257. 257. Jesus e Tiago de Alfeu,em retiro sobre o monte Carmelo.


19 de agosto de 1945

257.1 Ficai evangelizando na planície de Esdrelon até que Eu volte para o meio de vós –ordena Jesus aos seus apóstolos em uma serena manhã, enquanto eles, às margens do Quison, estão tomando um pouco de alimento: pão com frutas.

Os apóstolos não parecem estar muito entusiasmados, mas Jesus os encoraja, dando-lhes uma linha a seguir, quanto ao modo de distribuírem os trabalhos entre si e termina dizendo:

Além disso, tendes convosco minha Mãe. Ela vos será uma boa conselheira. Ide aos camponeses de Jocanã e procurai, no sábado, falar com os outros de Doras. Prestai-lhes socorros e confortai o velho pai de Marziam, dando-lhe notícias do menino e dizendo-lhe que, pelas festas dos Tabernáculos o levaremos a ele. Dai muito, dai tudo o que tiverdes a esses infelizes. Tudo que souberdes, todo afeto de que fordes capazes, todo o dinheiro que tivermos. Não tenhais medo. Assim como sai, assim entra. De fome não morreremos nunca. Ainda que vivamos somente de pão e frutas. E, se virdes nudez, dai-lhes vestes, até as minhas. E as minhas em primeiro lugar. Nunca ficaremos nus. E, sobretudo, se encontrardes misérias que me estejam procurando, não as desprezeis. Não tendes o direito de fazer isso. Adeus Mãe. Deus vos abençoe a todos por minha boca. Ide tranquilos. Vem, Tiago.

Não apanhas nem a tua bolsa? –pergunta Tomé, ao ver que o Senhor se põe a caminho sem apanhá-la.

Não precisamos dela. Estarei mais livre para andar.

Tiago também deixa a dele, mesmo depois de sua mãe ter-se apressado em enchê-la de pão, queijo e frutas.

Vão indo, acompanhando no começo a margem do Quison, e depois, enveredando pelas primeiras encostas que levam para o Carmelo e desaparecendo aos olhos dos que ficaram.

Mãe, estamos em tuas mãos. Guia-nos, porque… não somos capazes de nada –confessa humildemente Pedro.

Maria tem um sorriso que os conforta, e diz:

É muito simples. Não há mais do que obedecer às ordens dele e fareis tudo bem. Vamos.

Mas eu não vou com eles… Sigo Jesus…

257.2Ele vai subindo com seu primo Tiago, nada fala e Tiago também não fala. Jesus está concentrado em seus pensamentos. Tiago, que pressente estar para ouvir uma revelação, está todo compenetrado de um amor reverencial, de um tremor espiritual, e olha de vez em quando para Jesus que, em sua concentração, deixa às vezes escapar a luminosidade de um sorriso em seu rosto cheio de gravidade. Olha para Ele como olharia para Deus, ainda não encarnado e resplendente com toda a sua majestade, e aquele rosto, tão parecido com o de São José, com um moreno que não desdenha o vermelho do alto das maçãs do rosto, se torna pálido pela emoção. Mas ele respeita sempre o silêncio de Jesus.

Por íngremes atalhos, como se não estivessem vendo os pastores que estão apascentando os seus rebanhos por baixo dos bosques das azinheiras, dos carvalhos, dos freixos e de outras árvores de tronco alto, vão subindo, sempre mais, roçando com suas capas nas moitas esverdeadas dos zimbros e das douradas giestas, ou então as touceiras cor de esmeralda e cobertas de pérolas dos mirtos, ou as cortinas movediças dos caprifólios e das clematites em flor.

Eles vão subindo, deixando para trás os lenhadores e os pastores, até atingirem, depois de um cansativo caminho, o cume do monte, ou melhor, uma pequena planície, ao lado de uma crista coroada por gigantescos carvalhos, limitada por uma balaustrada de altos troncos, cujas bases são as copas das outras árvores da encosta, de modo que fica parecendo que o pradozinho esteja como que apoiado sobre esta sussurrante base, isolada do resto do monte, que as copas que estão por baixo nos impedem de ver, tendo às nossas costas, o pico que projeta as suas árvores para o céu e sobre o céu aberto e em frente de um largo horizonte, que se avermelha ao pôr do sol e que se perde de vista sobre um mar totalmente incendiado.

Uma fenda está aberta na terra, e a terra só não desmorona, porque as raízes dos gigantescos carvalhos a seguram como rede de tenazes. Ela se abre mais na ribanceira, mas só tendo a largura capaz de acolher o corpo de um homem não muito corpulento. Um capão de mato muito emaranhado, parece prolongar-se, estendendo-se horizontalmente, a partir do lado do barranco.

Jesus abre a boca para dizer:

Tiago, meu irmão, aqui ficaremos esta noite e, ainda que o cansaço da carne seja grande, Eu te peço que passemos a noite em oração. A noite e toda a manhã até esta hora. Um dia inteiro não é demais para receber o que Eu te quero dar.

Jesus, meu Senhor e meu Mestre, eu farei sempre o que quiseres –responde Tiago, que tinha ficado ainda mais pálido, quando Jesus começou a falar.

Eu sei. 257.3Vamos agora apanhar amoras e murtinhos para o nosso estômago, e restaurar-nos perto de uma fonte que Eu ouvi rojando ali em baixo. Mas deixa o manto na caverna. Ninguém o apanhará.

E, junto com o primo, rodeia o barranco, e depois, alguns metros abaixo, na parte oposta à que foi usada para subir, eles enchem os odres, a única coisa que haviam levado consigo, em uma fonte murmurante, que aparece, caindo do meio de um emaranhado de grossas raízes, e nela se lavam para se refrescarem do calor que, mesmo nestas alturas, ainda está forte. Em seguida, tornam a subir para o seu planalto e, enquanto o ar está todo vermelho no topo revestido pela luz do sol, que está para desaparecer no ocidente, comem o que apanharam, bebem de novo, sorrindo um para o outro como dois meninos felizes ou como dois anjos. Poucas palavras: uma lembrança dos que ficaram na planície, uma exclamação cheia de admiração por causa da grande beleza do dia, os nomes das duas mães… Nada mais.

Depois, Jesus puxa para Si o primo e este toma a posição habitual de João, com a cabeça apoiada no alto do peito do Primo, e ficam assim, enquanto a tarde vem descendo com um grande pipilar dos passarinhos, que se recolhem no mato denso, com um tilintar de cincerros, que vão se afastando para longe, tornando-se cada vez menos audíveis, e com o sussurrar leve do vento que acaricia as frondes, refrescando-as e animando-as, tendo elas sofrido o calor parado do dia e que preparou as orvalhadas.

Ficam assim por muito tempo, e eu acho que há silêncio apenas nos lábios, enquanto os espíritos, mais ativos do que nunca se entretém em conversações espirituais..