486. 486. No Templo, para a festa dos Tabernáculos.Discurso sobre a natureza do Reino.
3 de setembro de 1946.
486.1 Jesus entra no Templo. Ele está com os seus apóstolos e com numerosos discípulos, que eu conheço pelo menos de vista. Jesus vem atrás dos outros, mas já unidos ao grupo, como se quisessem mostrar que querem ser considerados seguidores do Mestre. Estão uns rostos novos, todos desconhecidos, menos aquele perspicaz grego1, que veio de Antioquia. Ele fala com outros, talvez gentios como ele, enquanto Jesus e os seus vão adiante para penetrarem no pátio dos israelitas, eles, e estes que com ele estão falando, param no Pátio dos Pagãos.
Naturalmente a entrada de Jesus no Templo superlotado de fiéis não pode passar sem ser percebida. Um sussurro diferente se levanta, como o de uma colmeia excitada, e cobre as vozes dos doutores que estão dando suas lições por baixo do Pátio dos Pagãos. As lições afinal são suspensas sem dificuldade, e os alunos dos escribas correm para todos os lados, levando a notícia da chegada de Jesus, de tal modo que, quando Ele entra na segunda divisão, onde fica o Átrio dos Israelitas, já diversos fariseus, escribas e sacerdotes estão escalonados para observá-lo. Mas não lhe dizem nada, enquanto Ele reza, nem se aproximam dele. Somente o estão vigiando.
Jesus volta ao Pórtico dos Pagãos. E eles vão atrás dele. O caudal dos mal-intencionados vai crescendo, como cresce também o dos curiosos e o dos bem intencionados… Os sussurros em voz baixa perpassam pelo meio do povo. De vez em quando, ouve-se alguma voz mais forte: “Estais olhando se Ele veio? Ele é um justo. E não podia faltar nesta festa.” Ou, então: “Que Ele veio fazer? Extraviar ainda mais o povo?” Ou ainda: “Estais contentes agora? Agora estais vendo onde Ele está? Vós tendes perguntado tanto por Ele.” Ouvem-se também algumas vozes isoladas, e logo amortecidas, sufocadas nas gargantas pelos olhares significativos de discípulos e de seguidores, que ameaçam com o seu próprio amor aos odientos inimigos. São as vozes irônicas, venenosas, dos inimigos, que lançam seus esguichos de veneno, e depois se acalmam, porque ficam com medo da multidão. O silêncio da multidão, depois de alguma manifestação significativa em favor do Mestre, é pelo medo das represálias dos poderosos. Assim estamos no meio de medos recíprocos…
O único que não está com medo é Jesus. Ele vai caminhando devagar, com majestade, para o lugar aonde quer ir, um pouco absorto, e, no entanto, também pronto para sair de suas meditações para ir acariciar um menino, que uma mãe lhe apresenta, ou sorrir para um velho que o saúda, abençoando-o.
486.2 No Pátio dos Pagãos, posto de pé no meio de um grupo de alunos, está Gamaliel. Com os braços cruzados sobre o peito, em sua veste muito alva e ampla, que parece ser ainda mais branca, ao ser posta em contraste com o grosso tapete vermelho escuro, estendido sobre o piso no lugar em que se encontra Gamaliel. Este parece estar pensando, tendo a cabeça um tanto inclinada, e também parece não estar interessado com o que está acontecendo. Entre os seus discípulos, ao contrário, há muita agitação e grande curiosidade. Um deles, que é pequeno, sobe a um escabelo para ver melhor.
Mas, quando Jesus vai passando à altura de Gamaliel, o rabi levanta o rosto, e seus olhos profundos, sob a fronte de um pensador, fixam-se por um instante no rosto pacato de Jesus. Um olhar perscrutador, torturante e torturado. Jesus o percebe, e se vira. Olha para ele. Há dois relampejos: o dos olhos muito escuros e o dos olhos de safira, que se cruzam. O de Jesus é aberto, se deixa perscrutar. O de Gamaliel é impenetrável, preocupado em conhecer desejoso, de rasgar o mistério da verdade, porque para ele o Rabi da Galileia é um mistério, mas farisaicamente cioso do seu próprio pensamento, de modo que se fecha a qualquer pesquisa, a não ser sobre Deus. Fica sssim por um instante. Depois Jesus prossegue, e o rabi Gamaliel torna a inclinar a cabeça sobre o peito, surdo a qualquer pergunta reta, ansiosa, de alguns que estão ao redor dele, ou traiçoeira e odienta de outros: “É Ele, mestre? Que nos dizes dele?” “Bem! Que achas? Quem é Este homem?”
