246. 246. Um apólogo para os cidadãos de Nazaré,que permanecem incrédulos.


7 de agosto de 1945.

246.1Ainda na sinagoga de Nazaré, mas em dia de sábado, Jesus, tendo lido o apólogo1 contra Abimeleque, termina com estas palavras:

“saia dele um fogo, e devore os cedros do Líbano.” Depois entrega o rolo ao sinagogo.

O resto não o lês? Seria bom para fazer compreender o apólogo –diz o sinagogo.

Não é preciso. O tempo de Abimeleque já vai longe. Eu quero aplicar ao momento de hoje o antigo apólogo.

Ouvi, pessoas de Nazaré. Vós já sabeis, pela instrução do vosso sinagogo, o qual em seu tempo foi instruído por um rabi e este por um outro também, e assim pelos séculos, e sempre com o mesmo método e com as mesmas conclusões, com as aplicações do apólogo contra Abimeleque. De Mim ouvireis uma outra aplicação. E Eu vos peço, além disso, que saibais usar a vossa inteligência, e que não fiqueis como as cordas, que passam pelas roldanas do poço e, enquanto não estão estragadas, vão da roldana até a água e da água até a roldana, sem poderem mudar nunca o percurso. O homem não é uma corda amarrada, nem uma ferramenta mecânica. O homem é dotado de um cérebro inteligente e deve poder usar dele espontaneamente, conforme as necessidades e as circunstâncias.

Porque, se a letra da palavra é eterna, as circunstâncias mudam. Infelizes daqueles mestres que não sabem querer ter a satisfação de extrair, vez por vez, um ensinamento novo, isto é, o espírito que as palavras antigas e sábias contém sempre. Serão semelhantes a ecos, que nada mais podem, se não repetir, talvez dez e dez vezes uma mesma palavra, sem acrescentar a ela nenhuma outra deles mesmos.

246.2As árvores, ou seja, a humanidade, representada pelo bosque, onde estão reunidas todas as espécies de árvores, de arbustos e de ervas, sentem a necessidade de ser conduzidas por alguém que receba o peso do todas as glórias, mas também, e um peso bem maior, o de todos os ônus da autoridade para ser o responsável pela felicidade ou infelicidade dos súditos, o responsável junto aos súditos, junto aos povos vizinhos e, o que é terrível, junto de Deus. Porque as coroas e proeminências sociais, sejam elas quais forem, são dadas aos homens, é verdade, mas permitidas por Deus, pois, sem a condescendência dele, nenhuma força humana pode impor-se. Isto é o que explica as impensáveis e imprevistas mudanças de dinastias, que pareciam eternas, e de potências que pareciam inabaláveis, mas que, quando passaram da medida em que deviam ser castigo para os povos, ou prova para eles, foram destruídas pelos mesmos, por permissão de Deus, e voltaram ao nada, ao pó, e às vezes à lama do fundo de uma cloaca.

Eu disse: os povos sentem a necessidade de elegerem alguém que arque com toda a responsabilidade para com os súditos, para com as nações vizinhas e para com Deus, e isso é o que há de mais terrível.

Porque, se o julgamento feito pela história já é terrível e em vão é que se alegam os interesses do povo para mudá-lo, porque os acontecimentos e os povos futuros o farão voltar à sua primeira e terrível verdade. Mas, mais rigoroso é o juízo de Deus, o qual não sofre pressões de ninguém, e não está sujeito a mudanças de humor e de apreciação, como frequentemente estão os homens e, muito menos, está sujeito a erros de julgamento. Seria, pois, necessário que os eleitos para serem chefes de povos e criadores da história agissem com a justiça heróica, própria dos santos, para não ficarem infamados pelos séculos futuros e punidos por Deus pelos séculos dos séculos.

246.3Mas voltemos ao apólogo de Abimeleque. Portanto, as árvores quiseram eleger um rei e, para isso, foram convidar a oliveira. Mas a oliveira, uma árvore sagrada e consagrada para usos sobrenaturais, por causa do seu óleo, que se queima diante do Senhor e que é uma parte importante nos dízimos e nos sacrifícios, a oliveira, que oferece o seu líquido a fim de se fazer o bálsamo santo para a unção do altar, dos sacerdotes e do rei e que é passado com suas propriedades, que eu diria quase taumatúrgicas, nos corpos e por sobre os corpos dos doentes, ela respondeu: “Como eu vou poder faltar com a minha vocação santa e sobrenatural, para aviltar-me em coisas da terra?”

