331. 331. A fé da mulher Cananéiae outras conquistas. Chegada a Aqzib.
15 de novembro de 1945.
331.1 – O Mestre está contigo? –perguntou o velho camponês Jonas a Judas Tadeu, que vem entrando na cozinha, onde o fogo já está aceso para esquentar o leite e para aquecer o ambiente, que está friozinho nestas primeiras horas de uma belíssima manhã de fim de janeiro, creio, ou de início de fevereiro, belíssima, mas um tanto dolorosa.
– Ele deve ter saído para orar. Ele sai muitas vezes ao romper da aurora quando sabe que vai poder ficar sozinho. Daqui a pouco virá. Por que perguntas?
– Eu perguntei isso também aos outros, que agora já se espalharam por aí a procurá-lo, porque há uma mulher, do outro lado, com minha mulher. Ela é do povoado do outro lado da fronteira, e eu nem sei dizer como foi que ela pôde ficar sabendo que o Mestre está aqui. Mas ela já sabe. E quer falar com Ele.
– Está bem. Ela falará. Talvez seja aquela que Ele está esperando, com uma filhinha doente. Ela deve ter sido guiada pelo seu espírito.
– Não. Ela está sozinha. Não tem outros filhos consigo. Eu a conheço, porque os lugares são muito próximos… e o vale é de todos. Eu, pois, acho que não há necessidade de sermos cruéis com os vizinhos, se forem fenícios, para servirmos ao Senhor. Poderei estar errado, mas…
– O Mestre o diz sempre também que devemos ser bondosos com todos.
– Ele é bondoso, não é verdade?
– É.
– Disse-me Anás que agora mesmo foi maltratado. Mal, sempre mal… Na Judéia, como na Galiléia, em todos os lugares… Mas, por que Israel é tão mau com o seu Messias? Quero dizer, os maiorais de Israel, entre nós. Porque o povo o ama.
– Como é que tu sabes dessas coisas?
– Oh! Vivo aqui, longe. Mas eu sou um fiel israelita. Basta ir às festas de preceito no Templo para saber tudo o que há de bem ou de mal! E o bem se fica sabendo menos do que o mal. Porque o bem é humilde, e não se louva a si mesmo. Deveriam ser os que receberam o benefício os que haveriam de proclamá-lo. Mas poucos são os agradecidos, depois de terem recebido a graça. O homem aceita o benefício e o esquece… o mal, ao contrário, toca fortemente as suas trombetas e faz que se ouçam as suas palavras mesmo por aqueles que não as querem ouvir. Vós, que sois os seus discípulos, não sabeis quanto se fala mal do Messias e o quanto é acusado no Templo! Não se tem mais lições dos escribas a não ser sobre isto. Eu acho que se tornaram um livro de lições sobre como acusar o Mestre e de fatos que podem ser aceitos como objetos de acusação. E é preciso ter-se a consciência muito reta, e firme, e livre para se poder resistir e julgar com sabedoria. Ele sabe dessas manobras?
– Ele sabe de todas. E nós também, uns mais, outros menos, sabemos delas. Mas Ele não estremece por isso. E continua a sua obra e os discípulos ou os que têm fé nele aumentam cada dia.
– Queira Deus que eles assim permaneçam até o fim. Mas o homem é mutável em seu pensamento. E fraco… 331.2Eis, o Mestre vem para casa com três discípulos.
O velho sai, acompanhado por Judas Tadeu, a fim de venerar Jesus que, cheio de dignidade, vai-se aproximando da casa.
– A paz esteja contigo, neste dia e sempre, Jonas.
– Glória e paz estejam sempre contigo, Mestre.
– A paz a ti Judas. André e João ainda não voltaram?
– Não. Eu nem ouvi quando eles saíram. A nenhum dos dois. Eu estava cansado e dormindo um sono pesado.
– Entra Mestre. Entrai. O ar está fresco esta manhã. Lá no bosque devia estar muito frio. Ali há leite quente para todos.
Estão bebendo o leite e, a não ser Jesus, todos estão ensopando um bom pedaço de pão no leite, quando acabam de chegar André e João juntos com Anás, o pastor.
– Ah! Tu estás aqui? Tínhamos tornado a dizer que não te havíamos encontrado… –exclama André.
