650. 650. Gloriosa assunção de Maria Santíssima.
8 de dezembro de 1951.
650.1Quantos dias se passaram? É difícil definir com segurança. A julgar pelas flores que fazem uma coroa ao redor do corpo exangue, poderia se dizer que se passaram poucas horas. Mas a julgar dos ramos de oliveira sobre os quais foram colocadas as flores, ramos com folhas já murchas, e pelas outras flores secas, apoiadas como relíquias sobre a tampa do baú, dá para concluir que já se passaram muitos dias.
Mas o corpo de Maria está como se Ela tivesse acabado de expirar. Nenhum sinal de morte há em seu rosto nem em suas pequenas mãos. Nenhum cheiro desagradável se sente no quarto. Pelo contrário, paira no ar o cheiro de um perfume desconhecido, que parece de incenso, de lírios, de rosas, de lírios do vale e de ervas das montanhas, tudo misturado.
João, que talvez já esteja velando há uns quatro dias, pegou no sono, vencido pelo cansaço. Ele está sentado no escabelo, com as costas apoiadas na parede, perto da porta aberta que dá para o terraço. A luz da candeia, que está posta no chão, o ilumina de alto a baixo, e permite que se veja o seu rosto cansado, muito pálido, exceto ao redor dos olhos, que estão avermelhados pelo choro.
O alvorecer já deve ter começado, porque uma fraca claridade já torna visíveis o terraço e as oliveiras que rodeiam a casa, uma claridade que vai-se tornando sempre mais forte, e que, penetrando pela porta, torna sempre mais nítidos os objetos do quarto, aqueles que eram vistos com dificuldade por estarem longe da pequena candeia.
650.2De repente, uma grande luz inunda o quarto, uma luz prateada, mesclada de azul, quase fosforescente, e que cresce cada vez mais, anulando a luz da aurora e a da candeia. É uma luz igual àquela que inundou a gruta de Belém no momento da Natividade divina. Depois, nessa luz paradisíaca, evidenciam-se algumas criaturas angélicas, luz ainda mais esplêndida na luz já tão potente que apareceu antes. Como aconteceu quando os anjos apareceram aos pastores, uma dança de centelhas de todas as cores emana das asas deles, que se movem docemente, das quais vem uma espécie de murmúrio harmônico, harpejado, doce.
As criaturas angélicas se dispõem em círculo, ao redor da pequena cama, curvam-se diante dela, levantam o corpo imóvel e, com um forte bater de asas, que aumenta o som que já se ouvia antes, vão embora por uma passagem que se abriu prodigiosa no telhado, como também prodigiosamente se tinha aberto o Sepulcro de Jesus; e lá se vão eles, levando consigo o corpo de sua Rainha, santíssimo, é verdade, mas não ainda glorificado e por isso ainda sujeito às leis da matéria, sujeição essa à qual não estava mais sujeito o Cristo, porque Ele já estava glorificado quando ressurgiu dos mortos. O som produzido pelas asas angélicas aumenta, e agora já está tão forte como o som de um órgão.
650.3João — que, mesmo continuando adormecido, já havia se mexido duas ou três vezes no seu escabelo, como se fosse perturbado pela grande luz e pelo som das asas angélicas — desperta totalmente por aquele som potente e por uma forte corrente de ar que, descendo do teto aberto e saindo pela porta aberta, forma uma espécie de redemoinho que agita as cobertas da cama agora vazia e as vestes de João, apagando a candeia e fechando a porta aberta com uma forte batida.
O apóstolo olha ao redor de si, ainda um pouco sonolento para perceber o que está acontecendo. Aí ele vê que o leito está vazio. E logo intui que um prodígio aconteceu. Corre para fora por sobre o terraço e, como por um instinto espiritual ou por um chamado celeste, ele levanta a cabeça, fazendo um anteparo com a mão para poder olhar sem ter o obstáculo que vem do sol nascente sobre os seus olhos.
650.4E vê. Vê o corpo de Maria, ainda sem vida e em tudo igual a uma pessoa adormecida, subindo cada vez mais para o alto, sustentado pela escolta celestial. Como para dar uma última saudação, uma borda do manto e do véu se movem, talvez por causa do vento suscitado pela rápida assunção e pelo movimento das asas angélicas, e das flores, aquelas que João havia colocado e renovado ao redor do corpo de Maria e que certamente ficaram entre as pregas de sua veste, e que agora caem no terraço e na terra do Getsêmani, enquanto o hosana potente cantando pela escolta celestial se torna cada vez mais distante e, portanto, mais leve.