Oh! Que bela resposta a da oliveira! Porque ela nunca é bem aprendida nem praticada por todos aqueles que Deus elegeu para uma santa missão, pelo menos por eles: Eu disse “pelo menos”? Por que na verdade ela teria sido dita a todos os homens como resposta às sugestões do demônio, uma vez que todo homem é rei e filho de Deus, dotado de uma alma, que o faz tal, régio, filialmente divino, chamado a um destino sobrenatural. Existe uma alma que em nós é um altar e uma casa. É o altar de Deus, é a casa onde o Pai dos Céus desce para receber nosso amor e reverência de filhos e súditos. Cada homem tem uma alma e, sendo cada alma um altar, ela faz do homem que a tem um sacerdote, um guarda do altar, como está escrito2 no Levítico: “O Sacerdote não se contamine.” Portanto, o homem teria o dever de responder à tentação do demônio, do mundo e da carne: “Posso eu deixar de ser espiritual, para ocupar-me de coisas materiais e pecaminosas?”

246.4Então as árvores se dirigiram à figueira, convidando-a a reinar sobre elas. Mas a figueira respondeu: “Como poderei eu renunciar à minha doçura e aos meus frutos tão delicados, para ir ser vosso rei?”

Muitos se dirigem a quem é manso, para o terem como rei. Não é bem pela admiração de sua mansidão, mas porque eles esperam que, sendo ele tão pacífico, acabe sendo um rei de burla, do qual se pode esperar que esteja de acordo com tudo e, na companhia deles, permitir a si mesmo toda espécie de desregramentos. Mas a mansidão não é fraqueza. É bondade. Ela é justa. É inteligente. Firme. Não confundas nunca a mansidão com a fraqueza. A primeira é uma virtude, a segunda, um defeito. E, justamente por ser virtude, a primeira comunica a quem a possui uma retidão de consciência que lhe torna possível resistir às solicitações e seduções humanas, que se preocupam em fazê-la ceder aos seus interesses, que não são os interesses de Deus, permanecendo fiel ao seu destino, custe o que custar.

O que é afável em seu espírito não rebaterá nunca com aspereza as censuras dos outros, não repelirá com dureza aos que se lhe opõem. Mas, pedindo perdão e sorrindo, dirá sempre: “Meu irmão, deixa-me em minha boa sorte. Aqui estou para consolar-te e ajudar-te, não para tornar-me rei, como tu pensas, porque de uma única realeza eu cuido e com ela me preocupo: com minha alma e com a tua, isto é, com uma realeza espiritual.”

246.5As árvores foram depois à videira, para pedir-lhe que ela fosse o rei delas. Mas a videira respondeu: “Como posso eu renunciar a ser a alegria e a força, para ir reinar sobre vós?”

Ser rei, tanto pelas responsabilidades, como pelos remorsos, pois mais raro do que o diamante preto é o rei que não peca, e por isso vive carregado de remorsos. É uma coisa que sempre traz consigo tristezas espirituais. O poder seduz, até o dia em que, como um farol longínquo, ele estiver brilhando. Mas, quando se chega perto, vê-se que não é nenhuma estrela, mas a luz de um vaga-lume.