Jesus faz sua saudação de paz aos três, e acrescenta:
– Depressa. Apanhai as vossas coisas e vamos partir, pois Eu quero nesta tarde estar pelo menos nas faldas do monte de Aqzib. Esta tarde começa o sábado.
– Mas, e as minhas ovelhas? –pergunta o pastor perplexo.
Jesus sorri, e responde:
– Estarão curadas, desde que foram abençoadas.
– Mas, eu fico do lado leste do morro! Tu vais para o poente, para chegar à casa da mulher…
– Deixa Deus agir e Ele proverá a tudo.
331.3 A refeição terminou e os apóstolos estão subindo, para irem apanhar suas sacolas de viagem, preparando-se para a partida.
– Mestre… Aquela mulher, que é de lá… não a vais atender?
– Não tenho tempo, Jonas. A viagem é longa e, afinal, Eu vim para atender às ovelhas de Israel. Adeus, Jonas. Deus te pague pela tua caridade. A minha bênção sobre ti e sobre todos os teus parentes. Vamos.
Mas o velho se põe a gritar, com toda a força de seus pulmões:
– Filhos! Mulheres! O Mestre está partindo. Venham aqui!
E, como uma ninhada de pintinhos espalhada sobre um palheiro que vem correndo ao grito da galinha que os chama, assim, de todas as partes da casa, vêm correndo mulheres e homens, que estavam fazendo alguma coisa, ou ainda meio dormindo, e os meninos seminus, com um rostinho risonho, pois acabaram de sair do sono… Eles se reúnem ao redor de Jesus, que está no meio do terreiro, enquanto as mães envolvem em suas amplas saias os meninos, a fim de protege-los do ar ou então os apertam em seus braços, até que alguma servente chegue com os vestidinhos, que logo são postos neles.
331.4 Mas vem vindo também uma que não é da casa. É uma pobre mulher chorosa, envergonhada… Ela vem andando encurvada, quase se arrastando e, tendo chegado perto do grupo, em cujo centro está Jesus, ela se põe a gritar:
– Tem piedade mim, ó Senhor, Filho de Davi! Minha filha está sendo muito atormentada pelo demônio, que a faz praticar coisas vergonhosas. Tem piedade, porque eu sofro muito, e todos zombam de mim por isso. É como se minha filha tivesse culpa pelo que ela faz… Tem piedade, Senhor, Tu que tudo podes. Levanta a tua voz e a tua mão, e dá ordem ao espírito imundo para que saia da Palma. Eu só tenho essa filha, e sou viúva… Oh! Não te vás, Senhor! Tem piedade!
Jesus, de fato, tendo acabado de abençoar um por um dos membros da família, depois de ter repreendido os adultos por terem falado de sua vinda, — e depois deles se desculparem, dizendo: “Não fomos nós que falamos, podes crê-lo, Senhor!” — Ele se vai, inexplicavelmente severo para o lado da pobre mulher, que vai-se arrastando sobre os joelhos, com os braços estendidos em um gesto de súplica, ansiosa, enquanto vai dizendo:
– Eu, eu te vi, quando estavas atravessando a torrente, eu ouvi que alguém te chamou “Mestre.” Então, eu vim vindo atrás de Ti, por entre as moitas, e ouvi as conversas deles. E fiquei sabendo quem és… E esta manhã eu vim, mas como era ainda noite para estar aqui, fiquei na soleira como um cachorrinho, até que Sara se levantou e me fez entrar. Oh! Senhor, tem piedade! Piedade de uma mãe e de uma menina!
Mas Jesus vai andando ligeiro, surdo a todo chamado. Os da casa dizem a mulher:
– Resigna-te! Ele não quer te ouvir. Ele disse: É para os de Israel que Ele veio…
Mas ela se levanta, desesperada e, ao mesmo tempo, cheia de fé, e responde:
– Não, Eu tanto hei de pedir que Ele me ouvirá.
E se põe a acompanhar o Mestre, sempre gritando em suas súplicas, que atraem para as portas das casas da vila todos os que já despertaram e que, como os da casa de Jonas, se põem a acompanhá-la, para verem como vai terminar aquilo.
331.5 Enquanto isso, os apóstolos olham atônitos uns para os outros, e murmuram:
– Por que será que Ele faz isso? Ele nunca fez assim!…
E João diz:
– Em Alexandrecene, contudo, Ele curou aqueles dois.
