171. 171. Terceiro sermão da montanha:os conselhos evangélicos que aperfeiçoam a Lei.
25 de maio de 1945
171.1 Continua o Sermão da Montanha.
O lugar e a hora são sempre os mesmos. O povo aumentou ainda mais. A um canto, está um romano, ao lado de uma trilha, como se estivesse querendo ouvir, mas sem excitar repulsa na multidão. Eu o distingo pela veste curta e a capa. Lá estão ainda Estêvão e Herma.
Jesus vai vagarosamente para o seu lugar, a fim de começar a falar.
– Por tudo o que Eu vos disse ontem, não deveis ficar pensando que Eu tenha vindo abolir a Lei. Não. Visto que Eu sou Homem, e compreendo as fraquezas do homem, o que Eu quis foi encorajar-vos a segui-la, dirigindo os vossos olhares espirituais para o Abismo luminoso não para o abismo escuro. Porque, se o medo do castigo pode fazer alguém deter-se, três em dez vezes, a certeza do um prêmio o arremessa para frente sete em dez vezes. Daí se vê que a confiança faz mais do que o medo. Eu quero que tenhais uma confiança plena, firme, para que possais fazer não sete em dez partes de bem, mas dez em dez, para conquistardes este prêmio santíssimo que é o Céu.
Eu não mudo nem uma letra da Lei. Quem foi que a deu, entre raios, no Sinai? O Altíssimo.
Quem é o Altíssimo? O Deus Uno e Trino.
De onde foi que Ele a tirou? Do Seu pensamento. Como foi que a deu? Com a sua Palavra.
Por que foi que a deu? Pelo seu Amor.
Vede, pois que a Trindade estava presente. O Verbo, obediente como sempre ao Pensamento e ao Amor, falou pelo Pensamento e pelo Amor.
Poderia Eu desmentir-me a Mim mesmo? Não poderia. Mas Eu posso, já que tudo posso, completar a Lei, torná-la divinamente completa. Não como fizeram os homens que, durante séculos ao invés de tornarem completa, a fizeram indecifrável, impossível de ser cumprida, sobrepondo leis e preceitos, procedentes do seu pensamento, conforme suas vantagens, jogando todo esse entulho para apedrejar e sufocar, para soterrar e esterilizar a Lei Santíssima, dada por Deus. Poderá uma planta sobreviver, se estiver sempre mergulhada em avalanchas, em escombros e inundações? Não. A planta morre. A lei está morta em muitos corações, sufocada debaixo das avalanchas de exageradas superestruturas. Eu vim para resgatá-la e ao desenterrará-la, ressuscitando-a , eis que Eu faço dela não mais uma lei, mas uma Rainha.
171.2 As rainhas promulgam as leis. As leis são obras das rainhas, mas não são mais do que as rainhas. Eu, pelo contrário, faço da Lei rainha: Eu a completo, coroando-a, colocando no seu ápice a grinalda dos conselhos evangélicos. Primeiro era a ordem. Agora é mais que a ordem. Antes era o necessário. Agora é mais do que o necessário;. ela é a perfeição. Quem a desposa, assim como Eu vo-la dou, no mesmo instante se torna rei, porque alcançou o que há de “perfeito”, porque não só se tornou obediente, mas heróico isto é, santo, sendo a santidade a soma das virtudes levadas ao ápice, o ponto mais alto que possa ser atingido por uma criatura. São virtudes heroicamente amadas e servidas, com um completo desapego de tudo o que é apetite ou reflexão humana. Eu poderia dizer que o santo é aquele para o qual o amor e a vontade servem de obstáculo para qualquer outra, que não seja Deus. Não distraído por outra visão inferior, ele tem as pupilas do coração firmes no Esplendor Santíssimo que é Deus, no qual ele vê, a agitação dos irmãos que, suplicantes, lhe estendendo as mãos, pois tudo é em Deus. E, sem afastar o olhar de Deus, o santo se inclina para atender aos irmãos que lhe suplicam. Contra a carne, contra as riquezas, contra as comodidades, ele ergue o seu ideal: servir. O santo fica pobre? Fica diminuído? Não. Ele chegou a possuir a sabedoria e a riqueza verdadeiras. Por isso, possui tudo. Não sente cansaço, porque, se é verdade que produza continuamente, também é verdade que ele é nutrido continuamente. Porque, se é verdade que compreenda a dor do mundo, também é verdade que se alimenta com a alegria do Céu. Ele se nutre de Deus, se alegra em Deus. Ele é a criatura que compreendeu o sentido da vida.