João continua a olhar fixamente para aquele corpo que vai subindo para o Céu e, certamente, por um prodígio a ele concedido por Deus, para consolá-lo e premiá-lo por seu amor à Mãe adotiva, ele vê, distintamente, que Maria, envolta agora pelos raios do Sol que já surgiu, sai daquele êxtase que lhe havia separado a alma do corpo, volta à vida, põe-se de pé, porque agora ela também já goza dos dons que são próprios dos corpos já glorificados.
João olha, olha. O milagre que Deus lhe concedeu, dá-lhe o poder, contra todas as a leis naturais, de ver Maria como Ela está agora enquanto vai subindo, arrebatada, para os Céus, rodeada pelos anjos que cantam hosanas, mas não mais ajudada por eles a subir. E João também está agora arrebatado por aquela visão de beleza, que nenhuma pessoa humana, nenhuma palavra, nenhuma obra de artista poderá nunca descrever ou reproduzir, porque é de uma beleza indescritível.
João, estando sempre apoiado na mureta do terraço, continua a olhar para aquela esplêndida e esplendente forma — pois realmente se pode dizer assim de Maria, formada de um modo único por Deus, que quis que Ela fosse imaculada para que assim pudesse ser uma habitação para o Verbo Encarnado — que sobe sempre mais para o alto. E um último e supremo prodígio Deus-Amor concede a este que lhe tem o perfeito amor: o de ver o encontro da Mãe Santíssima com seu Santíssimo Filho, que, sendo Ele também esplêndido e esplendente, belo de uma beleza indescritível, desce do Céu, chega até sua Mãe e a aperta ao coração, e juntos, mais fulgentes do que os dois astros maiores, volta com Ela para o lugar de onde tinha vindo.
650.5A visão de João termina. Ele abaixa a cabeça. No seu semblante cansado estão presentes a dor pela perda de Maria e a alegria pela sua sorte gloriosa. Mas a alegria supera a dor. E ele diz:
– Eu te agradeço, meu Deus! Obrigado! Eu bem que pressentia que isto teria de acontecer. E queria velar, a fim de não perder nenhum dos episódios de sua Assunção. Mas já havia três dias que eu não dormia! O sono, o cansaço, unidos à pena, me abateram e venceram, e isso justamente quando a Assunção já estava iminente… Mas talvez Tu mesmo o tenhas querido assim, ó Deus, para que eu não me perturbasse naquele momento e não sofresse demais… Sim. Certamente Tu o quiseste, como agora quiseste que eu visse o que eu não teria podido ver sem um milagre teu. Tu me concedeste vê-la ainda, ainda que tão longínqua, mas já glorificada e gloriosa, como se estivesse perto de mim. E tornar a ver Jesus! Oh! Visão felicíssima, improvisa e inesperada! Ó dom dos dons de Jesus-Deus ao seu João! Graça suprema!!Tornar a ver o meu Mestre e Senhor. E vê-lo perto da Mãe! Ele semelhante ao sol e Ela, à lua, esplendidíssimos os dois, e gloriosos e felizes por estarem reunidos para sempre! Como será o Paraíso agora que vós ali resplandeceis, Vós, os astros maiores da Jerusalém celeste? Qual não será a alegria dos coros angélicos e dos santos? E é tal a alegria que eu tive ao ver a Mãe com o Filho, algo que anula todos os sofrimentos deles, a tal ponto que os meus também cessam e em mim penetra a paz. Dos três milagres que eu havia pedido a Deus, dois já foram feitos. Eu vi voltar a vida a Maria, e sinto a paz voltar a mim. Toda a minha angústia cessa porque eu vos vi reunidos na glória. Obrigado por isso, ó Deus. 650.6E obrigado por ter-me permitido, mesmo para uma criatura, santíssima mas sempre humana, de ver qual é a sorte dos santos, como será depois do último julgamento, e a ressurreição da carne, e a sua recomposição, a sua fusão com o espírito, que subiu ao Céu na hora da morte. Eu não precisava ver para crer. Porque eu sempre acreditei firmemente em cada palavra do Mestre. Mas muitos duvidarão que, depois de séculos e milênios, a carne, que virou pó, possa voltar a ser um