491. 491. No Templo, no último dia da festados Tabernáculos. Discurso sobre a Água viva.


13 de setembro de 1946.

491.1 O Templo está regurgitando de gente. Estão, porém, faltando as mulheres e as crianças. A continuação deste tempo de vento e de aguaceiros temporões, violentos, ainda que breves, deve ter persuadido as mulheres a partir junto com as crianças. Mas os homens de todas as partes da Palestina e os prosélitos da Diáspora enchem completamente o Templo e estão fazendo suas últimas orações, suas últimas ofertas, ouvindo as últimas lições dos escribas.

Os galileus, que acompanham a Jesus, já estão preparados, tendo os seus chefes mais importantes na primeira fila, e no centro, muito compenetrado de sua qualidade de parente, está José de Alfeu com seu irmão Simão. Um outro grupo fechado, que também está pronto, é o dos setenta e dois discípulos. Digo assim para me referir aos discípulos escolhidos por Jesus para evangelizar, estando mudados o número deles e os rostos, pois alguns dos mais velhos não estão mais com os outros, desde aquela defecção que houve depois do sermão1 do Pão do Céu.

Mas outros uniram-se, como novatos, ao grupo, e entre os quais está Nicolau de Antioquia. Um terceiro grupo, também muito unido e numeroso, é o dos judeus entre os quais estou vendo o sinagogo de Emaús, o de Hebron e o de Keriot. De Juta está presente o marido de Sara, e de Betsur estão uns parentes de Elisa.

Estão perto da Porta Bela, e é clara a intenção deles de irem para perto do Mestre, logo que Ele aparecer. De fato, Jesus não pode dar nem um passo, pois está cercado por estes três grupos como se eles quisessem separá-lo dos mal intencionados e daqueles que são apenas uns curiosos.

Jesus se dirige para o Átrio dos Israelitas, a fim de ir fazer suas orações, enquanto os outros o acompanham bem juntos, tanto quanto lho permite aquela multidão, surdos a todos os descontentes, dos quais Ele precisa afastar-se para dar lugar ao grande número de pessoas que estão rodeando a Jesus. Ele está entre os irmãos. Mas, não é doce, como o de Jesus, o olhar, nem é humilde, como a de Jesus, a postura de José de Alfeu, que está observando, e não sem motivo, alguns dos fariseus…

Eles põem-se a rezar, depois voltam ao Pátio dos Pagãos. Jesus se assenta humildemente no chão, de costas viradas para o muro do pórtico, em semicírculo que cada vez vai ficando mais cheio, por causa das filas e mais filas de pessoas que vão colocar-se atrás dos que estão mais perto dele, e se assentam, ou então, vão-se aglomerando e ficando de pé. Há uma convergência de rostos e de olhares virados para um único Rosto. Os curiosos, os que de nada sabem e vieram de longe, os mal intencionados, estão para lá desta barreira de fiéis, e se esforçam para ver, espichando os pescoços, e pondo-se nas pontas dos pés.

Jesus vai ouvindo, por enquanto, a um ou outro, que pede conselhos, ou lhe traz notícias. Assim é que chegam para falar-lhe os parentes de Elisa, dando-lhe notícias dela, e perguntando se ela pode vir para servir ao Mestre. Ele responde:

– Eu não vou ficar aqui. Mais tarde ela virá.

Fala também o parente de Maria de Simão, a mãe de Judas de Keriot, dizendo que ele ficou para tomar conta da fazenda, mas que Maria está quase sempre com a mãe de Joana. Judas arregala os olhos, espantado, mas não diz nada. Fala também o marido de Sara, dizendo que logo vai lhe nascer um outro filho, e pergunta o nome que ele vai-lhe dar.

Jesus responde:

– João, se for homem, e Ana, se for mulher.

O velho sinagogo de Emaús lhe sussurra baixinho algum caso de consciência, e Jesus, também em voz baixa, lhe responde. E assim por diante.

491.2 Enquanto isso, a multidão vai aumentando sempre mais. Jesus levanta a cabeça e fica olhando. Como o pórtico está alguns degraus mais acima, Ele mesmo que esteja sentado no chão, pode dominar uma boa parte do Pátio por aquele lado, e vê rostos e mais rostos.

