53. 53. A expulsão dos vendedores do Templo.
24 de outubro de 1944.
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53.1 Vejo Jesus que vai entrando no recinto do Templo, com Pedro, André, João, Tiago, Filipe e Bartolomeu.
Há uma grande multidão, tanto dentro, como fora do Templo. Grupos de peregrinos chegam de todos os pontos da cidade. Do alto da colina, sobre a qual está construído o Templo, vêem-se as ruas da cidade, estreitas e tortas, a fervilhar de gente. Parece que por entre o branco monótono das casas tenha sido estendida uma fita movediça de mil cores. Sim. A cidade tem o aspecto de um bizarro brinquedo, feito de fitas matizadas, entre dois fios brancos, e todas convergentes até o ponto onde brilham as cúpulas da Casa do Senhor.
Mas no interior há… uma verdadeira feira. Todo recolhimento que havia no lugar santo se acabou. Uns correm, outros chamam, outros fazem negócios com seus cordeiros, gritam e imprecam por causa do preço exorbitante, enquanto outros empurram os pobres animais, que balem, para dentro dos recintos (são divisões rudimentares, feitas com cordas ou com estacas, em cuja entrada está o vendedor, ou o dono que seja, à espera dos compradores). Pauladas, balidos, blasfêmias, reclamações, insultos aos empregados não solícitos nas operações de ajuntamento e escolha dos animais e aos compradores que regateiam os preços, ou que vão-se embora. E maiores insultos àqueles que, previdentes, levaram o seu cordeiro.
Ao redor das bancas dos cambistas, outro vozerio. Compreende-se que o Templo funcionava como… Bolsa e Bolsa negra; não sei se é sempre ou só neste tempo da Páscoa. O valor das moedas não era fixo. Havia um valor legal, certamente terá havido, mas os cambistas impunham um outro, apropriando-se de um tanto, marcado arbitrariamente pelo câmbio das moedas. E eu vos asseguro que eles não brincavam nessas operações de usura! Quanto mais alguém era pobre e vinha de longe, mais era depenado. Os velhos, mais que os jovens e os provenientes de fora da Palestina, mais que os velhos.
Os pobres velhinhos olhavam e tornavam a olhar para o seu pecúlio ajuntado, Deus sabe com quanto trabalho, durante um ano inteiro; agora eles o tiravam e o recolocavam junto ao peito cem vezes, indo de um cambista a outro, e acabavam voltando ao primeiro que então se vingava da inicial desistência deles aumentando o ágio do câmbio… e então, por entre suspiros, as grandes moedas caíam das mãos de seus donos e passavam para as garras do usurário sendo trocadas por moedas menores. Depois era outra tragédia nas escolhas, nos cálculos e suspiros diante dos vendedores de cordeiros, os quais, aos velhinhos já meio cegos, impingiam os cordeiros mais míseros.
53.2 Vejo voltar dois velhinhos, ele e ela empurrando um pobre cordeirinho que deve ter sido achado defeituoso pelos sacrificadores. Pranto, súplicas, maus tratos e palavrões se cruzam, sem que o vendedor se comova.
– Pelo que estais dispostos a gastar, ó galileus, é até muito bonito o que eu vos dei. Ide embora! Ou dai-me mais cinco moedas para receberdes um mais bonito.
– Em nome de Deus! Somos pobres e velhos! Queres impedir-nos de fazer a Páscoa, que talvez seja a última para nós? Não te basta o que quiseste cobrar por um pequeno animal?
– Saí do caminho, ó sujos! Está se aproximando de mim o velho José. Ele me honra com a sua preferência. Deus esteja contigo! Vem, escolhe!
Entra no recinto aquele que é chamado o velho José, o de Arimatéia, e pega um magnífico cordeiro. Ele passa, soberbo e pomposo em suas vestes, sem olhar para os pobres que gemem à porta, aliás, na entrada do recinto. Quase choca-se com eles, especialmente quando sai com o cordeiro gordo que vai balindo.
53.3 Mas Jesus também já está perto. Também Ele já fez a sua compra; Pedro, que provavelmente foi quem fez o negócio por Ele, vem puxando um cordeiro pequeno.
Pedro queria ir logo ao lugar onde se faz o sacrifício. Mas Jesus se afasta dali indo para o seu lado direito, em direção aos dois velhinhos assustados que estão chorando, hesitantes, nos quais a multidão esbarra, e aos quais o vendedor insulta.