Como estais vendo, Eu não mudo, nem mutilo a Lei, como também não a corrompo com superposições de fermentantes teorias humanas. Mas a completo. Ela é o que é, e assim será até o último dia, sem que dela se mude uma só palavra, ou se tire um só preceito. Ela está coroada pela perfeição. Para ter-se a salvação, basta aceitá-la como foi dada. Para ter uma imediata união com Deus, é preciso vivê-la, como Eu aconselho. Mas, visto que os heróis são uma exceção, Eu falarei para as almas comuns, para a massa das almas, para que não se diga que, buscando a perfeição, eu desconheça o necessário. De tudo o que Eu digo, guardai bem isto: quem se permite violar um só entre os menores destes mandamentos será considerado o menor no Reino dos Céus. Aquele que levar outros a violar será considerado o menor pelo que fez e por aqueles que tiver levado à violação. Ao passo que aquele que, com sua vida e suas obras, ainda mais do que com as palavras, tiver persuadido outros a obedecerem, este será grande no Reino dos Céus. Sua grandeza aumenta a cada um daqueles que ele leve a obedecer e assim a santificar-se.
171.3 Eu sei que isto será desagradável para muitos. Mas Eu não posso mentir, ainda que a verdade que Eu vou dizer crie inimigos.
Em verdade, Eu vos digo que, se a vossa justiça não for criada de novo, separarando-se completamente da pobre e erroneamente chamada justiça, ensinada pelos escribas e fariseus; se não fordes de verdade mais justos que os fariseus e escribas, que pensam que são justos quando aumentam as fórmulas, mas sem procurar uma mudança substancial em seus espírito, não entrareis no Reino.
Guardai-vos dos falsos profetas e dos que ensinam o erro. Eles vêm a vós com veste de cordeiro, mas são lobos ferozes. Vêm vestidos de santidade, mas são zombadores de Deus, pois dizem que amam a verdade, mas se nutrem com a mentira. Observai-os bem, antes de acompanhá-los.
O homem tem uma língua, com que pode falar, tem olhos, com que vê, tem mãos, com que faz sinais. Mas ele tem uma outra coisa, que dá testemunho mais verdadeiro do quem ele é: são os seus atos. O que é um par de mãos juntas em oração, se com elas depois o homem se entrega ao roubo e à fornicação? De que valem dois olhos que, querendo passar por inspirados, viram-se para todos os lados, se, depois dessa comédia, fixam-se, cobiçosos, numa mulher, ou num inimigo, seja para a luxúria, ou para o homicídio? O que é a língua, que conta uma mentirosa canção de louvor, e seduz com suas palavrinhas melosas, enquanto nas vossas costasela vos calunia, sendo capaz de jurar falso, só para vos fazer passar por alguém desprezível? Que é a língua, que faz longas orações hipócritas, e depois , rapidamente, arrasa a boa fama do próximo, ou seduz a sua boa fé? Dá náusea. Dão náusea estes olhos e estas mãos mentirosas. Mas os atos do homem, seus verdadeiros atos , isto é, o seu modo de comportar-se em família, no comércio, no trato com o próximo e com os seus criados, podem dar o testemunho: “Este é um servo de Deus.” Porque as ações santas são o fruto de uma verdadeira religião.
Uma árvore boa não dá frutos maus, e uma árvore má não dá frutos bons. Estas moitas de espinho, por acaso poderão dar-vos uvas saborosas? E aqueles cardos, ainda mais espinhosos, poderão dar-vos um dia, figos maduros e tenros? Não, porque, em verdade, colhereis das primeiras poucas e ásperas frutinhas, e um fruto que não se pode comer é o que virá daquelas flores, pois mesmo estando em flor, já estão cercadas de espinhos. O homem que não é justo, poderá talvez incutir respeito com sua aparência, mas só com ela. Também aquele pé de cardo que parece de penas, como um floco de finos fios de prata, que o orvalho recobriu, de tais diamantes. Mas, se, distraidamente, tocardes nele, vereis que não se trata de nenhum floco, mas de um monte de espinhos, que ferem o homem, fazem mal às ovelhas e, por isso, os pastores os arrancam de seus pastos, e os jogam no fogo aceso a noite, para queimar até as sementes. É uma medida justa e previdente. Eu não vos digo: “Matai os falsos profetas e os fiéis hipócritas.” Antes, vos digo: “Deixai isso para Deus.” Eu vos digo: “Estai atentos, afastai-vos deles para não vos envenenardes com os seus sucos.”