Jesus vai para o lugar que escolheu para Si. Oh! Nele não há tapetes por baixo dos pés! Nem no chão do pórtico. Jesus está simplesmente encostado a uma coluna, de pé sobre o degrau mais alto, no fundo do pórtico. É um lugar sem nenhum destaque. Ao redor dele estão os apóstolos, os discípulos, os seus seguidores e os curiosos. Para além de Jesus estão os fariseus, os escribas, os sacerdotes e os rabis. Gamaliel não deixa o lugar onde está.
486.3 Jesus põe-se a pregar, pela centésima vez, sobre a vinda do Reino de Deus e sobre a preparação desse Reino. Eu poderia dizer que, amplificados em intensidade, Ele repete os mesmos conceitos de que tratou quase naquele mesmo lugar, vinte anos antes2. Ele fala da profecia de Daniel, do Precursor predito pelos profetas, lembra a estrela dos Magos e o morticínio dos Inocentes. E, tendo lançado essas premissas para mostrar os sinais da vinda do Cristo sobre a Terra, cita, para confirmar a sua vinda, os sinais atuais que estão acompanhando ao Cristo que ensina, como antes outros acompanhavam o Advento do Cristo Encarnado, isto é, lembra a contradição que o acompanha, a morte do Precursor e os milagres que frequentemente acontecem, confirmando que Deus está com o seu Cristo. Ele não agride nunca aos seus antagonistas. Parece nem mesmo os estar vendo. Fala para confirmar na fé os seus seguidores, para iluminar na verdade aqueles que, sem culpa, estão ainda na escuridão, quanto à verdade…
Uma voz áspera vem lá do outro lado da multidão:
– Como pode Deus estar nos teus milagres, se eles são feitos em dia proibido? Ontem mesmo, curaste um leproso na entrada de
Betfagé.
Jesus olha para o seu interlocutor, e não responde. Continua a falar da libertação do domínio que oprime os homens e da instauração do Reino de Cristo, eterno, invencível, glorioso e perfeito.
– E, quando será isso? –diz, escarnecendo, um escriba.
E acrescenta:
– Nós estamos sabendo que te queres fazer rei. Mas um rei da tua igualha seria a ruína de Israel, onde estão os teus poderes de rei? Onde as tuas milícias, onde os teus tesouros, onde as alianças? Tu estás doido!
E muitos iguais a ele balançam a cabeça, rindo-se com escárnio. 486.4Um fariseu diz:
– Não façais assim. Desse modo nunca saberemos que é que Ele entende por reino, quais são as leis, que manifestações esse reino terá. E, que quereis? Por acaso o antigo Reino de Israel foi de repente perfeito como nos tempos de Davi e de Salomão? Não vos lembrais daquelas incertezas e horas obscuras, antes do resplendor real do rei perfeito? Para termos o primeiro rei, foi necessário antes formar o homem de Deus, que o ungisse, e, para isso, tirar a esterilidade de Ana de Elcana, e inspirar-lhe a ideia de oferecer o fruto do seu seio. Medita no cântico3 de Ana. Ele é uma lição para a nossa dureza e cegueira: “Ninguém é santo como o Senhor… não queirais multiplicar, gabando-vos, as palavras cheias de soberba… O Senhor faz morrer e viver… Ele eleva o pobre… Ele torna seguros os passos de seus santos, e os ímpios se calarão, porque o homem não é por sua força que é forte, mas pela que lhe vem de Deus.” Oh! Lembrai-vos bem: “O Senhor julgará os confins da Terra e dará o império ao seu rei, e exaltará o poder do seu Cristo.” O Cristo das profecias, acaso não devia vir de Davi? E, então, todas as promessas, desde o nascimento de Samuel em diante, não são promessas do Reino de Cristo? Tu, Mestre, por acaso não és de Davi, nascido em Belém? –pergunta diretamente a Jesus para terminar.
– Tu o disseste –responde Jesus em poucas palavras.
– Oh! Então, dá uma satisfação às nossas mentes. Tu estás vendo que ficar calado não é boa coisa, porque faz crescerem as nuvens da dúvida nos corações.
– Não da dúvida. Mas da soberba. O que é ainda mais grave.
– Como? Duvidar de Ti é menos grave do que ser soberbos?
– Sim. Porque a soberba é a luxúria da mente. É o maior dos pecados, sendo o mesmo pecado de Lúcifer. Deus tantas coisas perdoa, e sua Luz resplende cheia de amor para iluminar as ignorâncias e afugentar as dúvidas. Mas não perdoa a soberba, que zomba dele, dizendo-se maior do que Ele.
– Quem entre nós diz que Deus é menor do que nós? Nós não blasfemamos… –gritam muitos.