E ainda: o poder não é mais do que uma força, amarrada pelas mil cordas de mil interesses, que se agitam ao redor de um rei. Interesses dos cortesãos, interesses dos aliados, interesses pessoais e dos parentes. Quantos reis juram a si mesmos, enquanto o óleo os está consagrando: “Eu vou ser imparcial”, e depois não o sabem ser? Como uma árvore poderosa, que não se revolta com o primeiro abraço da hera macia ou delicada, e diz: “Ela é muito fraquinha, e não me pode fazer mal”, e fica até contente em ser por ela engrinaldada e por agir como protetora, ajudando-a em sua subida, assim muitas vezes eu poderia dizer: sempre o rei cede ao primeiro abraço de um interesse palaciano, de um aliado, de uma pessoa ou de um parente que a ele se dirige, e fica contente em poder ser um generoso protetor dele. “É tão pouca coisa!”, diz ele, mesmo quando a consciência lhe brada: “Cuidado!” E pensa que aquilo não lhe possa fazer mal, nem ao seu governo, nem ao seu bom nome. A árvore também pensava assim. Mas chega o dia em que, tendo lançado um broto atrás do outro e que vão crescendo em força e em comprimento e crescendo na voracidade de sugar as linfas do solo e subir para a conquista da luz e do sol, a hera acaba abraçando aquela que era uma árvore poderosa, e a domina, sufoca e mata. A hera que antes era tão fraquinha! Enquanto que a árvore era tão forte!

Também com os reis é assim. Um primeiro compromisso com a própria missão, um primeiro encolher de ombros à voz da consciência, porque os louvores são doces, porque o ar de protetor procurado lhe agrada, e chega o momento em que o rei não reina, mas reinam os interesses dos outros, que o aprisionam e amordaçam, chegando a sufocá-lo e até o suprimirem, quando veem que ele não tem pressa de morrer.

Até o homem comum, que sempre é um rei em seu espírito, se perde, se aceita outras realezas menores, por soberba, por avidez. E perde a sua serenidade espiritual, que lhe vem de sua união com Deus. Porque o Demônio, o mundo e a carne podem dar um ilusório poder e prazer, mas à custa da alegria espiritual, que vem da união com Deus.

Alegria e força dos pobres em espírito, bem merecidas, de modo que o homem sente a necessidade de dizer: “E como poderei eu querer tornar-me um rei em minha parte inferior se, ao fazer aliança convosco, eu perco a força e a alegria interior e o Céu e sua verdadeira realeza?” E podem, também dizer, esses infelizes pobres em espírito que eles só têm em mira possuir o Reino dos Céus e que desprezam qualquer outra riqueza que não seja aquele Reino? E podem até dizer: “E, como posso voltar à missão, que é a de amadurecer os sucos fortificantes e que alegram esta humanidade, nossa irmã, que vive no árido deserto da animalidade e que se sente necessitada de ser dessedentada, para não morrer, para ser nutrida com sucos vitais, como um menino que precisa da nutriz? Nós somos as nutrizes da humanidade que perdeu o seio de Deus, que vagueia, estéril e doente, e que chegaria a uma morte desesperada, até aos negros ceticismos, se não nos encontrasse a nós que, com a alegre operosidade dos que estão livres de todo laço terreno, para os tornarmos persuadidos de que há uma Vida, uma Alegria, uma Liberdade, uma Paz. Não podemos renunciar a esta Caridade por causa de qualquer interesse mesquinho.”

246.6Então, as árvores foram ao espinheiro. Ele não as repeliu. Mas impôs condições severas: “Se me quereis como rei, vinde ficar debaixo de mim. E, se não o quiserdes fazer, depois de me terdes eleito, eu farei de cada espinho um tormento aceso, e queimarei a todos vós, até os cedros do Líbano.”

Ai estão as realezas que o mundo ainda aceita como verdadeiras! A prepotência e a ferocidade são, para a humanidade corrompida, tomadas por uma verdadeira realeza, enquanto que a mansidão e a bondade são tomadas como estultícia e baixos sentimentos. O homem não se submete ao Bem, mas se submete ao Mal. Por este ele é seduzido. E por ele, em seguida, é queimado.

246.7Este é o apólogo de Abimeleque.

Mas Eu agora vos proponho um outro. Não longe de vós, nem tratando de fatos acontecidos longe daqui. Mas aqui bem perto. Eles estão aqui presentes.

Os animais pensaram em eleger para si um rei. E, como eram espertos, pensaram em eleger para si um rei que não lhes desse medo por ser forte ou feroz.

