41. 41. A disputa de Jesus com os doutores no Templo.A angústia da mãe e a resposta do Filho.


28 de janeiro de 1944.

41.1 Vejo Jesus. Já é um adolescente. Está vestido com uma túnica muito branca, que me parece de linho, comprida até os pés. Sobre ela está posto um manto retangular vermelho claro. Jesus está com a cabeça descoberta, os longos cabelos descendo até a metade das orelhas­, e mais escuros do que quando o vi menino. É um rapaz robusto, muito alto para a sua idade e que, como seu rosto está mostrando, é ainda a de um jovem.

Ele olha para mim, sorri, estendendo-me as mãos. É porém, o seu, um sorriso parecido com aquele que nele vejo quando já homem feito: doce e um tanto sério. Ele está sozinho. Por enquanto, não vejo outra pessoa. Está encostado a um muro que fica acima de uma estradinha cheia de altos e baixos, pedras e com uma cavidade ao centro, por onde certamente se forma um córrego, no tempo da chuva. Mas agora ela está seca, porque o dia está claro.

Tenho a idéia de ir-me encostar também ao muro, e de lá olhar ao redor e para baixo, como Jesus está fazendo. Estou vendo um aglomerado de casas. É um aglomerado desordenado. As casas são, umas altas, outras baixas, e foram construídas sem a preocupação de fazê-las num mesmo alinhamento. Fazendo uma comparação muito simples, mas com muita semelhança, parece um punhado de pedras brancas, jogadas sobre um terreno escuro. As ruas e vielas são como veias, no meio daquela brancura. Aqui e ali algumas árvores estendem suas copas sobre os muros. Muitas delas estão em flor, e muitas também já estão cobertas de folhas novas. Deve ser primavera.

À esquerda, para quem olhar de onde estou, há um grande aglomerado disposto em três ordens de terraços repletos de construções e torres, pátios e séries de pórticos. No centro se ergue uma construção mais alta, majestosa, com cúpulas redondas que brilham ao sol, como se estivessem cobertas de metal: cobre ou ouro. O conjunto é cercado por uma muralha guarnecida de ameias, na forma de umDisegno%20pag.%20220%20(ed.%20it.%20222),

como uma fortaleza. Uma das torres é mais alta do que as outras, e está construída no fim de uma rua estreita e em aclive, dominando aquele grande aglomerado. Parece uma sentinela atenta.

Jesus olha fixamente para aquele lugar. Depois, volta à sua posição anterior, apóia as costas ao muro, como estava, olhando para um pequeno monte, na frente do aglomerado. O pequeno monte está tomado pelas casas, de alto a baixo. Vejo que ali termina uma rua com um arco, além do qual só há uma rua calçada com pedras quadrangulares, irregulares e desconexas. Não são muito grandes, não são como as pedras das estradas consulares romanas. Mais parecem as clássicas pedras das ruas de Viareggio (não sei se ainda existem aquelas pedras) colocadas sem nenhuma ligação entre si. É uma estrada ruim. O rosto de Jesus fica tão sério, que eu me ponho a procurar sobre aquele pequeno monte a causa de sua melancolia. Mas não encontro nada de especial. Vejo somente um monte despido de tudo. E basta. Enquanto isto, perco de vista Jesus, pois, quando me viro, Ele não está mais ali. Com esta visão eu adormeço.

41.2 … Quando acordo, com a lembrança daquela visão no coração, tendo recobrado um pouco as forças e a paz, porque todos estão dormindo, me encontro em um lugar que eu nunca tinha visto antes. Nele há pátios e fontes, séries de pórticos e casas, ou melhor, pavilhões, pois têm mais características de pavilhões do que de casas. Há uma grande multidão de gente, vestida à antiga moda hebraica, num forte vozerio. Olhando ao meu redor, compreendo que estou dentro daquele aglomerado para o qual Jesus estava olhando, porque vejo a muralha com ameias que o rodeia, a torre que o vigia e a imponente construção, que se ergue no centro, e contra a qual vão-se estreitando os pórticos, muito bonitos e espaçosos, sob os quais há muita gente, tratando de uma coisa ou de outra.

Compreendo que estou no recinto do Templo de Jerusalém. Vejo fariseus com suas compridas vestes ondulantes, sacerdotes vestidos de linho e com uma placa preciosa na parte superior do peito e da fronte, e outros pontos brilhantes espalhados aqui e ali sobre diversas vestes muito amplas e brancas, ajustadas à cintura por um cinto precioso. Depois, vejo outros que estão menos ornados, mas que devem certamente pertencer à classe sacerdotal, e que estão rodeados por discípulos mais jovens. Compreendo que eles são os doutores da Lei. Entre todos estes personagens, eu me encontro desorientada, porque não sei ao certo o que estou fazendo aqui.

