103. 103. No Líbano em casa dos pastores Benjamim e Daniel.


10 de fevereiro de 1945.

103.1 Jesus caminha ao lado de Jônatas, ao longo de uma margem verde e sombreada. Atrás vão os apóstolos, falando entre si.

Mas Pedro se afasta dos outros, vai lá na frente e, franco como sempre, pergunta a Jônatas:

– Mas, não era mais rápida a estrada que passa por Cesareia de Filipe? Nós pegamos esta e… quando chegaremos? Tu, com a patroa, viajaste também por aquela!

– Com uma doente, eu ousei tudo. Mas pensa bem que eu pertenço a um cortesão de Antipas, e Filipe, depois daquele sórdido incesto, não vê muito bem os cortesãos de Herodes… Não é por mim, sabes, que eu temo. Mas não quero dar aborrecimentos a vós, e particularmente ao Mestre, nem arranjar-vos inimigos. Na Tetrarquia de Filipe é necessária a Palavra, como na de Antipas… e se vos odiarem, como podereis fazer? Na volta, vireis por aquela estrada, se achardes melhor.

– Louvo a tua prudência, Jônatas. Mas na volta pretendo passar pelas terras fenícias –diz Jesus.

– Estão envoltas nas trevas do erro.

– Eu vou manifestar-me nos confins, para lembrá-los de que ali existe uma Luz.

– Crês que Filipe se vingaria em um servo da injustiça que seu irmão lhe fez? –pergunta Pedro a Jónatas.

– Sim, Pedro. Um equivale ao outro. Estão ambos dominados pelos mais baixos instintos, e não fazem distinção. Parecem animais e não homens, podes crer.

– Contudo, nós, ou seja, Ele, que é parente de João, o deveria ter em consideração. João, no fundo, falou também em seu nome e favor, quando falou em nome de Deus.

– Ele não vos perguntaria nem mesmo de onde estais vindo, nem quem sois. Vistos comigo, se ele me reconhecesse ou se eu lhe fôsse indicado por algum inimigo da casa de Antipas como servo do seu Procurador, vós seríeis imediatamente encarcerados. Se soubésseis que barro existe atrás das vestes de púrpura! Vinganças, abusos, delações, luxúrias e furtos formam a mistura da alma deles. Almas?? Ah! Digamos assim. Eu acredito que não tenham mais alma. Vós o estais vendo. Para um bom fim. Mas porque foi libertado João? Por causa de uma vingança entre dois oficiais da corte. Um, para afastar o outro, que era favorito de Antipas, para ser o carcereiro de João, por dinheiro, de noite abriu o cárcere… eu acho que ele tenha atordoado o rival com um vinho drogado e, na manhã seguinte… o infeliz perdeu a própria cabeça, em lugar do Batista, que escapou. É um nojo, eu te digo.

– E o teu patrão, concorda? Parece-me bom.

– E o é. Mas não pode agir diversamente. Seu pai, e o pai do seu pai, pertenceram à corte do Grande Herodes, e o filho, por força, teve que pertencer. Ele não aprova. Mas não pode senão limitar-se a ter sua mulher longe daquela corte de vício.

– E ele não poderia dizer: “Causas-me aversão”, e ir embora?

– Poderia. Mas, mesmo sendo tão bom, ainda não é capaz de tanto. Porque isso, quereria dizer quase certamente: morte. E quem quer morrer por honestidade de espírito, praticada até o mais alto grau? Um santo como o Batista. Mas nós, pobres de nós!

103.2 Jesus, que os deixou falar entre eles, intervém:

– Dentro de não muito tempo, em todos os lugares da terra conhecida estarão plantados, como flores sobre um prado em abril, os santos que ficaram contentes ao morrerem por esta honestidade à Graça e por amor a Deus!

– Deveras? Oh! Eu gostaria de saudar esses santos e dizer-lhes: “Rezai pelo pobre Simão de Jonas!” –diz Pedro.

Jesus o olha fixamente, e sorri.

– Por que me olhas assim?

– Porque tu os verás, como assistente deles, e os verás, quando te assistirem.

– Assistirem em que, Senhor?

– Te tornar a Pedra consagrada pelo Sacrifício, sobre a qual se celebrará e edificará o meu Testemunho.

– Eu não te entendo.

– Entenderás.

Os outros discípulos, que se haviam aproximado, e ouviram, cochicham entre eles.

Jesus volta-se:

– Em verdade vos digo que com um suplício ou outro, todos vós sereis provados. Por enquanto é o suplício da renúncia às comodidades, aos afetos, às vantagens. Depois será uma coisa cada vez maior, até chegardes àquela excelsa que vos cingirá com um diadema imortal. Sede fiéis. Mas vós todos os sereis. E isto tereis.

– Os judeus e o Sinédrio talvez irão matar-nos por nosso amor a Ti?

