450. 450. Milagres na vila perto de Hipoe cura do leproso João.


26 de junho de 1946.

450.1 Hipo não fica à magem do lago, como eu pensava, ao ver aquelas casas na margem, perto do limite a sudeste do lago. O que me fez mudar de ideia foram as palavras dos discípulos. Este grupo de casas, por assim dizer, é a vanguarda de Hipo, que fica mais para o interior. Assim como é Óstia para Roma e Lido para Veneza, que são como aberturas da cidade interior para o lago, que dela se serve, como de uma passagem lacustre para importação e exportação, e também para abreviar as viagens desta região para a beira oposta da Galleia e, finalmente, também como lugar de divertimentos para os ociosos da cidade, e de reabastecimento de peixe, que os numerosos pescadores da aldeia lhe trazem.

Aqui, onde desembarcam nesta tarde serena, ao lado do pequeno porto natural formado pelo álveo de uma torrente, agora enxuta, seca, e no qual flutua docemente, até à distância de alguns metros, a onda azulada do lago, ainda não rejeitada pela água da torrente. Aqui há casas e casinhas dos hortelãos e dos pescadores, que usufruem, estes últimos, das águas ricas de peixes, enquanto aqueles da terra gorda e fértil, por causa da proximidade das águas, que se estende da praia até o interior, e continua até mais longe para o norte, e menos um pouco para o sul, terminando logo no ponto onde começa o recife alto, que desce quase a pique sobre o lago, e do qual precipitaram-se no mesmo os porcos do milagre1 feito para os gerasenos.

450.2 Nesta hora, os moradores estão nos terraços, ou nos jardins, ou estão ceando. Mas, visto que os jardins têm sebes baixas e os terraços também têm muretas baixas, acontece que os moradores estão vendo a pequena flotilha de barcas, que está atracando no pequeno porto, e, uns por curiosidade, outros para conhecerem, levantam-se e vão ao encontro de quem está chegando.

– É a barca de Simão de Jonas junto com a de Zebedeu. Portanto, não pode ser outro, senão o Rabi, que vem até aqui com os seus discípulos –declara um pescador.

– Mulher, pega depressa o menino, e me acompanha. Talvez seja Ele. E Ele o curará. O anjo de Deus é quem no-lo traz –garante um hortelão à mulher, que está com o rosto queimado pelas lágrimas.

– Eu, por mim, acredito. Eu me lembro daquele milagre! De todos aqueles porcos! Os porcos que apagam com as águas o calor dos demônios que entraram neles… Devia ser um grande tormento, se os porcos, sempre tão desprezadores da limpeza, se tivessem jogado a si mesmos na água… –diz um homem que ao mesmo tempo busca socorro e faz propaganda do Mestre.

– Oh! Tu o dizes. Certamente devia ser um tormento. Eu estava lá também e me lembro. Os corpos soltavam fumaça, as águas soltavam fumaça. O lago tinha ficado mais quente do que as águas de Hamata. E nos lugares onde eles passaram, em sua carreira, iam ficando queimados os bosques e as ervas.

– Eu também estive lá, mas não vi nenhuma diferença –responde-lhe um terceiro.

– Nada? Pois então tens escamas nos olhos. Olha! Pode-se ver daqui mesmo. Não estás vendo lá? Lá onde fica aquele rio seco? Vai olhando, mas para adiante e vê se…

– Não. Aquela ruína quem a fez foram os soldados de Roma, quando estavam procurando aquele tratante nas frias noites do tebet. Eles acamparam lá e acenderam fogo.

– Tiveram que queimar o bosque todo para fazerem fogo? Olha bem quantas árvores estão faltando lá!

– Era um bosque?! Dois ou três carvalhos!

– E ainda te parece pouco?

– Não. Mas já se sabe. Para eles o que é nosso, é palha. Eles são os dominadores e nós somos os oprimidos. Ah! Até quando…

A discussão passa do terreno sobrenatural para o terreno político.

450.3 – Quem me leva ao Rabi? Piedade de um cego! Onde Ele está? Dizei-o a mim. Eu o procurei em Jerusalém, em Nazaré em Cafarnaum. Mas sempre Ele já havia partido, antes que eu chegasse!… Onde está Ele? Oh! Piedade de mim! –lamenta-se um homem de seus quarenta anos, que vai tateando ao redor de si com um bastão.

