357. 357. João e as culpas de Judas Iscariotes.Os fariseus e a questão do divórcio.
11 de dezembro de 1945.
357.1 As brilhantes estrelas de uma noite serena de março estão cintilando no céu do Oriente, tão vistosas e cheias de vida a ponto de ficar parecendo que o firmamento tenha baixado como um baldaquim sobre o telhado da casa que acolheu a Jesus. É uma casa muito alta, colocada em um dos pontos mais altos da cidade, de tal modo que o horizonte se abre, ilimitado, ao redor de quem olha para qualquer lado. E, se a terra desapareceu na escuridão da noite, enquanto não recebe a alegria da luz da luaque está agora no quarto minguante, o céu já está brilhando com seus milhares e milhares de luzes. É verdadeiramente a desforra feita pelo firmamento, que expõe, vitorioso, os seus canteiros de astros, suas pradarias da Galatéia, os seus gigantes planetas, os seus bosques de constelações. Contra as efêmeras criações da terra que, mesmo sendo seculares, são sempre da duração de uma hora em comparação com estas que são de desde quando o Criador fez o firmamento. E, absortos na contemplação a olhar lá para cima, para aquelas avenidas cheias de esplendor onde estão plantadas as estrelas, parece-nos estar ouvindo as vozes, os cantos que vêm daquelas selvas esplendorosas, do enorme órgão da mais sublime das catedrais, no qual me agrada imaginar que façam de fole e de registro os ventos provocados pelas corridas dos astros, enquanto que as vozes são as estrelas, lançadas em suas trajetórias. Tanto mais me parece perceber tudo isso, porque o silêncio noturno de Gadara adormecida é completo. Não se ouve cantar nenhuma fonte, nenhum passarinho canta. O mundo dorme e dormem as criaturas que nele estão. Dormem também os homens, ainda que menos inocentes do que as outras criaturas. Dormem eles os seus sonos mais ou menos tranqüilos, em suas casas escuras.
357.2 Mas da porta do quarto que está virada para o terraço inferior, pois há um mais alto sobre o quarto de cima, aparece uma sombra alta, mal visível no meio da noite, apenas pela brancura do rosto e das mãos por cima da veste escura, e é acompanhada por uma outra mais baixa.Vão caminhando na ponta dos pés para não despertarem aqueles que talvez estejam dormindo no quarto de baixo e, ainda na ponta dos pés, vão subindo pela escada externa que vai até o último terraço. Depois, eles se seguram pelas mãos e assim vão sentar-se em um banco, que está ao longo de um parapeito bem alto, que fica ao redor do terraço. O banquinho baixo e o parapeito alto fazem que todas as coisas desapareçam dos olhos deles. Ainda que a lua estivesse mais clara no céu, subindo para iluminar o mundo, para eles não seria nada. Porque a cidade está toda escondida, e com ela estão as sombras mais escuras dos montes vizinhos, dentro do escuro da noite. Somente o céu é que se lhes mostra, com as suas constelações da primavera e as magníficas estrelas do Orion, Rigel e Betelgeuse, Aldebaran e Perseu, Andrômeda e Cassiopéia, e as Plêiades unidas como irmãs. E Vênus, vestida de safira e de diamantes, e Marte com seu pálido rubi, e o topázio de Júpiter, são os reis desse povo astral, e palpitam, palpitam, como que saudando o Senhor, acelerando suas palpitações de luz, em homenagem à Luz do mundo.
Jesus levanta a cabeça ao olhar para elas, apoiando-a sobre o muro alto, e João faz o mesmo, detendo-se a olhar lá para cima onde se pode até ignorar a existência do mundo… Depois, Jesus diz:
– E agora que aqui estamos, purificados e entre as estrelas, vamos rezar.
Ele põe-se em pé e João o imita: é uma oração longa, silenciosa, profunda, toda da alma, com os braços abertos em cruz, com o rosto levantado e virado para o Oriente, onde já se vem anunciando o começo da claridade da lua. E depois o “Pai-nosso” recitado pelos dois, lentamente, não uma só mas três vezes, e sempre com um aumento de insistência nos pedidos, o que se pode notar claramente na voz deles. É uma súplica, que separa a alma da carne, arremessando-a por sobre os caminhos do Infinito, de tão ardente que ela é.
Depois vem o silêncio. Assentam-se onde estavam antes, enquanto a Lua vai embranquecendo cada vez mais a terra adormecida.