Ele se põe de pé, diz em alta voz, com toda aquela sua voz trovejada e forte:

– Quem tem sede, venha a Mim, e beba. Do seio daqueles que creem em mim jorrarão rios de água viva.

Sua voz enche o amplo pátio, atravessa as esplêndidas séries de pórticos, e certamente também as deste lado, propaga-se para além delas, domina qualquer outra voz como um trovão harmonioso e todo cheio de promessas. Ele fala, depois se cala por alguns instantes, como se tivesse querido somente enunciar qual vai ser o assunto do sermão e dar tempo a quem não sente interesse de ouvi-lo para que se vá embora, não fique perturbando depois. Os escribas e os doutores estão calados, isto é, abaixam suas vozes até chegarem a um sussurro que com certeza é maldoso. Não estou vendo Gamaliel.

Jesus vai para a frente, atravessando o semicírculo que se abre à sua chegada, para fechar-se logo às suas costas, transformando-se de um semicírculo em um anel. Ele vai caminhando devagar, com majestade. Parece ir deslizando por sobre os mármores multicores do pavimento, com o seu manto um pouco afrouxado, que vai fazendo atrás dele uma espécie de cauda. Levanta o braço direito, no seu gesto habitual de quando vai começar a falar, e, ao mesmo tempo, com a esquerda espalmada sobre o peito, acomoda em seu lugar o manto.

Ele repete as palavras iniciais:

– Quem tem sede, venha a Mim, e beba. Do seio daqueles que creem em Mim jorrarão rios de água viva!

491.3 Aquele que viu a teofania2 do Senhor, o grande Ezequiel, sacerdote e profeta depois de ter visto como profeta os atos impuros na casa profanada do Senhor, depois de ter — sempre profeticamente — visto que só os assinalados com o Tau é que serão os viventes da verdadeira Jerusalém, enquanto que os outros só conhecerão uma e uma carnificina, só uma e uma condenação, um só e um castigo. O tempo está perto, ó vós que me ouvis, está perto, mais perto do que vós pensais, e por isso Eu vos exorto, como Mestre e Salvador, a não tardardes a por em vós o Sinal que salva, a não tardardes a pôr em vós a Sabedoria, a não tardardes a arrepender-vos e a chorar, por vós e pelos outros, a fim de poderdes salvar-vos. Ezequiel, depois de ter visto tudo isso, e mais ainda, fala de uma terrível visão. A dos ossos ressequidos.

Um dia virá em que, sobre um mundo morto, sob um firmamento apagado, aparecerão, ao toque da trombeta dos anjos, ossos e mais ossos dos mortos. Como um ventre que se abre para parir, assim a terra expelirá de suas vísceras todos os ossos dos homens que morreram sobre ela, e foram sepultados no seu barro, desde Adão até o último homem. Então, será a ressurreição dos mortos, pelo grande e supremo julgamento, depois do qual, como uma maçã de Sodoma, o mundo se esvaziará, tornando-se um nada, e terá fim o firmamento com os seus astros. Tudo terá fim, menos duas coisas eternas, distantes, que estão nas extremidades de dois abismos de uma profundidade incalculável, em uma antítese total, na forma e na aparência, no modo com que neles se prosseguirá para sempre o poder de Deus: o Paraíso, que é luz, alegria, paz e amor. E o Inferno: trevas, dor, horror e ódio.

491.4 Mas acreditais vós que, visto que o mundo ainda não morreu, as trompas dos anjos ainda não tocaram a recolher e que o imenso campo da terra não esteja já coberto de ossos sem vida, excessivamente dessecados, separados e mortos, bem mortos? Em verdade Eu vos digo que assim é. Entre os viventes — porque eles ainda respiram —, inumeráveís são os que são semelhantes a uns cadáveres, aos ossos áridos que foram vistos por Ezequiel. Quem são eles? São aqueles que não têm em si a vida do espírito.

Há desses em Israel como em todo o mundo. E que entre os gentios e idólatras não haja mais do que mortos, que estão esperando receber a Vida, é uma coisa natural, e preocupa somente aqueles que possuem a verdadeira Sabedoria, pois esta os faz compreender que o Eterno criou as criaturas para Ele, não para as idolatrias, e se aflige por ver tantos deles na morte. Mas, se o Altíssimo tem essa preocupação, que já é tão grande, quanto maior não será a dor que sofre por aqueles do seu povo que são uns ossos esbranquiçados, sem vida, sem espírito?