– Mas eles eram prosélitos, responde Tadeu.
– E esta vai tratar de que agora?
– Ela também é prosélita –diz o pastor Anás.
– Oh! Mas quantas vezes ele curou também aos gentios ou pagãos! E a menina romana, então? –diz desconsolado André, que não se conforma com a dureza de Jesus para com a mulher cananéia.
– Eu vou dizer-vos por que é –exclama Tiago de Zebedeu–. É porque o Mestre foi desdenhado. Sua paciência tem limites, diante de tantos ataques da maldade humana. Não estais vendo como Ele está mudado? Ele tem razão! De agora em diante, Ele vai dedicar-se somente àqueles que Ele conhece. E faz bem!
– Sim. Mas, por enquanto, essa aí vem gritando atrás de nós e um grande acompanhamento de pessoas vem atrás dela. Se Ele quiser passar por inobservado, achou agora o meio de chamar a atenção até das plantas… –resmunga Mateus.
– Vamos dizer-lhe que a mande embora… Olhai daqui que belo cortejo vem vindo às nossas costas! Se chegarmos assim à estrada consular, estamos bem arranjados! E esta mulher, se Ele não a mandaembora, não vai nos deixar… –diz Tadeu, importunado, que também se vira, e intima à mulher–: Cala-te, e vai-te embora!
E a mesma coisa faz Tiago de Zebedeu. Mas ela não se impressiona com as ameaças e as injunções, e continua a suplicar.
– Vamos dizer ao Mestre que a expulse, visto que Ele não a quer atender. Assim não pode continuar! –diz Mateus, enquanto André murmura: “Pobrezinha!”
E João fica repetindo sem parar:
– Eu não estou entendendo… Eu não estou entendendo…
João está atordoado com o modo de agir de Jesus. Mas, apressando o passo, eles já alcançaram Jesus, que vai indo ligeiro como um perseguido.
– Mestre! Por favor, manda embora aquela mulher! É um escândalo! Ela vem gritando atrás de nós. Está mostrando com o dedo a todos nós. A estrada está ficando sempre mais cheia de passantes, e muitos vão-se colocando atrás dela. Dize a ela que se vá embora.
– Dizei-o, vós. Eu já lhe dei resposta.
– Ela não escuta. Vamos, fora! Dize-lhe assim Tu. E com severidade.
331.6 Jesus pára e se vira. A mulher entende que isto é um sinal de que vai ser atendida e acelera o passo, levanta o tom, já agudo, de sua voz, com um rosto que empalidece, por causa da esperança que cresce.
– Cala-te, mulher. E volta para tua casa. Eu já te disse: “Eu vim para as ovelhas de Israel”. Para curar as doentes, e ir buscar as perdidas. Tu não és de Israel.
Mas a mulher já está a seus pés, e os beija, adorando-o, segurando-o pelos tornozelos, como se ela fosse uma náufraga, que encontrou um penhasco de salvação, e que geme:
– Senhor, ajuda-me! Tu o podes, Senhor. Dá ordem ao demônio, Tu que és Santo… Senhor, Senhor, Tu és o dono de tudo, da graça e do mundo. Tudo te está sujeito, Senhor. Eu o sei. Eu o creio. Lança mão, pois, do que é o teu poder, e usa dele em favor de minha filha.
– Não fica bem tomar o pão dos filhos da casa e jogá-los aos cães da rua.
– Eu creio em Ti. E crendo, de cão da rua eu me tornei um cão da casa. Eu te disse: Eu vim antes da aurora deitar-me na soleira da porta da casa onde estavas e, se tivesses saído por lá, terias tropeçado em mim. Mas Tu saíste pelo outro lado, e não me viste. Não viste este pobre cão torturado, cheio de fome da tua graça, que esperava entrar, rastejando, para onde Tu estavas para beijar-te os pés e assim pedir-te que não o rejeitasses…
– Não fica bem jogar o pão dos filhos aos cães –repete Jesus.
– Mas os cães entram na sala, onde o dono da casa está, e comem com os filhos, comem o que cai da mesa ou os restos do que eles dão aos familiares e que não vai mais ser usado. Eu não te peço que me trates como filha nem que me faças sentar-me à tua mesa. Mas dá-me pelo menos as migalhas…
331.7 Jesus sorri. Oh! Como se transfigura o seu rosto neste sorriso de alegria!… As pessoas, os apóstolos, a mulher olham, admirados, para Ele… percebendo que alguma coisa está para acontecer.