41.3 Aproximo-me do grupo dos doutores, onde se iniciou uma disputa1 teológica. Muita gente faz a mesma coisa.

Entre os “doutores” há um grupo chefiado por um homem chamado Gamaliel e por um outro, velho e quase cego, que defende Gamaliel na disputa. Este, que ouço ser chamado de Hilel, (coloco o h porque ouço uma aspiração ao princípio do nome) parece-me ser mestre ou parente de Gamaliel, porque este o trata com confiança e respeito, ao mesmo tempo. O grupo de Gamaliel tem vistas mais largas, enquanto que um outro grupo, mais numeroso, é dirigido por um homem que chamam de Shamai, dotado daquela intransigência cheia de ódio retrógrado do qual o Evangelho tão bem nos mostra.

Gamaliel, rodeado por um grupo numeroso de discípulos, fala da vinda do Messias e, apoiando-se na profecia de Daniel, sustenta que o Messias já deve ter nascido, porque já há cerca de dez anos que as setenta semanas profetizadas se completaram, desde que saiu o decreto da reconstrução do Templo. Shamai o combate, afirmando que, se é verdade que o Templo foi reedificado, também é verdade que a escravidão de Israel aumentou, e a paz, que haveria de trazer consigo Aquele que os Profetas chamavam “Príncipe da Paz”, está longe de existir no mundo, especialmente em Jerusalém, agora oprimida por um inimigo, que ousa levar a sua dominação até dentro do recinto do Templo, que está dominado pela torre Antônia, cheia de legionários romanos, prontos a reprimir com suas espadas qualquer levante de independência dos patriotas.

A disputa, cheia de cavilações, dá sinais de que irá prolongar-se. Cada um dos mestres faz ostentação de erudição, não só para vencer o rival, mas para impor-se à admiração dos ouvintes. Esta intenção é evidente.

41.4 Do numeroso grupo dos fiéis, ouve-se sair a voz jovem deum rapazinho:

– Gamaliel está certo!

Então começa um movimento no meio da multidão e do grupo dos doutores. Estão procurando quem foi que disse aquelas palavras. Mas não é preciso procurá-lo. Ele não se esconde, e vem abrindo caminho por entre a multidão, aproximando-se do grupo dos “rabinos.” Reconheço nele o meu Jesus adolescente. Ele está seguro do que diz, com aqueles seus dois olhos cintilando e cheios de inteligência.

– Quem és tu? –lhe perguntam.

– Sou um filho de Israel, que vim cumprir o que ordena a Lei.

Esta resposta, audaz e firme, agrada e provoca sorrisos de aprovação e benevolência. Interessam-se pelo pequeno israelita.

– Como te chamas?

– Jesus de Nazaré.

A benevolência diminui no grupo de Shamai. Mas Gamaliel, mais benigno, prossegue no diálogo com Hilel. Aliás, é Gamaliel que com deferência diz ao velho:

– Pergunta ao rapazinho alguma coisa.

– Em que é que se baseia a tua segurança? –pergunta Hilel.

(Vou pôr os nomes antes das respostas, para abreviar e tornar-se mais claro).

Jesus:

– Na profecia, que não pode errar quanto à época e quanto aos sinais que a acompanham, quando chega o momento da verificação. É uma verdade que César nos está dominando. Mas o mundo estava tão em paz, e a Palestina em tão grande calma, quando se cumpriram as setenta semanas, que foi possível a César ordenar que se fizesse o recenseamento em seus domínios. Ele não teria podido fazer, se houvesse guerra no Império ou levantes na Palestina. Como aquele tempo se cumpriu, assim também está se cumprindo o outro tempo de sessenta e duas semanas mais uma, desde a realização do Templo, para que o Messias seja ungido e se confirme a continuação da profecia, para o povo que não o quis. Podeis ter dúvidas? Não vos lembrais que a estrela foi vista pelos Sábios do Oriente e que foi parar justamente no céu de Belém de Judá, e que as profecias e as visões, desde Jacó e após ele, indicam aquele lugar como o destinado a acolher o nascimento do Messias, filho do filho do filho de Jacó, através de Davi, que era de Belém? Não vos lembrais de Balaão? “Uma estrela nascerá de Jacó”. Os Sábios do Oriente, cuja pureza e fé tornavam abertos os seus olhos e seus ouvidos, viram a estrela e entenderam o seu nome: “Messias”, e vieram adorar a Luz que desceu ao mundo.

