350. 350. Lições aos discípulossobre o poder de vencer os demônios.
4 de dezembro de 1945.
350.1 Agora eles estão de novo na casa de Nazaré. Ou melhor, para sermos mais precisos, estão espalhados pelo penhasco das oliveiras, esperando a hora de sair dali para o descanso. Acenderam uma pequena fogueira para clarear a noite, porque já está tarde e a Lua ainda não nasceu. A tarde está morna “até demais”, como dizem os pescadores, que estão prevendo chuvas e acham bonito estarem ali, todos juntos, as mulheres no jardim florido em companhia de Maria, os homens mais acima e, sobre a crista do penhasco, de modo a poder ser visto por estes e por aqueles, está Jesus, que responde a este ou àquele, enquanto as discípulas o ouvem com atenção. Devem ter ouvido contar o caso do lunático que foi curado aos pés do monte e os comentários ainda continuam a ser feitos.
– É a Ti mesmo que queríamos –exclama o primo Simão.
– Oh! Mas nem mesmo tendo visto que os seus exorcistas nada puderam, mesmo confessando que haviam feito uso das fórmulas mais fortes, Ele persuadiu aqueles obtusos –diz, sacudindo a cabeça, o barqueiro Salomão.
– E nem mesmo dizendo aos escribas as conclusões do que eles dizem conseguirão persuadi-los.
– É verdade. Parece-me que falavam bem, não é mesmo?
– Muito bem. Eles excluíram todo sortilégio diabólico do poder de Jesus, dizendo que se sentiram penetrados por uma profunda paz quando o Mestre fez o milagre, enquanto que, diziam eles, quando esse é produzido por um poder maligno, eles o tomam por um sofrimento –responde Hermes.
350.2 – Mas, que coisa, não? Que espírito forte! Ele não queria ir-se embora! Mas por que não se apoderava dele sempre? Era um espírito expulso, errante, ou então o rapaz é tão santo que por si mesmo o expulsava? –pergunta um outro discípulo, cujo nome eu não sei.
Jesus responde espontaneamente:
– Já expliquei mais vezes1 que toda doença, sendo um tormento ou uma desordem, pode esconder Satanás e Satanás pode esconder-se em uma doença, usá-la, criá-la para atormentar e fazer que se blasfeme contra Deus. O rapaz era um doente, não um possesso. Era uma alma pura. Por isso, com muita alegria Eu a livrei do demônio, que é muito astuto e poderia dominá-la a tal ponto que a tornasse impura.
350.3 – E porque, então, se era uma simples doença, nós não conseguimos curá-la? –pergunta Judas de Keriot.
– Sim. Entende-se que os exorcistas não pudessem fazer nada, pois não se tratava de um endemoninhado! Mas nós… –observa Tomé.
E Judas de Keriot, cuja decepção não diminui por ter experimentado muitas vezes curar o rapaz, conseguindo somente fazê-lo ficar angustiado, quando não em convulsões, diz:
– Mas conosco, pelo contrário, parecia que ele ficava ainda pior. Tu te lembras, Filipe? Tu me estavas ajudando, ouviste e viste os gracejos que ele nos dirigia. Ele chegou até a me dizer: “Vai-te embora! Entre mim e ti o mais demônio és tu.” O que fez que às minhas costas os escribas rissem.
– E tu ficaste desgostoso com isso? –pergunta Jesus, como quem não dá importância.
– Com certeza! Não é bonito que se fique burlado. E não é útil quando acontece com apóstolos. Assim se perde autoridade.
– Quando temos Deus conosco somos, respeitados, ainda que o mundo todo zombe de nós, Judas de Simão.
– Está bem. Contudo Tu, pelo menos em nós apóstolos, aumenta-nos o poder. Para que certos fracassos não se repitam mais.
– Que Eu aumente o vosso poder não é justo, e não seria bom. Vós deveis fazer o vosso esforço para conseguir. Foi pela vossa insuficiência que não conseguistes e também porque vós diminuístes tudo o que Eu vos havia ensinado e passastes a usar de meios não santos, que vós quisestes acrescentar aos meus, na esperança de que assim conseguiríeis mais triunfos.
– Será que te estás referindo a mim, Senhor? –pergunta Isacriotes.
– Tu mesmo logo ficarás sabendo se o merecies. Eu estou falando a todos.
Bartolomeu pergunta:
– Mas, então, que é necessário ter para vencer tais demônios?
– A oração e o jejum. Não é preciso nada mais. Orai e jejuai. E não somente em vossa carne. Por isso é bom que o vosso orgulho tenha ficado em jejum, sem ser satisfeito. O orgulho, quando é satisfeito, torna apáticas a mente e a alma, assim como o corpo saciado demais fica sonolento e pesado. 350.4E agora vamos a também nós ao justo repouso. Amanhã cedo todos, menos Manaém e os discípulos pastores, estejam na estrada de Caná. Ide. A paz esteja convosco.
Depois, ele detém Isaque e Manaém, e lhes dá instruções especiais para o dia seguinte, que é o dia da partida para as discípulas e para Maria que, junto com Simão de Alfeu e Alfeu de Sara, começam a peregrinação pascal.
– Passareis por Esdrelon, a fim de que Marziam possa ver o velho. Dareis aos camponeses a bolsa que Eu vos fiz dar por Judas de Keriot. E, durante a viagem, com a outra que Eu vos dei faz pouco tempo, ireis socorrendo a todos os pobres que fordes encontrando. Quando chegardes a Jerusalém, ide para Betânia e dizei que Me esperem lá pela Lua nova de Nisã. Poderei tardar muito pouco a partir daquele dia. Eu vos confio a pessoa que me é mais querida e as discípulas. Mas Eu tenho certeza de que elas estarão em segurança. Ide. Nós nos tornaremos a ver em Betânia e vamos ficar juntos por muito tempo.
Ele os abençoa e, enquanto se afastam pelo meio da noite, Ele pula para baixo, para a horta, e entra na casa onde já estão as discípulas e sua Mãe que, com Marziam, já estão amarrando os cordões dos sacos de viagem e guardando as coisas que vão levar durante uma ausência, cuja duração não sabem qual será.
1 ja expliquei mais vezes, por exemplo, em 122.8.
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