– Jerusalém lava as soleiras do seu Templo com o sangue de seus Profetas e de seus Santos. Mas o mundo também espera ser lavado… Nele há templos e templos de deuses horrendos. Mas serão no futuro templos do Deus verdadeiro, e a lepra do paganismo será limpa com a água lustral, feita com o sangue dos mártires.

– Oh! Deus Altíssimo! Senhor! Mestre! Eu não sou digno de tanto! Sou fraco! Medroso do mal! Oh! Senhor!! Ou manda embora teu inútil servo, ou dá-me, Tu, a força. Eu não queria que fizesses má figura, Mestre, por causa da minha covardia.

Pedro se jogou aos pés do Mestre, e lhe suplica com o coração na voz.

– Levanta-te, meu Pedro. Não tenhas medo. Ainda tens muito que caminhar… e virá a hora em que não quererás nada mais do que passar pelo último sofrimento. E então terás tudo, do Céu e de ti mesmo. E Eu estarei te olhando admirado.

– Tu o estás dizendo… e eu o creio. Mas sou um tão pobre homem!

103.3 Recomeçam a caminhar…

… e, depois de uma boa interrupção, torno a ver quando já deixaram a planície para trás para subirem em um monte em uma floresta e sempre mais alto. Não deve tampouco ser o mesmo dia, porque enquanto naquele a manhã já era muito quente, aqui é apenas uma bonita aurora que acende diamantinos líquidos sobre todos os caules. Bosques e bosques de coníferas foram superados e dominam lá do alto a paisagem e, como verdes catedrais, acolhem por entre suas colunas os peregrinos incansáveis.

Verdadeiramente, este Líbano é uma estupenda cadeia de montanhas. Não sei se o Líbano é todo o complexo, ou se é este monte só. Sei que vejo cordilheiras com florestas, que se erguem num ponto alto emaranhado de cristas e outeiros, de vales e planaltos, ao longo dos quais correm, para depois despencar vale abaixo, umas torrentes que parecem fitas de prata, de um verde levemente azulado. Pássaros de toda espécie enchem de cantos e de voos, os bosques de coníferas, todos com um perfume de resina nesta hora matutina. Virando-se para o vale, ou melhor, para o ocidente, vê-se ao longe, o mar, amplo, quieto, solene, e a costa toda, que se prolonga para o norte e para o sul, com suas cidades, seus portos e os raros cursos de água, que desembocam no mar, fazendo apenas uma vírgula luzente sobre a terra árida, com a sua pouca água, que o sol do verão seca, e uma dedada amarelada no azul marinho.

– São bonitos estes lugares –observa Pedro.

– Não faz nem tanto calor –diz Simão.

– Com estas árvores, o sol nos incomoda pouco… –acrescenta Mateus.

103.4 – Terão sido levados daqui os cedros do Templo? –pergunta João.

– Sim, são estes bosques que produzem as madeiras mais belas. O patrão do Daniel e do Benjamim possui muitos destes, além de grandes rebanhos. As madeiras são serradas no lugar, e depois são levadas para o vale, através daquelas canelaturas, ou nos braços. É um trabalho difícil, quando os troncos devem ser usados inteiros, como fizeram para o Templo. Mas ele paga bem e muitos o servem. Além disso, ele é muito bom. Não é como aquele Doras feroz. Pobre Jonas! –responde Jônatas.

– Mas, como é que seus servos são quase escravos? Disse-me Jonas, que lhe dizia: “Mas deixa-o aí plantado, e vem conosco. Um pão para ti, Simão de Jonas terá sempre”; ele me disse: “Não posso, enquanto não me resgata.” Que história é esta? –pergunta Pedro.

– Doras, e não só ele em Israel, costuma fazer assim: quando vê um servo bom, leva-o com sutil astúcia a ser escravo. Vai-lhe debitando somas não verdadeiras, que o coitado não pode pagar, e quando o total já é suficiente, ele diz: “Tu és meu escravo por causa da tua dívida.”

– Oh! Que vergonha! E é fariseu!

– Sim. Jonas, enquanto teve economias, pôde pagar… depois… Um ano foi o granizo, no outro foi a seca. O trigo e as videiras produziram pouco. E Doras multiplicou o prejuízo por dez, e mais dez… Depois Jonas ficou doente por trabalhar demais. E Doras lhe emprestou dinheiro para tratar-se, mas quis doze por um, e, visto que Jonas não possuía isso, acrescentou-o ao saldo devedor. Em poucas palavras: ao fim de poucos anos, havia uma dívida que o tornou escravo. E não o deixará ir nunca… Sempre encontrará outros pretextos e outras dívidas…

Jônatas fica triste, pensando no amigo.

– E o teu patrão não podia….