41.5 Shamai, com um olhar rancoroso:

– Tu dizes que o Messias nasceu no tempo da estrela, em Belém-Efrata?

Jesus:

– Eu o digo.

Shamai:

– Então, ele não existe mais. Não sabes, rapaz, que Herodes fez matar todos os meninos de um dia até dois anos de idade em Belém e nos arredores? Tu, que és tão sábio na Escritura, deves saber também isto: “Um grito se ouviu no alto… É Raquel, que está chorando os seus filhos.” Os vales e as colinas de Belém, que recolheram o pranto de Raquel, que estava morrendo, ficaram cheios de pranto, e as mães choravam também sobre seus filhos que foram mortos. Entre elas estava certamente também a mãe do Messias.

Jesus:

– Estás enganado, ó velho! O pranto de Raquel se transformou em hosana, porque lá onde ela deu à luz o “filho da sua dor”, a nova Raquel deu ao mundo o Benjamim do Pai celeste, o Filho da sua destra, Aquele que está destinado a reunir o povo de Deus sob o seu cetro, e livrá-lo da mais tremenda escravidão.

Shamai:

– E como, se Ele foi morto?

Jesus:

– Não leste a respeito de Elias? Ele foi arrebatado no carro de fogo. E não poderá o Senhor Deus ter salvo o seu Emanuel para que fosse o Messias do seu povo? Ele, que abriu o mar diante de Moisés, para que Israel passasse a pé seco para a sua terra, não terá podido mandar os seus anjos para salvarem o seu Filho, o seu Cristo, da ferocidade do homem? Em verdade, eu vos digo: o Cristo vive, e está entre vós, e, quando chegar a sua hora, Ele se manifestará em seu poder.

Jesus, ao dizer estas palavras, que eu sublinho, tem na voz um som que enche o espaço. Os seus olhos cintilam mais ainda e, com um gesto de império e de promessa, Ele estende o braço e a mão direita, e os abaixa, como fazendo um juramento. É um rapazinho, mas está solene como um homem.

41.6 Hilel:

– Rapazinho, quem te ensinou estas palavras?

Jesus:

– Espírito de Deus. Eu não tenho mestre humano. Esta é a Palavra do Senhor, que vos está falando, através dos meus lábios.

Hilel:

– Vem cá entre nós, para que eu te possa ver de perto, ó mocinho, e a minha esperança se reavive ao contato da tua fé, e a minha alma se ilumine ao sol da tua.

E Jesus vai, de fato, sentar-se em um banco alto entre Gamaliel e Hilel, e lhe são levados uns rolos para que os leia e explique. É um exame em plena regra. A multidão se aglomera e escuta.

A voz juvenil de Jesus lê:

– “Consola-te, ó meu povo! Falai ao coração de Jerusalém, consolai-a porque a sua escravidão se acabou… Voz do que grita no deserto: preparai os caminhos do Senhor… Então aparecerá a glória do Senhor…”

Shamai:

– Estás vendo, nazareno! Aqui se fala de escravidão que se acaba. Nunca fomos escravos como o somos agora. Aqui se fala de um precursor. Onde está ele? Tu estás delirando.

Jesus:

– Eu te digo que a ti, mais do que a outros, está feito o convite do Precursor. A ti e aos teus semelhantes. De outra maneira, não verás a glória do Senhor, nem compreenderás a palavra de Deus, porque as baixezas, as soberbas, as duplicidades serão para ti um obstáculo para veres e ouvires.

Shamai:

– Falas assim a um mestre?

Jesus:

– Assim falo. E assim falarei até à morte. Porque, acima do que me é útil, está o interesse do Senhor e o amor à Verdade, da qual sou Filho. E te digo ainda, ó rabi, que a escravidão, de que fala o Profeta, e da qual Eu falo, não é aquela que pensas, como a realeza não será aquela que pensas. Mas, sim, é pelo mérito do Messias que o homem se tornará livre da escravidão do Mal, que o separa de Deus, e o sinal do Cristo estará sobre os espíritos, livres de todo jugo, e feitos súditos do Reino eterno. Todas as nações curvarão suas cabeças, ó estirpe de Davi, diante do Rebento nascido de ti, e que se tornou árvore que cobre toda a terra, e se levanta até o Céu. E no Céu e na terra, toda boca louvará o seu Nome, e dobrarão o joelho, diante do Ungido de Deus, do Príncipe da Paz, do Chefe, Daquele que se dará a si mesmo para delícia das almas cansadas, saciará a alma faminta, do Santo que fará uma aliança entre a terra e o Céu. Não como aquela aliança feita com os Pais de Israel, quando Deus os tirou do Egito, tratando-os ainda como escravos, mas imprimindo a paternidade celeste no espírito dos homens, por meio da Graça novamente infundida pelos méritos do Redentor, pelo qual todos os homens bons conhecerão o Senhor, e o Santuário de Deus não será mais derribado e destruído.

