253. 253. Maria de Alfeu e a maternidade espiritualizada.Maria Madalena deve se corrigir sofrendo.
14 de agosto de 1945.
253.1Ainda é noite, uma belíssima noite de quarto minguante quando Jesus, silenciosamente, com os apóstolos e as mulheres, mais João de Endor e Hermasteu, se despedem de Isaque, o único que já se levantou, e começam a viagem ao longo da margem. O rumor de seus passos é somente uma crepitação leve que fazem no cascalho calcado com suas sandálias e ninguém fala nada, enquanto a última casinha não tiver ficado a alguns metros para trás. É certo que quem dorme nela ou nas outras que estão antes dela não terá percebido a silenciosa partida do Senhor e de seus amigos. O silêncio é profundo. Somente o mar fala à lua, que já se inclinou para o poente, iniciando o pôr-do-sol e contando às areias as histórias do abismo com suas ondas longas da maré alta, deixando na praia uma margem enxuta cada vez mais estreita.
Desta vez, as mulheres é que vão à frente, junto com João, Zelotes, Judas Tadeu e Tiago de Alfeu, que ajudam as discípulas a superar pequenos escolhos espalhados aqui e ali, úmidos de salobra e escorregadios. Zelotes está com Madalena, João com Marta, enquanto Tiago de Alfeu se ocupa com sua mãe e com Susana e Tadeu não cede a ninguém a honra de segurar com suas longas e robustas mãos, — uma outra parte na qual ele se assemelha a Jesus —, a mão pequenina de Maria e sustentá-la nos passos difíceis. Cada um fala em voz baixa com a sua companheira. Parece que todos queiram respeitar o sono da terra.
Zelotes fala fitando Maria de Magdala e vejo que mais de uma vez Simão abre os braços num gesto de quem diz: “Assim é, e não há outra coisa que fazer”, mas eu não ouço o que é que dizem, estando mais adiante.
João fala só de vez em quando com sua companheira, mostrando-lhe o mar e o Carmelo cuja encosta, virada para o poente, ainda está branca com a luz do luar. Talvez ele esteja falando do caminho feito na outra vez, costeando o Carmelo por outra estrada.
253.2Também Tiago, entre Maria de Alfeu e Susana, está falando do Carmelo. Ele diz à sua mãe:
– Jesus me prometeu subir lá em cima só comigo, e dizer uma coisa só a mim.
– Que será que Ele te quererá dizer, meu filho? Tu me contarás depois?
– Minha mãe, se é um segredo, eu não posso contar –responde sorrindo, com seu sorriso sempre afetuoso, Tiago, cuja parecença com José, esposo de Maria, é muito visível em seus traços e também em sua pacífica brandura.
– Para a mamãe não há segredos.
– E eu não os tenho mesmo. Mas, se Jesus me quer lá em cima sozinho com Ele para me falar, isso é sinal de que Ele quer que ninguém fique sabendo que Ele quer me dizer. E tu, minha mãe, és a minha querida mamãe, que eu tanto amo, mas Jesus está acima de ti, e a vontade dele também. Mas eu perguntarei a Ele, quando chegar a hora, se eu posso dizer-te as palavras dele. Estás contente?
– Tu te esquecerás de perguntar-lhe.
– Não, mamãe. Eu não me esqueço nunca de ti, nem quando estás longe. Quando eu ouço ou vejo qualquer coisa bonita, eu sempre penso: “Se estivesse aqui a minha mamãe!”
– Meu querido! Dá-me um beijo, meu filho.
Maria de Alfeu está comovida. Mas sua comoção não mata sua curiosidade. Ela volta ao assalto, depois de haver-se calado por uns momentos:
– Tu disseste: a sua Vontade. vamos, pelos menos isso podes dizer. Que isto Ele te disse, quando todos os outros estavam presentes.
– Na verdade, eu estava sozinho com Ele na frente –diz, sorrindo, Tiago.
– Mas os outros podiam ouvir.
– Não me disse muita coisa, minha mãe. Mas Ele fez lembrar as palavras1 e a oração de Elias sobre o Carmelo: “Dos profetas do Senhor só fiquei eu.” “Ouvi-me, para que este povo reconheça que Tu és o Senhor Deus.”
