329. 329. No mercado de Alexandrecene.A parábola dos operários da vinha.


13 de novembro de 1945.

329.1 O pátio dos três irmãos está pela metade na sombra e com a outra metade iluminada pelo sol. Ele está cheio de pessoas, que vão e vêm para fazerem suas compras, enquanto do lado de fora do portão, na pequenina praça, ouve-se o vozerio da feira de Alexandrecene, em um confuso ir e vir de adquirentes e compradores, de burros, de ovelhas, cordeiros, galinhas. Porque se entende que aqui eles encontrem menos dificuldades e, com os frangos trazidos para a feira, não se precisa ter medo de contaminações. Os relinchos, os balidos, o cacarejar das galinhas e o canto dos galos novos se misturam com as vozes dos homens em um alegre coro que, de vez em quando, faz ouvir algumas notas agudas e dramáticas, por causa de alguma altercação.

Também no pátio dos irmãos há um murmúrio e não falta alguma altercação, ou por causa do preço, ou porque algum freguês pegou alguma coisa que um outro já tinha a intenção de pegar. Não faltam as lamentações nem a voz chorosa dos mendigos que, perto do portão da praça, recitam a ladainha de suas misérias, com uma voz cantada e triste, como o gemido de um moribundo.

Os soldados romanos vão e vêm, como se fossem os donos das lojas e da praça. Acho que eles estão a serviço da ordem, porque estão armados, e nunca estão sozinhos, indo por entre os fenícios, que estão todos armados.

Também Jesus vai e vem pelo pátio, dando algumas voltas com os seis apóstolos, como quem está esperando o momento oportuno para falar. Depois Ele desce por um instante até à praça, passando por perto dos mendigos, aos quais dá uma esmola. O povo se diverte por alguns minutos a olhar o grupo dos galileus, e muitos ficam perguntando quem serão aqueles homens estrangeiros. Mas há alguém que se informa, tendo ido perguntar aos três irmãos, que são os hospedeiros deles.

Um novo murmúrio surge agora, o dos que vão acompanhando os passos de Jesus, que lá se vai tranqüilamente, acariciando os meninos que vai encontrando em seu caminho. Entre os que estão falando em voz baixa, não faltam também os sorrisos de escárnio e os apelidos pouco agradáveis para os hebreus. Mas também não falta o desejo honesto de ouvir falar o “Profeta”, o “Rabi”, o “Santo”, o “Messias de Israel”, pois com estes nomes é que o estão mostrando, conforme o grau de sua fé e a retidão de seu coração.

329.2 Ouço a voz de duas mães:

– Mas é verdade?

– Disse Daniel a mim mesma. Ele falou em Jerusalém com pessoas que viram os milagres do Santo.

– Sim, está bem. Mas será assim mesmo esse homem?

– Oh! Daniel me disse que não pode ser senão Ele, pelo que Ele está falando.

– Então… que achas? Ele me concederá a graça, ainda que eu seja apenas uma prosélita?

– Eu diria que sim… Experimenta. Talvez Ele não volte mais aqui entre nós. Experimenta, experimenta! Mal, certamente não te fará!

– Eu vou –diz a mulherzinha, deixando no ar o vendedor de louças, do qual ela queria comprar umas tigelas, mas o vendedor, que estava ouvindo a conversa das duas, irritado pelo bom negócio que ficou frustrado, decepcionado se dirige contra a mulher, que lá ficou parada, cobrindo-a de insultos, e dizendo: “Maldita prosélita. Sangue de judia. Mulher vendida”, etc. etc.

Ouço a voz de dois homens sérios e barbudos:

– Eu gostaria de ouvi-lo. Dizem que é um grande Rabi.

– Um Profeta, deves dizer. Maior que o Batista. Elias me disse certas coisas! Certas coisas! Elias o sabe, porque ele tem uma irmã casada com o servo de um ricaço de Israel e, para ter notícias dela, costuma fazer perguntas aos companheiros de serviço. E o tal ricaço é muito amigo do Rabi…

Um terceiro, talvez um fenício que, estando ali perto, ouviu o que estavam dizendo, intromete o seu rosto esguio e satírico entre os dois e diz, zombeteiro:

– Bela santidade! Temperada com riquezas! Pelo que eu sei, o Santo deveria viver pobremente!

– Cala-te, Doro, língua maldizente. Não és digno tu, um pagão, para julgar tais coisas.

– Ah! Então vós é que sois dignos disso, e especialmente tu, Samuel! Farias bem, se me pagasses aquilo que me estás devendo!

– Ora, veja! E não me fiques rodeando, ó vampiro, seu cara de fauno!