E Jesus diz:
– Oh! Mulher! Grande é a tua fé! E com ela tu consolas o meu espírito. Vai, pois, e que te seja feito como queres. Desde este momento, o demônio saiu de tua filhinha. Vai em paz. E, visto que de um cão perdido, soubeste querer passar a ser um cão da casa, que saibas, por isso, no futuro, ser filha, sentada à mesa do Pai. Adeus.
– Oh! Senhor! Senhor! Senhor!… Eu quereria sair correndo para ir ver a minha Palma querida… E quereria ficar contigo, seguir-te! Ó Bendito! Ó Santo!
– Vai, vai, mulher. vai em paz.
E Jesus retoma o seu caminho, enquanto a cananéia, mais ligeira do que uma menina, vai correndo pela estrada por onde veio, acompanhada pela multidão curiosa por ver o milagre…
– Mas, por que, Mestre, fizeste que ela ficasse pedindo tanto, para só depois atendê-la? –pergunta Tiago de Zebedeu.
– Por tua causa, e por causa de todos vós. Isto não é uma derrota, Tiago. Aqui Eu não fui expulso, escarnecido, amaldiçoado… Que isto reerga o vosso espírito abatido. Eu já recebi hoje o meu alimento saborosíssimo. E por ele bendigo a Deus. 331.8E agora vamos a essa outra, que sabe crer e esperar com fé firme.
– E as minhas ovelhas, Senhor? Pouco faltou para que eu tivesse que tomar um outro caminho, que não é o teu, a fim de ir para as minhas pastagens… –pergunta de novo o pastor Anás.
Jesus sorri, mas não responde.
É agradável andar, agora que o sol aqueceu o ar e faz brilhar como esmeraldas as pequeninas folhas novas nos bosques e as ervas nos prados, transformando em engastes os cálices das flores, pelas gotas de orvalho, que brilham nas auréolas multicores destas florzinhas dos campos. E Jesus lá se vai, sempre sorrindo. E os apóstolos, de repente reanimados, o seguem sorrindo…
Chegam à encruzilhada. O pastor Anás, preocupado, diz:
– Aqui eu deveria Te deixar… Não vais mesmo curar as minhas ovelhas? Eu também tenho fé e sou prosélito… Tu me prometes, pelos menos, que irás lá depois do sábado?
– Oh! Anás! Mas, não entendeste ainda que as tuas ovelhas já estão curadas desde a hora em que Eu levantei as mãos para o rumo de Lesendão? Vai, pois, tu também, para ver o milagre e bendizeres o Senhor.
Acho que a mulher de Ló1, quando ficou transformada em uma estátua de sal, não terá ficado diferente do pastor, que permaneceu na posição em que estava: um pouco encurvado, como quem se inclina, e com a cabeça virada, a fim de poder olhar para Jesus e com um braço meio estendido no ar… Ele também está parecendo uma estátua, e poderia ter por baixo este letreiro: “O suplicante.” Mas, logo depois, ele se reergue, e em seguida se prostra, dizendo:
– Bendito sejas Tu! Tu, que és bom! Tu, que és Santo!… E eu te prometi muito dinheiro e agora não tenho aqui senão umas poucas dracmas… Vai, vai à minha casa depois do sábado…
– Eu irei. Não por causa do dinheiro, mas para abençoar-te de novo pela tua fé simples. Adeus, Anás. A paz esteja contigo.
E eles se separam.
– E esta também não é uma derrota, meus amigos! Pois também aqui Eu não fui escarnecido, expulso, nem amaldiçoado… 331.9Vamos, depressa! Há uma mãe que nos está esperando há dias.
E a marcha continua, com uma pequena parada para comer pão com queijo e beber água de uma fonte…
O sol está no meio-dia, quando se vê aparecer a bifurcação do caminho.
– Lá está o começo da escada de Tiro, lá no fundo –diz Mateus.
E ele se alegra, ao pensar que a maior parte do percurso já está feita.