Shamai:

– Não fiques blasfemando, mocinho! Lembra-te de Daniel. Ele diz que, depois da morte de Cristo, o Templo e a Cidade serão destruídos por um povo e por um chefe que virá. E Tu estás dizendo que o Santuário de Deus não será mais derrubado! Respeita os Profetas!

Jesus:

– Em verdade eu te digo que aqui está Alguém que é mais do que os Profetas, e tu não o conheces, e não o conhecerás, porque te falta a vontade. E te digo que tudo o que Eu disse é verdade. Não conhecerá mais a morte o verdadeiro Santuário. Mas como o seu Santificador, ressurgirá para a vida eterna e, no fim dos dias do mundo viverá no Céu.

41.7 Hilel:

– Escuta, jovenzinho. Ageu diz: “virá o Desejado dos povos. Grande será, então, a glória desta casa, maior do que a que coube à primeira.” Estará ele se referindo ao Santuário de que Tu falas?

Jesus:

– Sim, mestre. Quer dizer isso. A tua retidão te leva para a Luz, e Eu te digo: quando o Sacrifício do Cristo se consumar, terás paz, porque és um israelita sem malícia.

Gamaliel:

– Diz-me, Jesus. A paz, de que falam os Profetas, como poderá ser esperada, se a este povo virá a destruição pela guerra? Fala, e dá luz a mim também.

Jesus:

– Não te lembras, mestre, o que foi que disseram aqueles que estiveram presentes na noite do nascimento de Cristo? Não te lembras de que os exércitos celestiais cantavam: “Paz aos homens de boa vontade”? Mas este povo não tem boa vontade, e não terá paz. Ele desconhecerá o seu Rei, o Justo, o Salvador, porque espera que Ele seja um rei de poderes humanos, enquanto que Ele é o Rei do espírito. Este povo não o amará, porque o Cristo pregará o que a este povo não agrada. O Cristo não debelará os seus inimigos com seus carros e cavalos, mas, sim, os inimigos da alma, que dominam, com possessão infernal, o coração do homem criado pelo Senhor. E esta não é a vitória que Israel está esperando Dele. Ele virá, Jerusalém, o teu Rei, cavalgando uma “jumenta e um jumentinho”, ou seja, os justos de Israel e os gentios. Mas o jumentinho, Eu vo-lo digo, será mais fiel a Ele, e o seguirá precedendo a jumenta, e crescerá no caminho da Verdade e da Vida. Israel, pela sua má vontade, perderá a paz, e sofrerá em si, através dos séculos, aquilo que fizer sofrer ao seu Rei, depois de tê-lo reduzido ao Rei das dores, de que fala Isaías.

41.8 Shamai:

– Tua boca tem, ao mesmo tempo, cheiro de leite e de blasfêmia, nazareno. Responde-me: E onde está o Precursor? Quando o teremos?

Jesus:

– Ele já está aqui. Não diz Malaquias: “Eis que eu mando o meu anjo a preparar o caminho diante de Mim; e logo virá ao seu Templo o Dominador, por vós procurado, e o Anjo do Testamento por vós desejado”? Portanto, o Precursor virá imediatamente antes de Cristo. Ele já está aqui, como o Cristo está. Se passassem anos entre aquele que prepara os caminhos do Senhor e o Cristo, todos os caminhos se tornariam cheios de entulhos e obstáculos. Deus sabe disso, e predispõe que o Precursor venha uma hora só antes do Mestre. Quando virdes o Precursor, podereis dizer: “A missão do Cristo começou.” E a ti Eu te digo: O Cristo abrirá muitos olhos e muitos ouvidos, quando ele vier por estes caminhos. Mas não os teus, nem os dos iguais a ti, que lhe dareis a morte, em troca da Vida, que Ele vos oferece. Mas quando, mais alto do que este Templo, mais alto do que o Tabernáculo, fechado no Santo dos santos, mais alto do que a Glória sustentada pelos Querubins, o Redentor estiver sobre o seu trono e sobre o seu altar, fluirão de suas mil e mil feridas maldições para os deicidas e vida para os gentios, porque Ele, ó mestre, que disso não sabes, não é, eu repito, Rei de um reino humano, mas de um Reino espiritual, e os seus súditos serão somente aqueles que por seu amor souberem regenerar-se no espírito e, como Jonas, depois de terem nascido, renascerem em outras praias: “as de Deus”, através da geração espiritual que virá por Cristo, o qual dará à humanidade a verdadeira Vida.