Os eleitos, os prediletos, os protegidos, os nutridos por Ele diretamente instruídos, ou por seus servos, os profetas, porque haverão de ser, culpavelmente, uns ossos áridos, quando para eles sempre correu um fio de água vital, vindo do Céu e que os abeberou de Vida e Verdade. Por que eles ficaram assim dessecados, plantados que foram na terra do Senhor? Por que o espírito deles há de ser morto, quando o Espírito Eterno pôs à disposição deles um tesouro espiritual para que nele se abeberassem e vivessem? Eles, com que prodígio poderão voltar à Vida, se deixaram de lado as fontes, as pastagens, as luzes dadas por Deus, e ficam tateando na escuridão, bebendo da água de fontes não puras, comendo de pastagens não santas?

Não voltarão nunca mais a ser vivos? Sim. Em nome do Altíssimo, Eu o juro. Muitos ressuscitarão. Deus já preparou o milagre, ele já está até em ação, já foi operado sobre alguns, e alguns ossos ressequidos já foram revestidos de vida, porque o Altíssimo, ao qual nada é proibido, manteve sua promessa, a mantém, e cada vez mais a completa. Ele, do alto dos Céus, grita a esses ossos que estão esperando: “Eis que Eu vou infundir em vós o espírito, e vivereis.” Lançou mão do seu Espírito. Lançou mão de Si mesmo, formou uma carne para revestir sua Palavra e a mandou a esses mortos, a fim de que, falando a eles, de novo se infundisse neles a Vida.

Quantas vezes, durante séculos, Israel gritou: “Nossos ossos ficaram ressequidos, nossa esperança morreu, estamos segregados!” Mas toda promessa é sagrada, toda profecia é verdadeira. Eis chegado o tempo, no qual o Enviado de Deus abre as tumbas, para tirar delas os mortos e dar-lhes vida de novo, para levá-los consigo para o Verdadeiro Israel, para o Reino do Senhor, o Reino do Pai meu e vosso.

491.5 Eu sou a Ressurreição e a Vida! Eu sou a luz que veio para iluminar aos que jaziam nas trevas! Eu sou a fonte da qual jorra a Vida Eterna. Quem vem a Mim não conhecerá a Morte. Quem tem sede de vida, venha e beba. Quem quer possuir a Vida, isto é, Deus, creia em Mim, e do seu seio jorrarão, não umas gotas, mas rios de água viva. Porque quem crê em Mim, formará comigo o novo Templo do qual nascerão as águas salutares de que fala Ezequiel.

Vinde a Mim, ó povos! Vinde a Mim, ó criaturas! Vinde para formar um único Templo, porque Eu não repilo a ninguém, mas, por amor, vos quero comigo, no meu trabalho, nos meus merecimentos, na minha glória.

“Eu vi as águas que nasciam por debaixo da porta da casa, do lado do oriente… E as águas desciam pelo lado direito, ao sul do altar.”

Aquele Templo são os que creem no Messias do Senhor, no Cristo, na Lei Nova, na Doutrina do tempo da Salvação e da Paz. Assim como de pedras são formados os místicos muros do Templo, assim de espíritos novos serão formados os místicos muros do Templo, que não morrerá nunca, e que da terra se elevará ao Céu, como o seu Fundador depois da luta e da prova.

Aquele altar do qual jorram as águas, aquele altar do lado do oriente, sou Eu. As minhas águas brotam do lado direito, porque o lado direito é o lugar dos foram eleitos para o Reino de Deus. Brotam de Mim, para se derramarem nos meus eleitos, e os tornarem ricos das águas vitais, portadores delas, espalhadores delas para o norte e para o sul, para o oriente e para o ocidente, para darem vida à terra, em seus povos, que estão esperando a hora da Luz, a hora que está para chegar, que infalivelmente virá para todos os lugares, antes que a Terra deixe de existir.

Jorram e se espalham as minhas águas, misturadas com as que Eu mesmo dei, e darei aos meus seguidores, e, ainda que sejam espalhadas para beneficiar a terra, estarão unidas em um só rio da Graça, sempre mais profundo, sempre maior, crescendo cada dia mais, passo a passo, com aquelas águas que são os novos seguidores, até se tornarem como um mar que banhará todos os lugares, a fim de santificar toda a terra.