– E que é que ele queria dizer?
– Quantas coisas tu estás querendo saber, minha mãe! Vai, então a Jesus, e Ele te dirá –defende-se Tiago.
– Terá Ele querido dizer que, visto que o Batista está preso, de profeta em Israel só terá ficado Ele como profeta em Israel, e que Deus o deve conservar por muito tempo para que o povo possa ser ensinado –diz Susana.
– Hum! Eu creio pouco que Jesus peça para ser conservado por muito tempo. Meu Tiago, dize isto à tua mãe.
– A curiosidade é um defeito, minha mãe, uma coisa inútil, perigosa, e, às vezes, dolorosa. Faze, então, um belo ato de mortificação…
– Ai de mim! Não terá com certeza querido dizer que o teu irmão vai ser preso, e talvez morto?! –diz, toda perturbada, Maria de Alfeu.
– Judas não é “todos os profetas”, minha mãe, ainda que, para o teu amor cada filho seja como se fosse o mundo…
– Penso também nos outros… porque, entre os profetas futuros, estareis certamente vós também. Então… Se ficas tu sozinho, é sinal de que os outros, que meu Judas… oh!…
253.3Maria de Alfeu deixa onde estão Tiago e Susana, e, ligeira como se fosse uma mocinha, corre lá para trás, sem dar atenção à pergunta que lhe está fazendo Tadeu. Ela chega, como se estivesse sendo perseguida, ao grupo de Jesus.
– Jesus meu,… eu estava falando com o meu filho… sobre tudo o que lhe disseste… sobre o Carmelo…sobre Elias… sobre os profetas… Tu disseste que Tiago vai ficar sozinho… E com Judas, que é que vai acontecer? Ele é meu filho, sabes? –diz ela muito cansada pela angústia e pela corrida que deu.
– Eu sei, Maria. E sei também que te sentes feliz por ser ele meu apóstolo. Vê, então, que tu tens todos os direitos como mãe e Eu os tenho como Mestre e Senhor.
– É verdade… é verdade… Mas Judas é o meu menino!… –e Maria, entrevendo o futuro, põe-se a chorar.
– Oh! Que lágrimas mal empregadas! Mas, tudo se perdoa a um coração de mãe. Vem cá, Maria. Não chores. Eu já te confortei uma outra vez. Desde aquela vez2, Eu te prometi que aquela tua dor te teria trazido grandes graças de Deus para ti, para teu Alfeu, para os teus filhos…
Jesus passou o braço por sobre o ombro da tia, puxando-a para bem perto de Si… E Ele manda aos que estavam com Ele:
– Ide vós para a frente…
Depois, sozinho com Maria de Cléofas, Ele recomeça a falar.
– Eu não menti. Alfeu morreu invocando-me. Por isso, toda a sua dívida para com Deus foi cancelada. Aquela volta dele para o parente incompreendido, para o Messias que antes ele não quis reconhecer, foi a tua dor que conseguiu tudo aquilo, Maria. E agora ela há de conseguir que o hesitante Simão e o teimoso José imitem ao teu Alfeu.
– Sim, mas… Que farás do Judas, de meu Judas?
– Eu o amarei ainda mais do que o amo agora.
– Não. Não. Há uma ameaça naquelas palavras. Oh! Jesus! Oh! Jesus!…
253.4A Virgem Maria volta também lá para trás, para consolar a cunhada da dor, cuja natureza ela ainda não conhece e, quando fica sabendo, pois que a sua cunhada, ao vê-la a seu lado, chora ainda mais fortemente, e lhe diz, ficando mais pálida do que a própria lua.
Maria de Alfeu geme, dizendo:
– Dize-o tu a Ele, que não, que a morte para meu Judas, não…
A Virgem Maria, ainda mais descorada, lhe diz:
– E posso eu ir pedir isso para ti, se nem para o meu Filho eu peço que fique livre da morte? Maria, dize comigo: ‘Seja feita a tua vontade, ó Pai, no Céu, na Terra e no coração das mães’. Fazer a vontade de Deus, através da sorte dos filhos é o martírio redentor exigido de nós mães… E, além disso, não foi dito que Judas deve ser morto, ou morto antes que tu morras. A tua oração de agora, para que ele viva até uma idade avançada, então como irá ser desagradável para ti quando, já estando tu no Reino da Verdade e do Amor, fores ver as coisas, todas as coisas, através das luzes de Deus e através da tua maternidade, já espiritualizada. Será, então, e disso tenho certeza, que tu, como bem-aventurada e como mãe, desejarias que Judas fosse semelhante ao meu Jesus em sua sorte de Redentor, e te inflamarias com a ânsia de tê-lo perto de ti, de novo, e para sempre. Porque o tormento das mães é o de serem separadas dos filhos, até no Céu, que nos há de acolher.