41.9 Shamai e seus acólitos:

– Este nazareno é Satanás!

Hilel e os seus:

– Não. Este jovem é Profeta de Deus. Fica comigo, Menino. A minha velhice transfundirá tudo o que sabe ao teu saber, e Tu serás Mestre do povo de Deus.

Jesus:

– Em verdade, te digo que, se muitos fossem como tu és, viria a salvação para Israel. Mas a minha hora ainda não chegou. A Mim falam as vozes do Céu, e, na solidão, Eu as devo acolher, enquanto não chegar a minha hora. Então, com os lábios e com o sangue, falarei a Jerusalém, e minha sorte será a dos Profetas que foram apedrejados e mortos por esta cidade. Mas, acima do meu ser, está o Senhor Deus, ao qual Eu submeto a Mim mesmo, como servo fiel, para que Ele faça de Mim o escabelo à sua glória, na esperança de que Ele faça do mundo o escabelo aos pés de Cristo. Esperai-me na minha hora. Estas pedras ouvirão de novo a minha voz, e tremerão à minha última palavra. Felizes aqueles que naquela voz tiverem ouvido a Deus, e crerem Nele, através dela. A estes o Cristo dará aquele Reino que o vosso egoísmo deseja que seja um reino humano, mas que é celeste e pelo qual Eu digo: “Eis aqui o teu servo, Senhor, que veio para fazer a tua vontade. Consuma-a, pois Eu anseio para cumpri-la.”

E aqui, com a visão de Jesus com o rosto inflamado pelo ardor espiritual erguido ao céu, os braços abertos, em pé, no meio dos doutores atônitos, termina a minha visão.

(Já são 3:30 do dia 29).

29 de janeiro de 1944.

41.10 Aqui eu teria que dizer duas coisas, que lhe interessam com certeza, e que eu havia decidido escrever, logo que saísse da visão. Mas, como há outra coisa mais urgente, escreverei aquilo depois.

[…].

O que queria lhe dizer no começo é isto.

Ela hoje me perguntou como foi que eu pude saber os nomes de Hilel, de Gamaliel e de Shamai.

Foi a voz, que eu chamo de “segunda voz”, que me disse estas coisas. Uma voz ainda menos audível do que a do meu Jesus e dos outros que ditam para mim. Estas são vozes, como já lhe disse e repito, que o meu ouvido espiritual percebe iguais a vozes humanas. Eu as ouço doces ou iradas, fortes ou suaves, risonhas ou tristes. Como se alguém falasse bem perto de mim. Esta “segunda voz” é como uma luz, uma intuição que fala no meu espírito. “No”, e não“ao”meu espírito. É uma indicação.

Assim é que, enquanto eu ia me aproximando do grupo dos disputantes, e não sabia quem era aquele ilustre personagem que, ao lado de um velho, disputava com tanto calor, este “alguém” me disse: “Gamaliel – Hilel”. Sim. Primeiro Gamaliel, depois Hilel. Não tenho dúvidas. Enquanto eu pensava quem seriam esses homens, o indicador interno me indicou o terceiro antipático indivíduo, exatamente enquanto Gamaliel o chamava pelo nome. E assim é que eu pude ficar sabendo quem era este de aspecto farisaico.

[…].

22 de fevereiro de 1944.

[…].

41.11 Jesus diz:

[…].

– Voltemos muito, muito atrás. Voltemos ao Templo, onde Eu, aos doze anos, estou disputando. Ou melhor, voltemos às ruas que levam a Jerusalém, e de Jerusalém ao Templo.

Vê a angústia de Maria, quando, tendo-se reunido às filas dos homens e das mulheres, viu que Eu não estava com José.

