504. 504. Marziam é preparado para a separação.Retorno à vila de Salomão e morte de Ananias.


26 de setembro de 1946.

504.1– Levantai-vos e partamos. Vamos de novo até o rio e procuremos uma barca. Vai tu, Pedro, com Tiago. Que ela nos leve até perto de Betábara. Permaneceremos um dia em casa do Salomão e depois…

– Não era para Nazaré que íamos?

– Não. De noite, Eu decidi. Isso me desagrada por causa de vós. Mas devo voltar atrás.

– Eu estou feliz! –exclama Marziam–. Estarei ainda contigo!

– Sim, por enquanto, pobre rapaz, tu estás vendo dias bem tristes a meu lado!

– É bem assim mesmo que eu gosto de ficar contigo. Para dar-te amor. Só isso é que eu quero. Não peço nada mais.

Jesus o beija na fronte.

– E tornaremos a passar por Betábara? –pergunta Mateus.

– Não. Atravessaremos o rio com a barca de algum pescador.

504.2Está de volta Pedro com Tiago.

– Nenhuma barca, Mestre, até à tarde… E… deverei dizê-lo?

– Dize-o.

– E passaram por aqui alguns… Devem ter pagado bem ou, então, fizeram fortes ameaças… Eu não creio que Tu também aches barca nesta tarde… São uns desapiedados… –suspira Pedro.

– Não importa. Ponhamo-nos a caminho… –e o Senhor nos ajudará.

A estação é feia: chove e há muita lama. A estrada está lamacenta, pela margem a lama vai aumentando com o orvalho da noite, que caiu bastante ao longo da margem. Mas eles vão indo assim mesmo, por cima de uma estreita elevação que acompanha a estrada, pois é menos lamacenta e menos sujeita ao gotejar da chuvinha fina mas contínua, e vão indo à beira de uma fileira de álamos que os resguarda um pouco, quando não acontece que algum sopro de vento faz que se precipitem todas de uma vez as gotas de água que estavam presas por entre os ramos.

– Já chegou o seu tempo –diz, filosofando, Tomé, suspendendo sua veste.

– O seu tempo! –confirma Bartolomeu, suspirando.

– Nós nos enxugaremos em algum lugar. Nem todos… deverão estar furiosos contra nós –diz Pedro.

– E teremos que achar uma barca… Não está escrito que não!

–acrescenta Tiago de Alfeu.

– Se tivéssemos bastante dinheiro teríamos tudo. Mas Ele não quis que eu fosse fazer a venda em Jericó! –diz Judas de Keriot.

– Cala-te! Eu te peço. O Mestre está muito aflito. Cala-te –suplica-lhe João.

– Eu me calo. Até que eu só tenho motivo para alegrar-me com a sua ordem. Assim não se poderá dizer que aqueles saduceus de perto de Jericó tivessem sido mandados por mim –e olha para Pedro.

Mas Pedro está absorto, nada vê e a nada responde.

Vão indo, prosseguem sob uma chuvinha fina como uma névoa nesse dia cinzento. De vez em quando falam uns com os outros. Mas ficam parecendo estar falando consigo mesmos, pois suas palavras parecem ser as conclusões de um diálogo com algum interlocutor invisível.

– Deveremos acabar parando em algum lugar.

– Todos os lugares são iguais, porque a todos eles vão.

– Perseguição por perseguição, é melhor ficarmos na cidade. Pelo menos lá não nos molhamos…

– Mas até que ponto eles querem chegar?

– Pobre Maria! Se ela soubesse!

– Deus altíssimo, protege os teus servos!… –e assim por diante…

Depois eles se unem e discutem em voz baixa.

Jesus vai na frente sozinho… Sozinho! Até que Marziam e Zelotes vão ao seu encontro.

– Os outros desceram para a praia. Para verem se enxergam alguma barca… Iríamos mais depressa. Tu nos queres contigo?

– Vinde. De que estáveis falando antes?

– Do teu sofrimento.

– E do ódio dos homens. Que podemos fazer para te darmos um alívio e para frear o ódio? –pergunta Zelotes.

– Para a minha dor há o vosso amor… Para o ódio… o remédio é suportá-lo… É uma coisa que só se acaba com a vida nesta terra… e este pensamento dá paciência e fortaleza para suportá-lo. 504.3Marziam! Rapaz! Por que estás perturbado?

– Porque isso me faz lembrar de Doras…

– Tens razão. É tempo de Eu mandar-te para casa…

– Não, Jesus. Por que me queres… castigar por um mal que eu não fiz?

– Não é castigar. Mas preservar. Eu não quero que te fiques lembrando de Doras. O que se levanta em ti atrás dessa lembrança? Responde…

Marziam chora, com a cabeça inclinada, depois levanta o rosto e diz:

– Tens razão… Meu espírito não é capaz de ver e perdoar, ainda não é capaz. Mas por quê me afastas? Se Tu sofres… eu com mais razão devo estar perto de Ti. Também Tu me consolaste, Tu sempre. Já não sou aquele rapazinho tolo que, no ano passado, te dizia: “Não me faças ver a tua dor.” Eu já sou um verdadeiro homem agora. Deixa que eu fique, Senhor! Oh! Dize-o, tu, a Ele, Simão!