Ouço um velho meio cego, que está acompanhadode uma menininha, e que pergunta:

– Onde está, onde está o messias?

E a menininha diz:

– Abri caminho para o velho Marcos. Por favor, dizei ao velho Marcos onde está o Messias!

Foram duas vozes: a senil, fraca e trêmula. E a da menina, clara e firme. E elas se espalham pela praça inutilmente, até que, afinal, um outro homem diz:

– Quereis ir ao Rabi? Ele voltou e foi para a casa de Daniel. Lá está Ele parado, e está conversando com os mendigos.

329.3 Ouço dois soldados romanos, que dizem:

– Deve ser o que os judeus estão perseguindo, aqueles boas peças! Basta que se olhe para Ele e logo se vê que é melhor do que eles.

– É por causa disso que Ele lhes desagrada!

– Vamos dizê-lo ao alferes. Esta é a ordem.

– És muito tolo, ó Caio. Roma trata com desconfiança os cordeirinhos e os suporta. Mas eu diria que ela acaricia os tigres. –(Cipião)1.

– Não me parece, Cipião! A Pôncio se mata facilmente! –(Caio).

– Sim… mas ele não fecha sua casa às aduladoras hienas que o bajulam. –(Cipião).

– Isto é política, Cipião! É política! –(Caio).

– É vileza, Caio, e estultícia. Deste ele deveria fazer-se amigo. Para ter uma ajuda com que manter obediente essa canalha asiática. Ele não serve bem a Roma, Pôncio, pois deixa de tratar bem a este para ir adular os maus. –(Cipião).

– Não fiques criticando o Procônsul. Nós somos soldados, e o superior é sagrado como um deus. Nós juramos obediência ao divo César, e o Procônsul é um representante dele. –(Caio).

– Está bem, enquanto se trata de um dever para com a Pátria, sagrada e imortal. Mas não em nosso foro interno. –(Cipião).

– Mas a obediência vem do juízo. Se o teu juízo se rebela contra uma ordem e a critica, já não estarás obedecendo completamente. Roma se apóia sobre a nossa obediência cega para defender suas conquistas. –(Caio).

– Pareces um tribuno, e falas bem. Mas eu te faço observar que, se Roma é rainha, escravos é que não somos. Somos súditos. Roma não tem, não pode ter cidadãos escravos. É uma escravidão querer impor silêncio às razões dos cidadãos. Eu digo que a minha razão julga que Pôncio faz mal em não cuidar deste israelita e em não dar-lhe o nome de Messias, Santo, Profeta, o que quiseres. E acho que posso fazer isso, porque com isso não diminui a minha fidelidade a Roma, nem meu amor a ela. Mas, mesmo sem isso, acho que Ele ensina o respeito às leis e aos Cônsules, como está fazendo, e que assim coopera para o bem-estar de Roma. –(Cipião).

– Tu és muito culto, Cipião… Terás um futuro. Já vais indo à frente. Eu sou apenas um pobre soldado. No entanto, estás vendo aquilo lá adiante? Há uma aglomeração ao redor do Homem. Vamos dizê-lo aos chefes militares. –(Caio).

329.4 De fato, perto do portão dos três irmãos, há uma multidão de pessoas em torno de Jesus que, por causa de sua altura, pode ser bem visto. Pouco depois, de repente, ouve-se um grito, e o povo começa a agitar-se. Outros vêm correndo da feira, enquanto alguns, do meio da multidão, saem correndo pela praça e para outros lados. Ouvem-se perguntas… respostas…

– Que aconteceu?

– Que há?

– O Homem de Israel curou o velho Marcos!

– A névoa dos olhos dele se desfez.

Enquanto isso, Jesus entrou no pátio, acompanhado por um grande número de pessoas. Mancando, no meio daquele acompanhamento, vai indo um dos mendigos, um pouco coxo, que mais se arrasta com as mãos do que anda com as pernas. Mas, se suas pernas estão tortas e sem força a tal ponto que sem suas bengalas ele não iria para a frente, contudo, a força dele está em sua voz estentórea:

– Santo, Santo! Messias! Rabi! Tem piedade de mim!

Ele grita até perder o fôlego, e sem parar.

Duas ou três pessoas se viram para ele, e lhe dizem:

– Não precisas ficar perdendo o fôlego! Marcos é hebreu, e tu, não.

– Para os verdadeiros israelitas, Ele concede graças. Mas não para os filhos de um cão!

– Mas minha mãe era hebréia…

– Mas Deus a feriu, e te deu a ela como um monstro por causa do pecado dela. Fora, filho de uma loba! Volta para o teu lugar, fica em tua lama!…

O homem se encosta ao muro, abatido, apavorado pela ameaça dos punhos que lhe estão mostrando…

Jesus pára, vira-se, e fica olhando. E diz:

– Homem, vem cá!

