532. 532. Preparativos para as Encênias. Uma prostitutamandada para tentar Jesus, que deixa Nobe.


21 de novembro de 1946.

532.1Os povos considerados em massa, os homens tomados singularmente, são sempre um pouco crianças e um pouco selvagens ou, pelo menos, primitivos e, por isso, muito sensíveis a tudo o que tiver sabor de novidade, de extraordinário, e que tenha um som de festa. Ao se aproximarem as solenidades, sempre é boa a ocasião para exaltar os homens, como se as festas anulassem o que os faz ficar tristes e cansados. Ao começar a aproximar-se uma festa, um ar de altivez, de uma leve exaltação se manifesta em todos, como se aquela aproximação fosse semelhante ao tan-tan dos selvagens em suas comemorações idolátricas ou em seus empreendimentos belicosos.

E até os apóstolos, nas proximidades das Encênias, estão eufóricos. Estão falando muito, alegres, fazendo projetos, lembrando festas passadas: a saudade mistura um pouco de melancolia aos assuntos, mas depois o ar de festa os invade de novo e os estimula a caprichar para que tudo saia bonito durante a festa.

As lamparinas na casa de João são poucas? Oh! Mas a casa de Tomé, em Ramá, está cheia delas! E, então, Tomé parte para Ramá, a fim de ir buscar. O óleo não é bastante? Oh! Elisa tem muito óleo em Betsur e o oferece. Então, André e João vão a Betsur buscar o óleo. Para cozinhar as fogaças é necessário um fogo brando de gravetos? Então, os dois Tiagos vão pelos montes apanhá-los. Está parecendo pouca a farinha, a cevada e o mel para os pratos rituais? E o que fica fazendo lá em Jerusalém Nique, que quase se mostra ofendida porque não lhe pedem nada, a não ser que dê do seu louríssimo mel e da farinha do seu belo sítio? E Pedro com Simão Zelotes vão à casa de Nique, enquanto Judas de Alfeu ajuda Elisa a fazer que a casa fique bonita, e até o velho Bartolomeu se une àquela alegria comum e, junto com Filipe, vão dar uma boa mão de cal à cozinha enfumaçada, para que ela fique mais alegre. Judas Iscariotes reserva para si a parte decorativa, e volta sempre carregado com ramos verdes, aromáticos e ornados com bagas, e os coloca com arte sobre as mesinhas e ao redor da chaminé do fogão.

E na véspera das Encênias a pequena casa parece preparada para acolher uma esposa, de tão mudada que está com as vasilhas de cobre que estão brilhando, pelas lamparinas que se tornam esplendentes como sóis, pelas ramagens alegres sobre as paredes brancas; e o cheiro do pão e das fogaças se espalha pelo ar, que já estava aromatizado pelos ramos cortados.

Jesus deixa que o façam. Parece estar tão longe dos outros, muito pensativo e triste. Responde a quem lhe faz perguntas e que pede, com sua pergunta, um elogio pelo que fez. E são essas perguntas que me dão o modo de reconstruir os trabalhos feitos pelos discípulos, os quais dizem, por exemplo: “Não tive eu um bom pensamento ao ir lá em casa apanhar as lâmpadas?”, ou, então: “Não fizemos bem eu e Filipe em caiar a casa toda? Ficou tudo branco e alegre. A casa ficou parecendo maior.” Ou, ainda: “Estás vendo, Mestre? Elisa está contente. Parece-lhe estar em sua casa e no tempo dos seus filhos. Hoje ela estava cantando, ao pôr o seu óleo nas lâmpadas, e depois quando misturava o mel com a farinha e o dissolvia no leite para pô-lo na cevada”, e ainda: “Que Elquias diga o que quiser. Mas um pouco de verde fica bem. Afinal! Se o Criador fez os ramos, é para que usemos deles, não é?” Desse modo, eles nos permitem reconstruir o trabalho que cada um fez. Mas se Jesus ainda responde a essas perguntas, que subentendem um desejo de elogio, o pensamento dele está ausente dali. É o que se pode ver.

532.2Chega a tarde. Depois das últimas saudações dos camponeses, que antes de se fecharem em suas casas, põem a cabeça para dentro da cozinha a fim de saudarem o Mestre, o silêncio reina em Nobe. É a hora em que vão cear. Já é hora do descanso para os meninos, os velhos e para todos os que a doença ou a idade tornam mais sensíveis.