Encostada justamente no cipo romano está uma mulher. Aos pés dela, sobre um pequeno colchão, está uma menininha de uns sete ou oito anos. A mulher está olhando para todas as direções. Olha para a escada no rochedo. Olha para caminho de Ptolemaida. Olha para este por onde vai Jesus e, de vez em quando, se inclina para acariciar a menina e para proteger-lhe a cabeça com um pano contra os raios do sol e para recobrir-lhe os pés e as mãos com o seu xale…
– Lá está a mulher! Mas onde terá ela dormido nestes dias? –pergunta André.
– Talvez naquela casa perto da encruzilhada. Não há outras casas por perto –responde Mateus.
– Ou então, ao sereno da noite –diz Tiago de Alfeu.
– Não. Ela não faria isso por causa da menina –pondera o irmão dele.
– Oh! Contanto que conseguisse a graça!… –diz João.
331.10 Jesus não fala. Mas sorri. Todos estão em fila, com Ele no centro, estando três de um lado e três do outro, ocupando toda a largura da estrada, nesta hora em que há uma parada dos passantes, porque eles costumam ir almoçar no ponto em que estiverem quando chega o meio-dia.
Jesus sorrri lá do alto de sua estatura e beleza, no centro do grupo. E parece que toda a luz do sol tenha vindo concentrar-se em seu rosto, de tão radioso que ele está. Parece mesmo estar até emitindo raios de luz.
A mulher levanta os olhos… Eu já estou à distância de uns cinqüenta metros. Talvez o que tenha atraído a atenção dela, que estava distraída pelo choro da filha, possa ter sido o olhar de Jesus, que estava fixado sobre ela. Ela fica olhando… depois leva as mãos para sobre o coração, em um gesto involuntário de ânsia e sobressalto.
Jesus sorri ainda mais. Ele está com aquele sorriso luminoso, inexplicável, e que deve estar dizendo muitas coisas à mulher que, ansiosa mas também sorridente, comose já tivesse sido atendida, inclina-se para pegar a sua pequenina e, colocando-a sobre o seu colchão, com os braços estendidos, como se a estivesse oferecendo a Deus, anda para a frente e, chegando junto aos pés de Jesus, se ajoelha, levantando o mais que pode a menina a Ele apresentada, a qual fica olhando, extasiada, o belíssimo rosto de Jesus.
A mulher nada diz. E o que deve dizer de mais profundo do que com todo seu aspecto?…
E Jesus só diz uma palavra, pequena mas poderosa e cheia de alegria, como o “faça-se” de Deus na criação do mundo:
– Sim.
E pousa a mão sobre aquele pequeno peito que lhe está sendo apresentado.
E a menina, dando um grito, como a calhandra, ao ver-se livre da gaiola, diz: “Mamãe!” e, de repente, se assenta, põe-se de pé e abraça sua mãe que, ela sim, está exausta e cambaleia, e está para cair de costas, em um desmaio causado pelo cansaço, pela ânsia que chega ao fim, pela alegria, que é uma sobrecarga para as forças do coração, já enfraquecido pelas muitas dores que ela vinha sofrendo.
Jesus está pronto para socorrê-la. É uma ajuda certamente mais valiosa do que a da menininha que, sobrecarregando com o seu peso os membros maternos, com certeza não é o melhor meio de sustentar a mãe sobre os joelhos. Jesus faz que ela se assente e lhe transfunde forças… E fica olhando para ela, enquanto umas lágrimas mudas vão descendo por aquele rosto cansado e feliz da mulher.
331.11 Depois é que lhe vêm as palavras:
– Obrigada, meu Senhor! Obrigada e bendito sejas! A minha esperança está coroada… Eu te esperei tanto tempo… Mas agora estou feliz…
A mulher, tendo passado aquele seu meio desmaio, torna a ajoelhar-se, adorando e tendo na sua frente a pequenina que foi curada, e que Jesus está acariciando. E ela explica:
– Fazia dois anos que lhe havia apodrecido um osso na espinha, paralisando-a e levando-a lentamente para a morte, no meio de grandes dores. Nós fizemos que a vissem os médicos de Antioquia, de Tiro, de Sidon, e até de Cesaréia e de Panéades, e gastamos tanto com os médicos e com remédios que foi preciso vender a casa que tínhamos na cidade para irmos na do campo, despedindo os empregados da casa e conservando somente os da lavoura, e tendo agora que vender até aqueles produtos que consumíamos… Mas nada disso adiantava. Foi então que eu Te vi. E fiquei sabendo do que havias feito em outros lugares. Fiquei esperando que eu também fosse receber uma graça… E a recebi! Agora, vou voltar para casa, leve e cheia de alegria… e levarei esta alegria para o meu esposo… Ao meu Tiago, que foi quem me pôs no coração a esperança, ao contar-me o que aconteceu, pelo teu poder, na Galiléia e na Judéia. Oh! Se não tivéssemos ficado com medo de não encontrar-te, teríamos vindo com a menina. Mas Tu estás sempre na estrada…
– Foi caminhando que Eu cheguei a ti… Mas, onde permaneceste nestes dias?