O homem olha para Ele, olha para os que o estão ameaçando… e não tem coragem de ir para a frente.

Jesus abre caminho por entre uma pequena aglomeração e vai até ele. Pega-o pela mão, põe a mão sobre o ombro dele, e lhe diz:

– Não tenhas medo. Vem para frente comigo.

E, olhando para aqueles malvados, diz com seriedade:

– Deus é de todos os homens que o procuram e que são misericordiosos.

Eles entendem aquela antífona, e agora são eles que ficam no acompanhamento, ou melhor, que ficam parados onde estão.

Jesus torna a virar-se. E os vê lá, confusos, querendo irem-se embora, e lhes diz:

– Não. Vinde, vós também. Será bom também para vós, para endireitar e fortalecer as vossas almas, como Eu endireito e fortaleço a este, porque ele soube ter fé. Homem, Eu te digo, fica curado da tua enfermidade.

E deixa de continuar com a mão sobre o ombro do aleijado, depois de este ter tido como que uma sacudida.

O homem se endireita, firme sobre as pernas, joga fora as muletas, já desgastadas pelo uso. E grita:

– Ele me curou! Louvado seja Deus e minha mãe! –e depois se ajoelha para beijar a orla da veste de Jesus.

329.5O tumulto criado pelos que querem ver e pelos que já viram e estão comentando, chega ao auge. No fundo do corredor, que vai da praça para o pátio, as vozes ecoam como se estivessem saindo de um poço, e o eco que elas produ-zem se nota quando elas se chocam contra as muralhas do Castelo.

As milícias começam a temer que tenha surgido alguma briga — pois isto é fácil acontecer nestes lugares, aonde vêm encontrar-se tantas raças e religiões — e um pelotão de soldados vem abrindo caminho rudemente, perguntando o que foi que aconteceu.

– Um milagre, um milagre! Jonas, o aleijado, foi curado. Lá está ele perto do Homem galileu.

Os soldados olham uns para os outros. E nada falam, enquanto a multidão não passa toda, e atrás dela não se amontoou outra, formada pelos que estavam nos armazéns e na praça, na qual podem ver-se os que ficaram: são os vendedores, que estão com raiva, por causa da imprevista dispersão dos fregueses, o que vai estragar a feira daquele dia. Depois, vendo passar um dos três irmãos, perguntam:

– Filipe, sabes o que está fazendo agora o Rabi?

– Está falando, ensinando e é lá no pátio –diz Filipe todo contente.

Os soldados trocam idéias:

– Vamos ficar aqui, ou vamo-nos embora?

– O alferes disse que vigiemos…

– A quem? Ao Homem? Mas, por Ele, poderíamos apostar com os dados, sendo o prêmio uma ânfora de vinho de Chipre –diz Cípião, aquele que antes estava defendendo Jesus, diante de seu companheiro.

– Eu diria que Ele é que tem necessidade de ser protegido e não o direito de Roma! Vós o estais vendo lá? Entre os nossos deuses, nenhum é tão manso e, contudo, de um aspecto tão viril. Essa canalha não é digna de tê-lo. E os indignos sempre são maus. Fiquemos aqui a protegê-lo. Se for preciso, lhe salvaremos as costas e acariciaremos as destes galeotes –diz, meio sarcástico e meio admirado, um outro.

– Dizes bem, Prudente, e até para que Prócoro, o alferes, que vive sonhando com sublevações contra Roma… e promoções para si, em recompensa e por merecimento, por sua constante vigilância, em favor da saúde do divo César e da deusa Roma, mãe e senhora do mundo, a fim de que ele se persuada de que aqui vai conquistar braçadeiras ou coroas… Vai chamá-lo, Acio.

329.6 Um jovem soldado sai correndo e volta correndo, para dizer:

– Prócoro não vem. Ele mandou o triário Aquila…

– Bem! Bem! É melhor do que o próprio Cecílio Máximo. Aquila serviu na África, na Gália, e esteve nas florestas vorazes, que nos levaram o Varo e suas legiões. Ele conhece os gregos e os bretões e tem bom faro para distinguir… Oh! Salve! Eis aqui o glorioso Aquila! Vem, ensina-nos a nós, pobrezinhos, a compreender o valor das pessoas!

– Viva o Aquila, mestre das milícias! –gritam todos, dando afetuosas sacudidas no velho soldado que tem o rosto cheio de cicatrizes, e assim como está no rosto, do mesmo modo estão os seus braços nus e as barrigas das pernas nuas.

