626. 626. Vinda dos pagãose acenos sobre outras aparições.


5 de abril de 1945.

626.1A casa do Cenáculo está cheia de gente. O vestíbulo, o quintal, os quartos, exceto o Cenáculo e o quarto da Virgem Maria, apresentam um aspecto festivo e animado de um lugar onde muitos se reúnem, depois de um tempo, para uma festa. Estão presentes os apóstolos, exceto Tomé. Estão presentes os pastores. Estão ali as mulheres e, com Joana, estão também Nique, Elisa, Sira, Marcela, Ana. Todos estão falando em voz baixa, mas com uma excitação evidente e festiva. Toda a casa está bem trancada, como que por medo, mas o medo do que está fora não estraga a alegria do interior dela.

Marta vai e vem com Marcela e Susana, preparando o jantar dos “servos do Senhor”, como ela chama os apóstolos. As outras e os outros estão fazendo perguntas entre si, transmitindo reciprocamente as suas impressões, suas alegrias, seus temores… como muitos meninos, quando estão à espera de alguma coisa de que eles gostam muito, e isso lhes dá também mais um pouco de coragem.

Os apóstolos bem que gostariam de parecer os mais corajosos. Mas eles são os primeiros a se perturbarem se um rumor fica parecendo uma batida no portão ou se imita o barulho de uma janela que se escancara. Até a chegada da Susana com duas candeias de muitos bicos, que veio para socorrer Marta, a qual está procurando umas roupas brancas, faz que Mateus dê um salto para trás, ao gritar:

– É o Senhor!

E isto faz Pedro cair de joelhos, que, é evidente, se sente mais agitado do que os outros.

626.2Uma batida decidida no portão trunca as palavras e os faz ficarem hesitantes. Eu creio que os corações de todos estão batendo disparados.

Eles olham pela fresta e abrem com um “Oh!” de estupor, vendo o grupo inesperado das damas romanas escoltadas por Longinus e outro que é, como Longinus, vestido de escuro. Tambem as damas, estão todas envoltas em capas escuras, que as cobrem também na cabeça. E tiraram todas as jóias para chamar menos atenção.

– Podemos entrar por um momento a fim de dizermos qual é a nossa alegria à Mãe do Salvador? –diz a mais desembaraçada de todas, que é Plautina.

– Pois vinde. Ela está ali.

Elas entram em grupo com Joana e Maria de Magdala, e eu tenho a impressão de que ela as conheça muito bem.

Longino e o outro romano ficam sozinhos num canto do vestíbulo, porque são olhados um pouco de esguelha.

As mulheres saúdam a seu modo: “Ave, Senhora!” e depois se ajoelham.

– Se antes já admirávamos a Sabedoria, agora queremos ser filhas de Cristo. E a Ti nós o dizemos. Somente Tu é que podes vencer a desconfiança que os hebreus têm de nós. E nós viremos a Ti a fim de que nos instruas, até que eles –(e mostram os apóstolos parados em um grupo na porta)– nos permitam dizer que somos de Jesus.

E foi Plautina quem falou por todas.

Contente, Maria sorri e diz:

– Peço ao Senhor que me purifique os lábios, como ao Profeta1, para eu poder falar com dignidade sobre o meu Senhor. Sede benditas, ó primícias de Roma!

626.3– Também Longino gostaria… e também o lanceiro romano, que experimentou um fogo no coração quando… quando a terra e o céu se abriram ao grito de Deus. Mas se nós sabemos tão pouco, eles não sabem nada. A não ser que Ele era o Santo de Deus e que eles não querem mais permanecer no Erro.

– Dirás a eles que venham até os apóstolos.

– Eles já estão lá… Mas os apóstolos desconfiam deles.

Maria se levanta, e vai aos soldados. Os apóstolos a observam indo até eles e procuram adivinhar qual é o pensamento dela.