Deve haver o costume de fazer presentes no tempo das Encênias, pois eu estou vendo como, logo que o velho João se retirou para o seu quartinho perto da cozinha, Elisa e os apóstolos começaram a terminar, ela a veste, e os outros uns objetos úteis, entalhados em madeira, e um toldo com a rede feita de cordinhas tingidas de vermelho, de verde, de amarelo e de anil, trabalho especial dos pescadores. Tomé, Mateus, Bartolomeu e Zelotes os estão olhando.

– Pronto! Terminei –diz Elisa, levantando-se e sacudindo de sua veste os fiapos que ela pudesse ter.

– Aí deve estar fazendo calor. Pobre velho! É verdade. Nós homens, sem as mulheres, seríamos mesmo uns infelizes. Não sei a que ponto estaríamos reduzidos sem ti,, depois de tantos meses ausentes de casa. Eu sou capaz de fazer o que fiz, mas se tiver que pregar um alfinete… –diz Pedro, apalpando o tecido.

– Além disso, foste rápida. Tu te pareces com minha mulher –diz Bartolomeu.

– Eu também terminei. Esta madeira era boa. Macia para se cortar e resistente ao mesmo tempo –diz Judas Tadeu, pondo sobre a mesa escura um pequeno utensílio feito de buxo, bom para nele se pôr o sal ou outro condimento.

– O meu trabalho está atrasado. Encontrei um veio duro, difícil de ser trabalhado. Talvez meu trabalho não saia bem. Não estou gostando dele. A beleza estava nestes veios escuros, por cima da madeira mais clara. Olha, Jesus. Não estão parecendo uns picos de montanhas pintados na madeira? –diz Tiago de Alfeu, mostrando uma espécie de vaso, que eu não sei para que uso estará destinado, na verdade bem bonito pela forma, coberto por uma tampa arqueada e venado graciosamente, tanto dos lados como por cima da tampa. Mas é justamente sobre a tampa, junto à maçaneta, que a madeira teima em resistir.

– Insiste, insiste. Verás que o consegues. Esquenta o ferro, até ficar vermelho. Tu cortarás a fibra, e conseguirás. Depois de cortar a primeira camada… –responde Jesus, depois de ter observado.

– Mas não se estraga com o fogo? –pergunta Mateus.

– Não, se for usado com habilidade. E quanto ao que sobra!… Ou lanças mão deste meio ou jogas tudo fora.

Tiago esquenta o furador afiado, depois aproxima a ponta vermelha do ponto teimoso. No ar há um cheiro de madeira queimando…

– Basta! Trabalha agora e conseguirás –diz Jesus.

E Ele ajuda o seu primo, segurando apertada a tampa, como se fosse um torninho. Por duas vezes a lâmina desliza e passa roçando os dedos de Jesus.

– Tira a mão, meu irmão. Eu não gostaria de ferir-te –diz Tiago de Alfeu.

Mas Jesus continua a segurar o vaso.

Na terceira vez o escalpelo afiado faz sangrar o polegar de Jesus.

– Ei! Estás vendo? Tu te machucaste! Deixa-me ver!

– Não é nada! Duas gotas de sangue… –responde Jesus, sacudindo seu próprio dedo, para que caia o sangue que goteja do talho–. Enxuga antes a tampa. Ela ficou manchada, acrescenta depois.

– Não. Deixa-a assim. Assim ela é preciosa. Enxuga aqui o teu dedo, Mestre. Aqui no meu véu. O teu sangue é sangue abençoado

–diz Elisa, envolvendo a mão no linho do seu véu.

A tampa causadora de tantos ais foi vencida. A canelura está feita.

– Antes queria fazer mal! –comenta Zelotes.

– Tens razão. Uma lenha teimosa –diz Tomé.

– Com ferro, fogo e dor. Parece até uma daquelas frases de que tanto gostam os romanos –observa Zelotes.

– Não sei por que, mas a mim me parece que essas palavras me fazem lembrar certos pontos dos profetas. Também nós somos madeiras teimosas… e haverá necessidade de ferro, fogo e dor para nos tornarmos bons? –pergunta Bartolomeu.

– Assim será. Mas isso não bastará. Eu trabalho com o fogo e com a minha dor, mas nem todos os corações sabem imitar esta madeira… 532.3Silêncio… Lá fora há alguém… Ouvem-se passos…

Todos ficam escutando. Não se ouve nada.

– Talvez seja o vento, Mestre. Na horta há folhas secas…

– Não. Eram passos…

– Algum animal noturno. Eu não ouço nada.