Ele recebe xingamentos dos que lhe batem nas pernas ou nas costas, mas ninguém se apieda, e todos esbarram nele ao passarem perto, mas nenhuma mão se estende para guiá-lo. O pobre cego para, espavorido e desanimado.

– O Rabi! O Rabi! –(As mulheres estão dando gritos. Eu me esforço para traduzir em palavras os gritos agudos das mulheres, que tentam modulá-los. Mas são gritos, não são palavras. Eles têm mais o estridor de certos pássaros do que o som de palavras humanas.)

– Ele abençoará nossos filhos!

– A palavra dele fará estremecer o fruto que eu tenho no seio. Goza, criatura minha! A salvação está falando contigo –diz uma próspera esposa, acariciando o ventre entumecido, por baixo da veste folgada.

– Oh! Talvez a mim Ele o tornará fecundo! Seria a alegria e a paz para mim e para Eliseu. Eu tenho ido a todos os lugares, onde se diz que a mulher adquire a fecundidade. Já bebi da água do poço de Raquel, da do rio daquela gruta, onde a Mãe o deu à luz… Fui ao Hebron apanhar, durante três dias, da terra do lugar onde nasceu o Batista… Alimentei-me com as bolotas do carvalho de Abraão e tenho chorado, invocando a Abel, no lugar em que ele foi dado à luz e morto… Todas as coisas santas, todas as coisas milagrosas do solo e do céu eu experimentei. Procurei médicos e remédios, fiz promessas, orações, ofertas… mas não se abriu o meu seio para a semente. Eliseu já mal me suporta, se esforça para não me odiar! Ai de mim! –geme uma mulher já entrada em anos.

– Já estás velha, Sela! Conforma-te –lhe dizem, com uma piedade misturada a um desprezo e a um evidente triunfo, aquelas que passam com o seio entumecido pela maternidade ou com os seus lactentes, agarrados às suas robustas mamas.

– Não. Não digais isso! Ele que fez ressuscitar os mortos, não poderá dar vida às minhas vísceras?

– Abri alas! Abri alas para minha mãe que está doente –grita um jovem, que está segurando os varais de uma improvisada padiola, segura do outro lado por uma menina muito aflita.

Sobre a padiola está uma mulher ainda jovem, mas reduzida a um esqueleto amarelado.

– Será preciso falar-lhe do infeliz João. Mostrar-lhe o lugar onde ele está. O mais infeliz de todos, porque ele, leproso, não pode sair procurando o Mestre… –diz um respeitável homem, já bem velho.

– Antes nós! Antes nós! Se Ele vai para diante, e chega a Hipo, acabou-se. Os da cidade o segurarão para eles, e nós, como sempre, iremos ficando para trás.

450.4 – Mas, o que está acontecendo lá? Porque será que as mulheres estão gritando tanto assim?

– Porque são umas tolas!

– Não. Estão gritando como quem festeja. Vamos correr…

A estrada se torna um rio de gente, que se canaliza para a praia do lago. Lá para onde Jesus e os seus ficaram bloqueados pelos primeiros que chegaram.

– Milagre! Milagre! O filho de Elisa, já desenganado pelos médicos, ei-lo aí curado! O Rabi o curou, pondo-lhe saliva na garganta.

Os gritos das mulheres se tornam mais estridentes e agudos, misturados aos fortes hosanas dos homens.

Jesus, com toda aquela sua estatura, está literalmente cercado. Os apóstolos fazem tudo para abrir alas. Mas nada. As discípulas, com Maria no centro, estão separadas do grupo dos apóstolos. O menino, nos braços de Maria de Alfeu, chora, espavorido. E o seu choro faz convergir para sobre o grupo dos discípulos a atenção de muitos, e sempre há um bem informado, que diz:

– Oh! Aí está também a Mãe do Rabi e as mães dos discípulos!

– Quais? Quais são?

– A Mãe é aquela pálida e loura, vestida de linho, e as outras são aquelas velhas, uma delas com um menino e a outra com aquele cesto na cabeça.

– E o menino, quem é?

– O filho, ora! Não estás ouvindo que ele diz mamãe?

– Filho de quem? Da velha? Não pode ser.

– Da jovem. Não vês que ele quer ir para ela?