171.4 Como Deus há de ser amado, Eu vos disse ontem. Insisto em dizer como o próximo há de ser amado.
Noutros tempos se dizia1: “Amarás o teu amigo e odiarás o teu inimigo.” Não. Não é assim. Isto era bom nos tempos em que o homem não tinha o conforto do sorriso de Deus. Agora chegaram tempos novos, nos quais Deus ama tanto o homem, que lhe manda o seu Verbo para redimi-lo. Agora o Verbo está falando. É a graça que já está se difundindo. Depois, o Verbo consumará o sacrifício de paz e de redenção, e a graça não só se difundirá, mas será dada a todos os espíritos que crêem no Cristo. Por isso é preciso elevar à perfeição o amor ao próximo, a tal ponto que já não se faça diferença entre o amigo e o inimigo.
Estais sendo caluniados? Amai e perdoai. Recebestes agressões ou pancadas? Amai e oferecei a outra face a quem vos esbofeteia, e pensai que é melhor que a ira se desafogue em vós, que a sabeis suportar, do que em algum outro, que iria vingar-se. Fostes roubados? Não fiqueis pensando: “Este meu próximo é um cobiçoso”, mas pensai com caridade: “Este meu pobre irmão é um necessitado”, e dai-lhe até a túnica, se já vos tirou a capa. Assim fareis que fique impossível para ele cometer um duplo furto, pois não terá mais necessidade de tirar a túnica de outro. Vós dizeis: “Mas poderia ser um vício, e não uma necessidade.” Está bem; mas dai assim mesmo. Deus vos recompensará por isso, e o que for injusto será castigado. Mas muitas vezes — e isso relembra tudo o que Eu disse ontem sobre a mansidão — vendo-se tratado assim, o vício sai do coração do pecador, e ele se redime, chegando até a reparar o seu furto com a entrega do que roubou.
Sede generosos com aqueles que, mais honestos, em vez de roubar-vos, vos pedem o que precisam. Se os ricos fossem realmente pobres de espírito, como vos ensinei ontem, não haveria essas lamentáveis desigualdades sociais, causas de tantas desventuras humanas. Pensai sempre: “Mas se eu estivesse em necessidade, como é que eu receberia a recusa de uma ajuda?” Agi de acordo com a resposta do vosso eu. Fazei aos outros o que gostaríeis que vos fosse feito, e não façais aos outros o que não gostaríeis que vos fosse feito.
Antiga é aquela palavra: “Olho por olho, dente por dente”, palavra que não está nos dez mandamentos, mas que foi colocada depois, porque o homem privado da graça é uma fera tal, que só pode compreender a vingança. Mas aquela palavra antiga está anulada por esta nova: “Ama quem te odeia, reza por quem te persegue, perdoa a quem te calunia, fala bem de quem fala mal de ti, faze o bem a quem te prejudica, sê paciente com o briguento, condescendente com quem te aborrece, ajuda de boa vontade a quem recorre a ti, e não uses de usura com ele, não vivas criticando nem julgando os outros.” Vós não sabeis em que condições são praticadas suas ações pelos homens. Em toda espécie de socorro, sede generosos, sede misericordiosos. Quanto mais dardes mais vos será dado, e uma medida bem cheia e calcada será despejada por Deus no seio de quem for generoso. Deus, não só vos dará conforme tiverdes dado, mas muito mais. Procurai amar e fazer-vos amar. As brigas acabam custando muito mais do que entrar num entendimento amigável. Viver em amizade é como um mel, que deixa por muito tempo o seu gosto na língua.