– Contudo eu, contudo eu…

Jesus fica escutando. Parece estar ouvindo. Depois levanta o rosto e fixa os olhos em Judas de Keriot, que também está escutando, muito atento em escutar. Mais do que os outros. Jesus está olhando para ele tão fixamente, que Judas lhe pergunta:

– Por que me ficas olhando assim, Mestre?

Mas ele não teve resposta, porque uma mão bateu na porta.

Dos quatorze rostos que a lâmpada ilumina, só o de Jesus é que fica como estava. Os outros mudam de cor.

– Abri! Abre, Judas de Keriot!

– Eu, não. Eu não abro! Poderiam ser alguns malvados que teriam vindo de propósito durante a noite. Não aconteça que eu te faça mal.

– Abre tu, Simão de Jonas.

– Menos do que nunca. Eu jogarei a mesa contra a porta, isso sim!

–diz Pedro e está para fazer o que disse.

– Abre, João, e não tenhas medo.

– Oh! Se queres mesmo fazer entrar, eu vou para o lado de lá do velho. Eu não quero ver nada –diz Iscariotes, fazendo com quatro longos passos o percurso que o separa da porta do quarto do velho, e desaparecendo nele.

João, que está em pé junto à porta, com a chave na mão, olha, assustado, para Jesus, e murmura:

– Senhor!…

– Abre e não tenhas medo.

– Oh! Mas é mesmo. Afinal somos treze homens fortes. Não será um exército que está aí fora! Com quatro murros e muitos gritos — tu, Elisa, se for preciso, grita também —, nós poremos todos a fugir. E nós não estamos em nenhum deserto –diz Tiago de Zebedeu.

E, tendo tirado o manto, arregaça as mangas da túnica ou da veste de baixo, pronto para defender-se. Pedro faz a mesma coisa.

532.4João, ainda na dúvida, abre a porta, olha pelo vão e não vê nada. Então, ele grita:

– Quem é que está fazendo barulho?

Uma voz feminina responde, contida, como se estivesse sofrendo:

– Uma mulher. Quero o Mestre.

– Esta não é hora de vir às casas. Se estás doente, como é que ficas andando a uma hora destas? Se és leprosa, como te arriscas a andar pelo povoado? Se estás sofrendo, volta amanhã. Vai, vai tratar de teus negócios –diz Pedro, que se havia colocado atrás das costas de João.

– Oh! Por piedade! Eu estou sozinha pela estrada. Estou com frio. Estou com fome. E sou uma infeliz. Chamai o Mestre para Mim. Ele tem piedade…

Os apóstolos olham para Jesus, indecisos. Jesus está muito sério e calado. Tornam a fechar a porta.

– Que devemos fazer, Mestre? Dar-lhe pelo menos um pouco de pão? Lugar, aqui não temos. Ir andando pelas casas com uma desconhecida… –diz Filipe.

– Espera. Eu vou ver –diz Bartolomeu, e pega a lâmpada para clarear.

– Não é preciso que tu vás. A mulher não está com frio nem com fome, e sabe muito bem para onde ir. Ela não tem medo da noite. Mas é uma infeliz, ainda que não seja nem doente nem leprosa. É uma prostituta. E vem para tentar-me. Eu vos digo tudo isso para que saibais que Eu sei e vos persuadais de que Eu sei. E também vos digo que ela não está vindo por seu próprio capricho, mas sim, porque está sendo paga para vir.

Jesus fala alto para poder ser ouvido no quarto ao lado, onde está Judas.

– E quem achas que tenha querido fazer isso? E com que plano?

–diz o próprio Iscariotes, que reaparece na cozinha–. Os fariseus, certamente que não, os escribas, também não nem os sacerdotes, pois ela é uma prostituta. E creio que nem os herodianos sejam assim… tão cheios de ódio para se meterem em certas brigas a fim de… Nem eu mesmo sei por quê.

– O porquê Eu te digo. Para poder dizer depois que Eu sou um pecador, um que tem relações com as pecadoras públicas. E Tu o sabes, tanto como Eu, que assim é. E Eu te digo que não amaldiçoo nem a ela nem a quem a mandou. Eu sou ainda e sempre a misericórdia. E vou estar com ela. Se queres ir comigo, podes ir. Eu vou estar com ela, porque realmente é uma infeliz. Ela diz que o é pensando que está dizendo uma mentira, pois é jovem, bonita e bem paga, sadia, e está contente com sua vida infame. Mas ela é uma infeliz, sim. É a única verdade que ela diz, entre as suas muitas mentiras. Vai na minha frente, para assistires ao colóquio.