– Vós não o dizeis com os lábios. Mas o confirmais com os vossos atos. Vós quereis dizer a Deus: “Não é possível que o Cristo seja um galileu, um homem do povo. Não é possível que seja esse homem aí.” O que é impossível para Deus?
A voz de Jesus parece um trovão. Se antes Ele estava um pouco reservado em sua aparência, apoiado a uma coluna, como um mendigo, agora Ele se endireita, afasta-se da pilastra, ergue majestosamente a cabeça acima do pescoço, e fita a multidão com seus olhos fulgurantes. Ele está ainda sobre o degrau, mas é como se estivesse no alto de um trono, de tão régia que está a sua aparência. As pessoas se afastam, como que amedrontadas, e ninguém responde à última pergunta.
486.5 Depois um rabi, baixinho e cheio de rugas, de uma aparência feia, como deve ser a de sua alma, pergunta, dando antes uma risadinha sem graça e com a voz meio rouca:
– A luxúria se pratica entre duas pessoas. E a mente, com quem é que a pratica? A mente não é corpórea. Como é, então que ela pode pecar por luxúria? Sendo ela incorpórea, a que é que ela se une para pecar?
E se ri, depois de ter arrastado as palavras e continuado na risadinha.
– Com quem? Com Satanás. A mente do soberbo comete fornicação com Satanás contra Deus e contra o amor.
– Lúcifer, com quem fornicou para tornar-se Satanás, se ainda não era Satanás?
– Consigo mesmo. Com o seu próprio pensamento inteligente e desordenado. Que é a luxúria, ó escriba?
– Mas… Eu já te disse! E quem é que não sabe o que é a luxúria? Todos nós já a experimentamos.
– Tu não és um rabi sábio, pois não sabes qual a essência verdadeira deste pecado universal, fruto triplo do Mal. Assim como o Pai, o Filho e o Espírito Santo são a Forma Trina do Amor. A luxúria é uma desordem, ó escriba. A desordem guiada por uma inteligência livre e consciente, que sabe que o seu apetite é um mal, mas assim mesmo, quer saciá-lo. A luxúria é uma desordem e uma violência contra as leis naturais, contra a justiça e o amor para com Deus, para conosco mesmos e para com os nossos irmãos. Qualquer luxúria. Tanto a luxúria carnal, como a que ambiciona as riquezas e poderes da Terra, como também a daqueles que querem impedir ao Cristo de cumprir sua missão, porque eles vão atrás da excessiva ambição, que treme de medo, por saber que Eu vou castigá-la.
Um grande sussurro se espalha pelo meio da multidão. Gamaliel, que ficou sozinho sobre o seu tapete, levanta a cabeça e lança um olhar indagador sobre Jesus.
486.6 – Mas, então, quando virá o Reino de Deus? Tu não respondeste…
–volta a falar o fariseu de antes.
– Quando o Cristo estiver no trono que Israel lhe está preparando, mais alto do que qualquer outro trono, mais alto até do que este Templo.
– Mas onde é que ele está sendo preparado, se nenhum sinal de preparação se vê? Será possível mesmo, será verdade que Roma vai deixar que Israel ressurja? As águias terão ficado cegas, para não verem o que está sendo preparado?
– O Reino de Deus não vem com pompa. Só o olho de Deus é que vê como ele se vai formando, porque o olho de Deus vê o interior dos homens. Por isso, não andeis procurando onde é que está esse Reino, e onde é que ele está sendo preparado. E não creiais em quem diz: “Há uma conspiração em Bataneia, conjura-se nas cavernas do deserto de Engadi, conjura-se nas praias do mar.” O Reino de Deus está em vós, dentro de vós, no vosso espírito que acolhe a Lei vinda dos Céus como Lei da verdadeira Pátria, lei que, se for praticada, forma os cidadãos do Reino. Para isso, antes de Mim veio João, para preparar o caminho dos corações pelos quais haveria de penetrar nelas a minha Doutrina. Com a penitência foram preparados os caminhos, com o amor o Reino surgirá e cairá a escravidão do pecado, que interdiz aos homens o Reino dos Céus.
– Mas realmente este homem é grande. E vós dizeis que Ele é um carpinteiro? –diz em voz alta um que estava escutando atentamente.
Os outros, judeus, pelas vestes que usavam, talvez subornados pelos inimigos de Jesus, olham um para o outro, surpresos, e para os seus subornadores, perguntando:
– Mas, que foi que vós nos insinuastes? Quem pode dizer que este homem desencaminha o povo?