357.3 Jesus passa um braço por sobre os ombros de João e o puxa para Si, dizendo:
– Dize-me agora o que achas que deves dizer-me. Quais são as coisas que o meu João percebeu, com a ajuda da Luz espiritual, na alma tenebrosa do companheiro?
– Mestre… eu estou arrependido de ter-te dito aquilo. Cometerei dois pecados…
– Por quê?
– Porque te farei ficar triste, revelando-te até o que não sabes, e… porque… Sim, não é verdade? E, então, como é que eu vou poder dizer isso ofendendo a caridade!…
João está angustiado. Jesus acende uma luz na alma dele:
– Escuta, João, Para ti qual é mais, o Mestre ou o discípulo?
– O Mestre, Senhor. Tu és mais.
– E que sou para ti?
– O Princípio e o Fim. Tu és Tudo.
– E crês tu que, sendo Eu Tudo, saiba também o que vem a ser tudo isso?
– Sim, Senhor. E por isso é que há em mim um grande contraste. Porque eu penso que Tu sabes e sofres. E me lembro de que Tu me disseste um dia que às vezes Tu és Homem, somente Homem, e por isso o Pai te faz conhecer o que é ser um homem que se há de guiar conforme a razão. E penso também que Deus, por piedade para contigo, poderia ocultar-te estas feias verdades…
– Apega-te a este pensamento, João. E fala. Com confiança. Confiar o que sabes a quem para ti é “Tudo”, não é pecado. Porque o “Tudo” não se escandaliza, não murmura, não faltará com a caridade nem por pensamento, para com o infeliz. Seria pecado se tu dissesses o que sabes a quem pode não ser todo amor, aos companheiros, por exemplo, que começariam a fazer murmuração e até atacariam sem misericórdia o culpado, fazendo mal a ele e a si mesmos. Porque é preciso ter misericórdia, uma misericórdia sempre tanto maior quanto mais tivermos à nossa frente uma pobre alma doente de todos os males. Um médico, um piedoso enfermeiro ou até uma mãe, se o mal de um doente é pequeno pouco se impressionam e pouco fazem para curá-lo. Mas se o filho ou o homem estiver muito doente, em perigo de vida, já com gangrena ou paralisia, então como lutam, vencendo repugnâncias e canseiras, para curá-lo. Não é assim?
– Assim é Mestre –diz João, que já tomou sua posição habitual, com o braço passado pelo pescoço do Mestre e a cabeça apoiada sobre o ombro dele.
– Pois bem. Nem todos sabem compadecer-se das almas doentes. Por isso, devemos ser prudentes, ao tornarmos conhecidos os males delas, para que o mundo não as evite e não lhes faça mal com o seu desprezo. Um doente que se vê escarnecido, se entristece e piora. Mas se, pelo contrário, ele é bem cuidado e lhe incutem uma alegre esperança pode ficar bom, porque a alegria confiante de quem o assiste penetra nele, e ajuda o remédio a fazer efeito. Mas tu sabes que Eu sou Misericórdia e não vou humilhar Judas. Fala, pois, sem escrúpulos. Tu não és um espião. És um filho que conta ao pai, com amoroso cuidado, o mal que descobriu no irmão a fim de que o pai o cure. Vamos…
357.4João dá um forte suspiro, depois inclina ainda mais a cabeça, deixando-a ir deslizando por sobre o peito de Jesus, e diz:
– Como é penoso falar de coisas podres!… Senhor!… Judas é um impuro… e me tenta para a impureza. Que ele se escarneça de mim não me importa, Mas o que me dói é que ele venha a Ti com a sujeira dos seus amores. Desde que ele voltou, já me tentou muitas vezes. Quando acontece que ficamos sós, — e ele procura por todos os modos que isso aconteça — ele não fala de outras coisas a não ser de mulheres… e com isso eu sinto um desgosto, como o que teria, se fosse mergulhado em matérias fétidas e ainda tentassem colocá-las em minha boca…
– Mas, com isso ficas profundamente perturbado?
– Perturbado, como? Minha alma freme. Minha razão grita contra tais tentações… Eu não quero ser corrompido.
– E a tua carne, que faz?
– Ela se arrepia toda.
– Somente isso?
– Somente, Mestre, e então fico chorando, porque me parece que Judas não poderia fazer maior ofensa a quem se consagrou a Deus. Dize-me: isso rompe a integridade de minha oferta?