– Eu, não. Eu não vou assistir. Por que eu deveria fazer isso?

– Para dar testemunho a quem te perguntar.

– E quem queres Tu que me interrogue? Entre nós não se ficará fazendo perguntas, e os outros… Não vejo ninguém, eu.

– Obedece. Vai na frente.

– Não. Não quero obedecer nisso, e não me podes obrigar a aproximar-me de uma meretriz.

– Opa! Que grande coisa és tu? Serás o Sumo Sacerdote? Vou eu, Mestre, e sem medo de que nada me pegue –diz Pedro.

– Não. Eu vou sozinho. Abre.

532.5Jesus desce para a horta. Na escuridão mais completa da noite, sem que ainda tenha nascido a lua, não se vê nada. A porta da cozinha se abre de novo e Pedro sai com uma lâmpada.

– Toma esta lâmpada, Mestre, se é que não queres mesmo que eu vá –diz ele em voz alta.

E, depois, em voz baixa:

– Mas fica sabendo que nós ficaremos atrás da porta. Se precisares de nós, podes chamar-nos…

– Sim. Vai. E não fiqueis discutindo uns com os outros.

Atrás do grosso tronco da nogueira, está uma figura humana. Jesus dá dois passos para o lado dela e diz:

– Acompanha-me.

E vai colocar-se na banqueta de pedra colocada perto da casa, do lado do oriente.

A mulher vai indo para frente, toda velada e inclinada. Jesus coloca a lâmpada sobre a pedra, ao lado dele.

– Fala.

Ele deu esta ordem com a severidade de um Deus, e a mulher, em vez de continuar para frente e de falar, dá uns passos para trás, inclina-se mais ainda e fica calada.

– Fala, Eu te mando. Querias falar comigo. E Eu vim. Fala, diz Jesus, com tom de doçura na voz.

Silêncio.

– Então, eu vou falar. E Eu te pergunto: por que me odeias tanto a ponto de servir aos que querem a minha ruína e a desejam de todos os modos, e para ela procuram todas as causas possíveis? Responde. Que foi que Eu te fiz de mal, ó infeliz? Que foi que te fez de mal o Homem que nem em seu coração zombou da vida infame que tu levas? Será que esse Homem te corrompeu, Ele que, nem em seu coração te desejou para que o possas odiar mais do que aqueles que te prostituíram e te rebaixam cada vez que eles vêm a ti? Responde! Que foi que te fez Jesus de Nazaré, o Filho do homem, que tu apenas conheces de vista por te teres encontrado com Ele nas ruas da cidade, Jesus, que nem conhece o teu rosto, nem às tuas graças dá importância, e que somente da tua alma é que ele quer ver a suja e enfeada figura, para conhecê-la e curá-la? Então, fala!

532.6Não sabes quem Eu sou? Sim, em parte tu o sabes. E até em duas partes o sabes. Sabes que Eu sou um homem jovem e que a minha pessoa te agrada. Quem te disse isso foi a tua animalidade desenfreada. E a tua língua de ébria o disse a quem pôde ficar ouvindo a confissão de tua sensualidade, e fez disso uma arma com que fazer-me mal. Sabes que Eu sou Jesus de Nazaré, o Cristo. Isto te disseram aqueles que desfrutando do teu desejo carnal, te pagaram para que viesses aqui a fim de me tentar. Eles te disseram: “Ele se diz o Cristo. As multidões o chamam o Santo, o Messias. Ele não é mais do que um impostor. Precisamos ter as provas de sua miséria como homem. Dá-nos essas provas e te cobriremos de ouro.” E porque tu, com um resto de justiça, a última migalha daquele tesouro de justiça que Deus havia colocado em tua carne junto com tua alma mas que tu quebraste e esparramaste por aí, não querias fazer-me mal — porque a teu modo me amavas — então eles te disseram: “Nós não lhe faremos mal! Pelo contrário! Nós abandonaremos contigo o homem, dando-te os meios de fazê-lo viver como um rei ao teu lado. Basta-nos podermos dizer a nós mesmos, para pormos em paz a nossa consciência, que Ele é um simples homem. Dá-nos essas provas e te cobriremos de ouro. Será uma prova de que temos razão em não crer que Ele é o Messias.” Assim disseram eles. E tu, então, vieste. Mas se Eu aderisse às tuas adulações, teria o Inferno sobre Mim. Eles já estão prontos para cobrir-me de lama e para prender-me. E tu estás sendo o instrumento para que possam fazer isso.