E outros também dizem:
– Nós perguntamos a nós mesmos e a vós o seguinte: se é verdade que nenhum de vós o instruiu, como é que Ele tem tão grande sabedoria? Onde foi que Ele a aprendeu, se não estudou com nenhum mestre.
E, virando-se para Jesus, diz:
– Dize-me uma coisa: Onde foi que aprendeste esta tua doutrina?
486.7 Jesus levanta o seu rosto inspirado, e diz:
– Em verdade, em verdade Eu vos digo que esta doutrina não é minha, mas é daquele que me mandou ao meio de vós. Em verdade, em verdade Eu vos digo que não foi nenhum mestre que me ensinou, nem Eu a encontrei em nenhum livro, nem em nenhum rolo, nem em monumento de pedra. Em verdade, em verdade Eu vos digo que Eu me preparei para esta hora, ouvindo o Vivente falar ao meu espírito. Agora chegou a hora de Eu dar ao povo de Deus a Palavra vinda dos Céus. E Eu o faço, e o farei até o meu último suspiro, depois que Eu o tiver dado, as pedras que me ouvirem, e que não se amolecerem, conhecerão um temor de Deus mais forte do que aquele que Moisés sentiu no Sinai e no temor, transmitindo uma verdade ou amaldiçoando as palavras da minha rejeitada doutrina, se gravarão nas pedras. E aquelas palavras não serão mais destruídas. O sinal delas permanecerá. Como Luz para quem o acolher bem, pelo menos naquele momento, com amor. Como trevas completas para quem, nem mesmo naquela hora, compreender que foi a vontade de Deus que me mandou fundar o seu Reino.
No princípio da Criação foi dito: “Faça-se a luz.” E a luz apareceu sobre o caos. No princípio de minha vida foi dito: “A boa vontade é a que faz a vontade de Deus, e não a combate.” Agora quem faz a vontade de Deus e não a combate, percebe que não me pode combater, porque percebe que a minha doutrina vem de Deus e não de Mim mesmo. Por acaso, estarei procurando a minha glória? Por acaso, digo que sou o Autor da Lei da graça e da era do perdão? Não. Eu não tomo a glória que não é minha, mas dou glória à Glória de Deus. Autor de tudo o que é bom. Mas minha glória é fazer o que o Pai quer que Eu faça, porque isso lhe dá glória. Quem fala em seu favor para ser louvado, procura a sua própria glória. Mas quem, podendo, mesmo sem procurá-la receber glória dos homens pelo que faz ou diz, e a rejeita, dizendo: “Não é minha, nem por Mim foi criada, mas ela procede da do Pai, como Eu dele procedo”, está na verdade, e nele não há injustiça, dando a cada um o que lhe pertence, sem nada reter daquilo que não é seu. Eu existo, porque Ele quis.
486.8 Jesus faz uma parada. Corre o olhar por sobre a multidão, investiga as consciências. Ele as lê. E as pesa. Depois abre a boca outra vez:
– Vós estais calados. A metade de vós está admirada, e a outra metade está pensando como podereis fazer-me calar. De quem são os dez Mandamentos? De onde é que eles vêm? Quem foi que vo-los deu?
– Moisés! –grita a multidão.
– Não, Foi o Altíssimo. Moisés, servo de Deus, foi quem vo-los trouxe. Mas eles são de Deus. Vós, que tendes as fórmulas, mas que não tendes fé, estais dizendo em vossos corações: “A Deus nós não vemos. Nósnão. Nem os hebreus aos pés do Sinai.” Oh! Não vos bastam, para crerdes que Deus estava presente, nem os fulgores que incendiavam o monte, enquanto Deus fulgurava, trovejando diante da presença de Moisés. Não vos bastam nem mesmo os fulgores e terremotos para crerdes que Deus está acima de vós, escrevendo o Pacto eterno de salvação e de condenação. Uma epifania nova e tremenda vós havereis de ver, e logo, do lado de dentro destes muros. Os esconderijos sagrados sairão das trevas, porque será iniciado o Reino da Luz, e o Santo dos Santos será exaltado à vista do mundo, não mais velado pela tríplice cortina. E não crereis ainda. Que é, então, que será preciso para vos fazer crer? Que os fulgores da Justiça caiam sobre vossas carnes? Mas nesse tempo a Justiça estará aplacada. E descerão os fulgores do Amor… No entanto, nem eles escreverão em vossos corações, em todos os vossos corações a Verdade, mas suscitarão o Arrependimento, e depois o Amor…
Os olhos de Gamaliel agora estão fitando, com um rosto atento, o rosto de Jesus.