– Não. Não mais do que um punhado de lama jogado sobre uma pedra de diamante. A lama não risca a pedra nem penetra nela. Basta um pouco de água pura jogado sobre a pedra para que ela fique limpa. E fica mais bonita do que antes.
– Então, limpa-me.
– A tua caridade e o teu anjo te limpam. Não fica nada de sujo sobre ti. Tu és um altar polido sobre o qual desce Deus. 357.5E, que mais faz Judas?
– Senhor, ele… Oh! Senhor!
A cabeça de João desliza mais para baixo.
– Que é?
– Ele… Não é verdade que seja dinheiro dele, aquele que ele te dá para os pobres. É dinheiro dos pobres que ele rouba para si, para ser louvado por uma generosidade que ele não tem. Tu o fizeste ficar furioso quando, ao voltarmos do Tabor, lhe tiraste todo o dinheiro. Então, ele me disse: “Entre nós há espiões.” E eu lhe disse: “Espiões de quê? Será que estás roubando?” “Não”, respondeu-me ele, “mas faço uso da previdência e faço duas bolsas. Alguém contou isso ao Mestre e Ele me obrigou a entregar tudo, e Ele o ordenou com uma tal energia, que eu me vi obrigado a entregar o que tinha.” Mas não é verdade, Senhor, que ele o faça por previdência. Ele o faz para ter dinheiro. Ele assim faz para ter a certeza de estar dizendo a verdade.
– Quase certeza! E esta dúvida, sim, é que já é uma culpa leve. Não podes acusá-lo de ser ladrão se disso não estiveres inteiramente certo. As ações dos homens têm, às vezes, uma feia aparência e são boas.
– É verdade, Mestre. Não o acusarei, nem mesmo por pensamento. Mas, que ele tem duas bolsas, é aquela que ele diz ser dele e que ele te dá seja a tua mesmo, fazendo assim para ser elogiado, isso é verdade. Isso eu não faria. Acho que não é bom fazer assim.
– Tens razão. 357.6Que mais tens a dizer?
João levanta o rosto espantado, abre a boca para falar, depois torna a fechá-la, e cai de joelhos, escondendo o rosto por entre a veste de Jesus, que lhe põe a mão sobre os cabelos.
– Então, levanta-te! Poderias ter visto mal. Eu vou ajudar-te a ver bem. Deves dizer-me também que tu pensas sobre as prováveis causas dos pecados de Judas.
– Senhor, Judas se sente sem a força que quereria ter para fazer milagres. Tu sabes como ele sempre ambicionou possuí-la… Tu te lembras de Endor? Mas, ao contrário, é ele quem os faz em menor número. Desde que ele voltou, então, já não consegue mais nada… e, de noite ele se queixa disso até quando está sonhando, como se isso fosse um incubo, e… Mestre, meu Mestre!
– Vamos, fala até o fim.
– Ele roga pragas… e pratica a magia. Isto não é mentira, nem é duvidoso. Eu vi. Ele me escolhe por companheiro porque eu durmo profundamente. Ou melhor, porque eu dormia profundamente. Agora, eu o confesso, eu o vigio e o meu sono é menos profundo porque, logo que ele se move, eu o percebo… Talvez eu tenha feito mal. Eu fingi dormir para ver o que ele estava fazendo. E por duas vezes eu o vi e ouvi fazer coisas feias. Eu não entendo de magia. Mas o que ele fazia, era.
– Só isso?
– Não e sim. Em Tiberíades eu o acompanhei. Ele foi a uma casa. Perguntei-lhe depois quem morava lá. Era um que praticava necromancia com outros. E, depois que Judas saiu, já quase de manhã, pelas palavras que ele disse eu pude compreender que eles se conhecem e que são muitos… e que não são todos estrangeiros. Ele está pedindo ao demônio a força, que Tu não lhe dás. É por isso que eu sacrifico a minha ao Pai para que a passe para ele e ele não seja mais pecador.
– Deverias dar-lhe a tua alma. Mas isso, nem o Pai nem Eu o permitiríamos…
357.7 Há um longo silêncio. Depois Jesus, com uma voz cansada, diz:
– Vamos, João. Desçamos. Vamos descansar, enquanto esperamos a aurora.
– Estás mais triste do que antes, Senhor! Eu fiz mal em falar!
– Não. Eu já o sabia. Mas pelo menos tu estás mais aliviado… e isso é bom.
– Senhor, devo evitá-lo?