Não escolheram o leão e nenhum dos felinos. Disseram que não queriam as águias, com seus grandes bicos e nenhuma outra ave de rapina. Desconfiaram do cavalo que, com sua rapidez, podia alcançá-los e ficar vigiando suas ações, e desconfiaram ainda mais do burro, cuja aparência eles conheciam, mas de cujas fúrias repentinas e de seus cascos fortes também eles sabiam. Ficaram horrorizados só de pensar em ter como rei o macaco, sabido demais e vingativo. Com a desculpa de que a serpente tinha servido a satanás para seduzir o homem, disseram que não a queriam como rei, ainda que ela tivesse variegadas cores e elegância em seus movimentos. Na verdade, eles não a quiseram, porque conheciam aquele seu deslizar silencioso, o forte poder de seus músculos e o terrível efeito de seu veneno. Arranjar para ser rei um touro ou outro animal provido de chifres? De maneira nenhuma! “Pois o diabo também os tinha”, diziam eles. Eles pensavam: “Se nos rebelarmos um dia, ele acaba conosco por meio de seus chifres.”

Depois de terem rejeitado muitos, viram um cordeirinho gordo e branco, pulando alegre em um prado verde e dando focinhadas na teta redonda da mãe. Ele não tinha chifres, mas tinha olhos mansos como o céu de abril. Era manso e simples. Com qualquer coisa ele se contentava. Com a água de um pequeno rio, onde ele bebia, mergulhando nela o seu pequeno focinho rosado. Com as florzinhas dos mais diversos sabores, que lhe satisfaziam os olhos e o paladar. E com a erva viçosa, sobre a qual era tão bom deitar-se, quando já estava saciado. Com as nuvens que pareciam outros tantos carneirinhos, que estivessem vagando por aqueles prados azuis, lá no alto, e o estivessem convidando a brincar com eles correndo pelo prado, como elas estavam fazendo pelo céu. E sobretudo com as carícias da mãe, que ainda lhe permitia alguma chupada morna, lambendo-lhe, nesse ínterim, a lã branca com sua língua cor-de-rosa. E, com um redil seguro e bem abrigado contra os ventos, com uma cama bem fofa e cheirosa, na qual era tão bom dormir, ao lado da mãe.

“Ele é muito fácil de contentar-se. Não tem armas nem veneno. É um ingênuo. Façamos dele o nosso rei.” E o fizeram rei. Eles gloriavam-se disso, porque ele era bonito e bom, admirado pelos povos vizinhos e amado pelos súditos, por sua paciente mansidão.

246.8Passou-se o tempo, e o cordeiro se tornou um carneiro, e disse: “Agora já é tempo de eu reinar realmente. Agora eu tenho plena posse do conhecimento da minha missão. A vontade de Deus, que permitiu que eu fosse eleito rei, foi-me formando depois para esta missão, dando-me a capacidade de reinar. Portanto, é justo que eu a exerça de modo perfeito, também para não me descuidar dos dons de Deus.”

E, vendo ele que alguns súditos faziam coisas contrárias à honestidade dos costumes, à caridade, ou contra a doçura, a lealdade, a morigeração, a obediência, o respeito, a prudência e assim por diante, levantou a voz para admoestá-los.

Os súditos se riram do seu balido sábio e doce, que não amedrontava como o rugido dos felinos, nem como o grito agudo dos abutres, quando descem rápidos sobre sua presa, nem como o sibilar da serpente e nem mesmo como o ladrar continuo do cão que quer incutir temor.

O cordeiro, tendo-se tornado um carneiro, não se limitou mais só a ficar balindo. Mas foi atrás dos culpados, para reconduzi-los aos seus deveres. Aí a serpente se lhe escapou, por entre as patas. A águia levantou vôo, deixando-o a ver navios. Os felinos com uma patada o foram afastando do caminho e ainda o ameaçaram: “estás vendo o que é que está nesta pata felpuda? São as nossas garras.” Os cavalos e todos os animais corredores em geral, puseram-se a galopar ao redor dele, em sinal de zombaria. Os fortes elefantes e outros paquidermes, com um golpe de suas trombas o jogavam para lá e para cá, enquanto os macacos, lá do alto das árvores, o alvejavam com os seus projéteis.