– Naquela casa… Mas de noite ficava lá somente a menina. Lá mora uma boa mulher, que tomava conta dela para mim. E eu fiquei sempre aqui, com medo de que tu passasses de noite.
Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça:
– És uma boa mãe. Deus te ama por isso. Estás vendo como Ele te ajudou em tudo.
– Oh! Sim. Eu o percebi justamente quando eu vinha vindo. Eu já vinha vindo da casa para a cidade, esperando encontrar-te, já com pouco dinheiro e sozinha. Depois, seguindo o conselho do homem, eu vim até este lugar. Mandei um recado para casa e vim… e nunca me faltou nada. Nem pão, nem abrigo, nem forças.
– Sempre com aquele peso nos braços? Não podias usar alguma carroça?… –pergunta, compadecido, Tiago de Alfeu.
– Não. Ela teria sofrido muito e podia morrer com aquilo. Foi nos braços da mamãe que veio a minha Joana à Graça.
Jesus acaricia as duas sobre os cabelos:
– Ide, então, e sede sempre fiéis ao Senhor. O Senhor esteja convosco e convosco esteja a minha paz.
Jesus volta a tomar a estrada que vai para Ptolemaida.
– Esta também não é uma derrota, meus amigos. E também aqui Eu não fui expulso, nem escarnecido, nem amaldiçoado.
331.12 Seguindo pela estrada direta, logo chegaram ao posto do alveitar, ao lado da ponte. O ferrador romano está descansando ao sol, sentado junto ao muro da casa. Ele reconhece Jesus e o saúda. Jesus responde à saudação e acrescenta:
– Deixas-me parar aqui para descansar um pouco e comer um pouco de pão?
– Sim, Rabi. Minha mulher te queria ver… porque eu falei a ela também do ponto que ela não tinha ouvido do teu discurso da outra vez. Ester é hebréia. Mas eu não tinha coragem de te dizer, pois sou romano. Eu te teria mandado atrás dela…
– Chama-a, então.
E Jesus se assenta no banco, que está junto à parede, enquanto Tiago de Zebedeu distribui pão e queijo…
Sai uma mulher dos seus quarenta anos, confusa, corada de vergonha.
– A paz esteja contigo, Ester. Tiveste o desejo de conhecer-me. Por quê?
– Por causa daquilo que disseste… os rabis nos desprezam a nós que nos casamos com um romano… Mas eu tenho filhos, e os levei todos ao Templo, e os do sexo masculino foram todos circuncidados. Eu disse isto antes a Tito, quando ele me queria… E ele é bom… Deixa-me sempre agir a respeito dos filhos. Os usos, os ritos, tudo aqui é hebraico… Mas os rabis, os arquisinagogos nos amaldiçoam. Tu, não… Tu tens palavras de compaixão para conosco… Oh! Sabes o que vem a ser isso para nós? É como se sentíssemos ao redor de nós os braços do pai e da mãe a nos repudiar e amaldiçoar, a serem severos para conosco… É como pôr de novo os pés na casa abandonada e não nos sentirmos estranhos nela… Tito é bom. Para as nossas festas ele fecha o posto de alveitar, com grande perda de dinheiro, e me acompanha com os filhos ao Templo. Porque ele diz que sem religião não se pode ficar. Ele diz que a dele é a da família e do trabalho, como antes era a do dever de soldado… Mas eu… Senhor… eu te quis falar por causa de uma coisa… Tu disseste2 que os seguidores do verdadeiro Deus devem tirar um pouco do seu fermento santo e colocá-lo em boa farinha, para fazê-la fermentar santamente. Eu, com o meu esposo, fizemos isso. Eu procurei, nestes vinte anos que estamos juntos, melhorar a alma dele, que é boa, com o fermento de Israel. Mas ele não se decide nunca… e já está velho… Eu o desejaria comigo na outra vida… Unidos na fé, como estamos no amor… O que possuímos é suficiente, e graças a Deus por isso! Mas isso eu quereria… Que rezes pelo meu esposo! Que ele seja do verdadeiro Deus…
– Ele o será. Fica segura. Tu pedes uma coisa santa e a terás. Tu compreendeste os deveres da mulher para com Deus e para com o esposo. Assim fossem todas as esposas! Em verdade, Eu te digo que muitas deveriam imitar-te. Continua a ser assim e terás a alegria de ter o teu Tito a teu lado na oração, e no Céu. 331.13Mostra-me os teus filhos.