– Não. O Rabi não tem irmãos. Tenho certeza disso.

450.5 Algumas mulheres ouvem e, enquanto Jesus, movendo-se com dificuldade, consegue chegar até à padiola, onde está a doente levada pelos filhos, e a cura Elas se dirigem, curiosas, para Maria.

Mas uma delas não é curiosa. Ela se prostra aos pés de Maria, dizendo:

– Pela tua maternidade, tem piedade de mim!

Ela é estéril.

Maria se inclina e lhe diz:

– Que queres, irmã?

– Ser mãe… Quero um menino! Um só… Sou odiada, porque sou estéril. Eu creio que o teu Filho pode tudo, mas tenho uma fé tão grande nele, que penso que, tendo Ele nascido de ti, te tenha feito santa e poderosa como Ele. Agora, eu te peço isto… pelas tuas delícias de mãe, eu te peço: torna-me fecunda.Toca-me com a tua mão e eu ficarei feliz…

– A tua fé é grande, mulher. Mas a fé só é dada por quem tem direito de dá-la: só Deus… Portanto, vai ao meu Jesus…

E a segura pela mão, pedindo, com uma graça imperiosa, que lhe deem passagem até chegar a Jesus.

As outras discípulas a seguem pelo vão que se abriu pelo meio do povo, e assim as mulheres, tendo corrido para Maria, aproveitam para perguntar a Maria de Alfeu quem é o pequenino que ela está segurando com os braços levantados acima da multidão.

– É um menino cuja mãe não gosta mais dele. E ele veio procurar amor no Rabi…

– Um menino do qual a mãe não gosta mais?!

– Escutaste, Susana?

– Quem será essa hiena?

– Ai de mim! E eu que vivo angustiada por não ter um! Dá-mo. Que um filho me beije pelo menos uma vez!

E Sela, a estéril, quase arranca dos braços de Maria de Alfeu o pequenino, e o aperta sobre o coração, enquanto procura ir acompanhando Maria, que já se separou dela, no momento em que Sela deixou a mão de Maria para pegar o pequenino.

450.6 – Jesus, escuta. Há uma mulher pedindo uma graça. Ela é estéril…

– Não perturbes o Mestre por causa dela, mulher. As vísceras dela estão mortas –diz um que não sabe que está falando com a Mãe de Deus.

E depois, confuso pelo seu erro, pois já o informaram, procura ficar menor e desaparecer, enquanto Jesus responde a ele e à suplicante, ao mesmo tempo, dizendo:

– Eu sou a vida. Mulher, que te seja feito o que estás pedindo.

E pousa, por um instante, a mão sobre a cabeça de Sela.

– Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim! –grita aquele cego de antes, que, pouco a pouco foi chegando para perto da multidão, e ao lado dela vai dando os seus gritos de invocação.

Jesus, que estava com a cabeça inclinada para ouvir as palavras suplicantes de Sela, torna a levantar o rosto e olha para o ponto de onde, entrecortada como a voz de alguém que está para afundar-se, chega até Ele a voz do cego.

– Que queres que Eu te faça? –grita Jesus.

– Que eu veja. Estou na escuridão.

– Eu sou a Luz. Eu quero!

– Ah! Eu vejo. Estou vendo! Estou vendo de novo. Deixai-me passar. Que eu possa beijar os pés do meu Senhor!

450.7 – Mestre, Tu curaste todos aqui. Mas há um leproso em uma cabana, lá no bosque. Ele nos fica sempre pedindo que te levemos a ele…

– Vamos! A caminho. Deixai-me ir. Não vos machuqueis. Eu estou aqui para todos… Vamos, abri alas! Não atropeleis as mulheres e as crianças. Eu não estou indo embora. Fico por aqui amanhã, e depois estarei nesta região por cinco dias. Podereis acompanhar-me, se o quiserdes…

Jesus procura estabelecer a ordem, em meio à confusão, tenta fazer que para receberem benefício por sua vinda, os cidadãos não precisam atropelar-se. Mas a multidão é como uma substância meio fluida, que agora muda de lugar, mas depois volta a aglomerar-se ao redor dele. É como uma avalanche que, pela lei natural, não pode senão ir-se tornando mais compacta, quanto mais for indo para a frente. É como partículas de ferro atraídas pelo ímã. E o andar dela é vagaroso, barrado e cansativo… todos estão suando, os apóstolos gritam, trabalham com os cotovelos nos peitos e com pontapés nas canelas para abrirem caminho… Todo esforço é inútil. Para se andar dez metros, é preciso um quarto de hora. Uma mulher dos seus quarenta anos consegue, a poder de sua constância, abrir caminho até Jesus, e toca num cotovelo dele.