– Não. Não tenhas medo. Satanás não faz mal aos Joãos. Ele os aterroriza, mas não pode tirar-lhes a graça que Deus continuamente lhes concede. Vem. Pela manhã Eu falarei e depois iremos para Péla. É preciso andar depressa, porque o rio já está cheio por causa das neves que vão se derretendo e pelas chuvas dos dias anteriores. Logo virá a cheia que, muito mais do que a lua arqueada, é sinal de chuvas abundantes.
Eles descem e desaparecem no quarto que fica abaixo do terraço.
357.8É manhã. Uma manhã de março. Por isso, clareiras e nuvens se alternam no céu. Mas as nuvens são mais do que as clareiras e tendem a tomar conta do céu. Um ar quente sopra com respiros sucessivos e torna pesado o ar, cobrindo-o de uma poeira que talvez venha das regiões do altiplano.
– Se o vento não mudar, vai ser chuva! –sentencia Pedro, ao sair da casa com os outros.
Por último sai Jesus, que se despede dos donos da casa, enquanto o dono se une a Ele. Dirigem-se para uma praça.
Depois de alguns passos, fá-los parar um graduado romano que vem com uns soldados.
– És tu Jesus de Nazaré?
– Eu o sou.
– Que fazes?
– Eu falo às multidões.
– Onde?
– Na praça.
– Tens palavras sediciosas?
– Não. Preceitos de virtude.
– Cuidado! Não mintas. Roma já está cheia de falsos deuses.
– Vem tu também. Verás que Eu não minto.
O homem que hospedou Jesus sente-se no dever de intervir:
– Mas desde quando tantas perguntas assim a um rabi?
– Denúncia de homem sedicioso.
– Sedicioso? Ele? Mas tu estás enganado, Mário Severo! Este é o homem mais manso da terra. Eu te digo.
O homem graduado encolhe os ombros e responde:
– Melhor para ele. Mas esta é a denúncia que chegou ao Centurião. Que ele se vá, então. Mas está avisado.
O oficial dá meia volta e vai-se embora com os seus soldados.
– Mas, quem pode ter sido? Eu não compreendo! –dizem diversos.
Jesus responde:
– Deixai de entender. Não adianta. Vamos enquanto muitos estão na praça. Depois partiremos também daqui.
357.9 A praça deve ser uma das praças comerciais. Não é uma feira, mas pouco menos, pois está rodeada de lojas onde há depósitos de todas as qualidades de mercadorias. E o povo se apinha junto a eles. Por isso há muitas pessoas na praça, alguns olham para Jesus piscando os olhos e logo um círculo delas se forma em torno do “Nazareno”. É um círculo composto de pessoas de todo gênero, de todas as classes e nações. Alguns aqui vieram por veneração. Outros por curiosidade.
Jesus faz sinal de que vai falar.
– Vamos ouvi-lo! –diz um romano, que está saindo de uma mercearia.
– Não iremos ter que ouvir alguma lamentação? –responde-lhe um companheiro.
– Não penses nisso, Constâncio. Ele é menos indigesto do que um dos nossos costumeiros reitores.
– A quem me está ouvindo, com ele esteja a paz! Está escrito no livro de Esdras, na oração1 que Esdras faz: “E que diremos agora, ó Senhor nosso Deus, depois de tudo o que aconteceu? Porque, se nós abandonamos os teus mandamentos por Ti a nós ordenados por meio dos teus servos…”
– Pára, Tu que estás falando. O assunto somos nós que te daremos –grita um punhado de fariseus que vão abrindo caminho pelo meio do povo.
De repente, torna a aparecer a escolta armada e vem parar no canto mais próximo. Os fariseus já chegaram à frente de Jesus:
– És Tu o Galileu? És Jesus de Nazaré?
– Eu sou.
– Graças a Deus que te encontramos!
Na verdade, notam-se aí certas caras tão hostis, que não dão sinais de estarem alegres por este encontro…
O mais velho deles fala:
– Nós te estamos acompanhando há muitos dias, chegando aos lugares sempre depois que já partiste deles.
– Por que me seguis?
– Porque és o Mestre e queremos que nos expliques um ponto obscuro da Lei.
– Não há pontos obscuros na Lei de Deus.
– Nela, não. Mas… Mas, à Lei foram acrescentadas as “sobreposições”, como Tu dizes, e que produziram obscuridades.
– Penumbras, quando muito. E basta voltar a inteligência para Deus para acabar com essas também.