171.5 Amai, amai! Amai amigos e inimigos, para serdes semelhantes ao vosso Pai, que faz chover sobre os bons e sobre os maus, fazendo descer a luz do sol sobre justos e injustos, reservando-se o direito de dar sol e orvalhadas eternas, ou fogo e saraivadas infernais, no dia em que os bons vão ser separados como espigas escolhidas, entre os feixes da colheita. Não basta amar aos que vos amam, dos quais esperais retribuição. Isso não tem merecimento: é uma alegria, até os homens honestos por natureza sabem fazer. Os próprios publicanos e pagãos fazem assim. Mas vós, amai como Deus ama, amai por respeito a Deus, que é o Criador também dos que são vossos inimigos ou pouco amáveis para vós. Eu quero em vós a perfeição do amor, e por isso Eu vos digo: “Sede perfeitos, como perfeito é vosso Pai, que está nos Céus.”
Tão grande é o preceito do amor para com o próximo e do aperfeiçoamento do amor para com o próximo, que Eu não vos digo mais como se dizia: “Não matar,” porque aquele que mata será condenado pelos homens. Mas Eu vos digo: “Não vos ireis”, porque um juízo mais alto que o dos homens, está acima de vós, e leva em conta também as ações imateriais. Quem tiver insultado o irmão, será condenado pelo Sinédrio. Quem o tiver tratado como louco, e portanto o tiver prejudicado, será condenado por Deus. É inútil fazer oferta ao altar, se antes por Deus não se fez sacrifício dos próprios rancores no interior do coração, e não se cumpriu o rito santíssimo de saber perdoar. Por isso, quando estiveres para fazer uma oferta a Deus, se tu te lembrares de que tens uma falta contra teu irmão, ou de que ainda estás guardando rancor pela falta dele, deixa a tua oferta aí, diante do altar, faze primeiro a imolação do teu amor próprio, reconcilia-te com o teu irmão, e depois vem para diante do altar, então só agora é que o teu sacrifício será santo. Um bom acordo é sempre o melhor que se pode fazer. O juízo dos homens é sempre incerto. Quem, teimosamente, se aventura a crer nele, poderia perder a causa, devendo pagar ao adversário até a última moeda, ou apodrecer na cadeia.
Em tudo levantai o olhar para Deus. Perguntai a vós mesmos: “Terei eu o direito de fazer o que Deus não faz comigo?” Porque Deus não é tão inexorável e obstinado como vós. Ai de vós, se Ele o fosse! Ninguém se salvaria. Que esta reflexão vos leve a ter sentimentos de mansidão, de humildade, de piedade. Não vos faltará a recompensa da parte de Deus, nesta vida e na outra..
171.6 Aqui, diante de Mim, há também uma alma que me odeia, e que não tem coragem de dizer-me: “Cura-me!”, porque ele sabe que eu conheço os seus pensamentos. Mas Eu digo: “Que se faça o que estás querendo. Assim como te estão caindo as escamas dos olhos, que caiam também do teu coração o rancor e as trevas.” Ide todos com a minha paz. Amanhã vos falarei de novo.
A multidão vai-se dispersando aos poucos, talvez esperando ouvir algum grito pelo milagre feito. Mas não há nenhum grito.
Até os apóstolos e os discípulos mais antigos, que ainda estão na montanha, perguntam:
– Mas, quem era? Não terá sido curado? –e insistem com o Mestre, que ficou de pé com os braços cruzados, vendo a multidão se afastando.
Mas Jesus, a princípio, não responde. Depois diz:
– Os olhos ficaram curados. Mas a alma, não. Ela não pode, porque está cheia de ódio.
– Mas, quem será? Será talvez aquele romano?
– Não. É um infeliz.
– Mas, por que, então, o curaste? –pergunta Pedro.
– Deveria Eu fulminar a todos os outros como ele?
– Senhor… eu sei que Tu não queres que eu diga: “sim”, e por isso eu não o digo… mas eu estou pensando assim… e é o mesmo…
– É a mesma coisa, Simão de Jonas. Mas fica sabendo que então… Oh! quantos corações cheios de escamas de ódio Eu tenho ao redor de Mim! Vem Vamos para o alto, olharmos o nosso belo mar da Galileia. Eu e tu sozinhos.
1 se dizia em: Levítico 19,18 na primeira parte; na segunda parte tem-se em: Siraque 12,1-7. Todavia, a afirmação de Jesus é referida textualmente em Mateus 5,43.