Jesus, que é tão alto que as cabeças dos dois velhinhos ficam à altura do seu coração, põe uma mão sobre o ombro da mulher e pergunta:
– Por que choras, mulher?
A velhinha se vira e vê este jovem alto, solene em sua bela veste branca, com um manto também branco, tudo novo e limpo. Ela deve tomá-lo por um doutor, tanto pelas vestes, como pelo aspecto; admirada, porque os doutores e sacerdotes não fazem caso do povo nem protegem o povo contra a avidez dos vendedores, ela diz a razão por que estão chorando.
Jesus se volta ao homem dos cordeiros:
– Troca este cordeiro para estes fiéis. Ele não é digno do altar, como também não é digno que tu te aproveites de dois velhinhos porque são fracos e indefesos.
– E Tu, quem és?
– Um justo.
– A tua fala e a dos teus companheiros mostram que és um galileu. Pode haver algum justo na Galiléia?
– Faz o que estou te dizendo, e sejas justo.
– Ouvi! Ouvi o galileu defensor dos seus semelhantes! Ele quer ensinar a nós no Templo!
O homem ri e zomba imitando o sotaque dos galileus, que é o sotaque judaico mais cantado e o mais rico de doçura, ao menos assim me parece. Pessoas os rodeiam e outros vendedores e cambistas tomam a defesa de seu companheiro contra Jesus.
Entre os presentes há dois ou três rabinos irônicos. Um deles pergunta:
– Tu és doutor? (de modo, capaz de fazer até Jó perder a paciência).
– Tu o disseste.
– O que é que ensinas?
– Ensino o seguinte: a fazer da Casa de Deus casa de oração e não um lugar de usura e de comércio. Isto é o que Eu ensino.
53.4 Jesus está terrível. Parece o arcanjo posto à porta do Paraíso perdido. Não tem espada flamejante na mão, mas tem raios em seus olhos e com eles fulmina os escarnecedores e os sacrílegos. Na mão não tem nada. Só a sua santa ira. E com esta, caminhando rápido e com imponência por entre as bancas, esparrama as moedas que estavam cuidadosamente empilhadas conforme os seus valores; vira mesas e mesinhas; tudo vai caindo, com estrondo, ao chão, entre um grande barulho de metais ricocheteando, de madeiras que se batem percutindo e gritos de ira, de susto e de aprovação. Depois, arrancando das mãos dos que cuidam dos animais, as cordas com que eles prendiam os bois, as ovelhas e cordeiros em seus lugares, faz com elas um açoite bem duro, cujos nós, que formam os laços corrediços, se transformam em flagelos. Levanta-o, gira e abaixa, sem piedade. Sim, vos asseguro: sem piedade.
Aquela saraivada imprevista golpeia cabeças e costas. Os fiéis se afastam, admirados da cena; os culpados são perseguidos até o muro externo e põem-se a correr, deixando no chão o dinheiro e atrás de si os animais grandes e pequenos, numa grande confusão de pernas, de chifres e de asas; uns correm, outros voam indo embora; mugidos, balidos, arrulhos de pombos e rolas, junto a risadas e gritos dos fiéis, que vão atrás dos usurários em fuga, superam até o lamentoso coro dos cordeiros que certamente estão sendo degolados em algum outro pátio.
53.5 Chegam correndo os sacerdotes, com os rabinos e os fariseus. Jesus está ainda no meio do pátio, de volta da sua perseguição. O açoite está ainda em sua mão.
– Quem és tu? Como tomas a liberdade de fazer isso, perturbando as cerimônias prescritas? De qual escola provéns? Nós não te conhecemos nem sabemos quem és.
– Eu sou Aquele que posso. Tudo Eu posso. Desmanchai este Templo que Eu o erguerei de novo para dar louvores a Deus. Eu não perturbo a santidade da Casa de Deus e das cerimônias, mas vós a perturbais, permitindo que sua morada se torne sede de usurários e vendedores. Minha escola é a escola de Deus. A mesma que teve todo Israel pela boca do Eterno que falava a Moisés. Vós não me conheceis? Me conhecereis. Não sabeis de onde Eu venho? Vós o sabereis.