Ela não levanta a voz, em ásperas repreensões contra o esposo. Todas as mulheres o teriam feito. Vós o fazeis por muito menos, esquecendo-vos de que o homem é sempre o chefe da casa. Mas a dor que transparece no rosto de Maria, magoa José, mais do que qualquer repreensão. Maria não se abandona a cenas dramáticas. Vós, por muito menos, o fazeis, pois gostais de ser notadas, e feitas alvos de compaixão. Mas a dor contida de Maria é tão evidente, pelo tremor que a toma, pelo rosto que empalidece, pelos olhos que se dilatam, que comove mais do que qualquer cena de pranto e de clamor.

Não sente mais cansaço, nem fome. O caminho foi longo e, depois de tantas horas, não tomou nenhum alimento! Mas ela deixa tudo. Tanto a enxerga, que está sendo arrumada, como a comida que ia ser distribuída. Volta atrás. É tarde, a noite desce. Não importa. Cada passo que dá leva-a de volta a Jerusalém. Faz parar as caravanas e os peregrinos. Pergunta a todos. José a segue e a ajuda. Um dia de caminho, voltando, e depois uma penosa busca pela cidade.

Onde, onde poderá estar o seu Jesus? E Deus permite que ela não saiba, durante tantas horas onde é que devia ir me procurar. Procurar um menino no Templo, seria uma coisa sem sentido. Que teria um menino ido fazer no Templo? No máximo, teria se perdido na cidade, e se tivesse voltado para dentro do Templo, levado pelos seus pequenos passos, sua voz chorosa teria chamado pela mãe atraindo a atenção dos adultos, dos sacerdotes, os quais teriam providenciado para que se procurassem os pais dele, por meio de avisos colocados nas portas. Mas não havia nenhum aviso. Ninguém na cidade sabia desse Menino. Bonito? Loiro? Robusto? Mas há tantos assim! Era muito pouco para se poder dizer: “Eu o vi. Estava em tal ou tal lugar!”

41.12 Três dias depois, símbolo de outros três dias de futura angústia, eis que Maria, exausta, penetra no Templo, percorre os pátios e os vestíbulos. Nada. Corre, corre a pobre mãe, no rumo de onde lhe pareceu vir uma voz de menino. E, até os cordeiros, que estão balindo, lhe parecem o pranto do Filho, que está procurando. Mas Jesus não está chorando. Ele está ensinando. Neste momento, Maria ouve, do outro lado de uma barreira de pessoas, a querida voz, que diz: “Estas pedras tremerão…” Ela tenta atravessar a multidão, e só o consegue, depois de muito esforço. Aqui está o Filho, de braços abertos, em pé entre os doutores.

Maria é a Virgem prudente. Mas desta vez a angústia venceu a sua reserva. É como um dique, que enfrenta o que vier. Ela corre até o Filho, e o abraça levantando-o do banco, pondo-o no chão, e exclama: “Oh! Por que nos fizeste isto? Há três dias que estamos à tua procura. Tua mãe está para morrer de dor, Filho. Teu pai está exausto de cansaço. Por que Jesus?”

Não se pergunta os “porquês” a Quem sabe os “porquês” de seu modo de agir. Aos chamados não se pergunta “porque”, deixam tudo para seguir a voz de Deus. Eu era a Sabedoria e sabia. Eu fui “chamado” para uma missão, e a estava cumprindo. Acima do pai e da mãe desta terra, está Deus, o Pai divino. Os seus interesses superam os nossos, e seus afetos são superiores a qualquer outro. Eu digo isso a minha mãe.

Termino o ensinamento aos doutores, com o ensinamento a Maria, Rainha dos doutores. E ela nunca mais esqueceu isso. O sol voltou ao seu coração, quando me tomou pela mão, humilde e obediente, mas as minhas palavras também ficaram em seu coração. Muito sol e muitas nuvens passarão pelo céu, durante aqueles vinte e um anos, em que Eu estarei ainda sobre a terra. E muita alegria e muito pranto se alternará em seu coração, por outros vinte e um anos. Mas ela nunca mais me perguntará: “Por que, meu Filho, nos fizeste isto?”

Aprendei, ó homens insolentes!

41.13 Eu expliquei e esclareci a visão, porque tu não estás em condições de fazer mais.

[…].



1 disputa, que incidirá sobre os passos bíblicos que listamos (como de norma) segundo ordem canónica e não na ordem das citações: Génesis 35,16-18; Êxodo 14,21-22; 24; Números 24,17; 2 Reis 2,11; Isaías 9,5; 40,1-5; 52,13-15; 53,1-12; Jeremias 31,15; Daniel 9,24-27; Jonas 2; Miqueias 5,1; Ageu 2,7-9; Zacarias 9,9; Malaquias 3,1.