491.6 Deus quer isto. E Deus faz isto. Um milagre. Um dilúvio3 já lavou o mundo, dando morte aos pecadores. Um dilúvio, com outro líquido que não é a chuva, lavará o mundo, dando-lhe Vida. Por uma misteriosa ação de graças, os homens poderão ser uma parte daquele dilúvio santificador, unindo suas vontades à minha, suas fadigas à minha, seus sofrimentos aos meus. O mundo conhecerá a Verdade e a Vida. E quem quiser participar delas, poderá. Somente quem não quiser ser nutrido pelas águas da vida, se tornará um lugar brejento e pestilencial, ou permanecerá assim, e não chegará a conhecer as gordas colheitas dos frutos da graça, da sabedoria, da salvação, que irão conhecer aqueles que viverem em Mim.

Em verdade Eu vos digo, mais uma vez, que quem tem sede e vem a Mim, beberá e não terá mais sede, porque a minha Graça fará nascer dele fontes e rios de água viva. Quem não crê em mim perecerá como numa salina, onde a vida não pode subsistir.

Em verdade Eu vos digo que, depois de Mim, não cessará a fonte, porque Eu não morrerei, mas viverei, depois que Eu me tiver ido embora — ido embora, e não morrido —, para abrir as Portas dos Céus, um outro virá, que é igual a Mim, e que completará a minha obra, fazendo-vos compreender o que Eu vos disse e incendiando-vos para fazer de vós “luzes”, visto que tereis recebido a Luz.

Jesus se cala.

491.7 A multidão, que havia ficado silenciosa, ao ser dominada por aquela pregação, cochicha agora e faz os seus comentários de maneiras diferentes.

Um diz:

– Que palavras! Ele é um verdadeiro profeta!

Outro diz:

– É o Cristo. Eu vo-lo garanto. Nem João falava assim. E nenhum profeta é forte como Ele.

– Além disso, Ele nos faz entender os profetas, até Ezequiel, tão obscuro em seus símbolos.

– Ouviste, não? As águas! O altar! É claro!

– Os ossos ressequidos? Viste como ficaram perturbados os escribas, os fariseus e os sacerdotes? Eles compreenderam o salmo!

– Olha! Já mandaram a Ele os guardas! Mas estes… Esqueceram-se de prendê-lo, ficaram como as crianças, quando estão vendo os anjos. Olhai-os lá! Parecem estar espantados.

– Olha! Olha! Um magistrado os faz voltar e os censura. Vamos ouvir.

Enquanto isso, Jesus está curando os doentes que lhe são levados, e ninguém faz nenhuma outra coisa, até que, abrindo caminho pelo meio do povo, um grupo de sacerdotes e fariseus, capitaneados por um homem de seus trinta a trinta e cinco anos, que eu vejo ser evitado por todos, com um medo que é quase um terror, e que chega até perto de Jesus.

– Ainda estás aqui? Vai-te daqui! Em nome do Sumo Sacerdote!

Jesus se ergue, pois estava inclinado sobre um paralítico, olha para eles com calma e mansidão. Depois torna a inclinar-se para impor as mãos sobre o doente.

– Vai-te daqui! Compreendeste? Sedutor de multidões. Ou te mandaremos prender.

– Vai e louva o Senhor com uma vida santa –diz Jesus ao doente que se levanta curado.

E esta é a sua única resposta, enquanto aqueles que o ameaçam estão espumando veneno, a multidão os avisa que não façam mal a Jesus, e gritam todos os seus hosanas.

Mas, se Jesus é manso, assim não o é José de Alfeu que, pondo-se de pé, todo empertigado, virando a cabeça para trás, a fim de parecer mais alto, grita:

– Eleazar, ó tu que com os teus pares estarias querendo abater o cetro do Filho de Deus e de Davi, fica sabendo que estás cortando todas as plantas, em primeiro lugar a tua, da qual tanto de orgulhas. Porque a tua maldade faz balançar sobre tua cabeça a espada do Senhor!

E iria dizer outras coisas, mas Jesus lhe põe a mão sobre o ombro, dizendo:

– Paz, paz, meu irmão.

