caça… Depois, em seguida a um bom espaço de tempo, eis que vêm chegando os pais dele, rodeados pela multidão.

– Vinde, vós, para dentro. E os outros fiquem fora!

Os dois entram espantados, e veem o seu filho lá no fundo, com saúde, mas como se estivesse detido. Sua mãe geme:

– Oh! meu filho. Logo este que devia ser um dia de festa para nós!

– Escutai-nos. Aquele homem é vosso filho? –interroga rudemente o fariseu.

– Sim, que é nosso filho. E que quereis que ele seja, senão ele?

– Estais bem certos disso?

O pai e a mãe estranharam tanto essa pergunta que, antes de responderem, olham-se um ao outro.

– Respondei!

– Nobre fariseu, e poderias tu pensar que um pai e uma mãe possam enganar-se sobre se alguém é seu filho? –diz humildemente o pai.

– Mas podeis jurar que… Sim. Que por nenhuma soma vos foi pedido que dissésseis que é vosso filho, sendo ele apenas alguém parecido com ele?

– Pedido que disséssemos… Mas pedido por quem? Poder jurar? Mas até mil vezes, e pelo altar e pelo nome de Deus, se queres!

É tão segura a afirmação, que desmontaria até o mais teimoso.

Mas os fariseus não aceitam! E perguntam:

– Mas o vosso filho não tinha nascido cego?

– Sim. Assim ele nasceu. Com as pálpebras fechadas e, por baixo, o vazio, o nada…

– E como é que agora ele nos está vendo, tem as pálpebras e os olhos abertos? Talvez quereríeis vós dizer que os olhos podem nascer assim do modo como se abrem as flores da primavera, e as pálpebras se abrem como o cálice de uma flor?… –diz um outro fariseu, rindo-se sarcasticamente.

– Nós sabemos que este homem é verdadeiramente nosso filho, há quase trinta anos, e que nasceu cego. Mas como é que agora nos está vendo, nós não sabemos, nem sabemos quem foi que lhe abriu os olhos. Enfim, perguntai a ele. Ele não é um idiota nem é mais menino. Já tem os seus bons anos. Fazei-lhe perguntas,e ele vos responderá…

– Vós estais mentindo. Ele, em vossa casa, deve ter narrado como foi curado e por quem. Por que é que dizeis que não sabeis? –grita um dos dois, que haviam sempre seguido o cego.

– Nós estávamos tão assombrados com o que aconteceu, que nem ouvimos –desculpam-se os dois.

510.13Os fariseus se voltam para Sidônias, chamado Bartolomeu:

– Vem para a frente, tu. E dá glória a Deus, se o podes fazer! Não sabes que quem tocou em teus olhos é um pecador? Não sabes? Pois bem. Fica sabendo. Nós te dizemos, pois nós sabemos.

– Deixa. Será, então, como dizeis. Se Ele é pecador, eu não sei. Eu só sei que antes era cego e agora estou vendo, e bem claro.

– Mas que foi que Ele te fez? Como foi que te abriu os olhos?

– Eu já vo-lo disse e vós me ouvistes bem. Quereis agora ouvir de novo? Talvez estejais querendo fazer-vos discípulos dele?

– Estulto! Que sejas tu discípulo daquele homem. Nós somos discípulos de Moisés. E de Moisés aprendemos todas as coisas, e que Deus falou a ele. Mas desse homem, não sabemos nada, nem de onde é que Ele veio, nem quem Ele seja, e nenhum prodígio do Céu faz-nos ver que Ele seja um profeta.

– Justamente neste ponto é que está o que é maravilhoso. Que vós não sabeis de onde ele é e dizeis que nenhum prodígio mostra ser Ele um justo. Mas Ele me abriu os olhos e nenhum de vós em Israel nunca tinha podido fazê-lo, nem mesmo o amor de uma mãe e os sacrifícios de meu pai. Uma coisa, porém, todos nós sabemos, tanto eu como vós, e é que Deus não ouve a um pecador, mas sim a quem tem o temor de Deus e faz a sua vontade. Nunca se ouviu dizer que alguém, no mundo todo, tenha podido abrir os olhos de um cego de nascimento. Mas isso Jesus fez. Se Ele não fosse Deus, não o teria podido fazer.

– Tu nasceste inteiramente no pecado e és deformado no espírito, como e até mais do que já o eras no corpo, e ainda pretendes ensinar a nós? Vai-te embora, aborto maldito, e vira um satanás em companhia do teu sedutor. Fora! Fora, todos vós, plebe estulta e pecadora!

E põem para fora o filho, o pai e a mãe, como se fossem uns leprosos.

510.14Os três lá se vão rapidamente, acompanhados por amigos. Mas tendo chegado ao lado de fora dos muros, Sidônias se vira e diz:

– Pois ficai aí! E dizei o que quiserdes. A verdade é que eu vos vejo e por isso louvo a Deus. E satanases vós é que sereis, mas não o Bom que me curou.

– Cala-te, meu filho. Antes que isso nos faça mal –geme a mãe.

– Oh! Minha mãe! Será que o ar daquela sala envenenou a tua alma, logo a de ti que, na minha dor me ensinavas a louvar a Deus, e que agora, na alegria, não sabes agradecer-lhe e tens medo de homens? Se Deus me amou tanto e te amou tanto, a ponto de dar-nos o milagre, não saberá Ele defender-nos de um punhado de homens?

– Seu filho tem razão, mulher. Vamos para a nossa sinagoga, para dar louvores ao Senhor, visto que do Templo eles nos expulsaram. E vamos andar depressa, antes que termine o sábado…

E, apressando o passo, eles se dispersam pelas estradas do vale.

1 Jason... Simão... Eleazares... Onias..., por 2 Macabeus 4-6.
2 Moloch, nome de um ídolo o qual se oferecem em sacrifício os filhos, passando-os pelo fogo, e é o mesmo nome do sacrifício, tornando-se proverbial. Tratava-se de um culto pecaminoso que é condenado em Levítico 18,21; 20,1-5; Deuteronômio 12,31. Faz-se indicação desse em 2 Reis 16,3; 23,10; 2 Crônicas 33,6; Jeremias 32,35; Ezequiel 16,21. A Moloch é associado a menção que encontraremos em 555.7, o culto idolátrico de Baal e de Astarte pelo qual remetemos a Juízes 2,11-13; 6,25-32; 10,6; 1 Reis 11,5.33; 18,16-29; 2 Reis 10,18-28; 23,4-5.13; 2 Crônicas 33,3; Oseias 11,2.


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