Ele sorri com benevolência, e exclama:

– Viva Roma, mestra do mundo! E não eu, um pobre soldado. Afinal, que está havendo?

– É preciso vigiar aquele homem alto e louro, como o cobre mais claro.

– Bem. Mas, quem é Ele?

– Dizem que é o Messias. Chama-se Jesus, e é de Nazare. É aquele, sabes, pelo qual foi dada a ordem…

– Hum!… Será… mas parece-me que vamos correndo atrás das nuvens.

– Dizem que Ele quer fazer-se rei e suplantar Roma. Já o denunciaram o Sinédrio e os Fariseus, os Saduceus, e os Herodianos a Pôncio. Tu sabes que os hebreus têm esta minhoca na cabeça e, volta e meia, aparece um rei…

– Sim, sim… Mas, se é para isso! Seja lá como for, vamos ouvir o que Ele está dizendo. Parece-me que Ele está se preparando para falar.

– Fiquei sabendo pelo soldado que está com o centurião que o Públio Quintiliano lhe falou dele como de um filósofo divino… As mulheres imperiais são entusiastas dele… –diz um outro soldado, ainda jovem.

– Eu creio. Eu seria também um entusiasta dele se eu fosse uma mulher, e o quereria em minha cama!… –diz, rindo-se de contente, um outro jovem soldado.

– Cala a boca, seu sem vergonha! A luxúria te está carcomendo –caçoa um outro.

E a ti não, Fábio? Ana, Sira, Alba, Maria… –caçoa um outro.

– Silêncio, Sabino. Ele está falando e eu quero escutar –ordena o triário.

E todos se calam.

329.7Jesus subiu sobre uma caixa colocada encostada à parede. Por isso, Ele está bem visível a todos. Sua doce saudação já se espalhou pelos ares e foi seguida por estas palavras: “Filhos de um único Criador, ouvi!” e depois prossegue, no meio de um auditório atento:

– O Tempo da Graça chegou para todos, não só para Israel, mas para todo o mundo. Homens hebreus, cada qual por motivos diferentes, os prosélitos, os fenícios, os pagãos, todos vós, ouvi a Palavra de Deus, compreendei a Justiça, conhecei a Caridade. Se tiverdes Sabedoria, Justiça e Caridade, tereis os meios de chegardes ao Reino de Deus, àquele Reino que não é exclusivamente para os filhos de Israel, mas é para todos aqueles que, de agora em diante, amarem o Verdadeiro e único Deus, e crerem na palavra do seu Verbo.

329.8 Escutai. Eu vim de muito longe, não com planos de usurpador, nem com a violência do conquistador. Eu vim somente para ser o Salvador de vossas almas. O domínio, as riquezas, os cargos, não me seduzem. Tudo isso para mim é nada, e nem olho para isso. Ou melhor, Eu só olho para ter dó deles, pois fazem compadecer-me, pois são outras tantas correntes para conservarem prisioneiro o vosso espírito, impedindo-o de ir ao Senhor Eterno, único, Universal, Santo e Bendito. Eu olho para todos esses, e me aproximo deles, como quem tem que lidar com as maiores misérias. E procuro curá-los do seu fascinante e cruel engano, que seduz os filhos do homem, para que eles possam usar de suas coisas com justiça e santidade, não como armas cruéis, que ferem e matam o homem, e até, em primeiro lugar, o espírito de quem não usa delas retamente.

Mas, em verdade, Eu vos digo, para Mim é mais fácil curar um corpo disforme do que uma alma deformada. Para mim é mais fácil dar luz aos olhos apagados, saúde a um corpo moribundo, do que dar luz aos espíritos e saúde às almas doentes. Por que assim? Porque o homem perdeu de vista o verdadeiro fim de sua vida, e se ocupa só com o que é transitório.

O homem não sabe, ou não se lembra, ou então se lembra mas não quer obedecer a esta santa injunção do Senhor e digo também para os pagãos que me estão ouvindo de fazer o Bem, que tanto é Bem em Roma, como em Atenas, na Gália como na África, porque a lei moral existe debaixo de todos os céus e em todas as religiões, em todos os corações. E as religiões, desde a de Deus até a da moral individual, nos dizem que a parte melhor de nós sobrevive, e que a segunda, como tiver vivido nesta vida, terá marcada também qual será a sua sorte na outra.