53.6 E, voltando-se para o povo, sem dar mais atenção aos sacerdotes, alto na veste branca, com o manto aberto e flutuante nas costas, com os braços abertos como um orador no ponto mais alto do seu discurso, ele diz:
– Ouvi, ó vós de Israel! No Deuteronômio, está dito1: “Tu constituirás juízes e magistrados em todas as portas… e eles julgarão o povo com justiça sem penderem para nenhum lado. Tu não terás acepção de pessoas nem aceitarás presentes, porque os presentes cegam os olhos dos sábios e alteram as palavras dos justos. Com justiça seguirás o que for justo, a fim de que vivas e possuas a terra que o Senhor teu Deus te tiver dado.”
Ouvi, ó vós de Israel! No Deuteronômio está dito: “Os sacerdotes e os levitas e todos aqueles da tribo de Levi não terão parte na herança com o resto de Israel, porque devem viver dos sacrifícios ao Senhor e das ofertas que a Ele são feitas; nada terão das posses dos seus irmãos, porque o Senhor é a herança deles.
Ouvi, ó vós de Israel! No Deuteronômio está dito: “Não emprestarás com juros a teu irmão, nem dinheiro nem grãos, nem qualquer outra coisa. Poderás emprestar com juros ao estrangeiro; ao teu irmão, ao invés, emprestarás sem juros aquilo de que ele precisar.”
Isto disse o Senhor.
Agora estais vendo que sem justiça para com o pobre é como se julga em Israel. Não é para aquele que é justo, mas é para o forte que se inclinam; e ser pobre, ser povo, quer dizer ser oprimido. Como pode o povo dizer: “Quem nos julga é justo”, se ele vê que só os poderosos são respeitados e ouvidos, enquanto que o pobre não tem quem o ouça? Como pode o povo respeitar o Senhor, se vê que não o respeitam aqueles que mais deviam fazê-lo? É respeito ao Senhor a violação dos seus mandamentos? Por que, então, os sacerdotes em Israel têm posses e aceitam presentes dos publicanos e dos pecadores, os quais assim fazem para terem benévolos os sacerdotes, assim como estes fazem para terem um abastado cofre?
Deus é a herança dos seus sacerdotes. Para esses Ele, o Pai de Israel é o Pai que, mais do que nunca, provê o alimento, como é justo. Mas não mais do que o justo. Ele não prometeu aos seus servos do Santuário nem bolsas nem posses. Na eternidade terão o Céu pela sua justiça, como o terão Moisés, Elias, Jacó e Abraão. Mas nesta terra não devem ter senão a veste de linho e o diadema de ouro incorruptível: pureza e caridade; e que o corpo seja servo do espírito, que é servo do verdadeiro Deus, e não seja o corpo senhor do espírito e contra Deus.
Foi-me perguntado com que autoridade Eu faço isto. E eles, com que autoridade profanam o mandamento de Deus e permitem, à sombra dos muros sagrados, a usura contra os irmãos de Israel que aqui vêm para obedecer à ordem divina? Foi-me perguntado de que escola é que Eu venho e respondi: “Da escola de Deus.” Sim, Israel, Eu venho a ti, e te reporto a esta escola santa e imutável.
53.7 Quem quer conhecer a Luz, a Verdade, a Vida, quem quer ouvir de novo a Voz de Deus falando ao seu povo, venha a Mim. Vós seguistes Moisés, através dos desertos, ó vós de Israel. Segui-me, que Eu vos levo, através de um deserto bem mais tristonho, ao encontro da verdadeira Terra feliz. Por um mar aberto, ao comando de Deus, a essa vos levo. Levantando o meu Sinal, de todo mal Eu vos curo.
A hora da Graça chegou. Os Patriarcas a esperaram e morreram esperando-a. Predisseram-na os Profetas e morreram nesta esperança. Sonharam com ela os justos e morreram confortados por este sonho. Agora, ela surgiu.
Vinde. “O Senhor vai julgar o seu povo e fazer misericórdia aos seus servos”, como prometeu pela boca de Moisés.
O povo, apinhado ao redor de Jesus, ficou de boca aberta, escutando-o. Depois, todos comentam as palavras do novo Rabi e fazem perguntas aos seus companheiros.
Jesus se encaminha para um outro pátio separado deste por uma série de pórticos. Os amigos o seguem e a visão termina.
1 está dito, em: Deuteronómio 16,18-20; 18,1-2; 23,20-21.