Estás vendo que não te faço perguntas. Eu falo, porque sei sem necessidade de perguntar. Mas se é que tu sabes destas duas coisas, há uma terceira que tu não sabes. Tu não sabes quem Eu sou, além de ser um homem e ser Jesus. Em Mim tu vês o homem. Os outros te dizem: “É o Nazareno.” Mas Eu te digo quem sou. Eu sou o Redentor. E, para redimir, devo ser sem pecado. A minha possível sensualidade de homem, olha como Eu a espezinhei. Assim como faço com esta nojenta lagarta que, na escuridão, vinha de uma lama para outra lama a fim de realizar os seus lascivos amores. Assim Eu a espezinhei sempre. E assim a espezinho agora também. E assim estou disposto a arrancar de ti a tua doença e espezinhá-la, livrando-te dela, para tornar-te sã e santa. Porque Eu sou o Redentor. Somente isso. Tomei um corpo de homem para salvar-vos, não para pecar. Tomei-o para tirar os vossos pecados, não para pecar convosco. Tomei-o para amar-vos, mas com um amor que dá a sua vida, o seu sangue, a sua palavra, tudo, a fim de levar-vos para o Céu, para a Justiça, não para amar-vos como um animal. E nem mesmo como homem, porque Eu sou mais do que homem.

532.7Sabes tu exatamente quem Eu sou? Não o sabes. Tu não sabias nem mesmo qual era a importância do que tinhas vindo fazer. E disso Eu te perdoo sem que tu me peças. Tu não sabias. Mas e a tua prostituição? Como pudeste viver nela? Tu não eras assim. Eras boa. Oh! Infeliz! Não te lembras de tua infância? Não te recordas dos beijos de tua mãe? Nem das palavras dela? Nem das horas de oração? Das palavras de Sabedoria que ouvias serem explicadas de tarde por teu pai, e aos sábados pelo sinagogo? Quem foi que te fez ficar assim embotada e ébria? Não te lembras? Não tens saudades daqueles tempos? Dize-me: Estás verdadeiramente feliz? Não respondes? Eu falo em teu lugar. E Eu digo: não, não és feliz. Quando despertas, encontras sobre o teu travesseiro a tua vergonha a dar-te a primeira tortura do dia, cada dia. E a voz da consciência te grita a sua reprovação, enquanto te ficas enfeitando e perfumando com prazer. E sentes um cheiro insuportável, até nas essências mais finas. E um sabor nauseante, até nos alimentos mais gostosos. E as tuas joias te pesam como umas correntes. E elas o são. E enquanto te ris e seduzes, alguma coisa geme dentro de ti. E te embebedas para vencer os aborrecimentos e a náusea que te causa a tua vida. E odeias aqueles que dizes amar a fim de receber algum lucro deles. E maldizes a ti mesma. E teu sono é cheio de íncubos. E a lembrança de tua mãe é uma espada em teu coração. E a maldição de teu pai não te deixa em paz. Além disso, recebes as ofensas dos que se encontram contigo, as crueldades dos que abusam de ti sem piedade e sempre. Tu és uma mercadoria. Tu és vendida. E uma mercadoria comprada se usa como se quer. Rasga-se, consome-se, pisa-se nela, cospe-se sobre ela. Está sob os direitos do comprador. Tu não te podes rebelar… E será que uma situação assim te faz feliz? Não. Estás desesperada. Estás acorrentada. Estás sendo torturada. Sobre a terra és um farrapo nojento, que por qualquer um pode ser pisado. Se tu procuras, nas horas de sofrimento, encontrar conforto e levantar o teu espírito para Deus, sentes a ira de Deus sobre ti, uma prostituta, e vês o Céu fechado, e mais ainda do que o foi para Adão. Se te sentes mal, ficas com grande medo de morrer, porque sabes qual é a tua sorte. Pois o abismo te espera.

532.8Oh! Infeliz! E tudo isso ainda não bastava? Gostarias de acrescentar à torrente de tuas culpas também a culpa de teres sido a ruína do Filho do homem? Deste que te ama? Ele é o único que te ama. Porque foi por tua alma também que Ele se revestiu com a carne humana. Eu poderia salvar-te, se tu o quisesses. Sobre o abismo de tua abjeção inclina-se o Abismo da Misericordiosa Santidade, e fica esperando um teu desejo de Salvação para arrancar-te do abismo de tua imundície. Em teu coração tu ainda pensas ser impossível que Deus te perdoe. E ficas ainda procurando bases para este teu pensamento no confronto que fazes com o mundo, que não te perdoa por seres uma prostituta. Mas Deus não é o mundo. Deus é bondade. Deus é perdão. Deus é Amor.