O cordeiro, que se transformou em carneiro, finalmente perdeu a paciência, e disse: “Eu não queria usar meus chifres, nem a minha força. Porque eu também tenho uma força neste pescoço, que vai ser usado como modelo de uma máquina para abater obstáculos na guerra. Eu não queria fazer uso dela, porque eu prefiro agir com amor e pela persuasão. Mas, visto que não cedeis diante destas armas, eu vou fazer uso da força, porque, se vós faltais com o vosso dever para comigo e para com Deus, eu não quero faltar com o meu dever para com Deus e para convosco. Aqui eu fui colocado para guiar-vos, a fim de que a Justiça e o Bem, ou seja, a Ordem, aqui reinem.”

E castigou com os seus chifres, de leve, porque ele era bom, um cachorrinho latidor, que continuava a aborrecer os vizinhos e, depois, com seu fortíssimo pescoço, arrombou a porta, que dava para uma cova, onde um porco gordo e egoísta tinha acumulado comida, com prejuízo para os outros, e também derrubou uma moita de lianas, escolhida por dois luxuriosos macaquinhos para os seus ilícitos amores.

246.9“Este rei tornou-se forte demais. Ele quer realmente reinar. Quer que vivamos como sábios. Isto não nos agrada. É preciso destroná-lo”, decidiram eles.

Mas um astuto macaquinho deu este conselho: “Não façamos nada, a não ser o que tenha pelo menos a aparência de ser um motivo justo. Senão, iremos fazer uma feia figura aos olhos dos povos e seremos mal vistos por Deus. Examinemos, pois, cada ação do cordeiro que se tornou carneiro, a fim de podermos acusá-lo, quando nada, com certa aparência de justiça.”

“Eu me encarrego disso”, disse a serpente. “E eu também”, disse o macaco. A serpente, deslizando por entre as ervas e o macaco ficando nas copas das árvores, não perderam mais de vista o cordeiro que se fez carneiro e, todas as tardes, quando ele se retirava para meditar e descansar dos trabalhos da missão e pensar nas medidas a serem adotadas e nas palavras a serem usadas para dominar a rebelião e acabar com os pecados de seus súditos, estes, menos algum raro que ainda se conservava honesto e fiel, reuniam-se para escutar as notícias dadas pelos dois espiões e traidores. Porque eles eram isso também.

A serpente diz ao seu rei: “Eu te acompanho porque te amo e, se eu visse que estás sendo atacado, quero poder defender-te.” O macaco diz ao rei: “Como eu te admiro! Eu quero te ajudar. Olha: daqui eu estou vendo que, para lá daquele prado, estão cometendo pecado. corre!”, e depois, dizia aos companheiros: “Hoje também ele tomou parte no banquete de uns pecadores. Ele fingiu ir lá para convertê-los, mas depois, na realidade, tornou-se cúmplice das orgias deles.” E a serpente ainda acrescentou: “Ele esteve fora do seu povo, aproximando-se de borboletas, moscardos e lesmas visguentas. É um infiel. Faz negócios com estrangeiros e imundos.”

Assim eles falavam às costas do inocente, pensando que ele não soubesse de nada. Mas o espírito do Senhor, que o havia preparado para a sua missão, o iluminava e fazia conhecer as conjurações de seus súditos. Ele teria podido fugir, indignado, amaldiçoando-os. Mas o cordeiro era manso e humilde de coração. Ele os amava. Tinha a culpa de amá-los. E tinha a culpa maior ainda de continuar amando e perdoando, em sua missão, mesmo que isso lhe valesse a morte, para cumprir a vontade de Deus. Oh! Que culpas eram estas aos olhos dos homens! Eram imperdoáveis! E tanto assim o eram, que lhe causaram a condenação.

“Que seja morto, para ficarmos livres de sua opressão.” E a serpente se encarregou de matá-lo, pois o traidor é sempre a serpente…

246.10Este é o outro apólogo. A ti cabe entendê-lo, ó povo de Nazaré! Eu, pelo amor que me liga a ti, faço votos que permaneças, quando muito, no grau de um povo hostil e não mais do que isto. O amor à terra, para a qual Eu vim, quando era pequenino, na qual Eu cresci, amando-vos e recebendo amor, faz-me dizer a todos vós: “Não sejais mais hostis. Não façais que a história diga: ‘De Nazaré é que saiu o seu traidor e os seus juízes iníquos’.”