Portanto o fim do homem é conquistar a paz na outra vida. Não certas coisas como a folgança, a usura, a prepotência, o prazer, que sendo por tão pouco tempo, são coisas que nem podem ser levadas em conta, em comparação com uma eternidade de tormentos bem duros. E, apesar disso, o homem não quer saber desta verdade, não quer lembrar-se dela. Se ele não sabe dela, é menos culpado. Se não se lembra dela, é culpado até certo ponto, porque a luz da verdade deve ser mantida acesa, como um facho santo, nas mentes e nos corações. Mas, se dela não quer recordar-se e, quando ela brilha, ele fecha os olhos para não vê-la, considerando-a desagradável como a voz de um reitor pedante, nesse caso a culpa dele é grave, muito grave.

329.9 E, no entanto, Deus perdoa, se a alma renuncia à sua má ação e toma o propósito de procurar chegar, por todo o resto de sua vida, ao verdadeiro fim do homem, que é conquistar para si a paz eterna no Reino do verdadeiro Deus. Tereis vindo até hoje por uma má estrada? Estais desanimados e pensando que já é tarde para retomar o bom caminho? Estais desconsolados e dizendo “Eu não sabia nada disso! e, por isso, sou agora um ignorante e não sei o que fazer”? Não. Não fiqueis pensando que tudo acontece como com as coisas materiais, e que seja preciso muito tempo e muita fadiga para fazer de novo o que já foi feito, mas agora com santidade. A bondade do Eterno e verdadeiro Senhor Deus é tão grande, que não exige de vós que volteis para trás e percorrais todo o caminho já feito, até chegardes àquela encruzilhada onde começastes a errar, deixando o caminho justo, para irdes pelo injusto. Aquela bondade é tanta que, no momento em que vós disserdes: “Eu quero estar com a Verdade”, isto é, eu quero ser de Deus, porque Deus é a Verdade, então Deus, por um milagre todo espiritual, infunde em vós a Sabedoria, pela qual vós, de ignorantes, vos tornais possuidores da Ciência sobrenatural, de modo igual ao daqueles que já a possuem há anos.

Sabedoria é querer Deus, amar Deus, cultivar o espírito, inclinar-se para o Reino de Deus, renunciando a tudo que é carnal, ao que é mundo, ao que é de Satanás. Sabedoria é obedecer à Lei de Deus, que é uma Lei de Caridade, de obediência, de Continência, de Honestidade. Sabedoria é amar a Deus com todo o nosso ser e amar ao próximo como a nós mesmos. Estes são os dois indispensáveis elementos para sermos sábios com a Sabedoria de Deus. E no próximo estão, não só os que são de nosso sangue, da nossa raça ou religião, mas estão todos os homens, ricos ou pobres, sábios ou ignorantes, hebreus, prosélitos, fenícios, gregos, romanos…

329.10 Jesus foi interrompido por um urro ameaçador de alguns fanáticos. Jesus olha para eles, e diz:

– Sim, isso é amor. Eu não sou um Mestre servil. Eu falo a verdade, porque assim devo fazer, a fim de semear em vós o que é necessário para terdes a vida eterna. Quer gosteis, quer não, Eu vo-lo devo dizer, para cumprir com o meu dever de Redentor. Portanto, amai ao próximo. Todo o próximo. Com um amor santo. Não com um sujo concubinato de interesses, pelo qual se transforma em “anátema” o romano, o fenício ou o prosélito, ou vice-versa, enquanto que, se o interesse for a sensualidade ou o dinheiro, a cobiça da sensualidade ou da vantagem em dinheiro que surgirem entre vós, aí, então, não é mais “anátema.”

Ouve-se um outro rumorejar da multidão, e os romanos, de seu posto de observação no átrio, exclamam:

– Por Júpiter! Como fala bem este homem!

Jesus deixa que o rumor se acalme e continua:

– Amar ao próximo, como gostaríamos de ser amados. Porque nós não gostamos de ser maltratados, de passar por vexames, de ser roubados, oprimidos, caluniados, insultados. Até a susceptibilidade nacional ou individual, que nós temos, os outros também a têm. Não façamos, pois, uns aos outros o mal, o mal que não gostaríamos que nos fosse feito.

Sabedoria é obedecer, é obedecer aos dez Mandamentos de Deus:

“Eu sou o Senhor teu Deus. Não tenhas outro deus, além de Mim. Não tenhas ídolos, e não lhes prestes culto.

Não uses o Nome de Deus em vão. É o Nome do Senhor teu Deus, e Deus punirá a quem usa dele sem razão, ou para fazer imprecações, ou para garantia de algum ato pecaminoso.

Lembra-te de santificares as festas. O sábado é consagrado ao Senhor, que nesse dia repousou da Criação e o abençoou e santificou.

Honra a teu pai e à tua mãe, a fim de que vivas em paz por longos anos sobre a terra, e eternamente no Céu.

Não matar.

Não cometer adultério.

Não roubar.