corpo vivente. A estes eu posso dizer, jurando sobre o que há de mais excelso, que não só Cristo voltou a viver, pelo seu próprio poder divino, mas que também a sua Mãe, três dias depois de morta, se morte pode-se chamar a sua morte, retomou a vida, e com a carne reunida à sua alma Ela foi para a morada eterna no Céu, ao lado do Filho. Poderei dizer: “Acreditai, ó cristãos todos, na ressurreição da carne, no final dos séculos, e na vida eterna, da alma e do corpo, vida beata para os santos, horrenda para os culpados impenitentes. Crede e vivei como santos, como viveram Jesus e Maria, para ter a mesma sorte que a deles. Eu vi os corpos Deles subirem ao Céu. Isso eu vos posso testemunhar. Vivei como justos para poder, um dia, estar no novo mundo eterno, de alma e corpo, junto a Jesus-Sol e junto a Maria, Estrela de todas as estrelas.” Obrigada ainda, meu Deus! 650.7E agora vamos recolher o que resta Dela. As flores que caíram de suas vestes, os ramos de oliveira que ficaram em seu leito, e os conservemos. Irão servir… Sim, irão servir para ajudar e consolar os meus irmãos, em vão esperados. Um dia ou outro eu os tornarei a ver…
Recolhe também as pétalas de flores desfolhadas ao cair, entra no quarto, mantendo-as numa dobra da veste.
650.8Então, ele nota a abertura do teto e exclama:
– Um outro prodígio! E uma outra admirável proporção nos prodígios da vida de Jesus e de Maria! Ele, Deus, ressurgiu por Si, e com a sua vontade derrubou a pedra do Sepulcro, e só com o seu poder subiu ao Céu. Por si só. Maria, santíssima mas filha do homem, com a ajuda dos anjos teve uma brecha aberta para a sua assunção ao Céu. E, sempre com a ajuda dos anjos, foi assunta para lá. Em Cristo, o espírito voltou a animar o Corpo enquanto este estava ainda na Terra, porque assim devia ser, para silenciar os inimigos e para confirmar na fé todos os seus seguidores. Em Maria, o espírito voltou quando o Corpo santíssimo estava já nas soleiras do Paraíso, porque para Ela não era necessário mais nada. Potência perfeita da infinita Sabedoria de Deus!…
650.9João, agora, está recolhendo em um lençol as flores e os ramos que ficaram sobre a cama; une a eles os que recolheu fora e os põe todos eles na tampa do baú. Depois abre-o e coloca ali o travesseiro de Maria, a colcha da cama; desce até a cozinha, recolhe os objetos usados por Ela — o fuso e a roca, as suas louças — e junta-as às outras coisas.
650.10Fecha o baú e se senta no escabelo, exclamando: – Agora tudo está feito também para mim! Agora posso ir, livremente, lá onde o Espírito de Deus me conduzir. Ir! Semear a divina Palavra que o Mestre me deu para que eu a dê aos homens. Ensinar o Amor. Ensiná-lo para que creiam no Amor e na sua potência. Fazer com que eles conheçam o que Deus-Amor fez pelos homens. O seu Sacrifício e o seu Sacramento e Rito perpétuos, pelos quais, até o fim dos séculos, nós poderemos estar unidos a Jesus Cristo pela Eucaristia e renovar o rito e o sacrifício como Ele mandou fazer. São dons do Amor perfeito! Fazer com que o Amor seja amado, para que creiam Nele como nós acreditamos e cremos. Semear o Amor para que a messe e a pesca sejam abundantes para o Senhor. O amor obtém tudo, disse-me Maria no seu último discurso, a mim, que Ela justamente definiu, no Colégio Apostólico, como aquele que ama, o amoroso por excelência, a antítese de Iscariotes que foi o ódio, como Pedro foi a impetuosidade e André a mansidão, os filhos de Alfeu a santidade e a sabedoria unida à nobreza dos modos, e assim por diante. Eu, o amoroso, agora que não tenho mais o Mestre nem a Mãe para amar na terra, irei para espalhar o amor entre os povos. O amor será a minha arma e doutrina. E com ele vencerei o demônio, o paganismo, e conquistarei muitas almas. Assim, continuarei Jesus e Maria, que foram o amor perfeito na terra.