Adeus. Sede retos no julgar e constantes no querer. A primeira coisa é para todos vós, que sois meus concidadãos. A segunda é para aqueles entre vós, que não estão perturbados por pensamentos desonestos. Eu me vou… A paz esteja convosco.

E Jesus, no meio de um pesado silêncio, quebrado apenas por duas ou três vozes, que o aprovam sai, tristemente, de cabeça inclinada, da sinagoga de Nazaré.

246.11Os apóstolos o acompanham. Como últimos, atrás dos outros, estão os filhos de Alfeu. E os olhos deles não são olhos de um manso cordeiro… Olham severamente para a multidão inimiga, e Judas Tadeu não hesita em ir colocar-se de pé, na frente do seu irmão Simão, para dizer-lhe:

Eu pensava ter um irmão mais honesto e de caráter mais forte.

Simão inclina a cabeça e se cala. Mas o outro irmão, com as costas protegidas por outros de Nazaré, diz:

Envergonha-te por ofenderes ao teu irmão mais velho!

Não. Eu me envergonho é de vós. De todos vós. Não é uma madrasta. Mas esta Nazaré é uma madrasta depravada para com o Messias. Mas ouvi a minha profecia. Tereis que chorar tantas lágrimas, que elas formarão uma fonte. Mas elas não bastarão para lavar dos livros da história o nome verdadeiro desta cidade e o vosso. Sabeis qual é? “Estultícia.” Adeus.

Tiago faz uma saudação mais ampla, como que augurando-lhes uma luz de sabedoria. E saem juntos com Alfeu de Sara e dois jovenzinhos que, se os estou reconhecendo bem, são os dois guias3, que cuidaram dos dois burrinhos, quando foram ao encontro de Joana de Cusa, que estava morrendo.

246.12A multidão, que ficou dolorosamente surpresa, murmura:

Mas, onde foi buscar tanta sabedoria?

E os milagres, como os faz? Porque fazê-los, Ele os faz. Toda a Palestina fala deles.

Não é Ele o filho do José, o carpinteiro? Todos nós o vimos trabalhando no banco do carpinteiro de Nazaré, fazendo mesas e camas, consertando rodas e fechaduras. Ele nunca foi à escola e só sua Mãe foi sua mestra.

Isso também foi outro escândalo, que nosso pai criticava –diz José de Alfeu.

Mas também os teus irmãos terminaram a escola com Maria de José.

É. O meu pai foi fraco para com a mulher –responde ainda José.

E, portanto, também o irmão do teu pai?

Ele também.

Mas Ele é mesmo filho do carpinteiro?

E não o estás vendo?

Oh! Há muitas pessoas que se parecem. Eu penso que Ele é um desses que são considerados parentes, mas não o são.

Quem é que fala agora em Jesus de José?

Pensais que a Mãe dele não o conheça?

Aqui estão os irmãos e as irmãs dele e todos o dizem seu parente. E, dizei-me vós dois: não é verdade isso?

Os dois anciãos, filhos de Alfeu, dizem que sim.

Então Ele ficou doido ou endemoninhado, porque o que Ele diz não pode ser dito por um operário.

Seria necessário não dar-lhe ouvidos. Pois sua pretensa doutrina, ou é delírio ou possessão.

246.13… Jesus está parado na praça, à espera de Alfeu de Sara, que está conversando com um homem. E, enquanto Ele espera, um dos guias dos burros, que havia ficado junto à porta da sinagoga, lhe conta as calúnias que foram ditas dentro dela.

Não fiques triste. Um profeta quase nunca é honrado em sua pátria e por sua casa. O homem é tão estulto, que acha que para serem profetas, seja necessário ser como seres de fora desta vida. E os concidadãos e os familiares conhecem-no mais do que os outros e se recordam da humanidade do concidadão e parente deles. Mas, a verdade haverá de triunfar sempre. E agora Eu te saúdo. A paz esteja contigo.

Obrigado, Mestre, por teres curado minha mãe.

Tu o merecias, porque soubeste crer. Meu poder fica inerte aqui, porque aqui não há fé. Vamos, meus amigos. Amanhã de manhã partiremos.

1 o apólogo, que está em Juízes 9,8-15.
2 está escrito em Levítico 21,1-4.
3 os dois guias em 102.5/8.


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