Tu vieste a Mim, tendo sido paga para me fazer mal. Em verdade, Eu te digo que o Criador, contanto que salve uma sua criatura, pode transformar em bem o que é mal. E se tu quiseres, em bem vai se mudar a tua vinda a Mim. Não te envergonhes do teu Salvador. Não te envergonhes de lhe mostrares nu o teu coração. Ainda que o queiras esconder, Ele o vê e chora sobre ele. Chora. Ama. Não te envergonhes de arrepender-te. Sê ousada em arrepender-te como o foste na culpa. Não és tu a primeira prostituta que vem chorar a meus pés e que Eu reconduzo à Justiça… Eu nunca expulsei nenhuma criatura, por mais culpada que ela fosse. Pelo contrário, sempre procurei atraí-la e salvá-la. Esta é a minha missão. Não me causa horror o estado de um coração. Eu conheço Satanás e as obras dele. Conheço os homens e suas fraquezas. Conheço a condição da mulher que paga, como é de justiça, mais duramente do que o homem, as consequências da culpa de Eva. Portanto, eu sei julgar e compadecer-me. E Eu te digo que, mais do que para com as mulheres decaídas, Eu sou severo com aqueles que as fizeram cair. Quanto a ti, Eu sou mais severo para com aqueles que te mandaram do que para contigo, que vieste sem saber exatamente para que estavas sendo usada. Eu teria preferido que tu tivesses vindo impelida por um desejo de redenção, como outras tuas irmãs. Mas se tu obedeceres ao desejo de Deus e se de uma má ação fizeres a pedra angular da tua nova vida, Eu te direi a palavra de paz…

532.9Jesus, que estava muito severo no princípio, pouco a pouco foi-se abrandando, mas permanecendo tão… Deus — de se excluir toda fraqueza da sensualidade e também qualquer erro na avaliação de sua bondade — agora se cala, olhando para a mulher, que ficou o tempo todo de pé, mas inclinada, sempre mais inclinada, a uns dois metros dele, e que, enquanto Ele falava, levou as mãos ao rosto, apertando-o contra o véu, duas belas mãos que se deixam entrever sobre o manto escuro, cheias de anéis. Alguns braceletes estão nos pulsos dos braços, alguns até nos cotovelos. Eu não saberia dizer se a mulher está chorando ou não. Se estiver, certamente o faz em silêncio, pois não se ouve nenhum soluço, nem se veem sobressaltos. Ela parece uma estátua, de tão parada que ficou com suas vestes escuras. Depois de uns poucos instantes, cai de joelhos, cai como um novelo no chão, e agora está chorando de verdade, e nem toma nenhuma precaução para não ser vista. Depois, estando assim como um farrapo no chão, fala:

– É verdade! És verdadeiramente um profeta… Tudo é verdade… Pagaram-me para isso. Mas me haviam dito que era para uma aposta… Eles te teriam descoberto em minha casa… Mas também perto de Ti…

– Mulher, Eu só quero ouvir a narração de tuas culpas… –interrompe-a Jesus.

– É verdade… Não tenho o direito de acusar ninguém, porque eu sou um esterqueiro de imundície. Tudo é verdade. Eu não sou feliz… Não tenho prazer com as riquezas, nem com os festins, nem com os amores… Enrubesço ao pensar em minha mãe… Tenho medo de Deus e da morte… Odeio os homens que me pagam. Tudo o que disseste é verdade. Mas não me expulses, Senhor. Nunca ninguém, depois de minha mãe, me falou como Tu. Até que me falaste ainda de modo mais brando do que minha mãe que, nos últimos tempos, estava dura comigo por causa da minha conduta… Para não mais ficar ouvindo-a, eu fugi para Jerusalém… Mas Tu… Contudo, é como se a tua doçura fosse neve caindo sobre o fogo que me devora. O meu fogo está ficando mais calmo e até está virando um outro fogo. Ele era ardente, mas não produzia luz nem calor. E eu era de gelo e estava nas trevas. Oh! Quanto eu desejei sofrer! Quantas dores inúteis e malditas eu causei a mim mesma. Senhor, eu te disse, através da porta semiaberta, que eu era uma infeliz e que tivesses piedade de mim. Eram aquelas umas palavras de mentira, que me haviam ensinado para dizer-te, sendo elas uma cilada. Haviam-me dito que depois a minha beleza teria feito o resto… 532.10A minha beleza! As minhas vestes!…