– Mas nem todos sabem fazer isso. Nós, por exemplo, ficamos na penumbra. Tu és o Rabi… Ajuda-nos, então.
357.10 – Que quereis saber?
– Queríamos saber se é lícito ao homem repudiar, por qualquer motivo, sua mulher. Isso é uma coisa que freqüentemente acontece e cada vez cria muito rumor onde acontece. Então, dirigem-se a nós para saberem se isso é lícito ou não. E nós, conforme o caso, lhes respondemos.
– E aprovais o que aconteceu em noventa por cento dos casos. E os dez por cento que sobraram desaprovados, pertencem à categoria dos pobres, ou dos vossos inimigos.
– Como sabes?
– Porque é assim que acontece em todas as coisas humanas. E uno àquela categoria a terceira classe: aquela que, se fosse permitido o divórcio, mais teria direito a ele, porque ela é de verdadeiros casos penosos como uma lepra incurável, ou uma condenação por toda a vida, ou então certas doenças cujos nomes nem convém citar…
– Então, para Ti nunca é lícito?
– Nem para Mim, nem para o Altíssimo, nem para ninguém que tenha um espírito reto. Não lestes que o Criador, no começo dos dias, criou o homem e a mulher? Ele os criou macho e fêmea. E não tinha necessidade de fazer assim porque, se tivesse querido para o rei da Criação feito a sua imagem e semelhança, teria outro meio de procriação que igualmente teria sido bom, ainda que fosse diferente de qualquer outro meio natural. E Ele disse: “Assim, e por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne.” Portanto, Deus os une em uma só unidade. Logo, já não são mais “dois”, mas “uma” só carne. E o que Deus uniu, vendo ser “uma coisa boa”, que o homem não o separe porque, se acontecesse, uma coisa boa não estaria sendo tratada com seriedade.
357.11 – Mas, então, por que Moisés disse: “Se um homem tomou uma mulher consigo, mas ela não encontra mais graça aos olhos dele por causa de alguma coisa feia, ele escreverá um libelo de repúdio e lho dará em sua mão e a mandará embora de sua casa?”
– Ele disse isso por causa da dureza do vosso coração. Para evitar, com uma ordem, outras desordens muito mais graves. Por isso ele vos permitiu repudiar as mulheres. Mas no princípio não foi assim. Pois a mulher é mais do que o animal, o qual, conforme os caprichos do seu dono ou das livres circunstanciais naturais, é submetido a este ou àquele macho, que é uma carne sem alma e se acasalam para reproduzir. As vossas mulheres têm uma alma como vós tendes e não é justo que vós piseis nelas, sem delas ter compaixão. Porque, se está dito na condenação: “Tu serás submetida ao poder do marido e ele te dominará”, isso haverá de acontecer de acordo com a justiça, e não pela prepotência que lesa os direitos da alma livre e digna de respeito. Vós, repudiando como não vos é lícito, ofendeis a alma de vossa companheira, à carne gêmea que com a vossa se uniu, a um todo que é a mulher que vós desposastes, exigindo dela honestidade, enquanto, ó perjuros, ides a ela sendo desonestos, diminuídos,às vezes até corrompidos e continuais a ser, aproveitando-vos de cada ocasião para poderdes feri-la e abrir um campo mais largo para a libidinagem insaciável que há em vós. Prostituido-res de vossas mulheres! Por nenhum motivo podeis separar-vos da mulher que a vós está unida pela Lei e pela Bênção. Somente no caso em que a graça vos toque para chegardes a compreender que a mulher não é uma coisa possuída, mas tem uma alma e por isso tem direitos iguais aos vossos de ser reconhecida como uma parte do homem, e não um objeto de prazer para ele e, somente no caso em que o vosso coração seja tão duro que não saiba considerá-la em sua alta posição de esposa, depois de ter gozado dela como de uma prostituta, somente no caso de precisar remover o escândalo de dois que estão convivendo sem a bênção de Deus sobre sua união, é que vós podeis mandá-la embora. Porque nesse caso a vossa não é uma união, mas fornicação, e muitas vezes sem ter a honra de filhos, porque eles são desfeitos por algum ato contra a natureza ou abandonados como uma vergonha.