– Deus vos conduza para sua Luz, meus filhos! Vinde! Vinde conhecer os servos do Senhor. Este é João. E já o conheceis. E este é Simão Pedro, o que foi escolhido para ser o chefe dos irmãos pelo meu Filho e meu Senhor. Este é Tiago e este é Judas, primos do Senhor. Este é Simão e este é André, irmão de Pedro. E este é Tiago, irmão de João. E estes outros são: Filipe, Bartolomeu e Mateus. Falta Tomé, que ainda está longe. Mas eu o menciono como se estivesse presente. Estes foram os escolhidos para uma missão especial. E estes outros que estão humildemente na sombra são os primeiros no heroísmo do amor. Há mais de seis lustros que eles vêm pregando sobre o Cristo. Nem as perseguições contra eles nem a condenação do Inocente destruíram a fé deles. São pescadores e pastores, e vós sois patrícios. Mas em nome de Jesus não se fazem mais distinções. O amor a Cristo iguala todos e os confraterniza. E o meu amor vos chama de filhos, ainda que vós sejais de outra nação. E eu até vos digo que eu vos reencontro depois de vos terdes perdido, porque, no momento da dor, vós estáveis perto do Moribundo. E eu não me esqueço da tua piedade, Longino. Nem de tuas palavras, soldado. Eu parecia estar morrendo. Mas via tudo. 626.4 E não sei como recompensar-vos. E, na verdade, para as coisas santas não há moeda que pague. Somente amor e oração. E isso eu vos darei, pedindo ao nosso Senhor Jesus que Ele mesmo vos recompense.

– Nós já a recebemos, Senhora. Por isso nós ousamos vir todos juntos. O que nos reuniu foi um impulso comum. A fé já lançou o seu laço de um coração para outro –diz Longino.

Todos se aproximam, cheios de curiosidade. Mas há alguns que, vencendo o acanhamento e talvez até alguma aversão, por estarem tratando com pagãos, dizem:

– E o que foi?

– Eu ouvi uma voz: a dele. E Ele dizia: “Vem a Mim” –diz Longino.

– E eu ouvi: “Se achas que Eu sou santo, então crê em Mim” –diz o outro soldado.

– E nós –diz Plautina–, enquanto nesta manhã estávamos falando Nele, vimos uma luz, uma luz! Ela se transformou em um rosto. Oh! Fala tu do seu esplendor. Era o dele. E Ele nos sorriu, tão docemente, que não tivemos mais do que esta vontade, a de virmos dizer-vos: “Não nos rejeiteis.”

Ouve-se um murmúrio e uns comentários. Todos falam, contando de novo como foi que o viram.

626.5Os dez apóstolos ficam calados, mortificados. E para criarem coragem e não ficar evidente que são os únicos que não receberam uma saudação Dele, perguntam às mulheres hebreias se elas ficaram sem o presente de Páscoa.

Elisa diz:

– Ele tirou a espada de dor que eu sentia por meu filho morto.

E Ana:

– Eu ouvi a promessa dele sobre a salvação eterna dos homens.

Sira:

– Eu, uma carícia.

Marcela:

– Eu, um relâmpago e sua voz que me dizia: “Persevera!”

– E tu, Nique? –eles a interrogam, porque ela está calada.

– Ela já recebeu –respondem outros.

– Não. Eu vi o seu Rosto, e Ele me disse: “Para que sobre o teu coração isto fique impresso.” Como Ele estava belo!

Marta vai e vem, calada e ligeira.

– E tu, irmã? Ele não te deu nada? Tu estás em silêncio e sorrindo. Estás sorrindo muito docemente para não teres tido a tua alegria

–lhe diz Madalena.

– É verdade. Estás com as pálpebras fechadas e a língua muda, mas pareces estar cantando uma canção de amor, pois os teus olhos cintilam atrás do véu dos cílios.

– Oh! Então fala! Mãe, Ele te disse?

A Mãe sorri e se cala.

Marta, que está ocupada em pôr a louça sobre a mesa, quer conservar abaixado o véu por cima do seu feliz segredo. Mas a irmã não a deixa sossegada. Então, Marta, feliz, diz enrubescendo:

– Ele marcou um encontro comigo para a hora da morte e dos esponsais já realizados…

E o seu rosto se acende em um rubor bem vivo e em um sorriso da alma.

1 como ao Profeta, em: Isaías 6,5-7.


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