A mulher põe-se de pé. Agora que ela se ergueu, vejo que é alta. Ela tira o véu e o manto, e aparece em sua verdadeira beleza de uma cor moreno-acastanhada e rosto de cútis alvíssima. Seus olhos, aumentados em seus volumes por olheiras, são grandes e muito bonitos, têm um olhar de inocência espantada, o que é raro encontrar-se em uma dessas mulheres. Talvez o pranto já os tenha lavado. A mulher arranca o tecido do manto e pisa nele, rasga o véu, destrói as fivelas preciosas dos dois e os joga no chão, tira os anéis e braceletes, joga para longe os ornamentos da cabeça, agarra as madeixas encaracoladas, cheias de broches luzentes, e os tira, despenteando-se para acabar com aqueles artifícios, com uma fúria tal de sacrifício que chega a se tornar pavorosa. O colar que ela tem no pescoço, tendo sido puxado com violência, se desfaz no chão, e seu pé, calçado com uma sandália, pisa nas pedras preciosas e as esmigalha. Seu cinturão precioso tem a mesma sorte, e assim também um broche, que segura com arte o tecido de sua veste sobre o peito. E tudo isso, enquanto ela, em voz baixa e ofegante, vai repetindo:

– Fora! Fora! Fora, coisas malditas! Fora! Tanto vós, como aqueles que as deram! Fora, esta minha beleza! Fora, estes meus cabelos! Fora, esta minha carne de jasmim!

Com rapidez, ela agarra uma pedra aguçada, que viu no chão, e com ela se fere até sair o sangue do rosto, e o arranha com suas unhas pintadas. O sangue goteja das feridas, as feições ficam inchadas pelos golpes, até que, enfim, sua fúria se aplaca, e ela, ofegante, exausta, desfigurada, despenteada, rasgada, com as vestes sujas de sangue e de terra, se joga no chão, aos pés de Jesus, gemendo:

– E agora me podes perdoar, se estás vendo meu coração, porque não há mais nada do meu passado, nada mais de… 532.11Tu venceste, Senhor, na luta contra os teus inimigos e contra minha carne… Perdoa-me os meus pecados…

– Eu os havia já perdoado desde quando Eu vim ao teu encontro. Levanta-te e não peques mais.

– Dize-me o que devo fazer para conseguir isso.

– Afasta-te dos lugares de pecado e daqueles que sabem quem és. Tua mãe…

– Oh! meu Senhor! Ela não me acolherá mais. Ela me odeia por causa de meu pai, que morreu por mim, amaldiçoando-me.

– Se Deus que é Deus te acolhe, porque é Pai, pode deixar de acolher-te tua mãe, que te gerou, e que é mulher como tu? Vai humildemente a ela. Chora aos pés dela como choras aos meus. Confessa-te a ela, como fizeste comigo. Conta-lhe os teus sofrimentos. Invoca a piedade dela. Há anos que tua mãe está esperando esse momento. Ela o está esperando para morrer em paz. Suporta as palavras dela como uma amorosa censura, como suportaste as minhas. Ela é tua mãe. Tens o duplo dever, por isso, de escutá-la e com respeito.

– Tu és o Messias. Sabes mais do que minha mãe.

– Agora falas assim. Mas quando vieste para tentar-me, não sabias que Eu era o Messias e, no entanto, escutaste as minhas palavras.

– Tu eras tão diferente dos homens… assim… Tu és Santo, ó Jesus de Nazaré!

– Tua mãe é santa, como mãe e como criatura. Foi por suas orações que tu encontraste misericórdia junto de Deus. A mãe é sempre santa! E Deus quer que a ela se lhe prestem honras.

– E eu a desonrei. Todo o povoado sabe disso.

– Uma razão a mais para ires a ela e dizer-lhe: “Mãe, perdão.” E para consagrar-lhe tua vida e compensá-la pelos sofrimentos que por tua causa ela passou.

– Eu o farei… 532.12Mas… Senhor, não me mandes voltar a Jerusalém. Eles estão me esperando… e eu não sei se saberei resistir às ameaças… Deixa-me aqui até o amanhecer, e depois…

– Espera um momento.

Jesus se levanta, vai até à porta da cozinha, bate e manda abrir. E diz:

– Elisa, vem cá fora.

Elisa obedece. Jesus a leva para a mulher, que vendo vir uma outra mulher, e já de idade, tem uma sensação de vergonha e procura cobrir o seu rosto e a veste indecente com os restos do manto e do véu rasgados.