Em nenhum outro caso. Em nenhum outro. Porque, se tendes filhos ilegítimos de vossa concubina, tendes o dever de pôr fim a tal escândalo, casando-vos com ela, se ainda estais livres. Eu não me refiro a casos como o do adultério consumado, com prejuízos da esposa que não o sabe. Para ele existem as santas pedras da lapidação e as chamas do Xeol. Mas, para quem manda embora sua própria mulher legítima, porque dela está saciado e toma uma outra, não existe outra senão esta sentença: ele é adúltero. Também adúltero é aquele que toma a repudiada, porque se o homem arrogou-se o direito de separar o que Deus uniu, a união matrimonial continua aos olhos de Deus, e maldito é o que passa a ter uma segunda mulher sem ter ficado viúvo. E maldito é o que toma de novo a sua primeira mulher e depois, tendo-a mandado embora por repúdio e a tendo abandonado aos riscos da vida, para que consinta em novas núpcias a fim de poder ter o seu pão, a tome de novo se ficar viúva do segundo marido. Porque, ainda que seja viúva, ela foi adúltera por culpa vossa e vós duplicaríeis o seu adultério. Compreendestes, ó fariseus que me tentais?
Eles vão-se embora, derrotados, sem nada responderem.
357.12 – Severo é o homem. Se ele estivesse em Roma veria, porém, que lá a lama ferve ainda mais fedorenta –diz um romano.
Também alguns de Gadara resmungam:
– É duro ser homem se é preciso ser castos assim!…
E alguns falam mais alto:
– Se tal é a condição do homem para com a mulher, é melhor não se casar.
E até os apóstolos repetem esse pensamento, enquanto vão tomando de novo o caminho para a campina, depois de terem deixado os de Gadara. É o que diz Judas, zombeteiro. É o que diz Tiago de Zebedeu, com respeito e reflexão.
E Jesus responde a um e ao outro:
– Nem todos entendem isso, nem o entendem bem. Alguns, de fato, preferem o celibato para ficarem livres de seguir os vícios. Outros, para evitarem o pecado de serem maridos não bons. Mas somente alguns, aos quais isso foi concedido, compreendem o que é a beleza de estarem livres da sensualidade e até de uma fome honesta de mulher. Eles são os mais santos, os mais livres, os mais angélicos sobre a terra. Eu falo daqueles que se fazem eunucos por causa do Reino de Deus. Há entre os homens uns que nascem assim. Outros assim foram tornados. Os primeiros são monstruosidades que devem inspirar compaixão. Os segundos são casos de abusos a serem reprimidos. Mas existe uma terceira categoria: a dos eunucos voluntários que, sem usarem de violência e por isso com duplo mérito, sabem aderir à proposta de Deus e vivem como anjos para que o altar abandonado da terra tenha ainda flores e incensos para o Senhor. Estes negam satisfação à parte inferior, para crescerem na parte superior, a fim de que ela floresça no Céu, nos canteiros mais próximos do trono do Rei. E em verdade, Eu vos digo que eles não são mutilados, mas são seres dotados daquilo que falta à maior parte dos homens. Eles não hão de ser objeto de um estulto escárnio mas, ao contrário, de grande veneração. Compreenda isso quem deve, e o respeite, se puder.
Os que, entre os apóstolos, são casados, cochicham uns com os outros.
– Que tendes? –pergunta-lhes Jesus.
– E nós? Nós não sabíamos disso e tomamos mulher. Mas gostaríamos de ser como Tu dizes… –diz por todos Bartolomeu.
– Não vos está proibido fazê-lo de agora em diante. Vivei na continência, vendo em vossa companheira uma irmã, e tereis grande merecimento aos olhos de Deus. Mas apressai o passo para chegarmos a Péla, antes da chuva2.
1 oração, que se encontra em: Esdras 9,6-15. A parte de retomada começa no versículo 10.
2 chuva. “Após o esboço de MV”. Nele é plotado, verticalmente, a oeste, o rio Jordão, que corre de norte a oeste, o Yarloc, em que tem as fontes de águas sulfurosas. No centro está Gadara, no caminho de uma cordilheira. Eles também são chamados de os quatro pontos cardeais.
A mesma área é mostrada no desenho que a MV desenha no início do próximo capítulo. Além disso, aqui estão duas outras faixas afluentes, sem nome, da Jordânia, e é mostrado ao sul, a posição da cidade de Péla. Entre esta e Gadara, a seguinte anotação: Espécies de baixo planalto entre duas cadeias de montanhas, a primeira das montanhas, para o leste. À direita, descrita na vertical, uma outra nota: Aqui devem ser as montanhas da Auranite, mas a cadeia não permite intermediários para ver que dois picos individualmente, as mais altas com certeza.
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