Não levantar falso testemunho contra o teu próximo.

Não desejar a casa, nem a mulher, nem o servo, nem a serva, nem o boi, o asno, nem nenhuma outra coisa que pertença ao teu próximo.”

Isto é a sabedoria. Quem faz assim é sábio, e conquista a Vida e o Reino sem fim. Desde hoje, pois, procurai viver segundo a Sabedoria, dando assim mais importância a ela, do que às coisas podres da terra.

329.11 Que estais dizendo? Falai. Estais dizendo que já está tarde? Não. Ouvi ainda uma parábola. Um patrão, ao despontar do dia, saiu para contratar trabalhadores para a sua vinha e combinar com eles em pagar-lhes um denário por dia. Depois saiu novamente à hora de tércia e, pensando que os trabalhadores contratados pela manhã ainda eram poucos, e vendo pela praça muitos desocupados, à espera de quem os contratasse, chamou-os e lhes disse:

“Ide para a minha vinha, que eu vos pagarei o que eu prometi aos outros.” E eles para lá se foram.

Saiu o homem outra vez pela hora sexta, e pela nona, e ainda viu outros, e lhes disse:

“Quereis trabalhar para mim? Eu pagarei um denário por dia aos meus trabalhadores.” E eles aceitaram, e foram.

Saiu o dono da vinha finalmente, lá pela undécima hora e viu outros que por ali estavam despreocupadamente tomando os últimos raios do sol.

“Que estais fazendo aqui, assim despreocupados? Não tendes vergonha de ficar assim, sem fazerdes nada o dia inteiro?”, perguntou-lhes ele.

“Ninguém nos assalariou por dia. Teríamos querido trabalhar, ganhar nosso pão. Mas ninguém nos chamou para a sua vinha.”

“Está bem. Eu vos chamo para a minha vinha. Ide, e recebereis o mesmo pagamento que os outros.” Ele assim disse, porque era um patrão bom e tinha dó da humilhação de seu próximo.

Quando chegou a tarde e terminado o trabalho, o homem chamou o seu feitor, e lhe disse:

“Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário como foi combinado, mas começa pelos que chegaram por último, que são os mais necessitados, pois nem tiveram durante o dia o alimento que os outros receberam uma e mais vezes e que, além disso, foram os que, por reconhecimento para com a minha compaixão, trabalharam mais do que os outros. Eu os estava observando. Despacha-os para que possam ir tomar o merecido descanso, gozando com os seus familiares do fruto do seu trabalho.”

E o feitor fez como o patrão lhe ordenou, dando a cada um deles um denário.

Por último chegaram os que haviam trabalhado desde a primeira hora do dia, e ficaram admirados por receberem eles também só um denário, e começaram a queixar-se uns com os outros e com o feitor, e este disse:

“Eu recebi esta ordem. Ide reclamar com o patrão e não comigo.”

E eles foram, e disseram:

“Tu não estás sendo justo! Nós trabalhamos doze horas, desde antes do orvalho até o meio-dia, pelo meio do orvalho, e depois expostos ao sol ardente e em seguida dentro da umidade da tarde, e tu nos deste tanto como àqueles preguiçosos que trabalharam só uma hora!… Por que isso?”, e um especialmente levantava a voz, dizendo-se traído e usado indignamente.

“Meu amigo, em que fui injusto contigo? Que eu combinei contigo pela manhã? Foi um dia de trabalho contínuo e o salário de um denário. Não é verdade?”

“Sim, é verdade. Mas tu pagaste o mesmo tanto àqueles, por um trabalho muito menor…”

“Tu não estiveste de acordo com aquele pagamento e não o julgaste justo?”

“Sim. Estive de acordo, porque os outros trabalhavam por menos.”

“Foste maltratado aqui por mim?”

“Não. Em consciência, não.”

“Eu te concedi um descanso durante o dia e a comida, não é verdade? Três refeições eu te dei. E, tanto a comida como o descanso, não estavam combinados. Não é verdade?”

“Sim. Não estavam combinados.”

“Por que, então, os aceitaste?”

“Mas… Tu já o disseste: ‘Preferi assim para não fazer que vos canseis, tendo que voltar às vossas casas’. E a nós nem parecia verdade aquilo… A tua comida era boa. E era uma economia, era…”

“Era uma graça que eu vos dava gratuitamente e que ninguém podia pretender receber. Não é verdade?”

“É verdade.”