A mulher chama sua numerosa prole:
– Jacó, Judas, Levi, Maria, João, Ana, Elisa, Marcos.
Depois, ela entra na casa e sai de lá com um que está aprendendo a andar e com outro de três meses, quando muito.
– E este é Isaque e esta pequenina é Judite –diz ela, terminando a apresentação.
– Que abundância! –diz sorrindo, Tiago de Zebedeu.
E Judas exclama:
– Seis homens! E todos circuncidados! E com nomes puros! Bravo!
A mulher está feliz, e elogia Jacó, Judas e Levi, que ajudam o pai “todos os dias, menos o sábado, dia em que Tito trabalha apenas para colocar as ferraduras já feitas”, diz ela. E elogia Maria e Ana, “ajudantes da sua mamãe.” Mas não deixa de elogiar também os quatro menores “bons e sem teimosias. Tito me ajuda a educá-los, ele que foi um soldado disciplinado”, diz ela, olhando com um olhar afetuoso o homem que, encostado ao umbral com uma mão no flanco, escutou tudo o que a mulher disse com um sorriso bom em seu rosto aberto, e que agora se envaidece ao ouvir como são lembrados os seus méritos de soldado.
– Muito bem. A disciplina das armas não é mal vista por Deus, quando se cumpre com humanidade o próprio dever de soldado. Tudo consiste em ser sempre moralmente honestos em todos os trabalhos, para ser sempre virtuosos. Esta disciplina de tua vida passada, na qual formas os teus filhos, deve preparar-te para iniciar um serviço mais alto: o serviço de Deus. Agora separamo-nos. Apenas tenho tempo de chegar a Aqzib, antes que termine o pôr-do-sol. Paz a ti, Ester, e à tua casa. Sejais, daqui a pouco, todos do Senhor.
A mãe e os filhos se ajoelham, enquanto Jesus levanta a mão, abençoando. O homem, como se fosse de novo o soldado de Roma diante do imperador, perfila-se, rígido, fazendo a saudação romana.
331.14 E vão… Depois de terem andado alguns metros, Jesus põe a mão sobre o ombro de Tiago:
– E, uma vez mais, a quarta vez neste dia, Eu te faço notar que isto não é uma derrota, não é ser expulso, escarnecido, amaldiçoado… E agora, que dizes?
– Que eu sou um estulto, Senhor –diz impetuosamente, Tiago de Zebedeu.
– Não. Tu, como todos vós, sois ainda e sempre humanos demais e tendes todas as alternativas de quem está dominado mais por sua humanidade, do que pelo espírito. O espírito, quando é soberano, não se altera por qualquer soprinho de vento, que nem sempre é uma aragem perfumada… Poderá sofrer, mas não se perturba. Eu rezo sempre para que vós chegueis a essa soberania do espírito. Mas vós me deveis ajudar com o vosso esforço… Pois bem! Nossa viagem terminou. Nela Eu semeei aquele tanto que é necessário para preparar o vosso trabalho, quando fordes vós os evangelizadores. Agora podemos ir para o repouso sabático com a consciência de termos cumprido o nosso dever. E vamos esperar os outros… Depois iremos… ainda… sempre… até que tudo se complete…
1 a mulher de Ló, em Gênesis 19,26, que faz parte do episódio da destruição de Sodoma: Gênesis 19,1-29.
2 Tu disseste, em 327.5.
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