José, vermelho de raiva, fica calado.

491.8Põem-se a caminho da saída. Quando já fora dos muros, dão a Jesus a notícia de que os chefes dos sacerdotes e os fariseus censuraram os guardas por não terem prendido a Jesus, e que os guardas se desculparam, dizendo que nunca ninguém havia falado como Jesus. Esta resposta tinha feito que ficassem obstinados os príncipes dos sacerdotes e os fariseus, entre os quais havia muitos sinedritas. E a tal ponto, que, para provar aos guardas que só os bobos é que podiam ser seduzidos por um doido, queriam vir prendê-lo como blasfemador. E, para ensinar a multidão a entender a verdade. Mas Nicodemos, que estava presente, se opôs, dizendo:

– Não podeis agir contra Ele. A nossa lei proíbe condenar um homem, antes de tê-lo ouvido e de ter visto o que é que ele faz. E nós dele somente ouvimos e vimos coisas não condenáveis.

Diante disso, a ira dos inimigos de Jesus virou-se contra Nicodemos, com ameaças, insultos e zombarias, como se ele fosse um estulto e um pecador. Eleazar ben Anás havia partido pessoalmente, em companhia dos mais furiosos, para dar caça a Jesus, não ousou fazer mais que isso, por causa da multidão.

José de Alfeu está furioso. Jesus olha para ele, e diz:

– Tu o estás vendo, irmão?

Não diz mais nada… mas, há tantas coisas naquelas palavras! Há a advertência de que Ele tem razão, se falar, ou se calar-se. Há a lembrança de suas palavras, há a amostra do que é a Judeia em suas castas mais importantes, do que é o Templo, e assim por diante.

José inclina a cabeça, e diz:

– Tens razão…

E se cala, pensativo. Depois, de repente, joga os braços ao redor das costas de Jesus, chora sobre o peito dele, dizendo:

– Pobre do meu irmão! Pobre da Maria! Pobre da Mãe!

Eu creio que José tenha tido nesse momento a intuição clara da sorte de Jesus.

– Não chores! Faze tu também, como eu faço, a vontade do nosso Pai!

Jesus o conforta e beija para o consolar.

491.9 Quando José já está um pouco mais calmo, põem-se os dois a caminho da casa, onde ele está hospedado, e lá se saúdam, beijando-se. José, muito comovido, diz como suas últimas palavras:

– Vai em paz, Jesus. Em tudo. Aquilo que eu te disse perto de Nazaré, eu te repito, e com mais força ainda. Vai em paz. Procura ter somente os cuidados que o teu trabalho exige de Ti. Quanto ao mais, penso eu. Vai, e que Deus te conforte.

E o beija outra vez, como um pai, na face, e com carícias, como um chefe de família, pousa-lhe a mão sobre a cabeça.

Depois José saúda os irmãos. Saúdam também Simão. Mas eu noto que Tiago, não sei por qual motivo, trata José com um ar de frieza, e vice-versa, ao passo que com Simão ele é mais afetuoso.

A última palavra de José a Tiago é:

– Então, deverei dizer que te perdi?

– Não, irmão. Tu deves dizer que tu sabes onde eu estou, e, por isso depende de ti o encontrar-me. Com muitas orações por ti, isso sim. Mas nas coisas do espírito não é preciso tomar dois caminhos ao mesmo tempo. Tu sabes o que eu quero dizer…

– Tu estás vendo que eu o defendo…

– Tu defendes o homem e o parente. Não basta para dar-te aqueles rios de Graça, dos quais Ele falava. Defende o Filho de Deus, sem medo do mundo, sem cálculos de juros, e serás perfeito. Adeus. Recomendo-te nossa mãe e Maria de José…

Não sei se Jesus ouviu, porque estava atento a saudar a outros nazarenos e galileus, mas, terminadas as saudações, Ele ordenou:

– Vamos ao Monte das oliveiras… Dali nos dirigiremos para algum lugar…

1 defecção que houve depois do sermão, uma e outro no capítulo 354.
2 a teofania e as citações seguintes são referidas em Ezequiel 1,8-10; 37,1-14; 47,1-19.
3 dilúvio, do qual se narra em Gênesis de 6,5 até 9,17.


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