“Então, eu vos fiz o bem. Por que, então, vos estais queixando? Eu que deveria queixar-me de vós que, compreendendo como devíeis proceder com um patrão bom, estáveis trabalhando com preguiça, enquanto estes últimos, que vieram depois de vós, tendo recebido o benefício de uma só refeição e os últimos até sem nenhuma refeição, trabalharam com mais afinco, fazendo, em menos tempo, o mesmo tanto de trabalho feito por vós em doze horas. Eu vos teria traído, se tivesse partido ao meio o salário para pagar também a estes últimos. Mas não foi assim. Por isso, pega o que é teu, e vai-te! Estarias querendo vir à minha casa para me impores o que queres? Eu faço o que quero e o que é justo. Não queiras ser malvado, nem tentar-me para que eu seja injusto. Eu sou bom.”

329.12 Ó vós todos que estais ouvindo, em verdade Eu vos digo que Deus Pai a todos os homens propõe este mesmo contrato, e promete uma recompensa igual. A quem com diligência se põe a serviço do Senhor, Ele dará um tratamento com justiça, ainda que o trabalho seja pouco, por estar próxima a morte. Em verdade, Eu vos digo que nem sempre os primeiros serão os primeiros no Reino dos Céus, e que veremos últimos serem primeiros e primeiros serem últimos. Lá veremos homens que não são de Israel e mais santos do que muitos em Israel. Eu vim para chamar a todos, em nome de Deus. Mas, se muitos são chamados, poucos são os escolhidos, porque poucos são os que desejam a Sabedoria.

Não é sábio quem vive do mundo e da carne, e não de Deus. Não é sábio nem para a terra, nem para o Céu. Porque na terra se criam inimigos, punições, remorsos. E, quanto ao Céu, esse para eles fica perdido para sempre.

Eu repito: sede bons para com o próximo, seja ele quem for. Sede obedientes, deixando para Deus o direito de punir a quem não é justo e o de dar or-dens. Sede continentes, sabendo resistir à sensualidade e honrados, sabendo resistir ao ouro, e coerentes, sabendo dizer o anátema a quem o merece, e não a quem assim vos parece, a não ser para estreitar depois contactos com algum objeto que antes foi amaldiçoado como idéia. Não façais aos outros o que vós não quereríeis que a vós fosse feito, e por isso…

329.13 – Fora, fora daqui, enfadonho profeta! Tu estragaste a nossa feira!… Tu nos tiraste os clientes!… –urram os vendedores, irrompendo dentro do pátio…

E aqueles que haviam rumorejado no pátio, diante dos primeiros ensinamentos de Jesus, — eles não são todos fenícios, mas também hebreus, que estão presentes, e eu não sei por qual motivo, nesta cidade — todos se unem aos vendedores para insultar e ameaçar e, sobretudo para expulsar… Jesus não lhes agrada, porque Ele não aconselha a fazer o mal…

Ele cruza os braços e fica olhando. Está triste. Mas cheio de dignidade.

As pessoas, divididas em dois partidos, começam a brigar, uns defendendo e outros ofendendo o Nazareno. Ouvem-se impropérios, louvores, maldições e gritos dos que dizem:

– Têm razão os fariseus. Tu és um vendido a Roma, um amigo dos publicanos e das meretrizes.

E também os que dizem:

– Calai-vos, línguas blasfemas! Vós é que estais vendidos a Roma, fenícios do inferno!

– Vós sois o Satanás!

– Que o inferno vos engula.

– Fora! Fora!

– Fora, vós que vindes fazer feira aqui, seus usurários –e assim por diante.

Aí os soldados intervêm, dizendo:

– Em vez de incitador, Ele é que é provocado.

E, com suas lanças, expulsam todos para fora do pátio, e fecham o portão.

Só ficam os três irmãos prosélitos e os seis discípulos com Jesus.

– Mas, como foi que tivestes a idéia de fazê-lo falar? –pergunta o triário aos três irmãos.

– Eles também falam a tantos! –responde Elias.

– Sim. E não acontece nada, porque eles pregam o que agrada ao homem. Mas este não prega isso. E por isso é indigesto…

O velho soldado fica olhando atento para Jesus, que desceu do seu lugar e está em pé, como alguém que está pensando.

Do lado de fora, a multidão continua a discussão. Então, do quartel vão saindo outros soldados, e com eles está o próprio centurião. Batem no portão e o fazem abrir, enquanto alguns se põem a repelir, tanto aos que gritam: “Viva o Rei de Israel!”, como aos que o amaldiçoam.

O centurião vem para frente, apreensivo. Ataca, encolerizado, o velho Aquila:

– É assim que tu defendes Roma? Deixando que aclamem um rei estrangeiro numa terra que lhe está sujeita?

O velho saúda com aspereza, e responde:

– Ele estava ensinando respeito e obediência e falava de um reino não desta terra. Por isso é que o odeiam. Porque Ele é bom e respeitoso. Não vi motivo para impor silêncio a quem não estava ofendendo à nossa lei.