– Que queres, mulher?

– Aquele menino… eu fiquei sabendo… Eu sou viúva e sem filhos… Lembra-te de mim. Eu sou Sara de Afeca, a viúva do vendedor de esteiras. Lembra-te. Minha casa fica ao lado da praça da fonte vermelha. Mas tenho também algumas vinhas e um bosque… Tenho o que dar a quem estiver sozinho… e ficarei feliz…

– Eu me lembrarei, mulher. Que a tua piedade seja abençoada.

450.8 O povoado, mais paralelo do que perpendicular ao lago, em pouco tempo é atravessado e a campina, amena, silenciosa, nesta hora em que vem descendo o crepúsculo e ainda não chegou a escuridão da noite, porque entre a luz do dia e a noturna do luar, a passagem é quase imperceptível. Eles vão indo, rumo à série de recifes que, mais para o sul, margeiam o lago. Há umas grutas, que eu não sei se são naturais, ou se, , foram cavadas na rocha com bom gosto. Há muitos muros caiados do lado exterior. Certamente serão sepulcros feitos no outeiro.

– Eis-nos chegados. Paremos aqui, para não nos contaminarmos. Estamos perto da tumba do que está vivo, e esta é a hora em que ele vem àquele maciço para retirar as ofertas. Ele era rico, sabes? Nós nos lembramos dele. Era bom também. Mas agora é um santo. Quanto mais o feriu a dor, tanto mais ele se tornou justo. Não sabemos como foi. Isso é contado pelos peregrinos que ele hospedou. Eles iam para Jerusalém, como diziam. Pareciam sãos, mas certamente eram leprosos. O fato é que, depois de sua passagem, antes a mulher, depois os servos, depois os filhos, e por fim ele, pegaram a lepra. Todos. Em primeiro lugar, pelas mãos, aqueles que haviam lavado os pés e as vestes dos peregrinos, por isso dizemos que eles devem ter sido a causa de tudo. Dos meninos, três morreram cedo, muito cedo. Depois a mulher, e mais pelo sofrimento, do que pela doença… Ele… Quando o sacerdote declarou que todos estavam leprosos, comprou para si esta parte do monte, com seus já inúteis haveres, e para que aí se colocassem provisões para si mesmo e para os seus, incluindo os servos, as enxadas e picaretas… e começou a cavar os seus túmulos e, um por um, os foi colocando todos: os filhos pequenos, depois a mulher, os servos… E ficou somente ele, sozinho e pobre, pois tudo com o tempo vai-se acabando, e já se vão quinze anos… E tudo sem um lamento. Ele era douto. Repetia de cor as Escrituras. Ele a repete, falando com as estrelas, as ervas, as árvores, os passarinhos, e as repetia a nós que pudemos aprender tantas coisas dele, consola as nossas dores… ele, compreendes? Ele é que consola as nossas dores. Vêm pessoas de Hipo e de Gamala, de Guerguesa e de Afeca para ouvi- lo. Quando ele soube do milagre dos dois endemoninhados… oh! ele começou a pregar a fé em Ti. Senhor, se os homens te saudaram com o nome de Messias, se as mulheres te saudaram como vencedor e rei, se os nossos meninos sabem o teu Nome e que Tu és o Santo de Israel, é devido ao pobre leproso –narra por todos o velho de idade avançada, que foi o primeiro a falar de João.

– Tu o curarás? –perguntam muitos.

– E vós o pedis? Eu, que tenho piedade dos pecadores, que não terei para com um justo? 450.9Mas, não é ele que está vindo? Lá pelo meio daquelas moitas…

– Certamente que é ele. Mas que vista Tu tens, Senhor! Nós apenas ouvimos o barulho, mas nada vemos…

Mas o barulho parou. Tudo é silêncio e expectativa…

Jesus está bem exposto à luz, sozinho, um pouco à frente, porque chegou até perto do penhasco, onde foram colocadas as provisões. Os outros, à meia sombra de algumas árvores, desaparecem, confundindo-se com os troncos e as moitas da charneca. Até os meninos se calam, ou porque estão dormindo nos braços de suas mães, ou porque estão com medo do silêncio, dos sepulcros, das estranhas sombras que a lua forma das plantas e dos penhascos.