253.5O pranto de Maria, que soava tão forte no meio daquele silêncio, que era o primeiro sinal da aurora, fez que todos se voltassem para trás, para saberem o que havia acontecido, ouvem a palavra da Virgem Maria, e a comoção toma conta de todos.
Chora Maria de Magdala, sussurrando:
– E esse tormento eu dei a minha mãe, já desde esta terra.
Chora Marta, dizendo:
– É uma dor recíproca estarem separados os filhos da mãe.
Não deixam de estar brilhando os olhos de Pedro, e Zelotes diz a Bartolomeu:
– Que palavras de sabedoria para explicar o que será a maternidade de uma bem-aventurada!
– E como por uma mãe bem-aventurada serão valorizadas as coisas: através das luzes de Deus e de uma maternidade espiritualizada… Faz que fiquemos sem respiração, como diante de um mistério de luz –responde Natanael.
Iscariotes diz a André:
– A maternidade se despoja de todo o peso dos sentidos, e se transforma toda em asa, por assim dizer. Parece-me já estar vendo as nossas mães transformadas por uma beleza inconcebível.
– É verdade. A nossa, Tiago, nos amará assim. Imaginas, então, como haverá de ser perfeito o seu amor? –diz João ao seu irmão, e é o único que pode ter a luz de um sorriso, porque o pensamento de que sua mãe consiga amá-lo de modo perfeito o comove alegremente.
253.6– Desagrada-me o fato de haver eu causado tanta dor –desculpa-se Tiago–. Mas ela percebeu claramente, e mais do que eu cheguei a dizer… Podes crer-me, Jesus?
– Eu sei, Eu sei. Mas Maria está trabalhando por si mesma, e este é um golpe mais forte do que o de um escopro. Mas tira dela muito peso morto –diz Jesus.
– Coragem, mãe. Para de chorar. Isto me entristece. Que tu fiques sofrendo como uma pobre mulherzinha, que não conhece as certezas do Reino de Deus. Não te estás parecendo em nada com a mãe dos jovens Macabeus3 –censura-a severamente Tadeu, mas sem deixar de abraçar sua mãe.
E termina beijando-a na cabeça, por entre os cabelos encaracolados:
– Estás parecendo uma menina, que está com medo das sombras e das histórias que lhe contam para espantá-la. E, no entanto, tu sabes onde encontrar-me: em Jesus. Que é isso, minha mãe! Deverias chorar, se te tivessem dito que eu, no futuro, me tornaria um traidor de Jesus, alguém que o abandonasse, um condenado. Então, sim. Aí deverias chorar lágrimas de sangue. Mas, se Deus me ajudar, esta dor eu não te darei nunca, minha mãe. Quero estar contigo por toda a eternidade…
A censura primeiro, as carícias depois, acabam por fazer cessar o pranto de Maria de Alfeu, que agora está toda envergonhada por sua fraqueza.
