571. 571. Chegada a Siquém e acolhida.


1 de março de 1947.

571.1Eis Siquém, bonita e adornada. Está cheia de gente da Samaria, que se dirige para o templo samaritano. Também está cheia de peregrinos de todos os lugares, que se dirigem ao Templo de Jerusalém. O sol a inunda completamente com sua luz, e ela se estende por sobre as encostas, do lado leste do Garizim, que a domina do lado oeste, tão verde este quanto ela é branca. A nordeste o Hebal, ainda mais selvagem em seu aspecto, parece querer protegê-la contra os ventos do norte. A fertilidade do solo, rico de águas que descem das vertentes dos montes e se unem para formar dois regatos alegres que, alimentados por centenas de riachos, vão indo para o Jordão, é magnífica, e se mostra até por fora dos muros dos jardins e das sebes, ao longo das hortas. Todas as casas têm suas grinaldas verdes, ou floridas, ou cheias de ramos sobre os quais começam já a aparecer as frutinhas, e nossos olhares, girando pelos arredores bem visíveis conforme a configuração do terreno, não veem outra coisa a não ser o verde dos olivais, dos vinhedos, dos pomares e as ondulações das hastes nos campos que vão deixando pouco a pouco o verde dos trigais para se mostrarem com um amarelo delicado como o da palha, das espigas maduras, que o sol e o vento dobram, dando-lhes uma nova veste, fazendo-as tomar a cor de um ouro branco.

Verdadeiramente os trigais “se alouram”, como diz Jesus, e agora estão completamente dourados, depois de terem estado “branquejantes” ao nascerem, depois do verde bonito como uma joia enquanto estavam crescendo e soltando as espigas. Agora o sol as prepara para morrerem, depois de as ter preparado para viverem. E não se sabe se devemos abençoá-lo mais, agora, que as conduz ao sacrifício, ou se quando, paternalmente, aquecia as covas para fazer germinar o grão e pintava a palidez da haste, que mal havia despontado, fazendo-a sair do belo verde cheio de vigor e de muitas promessas.

571.2Jesus, que falou nisso ao entrar na cidade e ao mostrar o lugar do seu encontro1 com a samaritana, com aquele ensinamento que Ele deu, há tempo, diz aos seus apóstolos, a todos eles menos a João, pois este já ocupou o seu posto de consolador ao lado de Maria, que está muito aflita:

– E não se cumpre agora aquilo que Eu disse naquela ocasião? Nós entramos aqui, desconhecidos e sozinhos. Semeamos. E agora olhai! Quanta messe nasceu daquela semente. E ainda vai crescer e vós colhereis. E outros depois de vós colherão…

– E Tu, não, Senhor? –pergunta Filipe.

– Eu já colhi onde havia semeado o meu Precursor. E depois Eu semeei para que vós colhêsseis e semeásseis com a semente que Eu vos havia dado. Mas assim como João não colheu do que semeou, assim não serei Eu quem colherá dessa messe. Nós somos…

– Somos o quê, Senhor? –pergunta, perturbado, Judas de Alfeu.

– As vítimas, meu irmão, É necessário o suor para tornar férteis os campos, mas é necessário sacrifício para tornar férteis os corações. Nós nos levantamos, nós trabalhamos e morremos. Alguém, depois de nós, virá, surgirá, trabalhará, morrerá… Sempre haverá alguém para colher os frutos do que nós plantamos e regamos com o nosso sangue.

– Oh! Não! Não digas isso, Senhor meu! –exclama Tiago de Zebedeu.

– E tu, um dos discípulos de João antes de seres dos meus, dizes uma coisa destas? Não te lembras das palavras do teu primeiro mestre: “É necessário que Ele cresça e que eu diminua”? Ele compreendia a beleza e a justiça do morrer para dar aos outros a justiça. Eu não serei inferior a ele.

– Mas Tu, Mestre, Tu és Deus. Ele era homem.

– Eu sou o Salvador. Como Deus devo ser mais perfeito do que o homem. Se João, como homem, soube diminuir-se para fazer surgir o verdadeiro Sol, Eu não devo ofuscar a luz do meu Sol com as névoas da vileza. Devo deixar-vos uma límpida lembrança de Mim. A fim de que vós vades para diante. Para que o mundo cresça na Ideia Cristã. 571.3O Cristo irá embora, voltará ao lugar de onde veio e de lá vos amará acompanhando-vos em vosso trabalho e preparando-vos o lugar que será o vosso prêmio. Mas o Cristianismo fica. O Cristianismo crescerá com a minha ida… e com a de todos aqueles que, sem apegos ao mundo e à vida terrena, saberão, como João e como Jesus, ir daqui… morrer para fazer viver.