– O que? Fazê-lo tratar como homem? E quem é que se atreve a ir contra os fariseus? Doras é um dos mais poderosos; creio também que ele seja parente do Sumo Sacerdote… Ao menos, é o que se diz. Uma vez, quando Jonas foi espancado quase até à morte e eu fiquei sabendo, chorei tanto, que Cusa me disse: “Vou resgatá-lo, para fazer-te contente.” Mas Doras riu na cara dele, e não aceitou nada. Ah! Aquele ali… tem os campos mais ricos de Israel… mas te juro, são campos adubados com o sangue e com as lágrimas de seus servos.

Jesus olha para o Zelote, e o Zelote olha para Ele. Ambos estão compadecidos.

– E o patrão do Daniel, é bom?

– Pelo menos é humano. Exige, mas não oprime. E, como os pastores são honestos, os trata com amor. São os chefes da pastagem. A mim ele conhece e respeita, porque sou servo de Cusa e… isso poderia ser-lhe vantajoso… Mas por que, Senhor, o homem é tão egoísta?

– Porque o amor foi estrangulado no Paraíso terrestre. Mas Eu vou afrouxar o laço, e dar vida de novo ao amor.

103.5 – Eis-nos nas possessões de Eliseu. Os pastos ainda estão longe. Mas, a esta hora, as ovelhas estão quase sempre nos ovis, por causa do sol. Vou ver se elas estão lá.

E Jônatas parte quase correndo.

Volta, depois de algum tempo, com dois grisalhos e robustos pastores, que verdadeiramente se precipitam pela encosta abaixo, para irem até Jesus.

– A paz a vós.

– Oh! Oh! O nosso Menino de Belém! –diz um deles.

E o outro diz:

– Paz de Deus, que vens a nós, que Tu sejas bendito!

Os homens estão prostrados na erva. Não é tão profunda a saudação que se faz a um altar, quanto esta que foi feita ao Mestre.

– Levantai-vos. Eu vos dou a bênção, e sou feliz em fazê-lo, porque ela vem com alegria sobre quem é digno dela.

– Oh! Dignos nós!

– Sim, vós que fostes sempre fiéis.

– E quem não o teria sido? Quem pode apagar aquela hora? Quem pode dizer: “Não é verdade aquilo que nós vimos”? Quem pode esquecer-se de que Tu sorriste para nós, durante vários meses, quando, voltando para o meio das ovelhas, à tarde, nós te chamávamos e Tu batias as mãozinhas ao som dos nossos pífaros?… Lembras-te disso, Daniel? Quase sempre vestido de branco, nos braços da Mãe, Tu nos aparecias entre raios de sol sobre o prado de Ana, ou pela janela e parecias uma flor pousada sobre a neve da veste materna.

– E aquela vez que vieste, dando os primeiros passos, para acariciar um cordeirinho menos encaracolado do que Tu? Como eras feliz! E nós não sabíamos o que fazer de nossas rústicas pessoas. Teríamos querido ser anjos para te parecermos menos rudes…

– Oh! Meus amigos! Eu via o vosso coração, e o vejo também agora.

– E nos sorris como naquele tempo!

– E vieste até aqui, às casas de pobres pastores!

– Às casas dos meus amigos. Agora estou contente. Eu vos reencontrei a todos e não vos perderei. Podeis hospedar o Filho do homem e os seus amigos?

– Oh! Senhor! Mas ainda perguntas? Não nos faltam pão e leite. Mas se tivéssemos só um pedaço, nós daríamos a Ti, contanto que ficasses conosco. Não é verdade, Benjamim?

– Nós te daríamos o coração como alimento, ó nosso desejado Senhor!

– Então vamos. Falaremos de Deus…

– E dos teus pais, Senhor. José, tão bom! Maria… Oh! a Mãe! Eis, olhai este narciso orvalhado. É belo e puro em sua cabeça que parece uma estrela adamantina. Mas Ela… Oh! isto é sujeira, se comparado à Mãe! Um sorriso dela era purificação, o encontrá-la era uma festa, o ouvi-la, era santificar-se. Tu te lembras também daquelas palavras, Benjamim.

– Sim. Posso repeti-las a Ti, Senhor. Porque tudo o que Ela nos disse, nos meses em que a pudemos ouvir, está escrito aqui (e bate no peito). É a página da nossa sabedoria. E esta também nós a compreendemos, porque é palavra de amor. E o amor… oh! o amor é entendido por todos! Vem, Senhor, entra e abençoa esta morada feliz.

Entram em uma estância, perto do vasto ovil, e tudo termina1.



1 e tudo termina. Segue no caderno manuscrito o desenho de MV que, por exigência de paginação, se reproduz na página sucessiva. Ajudamos a decifrar as palavras: Mediterraneo (Mediterrâneo) no alto à esquerda, seguindo-se, de alto a baixo, porto (porto), molhes (cais), porto (porto), Golfo belíssimo (Golfo muito lindo), filme (rio) (palavra repetida outras quatro vezes ao centro); Livano (Líbano) ao alto à direita, seguindo-se, para baixo, filme (rio) e lago (lago).