253.7A luz, na passagem da noite para o dia, diminuiu, porque a lua já se pôs, e o dia não começou ainda. Mas é apenas um breve intervalo crepuscular. Pouco depois a luz, primeiro cor de chumbo, depois cinzenta, depois esverdeada, depois cor de leite com infusões de azul, e finalmente clara, como se fosse prata imaterial, e vai-se tornando sempre mais firme, vai ficando mais fácil o caminhar sobre a areia úmida, que as ondas vão deixando descoberta, enquanto os olhos se alegram com a vista do mar, que se torna de um azul mais claro e que vai começar a faiscar com um tremeluzir de pedras preciosas. Depois o ar mistura sua cor prateada com um cor-de-rosa cada vez mais escuro, até que este rosa dourado da aurora se torne uma chuva cor-de-rosa ou avermelhada sobre o mar, sobre os rostos, sobre as campinas, com contrastes de tintas cada vez mais vivas, que atingem o ponto perfeito, e para mim o mais belo do dia, quando o sol, saltando para cima dos seus limites no oriente, lança o seu primeiro raio sobre os montes e as encostas, sobre os bosques, os prados e as amplas vastidões dos mares e dos céus, acentuando bem cada cor com um anil, que varia do verde jaspe ao cobalto do céu, que empalidece para colher o róseo, ou se torna uma safira com veios de jade e guarnições feitas com pérolas do mar. Hoje o mar está um verdadeiro espetáculo de beleza. Não morto, como no peso da calmaria, não revolvido como na lutas dos ventos, mas majestosamente vivo, num sorrir de pequenas ondas mansas, mal notadas, a não ser por pequenas encrespaduras, que se coroam com leves coroas de espuma.
– Chegaremos a Doras, antes que o sol esquente muito. E de lá partiremos ao pôr-do-sol. Amanhã, em Cesareia, terá fim o vosso cansaço, minhas irmãs. E nós também descansaremos. Vosso carro certa mente vos estará esperando. E, então, nos separaremos… 253.8Por que é que estás chorando, Maria? –diz Jesus a Madalena.
– Está triste por deixar-te –desculpa-a sua irmã.
– Ninguém disse que não nos vejamos de novo, e brevemente.
Maria faz sinal de que não, com a cabeça. Não está chorando por isso.
O Zelotes explica:
– Ela tem medo de não saber ser boa se não estiver perto de Ti. Tem medo de… ser tentada com tentações fortes demais, quando Tu não estiveres perto para deter longe o demônio. Ela me falava disso há pouco.
– Não tenhas esse medo. Eu não retiro nunca uma graça que já concedi. Queres tu pecar? Não? E, então? Fica tranquila. Fica vigilante, sim, mas não temas.
– Senhor… eu choro também porque em Cesareia…Cesareia está cheia dos meus pecados. Agora eu os vejo todos… Terei muito que sofrer em minha humanidade…
– Tenho prazer com isso. Quanto mais sofreres, melhor serás. Porque depois não sofrerás mais por estes sofrimentos inúteis. Maria de Teófilo, Eu te faço lembrar que és filha de um forte, e que Eu te quero fazer ficar fortíssima. Eu tenho dó das fraquezas das outras, porque elas sempre foram mulheres mansas e tímidas, a começar por tua irmã. Mas em ti Eu não suporto isso. Eu te trabalharei com fogo e na bigorna. Porque és de uma têmpera que precisa ser trabalhada assim, para não estragar o milagre da tua e da minha vontade. Isto, fica sabendo, e também quem entre os presentes, ou os ausentes, puder ficar pensando que Eu, pelo tanto que te amo, possa começar a ser condescendente contigo. Eu admito que chores por arrependimento ou por amor. Por outro motivo, não. Compreendeste?
Jesus está sugestivo e severo.
Maria de Magdala se esforça para engolir as lágrimas e soluços, e cai de joelhos, beija os pés de Jesus e, procurando falar com voz firme, diz:
– Sim, meu Senhor. Farei o que Tu queres.
– Levanta-te, então, e fica tranquila.
1 palavras, que estão em 1 Reis 18,22; oração, que está em 1 Reis 18,37.
2 Desde aquela vez em 95.5/6.
3 jovens Macabeus, dito assim porque o seu martírio, narrado em 2 Macabeus 7, acontece “ao tempo dos Macabeus”, como é dito em 157.5. Estes últimos se chamavam assim pelo sobrenome (que poderia significar: martelo) do seu principal herói, Judas, o Macabeu, já citado em 72.5. A sua luta, pela conquista da liberdade religiosa e política do povo judaico, são narrados nos dois livros dos Macabeus, que reportamos por capítulos e versos cada vez que a obra mencionada trata de um fato particular ligado a eles. Apresentado por parte do Sinédrio a semelhança entre Judas Iscariotes e Judas Macabeu em 588.4, retratado pelo apóstolo João em 600.2. A este herói vem ao invés é comparado por Jesus, em 600.11, o apóstolo primo de Judas de Alfeu.
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