– Escuta, Elisa. Eu vou deixar imediatamente esta casa. Tu dirás aos meus Apóstolos que vão ao meu encontro, lá pela aurora, perto da Porta de Herodes. Todos, menos Judas de Keriot, que deve ir comigo. Levarás esta mulher para dormir contigo. Podes tomar a minha cama, porque Eu tão cedo não voltarei a Nobe. Amanhã, quando João despertar, tu e ele acompanhareis esta mulher para onde ela disser. Tu lhe darás uma veste comum e um dos teus mantos. E a ajudareis em tudo.

– Está bem, Senhor. Será feito o que Tu queres. Só não me agrada por causa de João…

– A mim também, não. Eu queria contentá-lo, mas o ódio dos homens impede ao Filho do homem de dar uma hora de festa a um justo…

– E depois, Senhor?

– Depois? Podes voltar a Betsur e ficar esperando… Adeus, Elisa. A minha bênção e a minha paz estejam contigo. Adeus, mulher. Eu te confio a uma mãe e a um justo. Mas se achas que deves voltar para pegar os teus haveres…

– Não. Não quero ter mais nada do passado.

– Mas, mulher minha! Não poderás certamente deixar tudo abandonado! Não tens servos nem parentes? –pergunta Elisa.

– Eu só tenho uma serva… e…

– E terás que libertá-la, terás…

– Eu te peço que o faças tu, na volta. Ajuda-me a curar-me completamente, ó mulher –e há uma verdadeira angústia em sua voz.

– Sim, minha filha! Sim. Não fiques angustiada. Amanhã pensaremos em tudo. Agora, vem cá para cima comigo.

E Elisa a pega pela mão e a conduz, subindo pela escada para um dos dois pequenos quartos de cima.

532.13Depois desce rapidamente:

– Eu pensava que era bom que todos te vissem sem ela, Senhor. E que não soubessem onde ela está. Estas joias…

Ela se inclina para recolher anéis e braceletes, fivelas e grampos, o cinturão e todas as contas do colar despedaçado:

– Que faremos, Senhor, com estas coisas?

– Vem comigo. Tens razão. É bom que me vejam.

Entram na cozinha. Todos ficam olhando para Jesus, como querendo perguntar alguma coisa. O velho também levantou-se, talvez despertado pelo barulho de alguma discussão.

– Elisa, entrega a Tomé as coisas preciosas. E tu, Tomé, amanhã as venderás a algum ourives. Servirão para os pobres. Sim. São joias de mulher. Daquela mulher. E esta é a resposta a quem pensa que uma carne possa tentar o Filho do homem e desviá-lo de sua missão. E também é o conselho àqueles que me odeiam, para que saibam que é inútil todo enredo para achar matéria de acusação. João, Elias te dirá o que deves fazer. Eu te abençoo…

– Tu estás me deixando? –pergunta entristecido o velhinho.

– Eu preciso. Adeus. A paz esteja contigo.

E virando-se para os apóstolos:

– Ide descansar. Todos, menos Judas de Keriot, que vem comigo.

– Mas para onde? Já é noite –diz Judas.

– Vamos rezar. Isso não te fará mal. Será que tu tens medo do ar da noite, ainda que o respires junto comigo?

Judas inclina a cabeça, pegando a contragosto o seu manto, enquanto Jesus apanha o dele.

– Amanhã bem cedo estaremos na Porta de Herodes. Iremos para o Templo e…

– Não!

Esse “não” é unânime. Mas o de Judas é mais forte.

– Iremos ao Templo. Pois tu não nos disseste que já os persuadiste a deixar-nos em paz?

– É verdade.

– Pois, então, iremos ao Templo. Vem comigo –e se prepara para sair.

– E assim já terminou a festa que nós havíamos preparado –suspira Pedro.

– Que terminou antes de começar, é o que deves dizer –responde-lhe Tiago de Zebedeu.

Jesus já está perto da soleira da porta aberta. Volta-se e abençoa. Depois desaparece na noite.

Na cozinha todos estão emudecidos. Enfim, Mateus pergunta à Elisa:

– Mas, afinal, o que foi que aconteceu?

– Não sei. Estava aí uma mulher chorando. E Ele disse o que falou também a vós. Quem era ela, de onde era e por que foi que veio, eu não sei…

– Está bem. Vamos…

Exceto Mateus e Bartolomeu, que estão dormindo na casa, todos os outros vão-se embora.