– Mas Moisés, vós sabeis que era um homem como os outros, e dele vos deixaram a descrição os cronistas do seu tempo. Pois bem. Mesmo sabendo quem ele era, de Quem foi e como foi que recebeu a Lei, por acaso vós a observais? Não. Nenhum de vós a observa.
Ouve-se uma gritaria de protesto pelo meio da multidão.
Jesus impõe silêncio:
– Estais dizendo que não é verdade? E que vós a observais? Então, por que procurais matar-me? Não o proíbe o quinto Mandamento: “não matar”? Vós não admitis que Eu seja o Cristo? Mas não podeis negar que Eu seja o homem. Então, por que procurais matar-me?
– Mas, Tu estás louco. És um endemoninhado! É um demônio que está falando em Ti, e que te faz delirar, dizer mentiras! Nenhum de nós pensa em matar-te! Quem é que quer matar-te? –gritam justamente aqueles que o querem fazer.
– Quem? Vós. Estais procurando desculpas para fazê-lo. E me acusais de culpas não verdadeiras. Vós me reprovais, e não é a primeira vez, porque Eu curei um homem no sábado. Moisés não diz4 que é preciso ter piedade até do asno e do boi que caíram, pois aquilo representa um bem para o teu irmão? E Eu não deveria ter piedade do corpo doente de um irmão para o qual a saúde reconquistada é um bem material e um meio espiritual para bendizer a Deus e amá-lo por sua bondade? E a circuncisão, que Moisés vos deu, por a terdes tido desde os Patriarcas, não a fazeis vós também nos sábados? Se, ao circuncidar um homem no sábado não fica violada a Lei mosaica do sábado; porque ela serve para fazer de um filho homem um filho da Lei, por que é que vos indignais comigo, se no sábado Eu curei um homem todo, no corpo e no espírito, porque a letra, as fórmulas, as aparências são coisas mortas, cenários pintados, mas não vida verdadeira, enquanto que o espírito das palavras e aparências é que é vida real e fonte de eternidade. Mas vós não compreendeis estas coisas, porque não as quereis compreender. 486.9Vamos.
E vira as costas para todos, indo em direção da saída, acompanhado e rodeado pelos seus apóstolos e discípulos, que olham para Ele com dó e com indignação para com os inimigos.
Ele, pálido, sorri para eles, dizendo:
– Não fiqueis tristes. Vós sois meus amigos. E fazeis bem em o serdes. Porque o meu tempo já vai chegando ao fim. Logo vai chegar o tempo em que desejaríeis ver um destes dias do Filho do homem. Mas não podereis vê-lo. Então, vos servirá de consolo o poderdes dizer-vos uns aos outros: “Nós o amamos e lhe fomos fiéis, enquanto Ele esteve entre nós.” E, para se rirem de vós e fazer que pareçais uns doidos, eles vos dirão: “O Cristo voltou. Ele está aqui. Ele está ali.” Não acrediteis nessas palavras. Não vades, não vos ponhais a seguir esses falsos escarnecedores. O Filho do homem, depois de ter ido, não voltará mais, senão em seu Dia. Então, o seu aparecimento será semelhante ao de um relâmpago, que fulgura e brilha, de um lado do céu até o outro, e tão velozmente, que vosso olhar nem pode acompanhá-lo. Vós, e não somente vós, mas nenhum homem poderia seguir-me no meu aparecimento final a fim de recolher a todos os que existiram, que existem e que existirão. Mas, antes que isso aconteça, é necessário que o Filho do homem sofra muito. Sofra tudo. Toda a dor da Humanidade e além disso, seja rejeitado por esta geração.
– Mas, assim sendo, meu Senhor, Tu terás que sofrer todo o mal com que será capaz de golpear-te esta geração –observa o pastor Matias.
– Não. Eu disse: “Toda a dor da Humanidade.” Ela existia antes desta geração, e existirá, por gerações e gerações, depois desta. E sempre pecará. O Filho do homem provará todo o amargor dos pecados passados, presentes e futuros, até o último pecado, em seu espírito, antes de ser o Redentor. Além de sua glória, sofrerá também em seu espírito de Amor. Vós não podeis compreender por enquanto… Vamos agora para aquela casa. Ela é minha amiga.
Bate a uma porta, que se abre, deixando-o entrar, sem que o porteiro mostre nenhum espanto por causa do número de pessoas que vão entrando atrás de Jesus.
1 grego, de nome Nicolau, encontrado a primeira vez em 355.6.
2 vinte anos antes, isto é, na disputa com os doutores, em 41.1/9.
3 cântico, que está em 1 Samuel 2,1-10.
4 diz, em Deuteronômio 22,4; vos deu, em Gênesis 17,9-14; Levítico 12,3.
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