Mas o leproso deve estar vendo. Está vendo a alta e imponente estatura do Senhor, todo vestido de branco, exposto à brancura do luar. Tudo muito bonito. Os olhares cansados do leproso certamente se cruzam com os olhares resplandecentes de Jesus. Que linguagem estará saindo daquelas pupilas divinas, grandes e fulgentes como umas estrelas? O que sai da boca que se entreabre em um sorriso de amor? Que é que sai do coração, sobretudo do coração de Cristo? Mistério. Um dos muitos mistérios entre Deus e as almas em seus relacionamentos espirituais.

Certamente o leproso compreende, porque ele grita:

– Eis o Cordeiro de Deus! Eis Aquele que veio para sanar toda a dor do mundo! Jesus, Mestre, Bendito, nosso Rei e nosso Salvador, tem piedade de mim!

– Que queres? Como podes crer no Desconhecido para ti e ver nele o Esperado? Quem Eu sou para ti? O Desconhecido.

– Não. Tu és o Filho do Deus vivo. Como eu o sei e o vejo? Isso eu não sei. Mas aqui dentro de mim, uma voz me gritou: “Eis o Esperado! Ele veio premiar a tua fé.” Desconhecido? Sim. Ninguém já viu o rosto de Deus. Por isso és o “Desconhecido”, em tua aparência. Mas o Conhecido és Tu pela tua Natureza, pela tua Realeza. Jesus, Filho do Pai, o Verbo Encarnado, e Deus como o Pai. Eis aí quem Tu és, eu te saúdo e peço, crendo em Ti.

– E, se Eu nada pudesse fazer por ti, e tua fé ficasse desiludida?

– Eu diria que isso era a Vontade do Altíssimo e continuaria a crer e a amar, esperando sempre no Senhor.

450.10 Jesus se volta para a multidão que, suspensa, está escutando o diálogo, diz:

– Em verdade, em verdade Eu vos digo que este homem tem a fé que remove montanhas. Em verdade, em verdade Eu vos digo que a verdadeira caridade, a fé, a esperança se provam na dor, mais do que na alegria, visto que o excesso de alegria, às vezes, é ruina para o espírito ainda mal formado. Fácil é crer e ser bons, quando a vida não é mais do que um tranquilo, senão gozoso decorrer de dias iguais. Mas aquele que sabe persistir na fé, na esperança e na caridade, mesmo quando as doenças, as mortes, as desventuras o fazem ficar sozinho, abandonado, evitado por todos, e que só sabe dizer: “Que seja feito o que o Altissimo julga que é útil para mim”, em verdade, esse homem não só merece a ajuda de Deus, mas, Eu vo-lo digo, no Reino dos Céus está preparado o seu lugar, e ele não conhecerá permanência no lugar da purificação, porque a sua justiça já anulou todas as dívidas de sua vida passada. Vai em paz, que Deus está contigo.

E se volta, ao dizer isso, e, com esse seu gesto, quando já está bem perto, bem visível, dá esta ordem:

– Eu quero! Que tu fiques limpo!

E parece que a luz da lua o limpa e o lava dali com seus raios de prata, tirando dele as pústulas, as úlceras, os nódulos e as crostas da horrenda doença. O corpo se recompõe e readquire todas as formas de um corpo são.

É um velho respeitável, ascético em sua magreza, aquele que tendo sido levado ao conhecimento do milagre pelos gritos de hosana da multidão, inclina-se para beijar o chão, sem poder tocar em Jesus, nem em nenhum outro homem, antes do tempo prescrito pela Lei.

– Levanta-te. Vão trazer-te uma veste limpa, para que possas ir apresentar-te ao sacerdote. Mas procura andar sempre com a limpeza do teu espírito, diante do teu Deus. Adeus, homem. A paz esteja contigo!

E Jesus se reúne com o povo, voltando depois lentamente para o povoado, a fim de lá repousar.

1 milagre, em 186.5.


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