– Então Tu achas justo que te seja dada a morte?… –pergunta, quase ofegante, Iscariotes.

– Não acho justo que me seja dada a morte. Acho justo morrer por aquilo que o meu sacrifício vai trazer. O homicídio será sempre homicídio para quem o pratica, mesmo se tiver um valor e um aspecto diferente para aquele que morre.

– Que queres dizer?

– Quero dizer que, se aquele que é homicida, mandado ou obrigado, como um soldado na batalha, ou um carrasco que deve obedecer ao magistrado, ou se defender de um ladrão, de fato não tem em sua alma o crime, ou tem um crime relativo que se relaciona com a morte de um seu semelhante, aquele que sem ordem e sem necessidade mata um inocente ou coopera para sua morte, vai para diante de Deus com um rosto horrível, como o de Caim.

– Mas não podemos falar de outro assunto? O Mestre está sofrendo com isso. E tu estás já com uns olhos de atormentado, e nós parecemos estar na agonia. E se a Mãe dele ouvir, começa a chorar. Ela já está chorando por detrás de seu véu! Há tantas coisas para se falar!… 571.4Oh! Eis. Estão chegando os notáveis. Isso vos fará calar. A paz a vós!

Pedro, que estava um pouco adiante e se havia virado para falar, inclina-se em saudações feitas a um grupo cerrado de siquemitas pomposos, que vêm vindo para o lado de Jesus.

– A paz a Ti, Mestre. As casas que te hospedaram na outra vez estão prontas para receber-te, e muitas outras como elas, para as discípulas e os que estiverem Contigo. Virão aqueles aos quais fizeste benefícios ultimamente e na primeira vez. Só uma faltará, porque se afastou do lugar a fim de levar uma vida de expiação. Assim ela disse, e eu creio, porque quando uma mulher se despoja de tudo o que amava, repele o pecado e dá os seus bens aos pobres, é sinal de que verdadeiramente quer seguir uma vida nova. Mas eu não saberia dizer-te onde ela está. Ninguém mais a viu desde que ela saiu de Siquém. A um de nós pareceu tê-la reconhecido, vestida como uma serva, em um povoado perto de Fialé. Um outro jura tê-la reconhecido, vestida miseravelmente, em Bersabéia. Mas ele não tem certeza do que diz. Chamada pelo nome, ela não respondeu, e ouviu-se dizer que ela foi chamada Joana em um lugar e Agar em outro.

– Não é necessário saber mais nada, mas somente que ela está redimida. Qualquer outro conhecimento é inútil, e toda procura indiscreta é curiosidade. Deixai a vossa concidadã em sua paz secreta e basta que ela não dê escândalo. Os anjos do Senhor sabem onde ela está, para dar-lhe o único socorro de que ela precisa, o único que não pode fazer mal à sua alma… 571.5Usai de caridade para com as mulheres que já estão cansadas, levando-as para suas casas. Amanhã Eu vos falarei. Hoje Eu escutarei todos vós e receberei os enfermos.

– Não ficas muito tempo conosco? Não passarás aqui o sábado?

– Não. Passarei o sábado em outro lugar, rezando.

– Esperávamos ter-te conosco por mais tempo…

– Eu só tenho tempo de voltar para a Judéia para as festas. E deixarei convosco os apóstolos e as mulheres, se elas quiserem ficar, até a tarde do sábado. Não fiqueis olhando-vos assim. Vós bem sabeis que Eu devo honrar o Senhor nosso Deus mais do que a qualquer outro, porque ser o que Eu sou não me isenta de ser fiel à Lei do Altíssimo.

Dirigem-se para as casas e em cada uma entram duas discípulas e um apóstolo: Maria de Alfeu e Susana com Tiago de Alfeu. Marta e Maria com Zelotes. Elisa e Nique com Bartolomeu. Salomé e Joana com Tiago de Zebedeu. Depois, em grupo, vão juntos Tomé, Filipe, Judas de Keriot e Mateus para outra casa, e Jesus com Judas de Alfeu e João entram com a Mãe de Jesus naquela do homem que sempre falou em nome dos cidadãos. Os acompanhantes e os de Efraim, de Silo e de Lebona, além de outros que estavam dirigindo-se a Jerusalém como peregrinos, puseram-se a acompanhar Jesus, interrompendo a viagem que já haviam iniciado, e estão espalhados por aí à procura de um alojamento.

1 encontro, narrado no capítulo 143.


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