O centurião se acalma, e resmunga:

– Trata-se, então, de uma nova sedição desta canalha fedorenta… Bem. Dái ao homem a ordem de ir-se embora logo. Não quero aborrecimentos aqui. Cumpri esta ordem, escoltai-o até fora da cidade, logo que a estrada estiver livre. Que Ele vá para onde quiser. Até para o inferno, se quiser. Mas que saia de minha jurisdição. Compreendestes?

– Sim. Nós o faremos.

O centurião vira as costas, fazendo brilhar vivamente sua couraça, faz uma onda no ar com seu manto de púrpura, e lá se vai, sem nem olhar para Jesus.

329.14 Os três irmãos dizem ao Mestre:

– Isto nos desagrada.

– Vós não tendes culpa. E não temais. Daí não virá nenhum mal para vós. Eu vo-lo digo…

Os três mudam de cor… Felipe diz:

– Como sabe desse nosso medo?

Jesus sorri docemente, e um raio de sol ilumina seu rosto triste:

– Eu sei o que existe nos corações e no futuro.

Os soldados foram expor-se ao sol, na expectativa, olhando de soslaio uns para os outros, e fazem comentários…

– Poderão eles amar-nos, se odeiam até Aquele ali, que não os oprime?

– E que faz milagres, devias dizer…

– Por Hércules! Quem foi aquele de nós que tinha vindo para avisar que havia um indiciado a ser vigiado?

– Foi Caio!

– Logo o zelador! E, enquanto isso, nós perdemos o rancho, e eu prevejo que vou perder o beijo de uma menina!… Ah!

– Epicurista! Onde está a beldade?

– Certamente não é a ti que eu vou dizer, amigo!

– Está atrás do oleiro nos alicerces. Eu sei. Eu te vi, uma tarde destas… –diz um outro.

329.15 O triário, como quem está passeando, vai até Jesus, anda ao redor dele, olha para Ele e torna a olhar. Não sabe o que dizer… Jesus lhe sorri, para encorajá-lo. O homem não sabe o que fazer… Mas se aproxima mais.

Jesus aponta para as cicatrizes:

– Foram feridas? Então és um valente e um fiel…

O velho soldado fica corado pelo elogio.

– Tens sofrido muito por amor à tua Pátria e ao teu imperador… Não gostarias de sofrer um pouco por uma Pátria maior, que é o Céu? Por um imperador eterno, que é Deus?

O soldado sacode a cabeça, e diz:

– Eu sou um pobre pagão, mas não está dito que eu também não chegue lá, pela undécima hora. E quem vai me instruir? Tu estás vendo… Eles te expulsam. E estas, sim, são feridas que fazem mal, e não as minhas!… Pelo menos, eu devolvi as minhas aos inimigos. Mas tu, o que dás a quem te fere?

– Dou o perdão, soldado. O perdão e amor.

– Eu estou com a razão. A suspeita contra ti é estulta. Adeus, galileu.

– Adeus, romano.

329.16 Jesus fica sozinho até que voltem os três irmãos e os discípulos com uns alimentos que eles, os irmãos, oferecem aos soldados, enquanto os discípulos os oferecem a Jesus. Comem ao sol, sem vontade, enquanto os soldados comem e bebem com alegria.

Depois, um soldado sai dali, e vai dar uma olhada pela praça silenciosa.

– Podemos ir, grita ele. Todos já foram embora. Lá estão somente as patrulhas.

Jesus se levanta mansamente, abençoa e conforta os três irmãos, com os quais ele marca um encontro pela Páscoa, no Getsêmani, e depois sai no meio de quatro soldados, com os seus discípulos humilhados que vêm vindo atrás dele. Eles percorrem a estrada vazia, até chegarem à campina.

– Salve, galileu –diz o triário.

– Adeus, Aquila. Eu te peço: não façais mal a Daniel, a Elias e a Filipe. Só Eu é que fui o culpado. Dize isto ao centurião.

– Eu não digo nada. A esta hora, ninguém mais está pensando nisso, e os três irmãos é que nos fornecem bens, especialmente aquele vinho de Chipre do qual o centurião gosta mais do que a vida. Fica em paz. Adeus.

Eles se separam, os soldados voltam para o outro lado das portas e Jesus com os seus tomam o caminho que vai pela campina silenciosa, na direção do leste.

1 Cipião e Caio, nomes repetidos entre parênteses em cada linha de diálogo, são tomadas a partir da transcrição datilografada, pois o manuscrito original simplesmente relata as iniciais S e C, escrito a lápis.


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