– O Mestre sabe o que é bom para nós. E talvez… Ele te queira dar algum encargo… Eu não sei… Estou dizendo o que penso…

– Disseste bem. Eu o teria aqui e com muita alegria até depois das Encênias. Mas… Minha Mãe está sozinha lá em cima. O rumor do ódio é muito forte. Poderia ela temer mais do que é preciso. Está sozinha a minha Mãe. E certamente está chorando. Tu irás a Ela e lhe dirás que Eu a saúdo e que já estou esperando vê-la depois das Encênias. E não dirás mais nada, Marziam.

– Mas e se ela me fizer perguntas?

– Oh! tu podes, sem mentir, dizer… que a vida do seu Jesus é como este céu instável. Há nuvens, há chuva e, às vezes, tempestade. Mas não faltam os dias de sol. Como ontem, como talvez amanhã. Calar-se não é mentir. E lhe falarás dos milagres que tens visto. E lhe dirás que Elisa está comigo. Que Ananias me acolheu como um pai. Que em Nobe estou em casa de um bom israelita. E tudo mais. E sobre tudo mais, guarda silêncio. 504.4Depois irás a Porfíria. E lá ficarás até que Eu te chame.

Marziam está chorando muito.

– Por que estás chorando assim? Não ficas contente por ires à casa de Maria? Ontem mesmo tu estavas contente –diz Simão.

– Ontem, sim. Porque iríamos todos. E, além disso, eu choro pelo medo de não te ver mais. Oh! Senhor! Senhor! Nunca mais será para mim feliz nenhum dia como o foram estes.

– Nós nos veremos ainda, Marziam. Eu te prometo.

– Quando? Não será antes da Páscoa. É muito tempo!

Jesus fica calado.

– Não é verdade que não me queres antes da Páscoa?

Jesus lhe passa um braço pelas costas, ainda emagrecidas, e o puxa para Si.

– Por que queres saber o futuro? Hoje estamos aqui. Amanhã não estaremos mais. O homem, ainda que seja o mais rico e poderoso, não pode acrescentar um dia à sua vida. Esta, e todo o futuro, estão nas mãos de Deus…

– Mas na Páscoa eu devo ir ao Templo. Eu sou israelita. Tu não podes fazer-me pecar!

– Tu não pecarás. E o primeiro pecado que me deves prometer que não farás nunca é o da desobediência. Tu obedecerás. Sempre. Agora, a mim. Depois, a quem for te falar em meu Nome. Tu o prometes? Lembra-te de que Eu, teu Mestre e Deus, obedeci ao meu Pai. E obedecerei até o… até o fim dos meus dias.

Jesus está majestoso ao pronunciar estas últimas palavras.

Marziam, meio fascinado, diz:

– Obedecerei. Eu juro. Diante de Ti e do Eterno.

Faz-se silêncio. Depois, Zelotes pergunta:

– Ele vai subir sozinho?

– Certamente que não. Vai com alguns discípulos. Encontraremos outros, além de Isaque.

– Mandas Isaque também à Galileia?

– Sim. Ele virá de volta com minha Mãe.

504.5Lá do rio estão chamando. Os três se separam, atravessando a estrada, e vão indo para a água.

– Olha, Mestre. Conseguimos a barca. E não cobram nada. São parentes de um que foi curado. Eles transportam areia para aquele povoado. É preciso irmos até lá a pé. Depois eles nos recebem.

– Deus os recompense. À tarde estaremos em casa de Ananias.

Pedro, muito contente, sobe de novo pela estrada e vê o rosto perturbado de Marziam:

– Que foi? Que fizeste?

– Nada de mal, Simão. Eu lhe disse que, ao chegar ao primeiro lugar onde Eu encontrar discípulos, Eu os mandarei para casa. E ele se entristeceu com isso.

– Para casa… Ora!… Mas isso é justo… com esta estação…

Pedro reflete. Depois olha para Jesus e o puxa pela manga, fazendo-o abaixar-se até à altura de sua boca. E lhe fala ao ouvido:

– Mestre, mas por que o mandas sem esperar…

– Por causa da estação, como disseste.

– E depois?

– Simão, Eu não te quero mentir. Depois, porque é bom que não se envenene o coração de Marziam…

– Tens razão, Mestre. Envenenar-se o coração… Isso! E é justamente o que acaba acontecendo.

E levanta a voz, dizendo:

– O Mestre de fato tem razão. Tu irás e… nós nos veremos pela Páscoa. Afinal… ela chega logo… Passado o Casleu… Oh! em breve estará aí o belo Nisan. Sim é certo! Ele tem razão…

A voz de Pedro fica menos firme. Ele repete lentamente e com tristeza:

– Ele tem razão… –e depois, falando a si mesmo: “Daqui até o Nisan, que terá acontecido?”

E bate a mão contra a fronte com um gesto de tristeza.

504.6Continuaram a caminhar com toda aquela umidade. Já parou de chover e eles, cheios de barro até os joelhos, sobem em cinco pequenas barcas, úmidas e com restos de areia, que tornam a descer levadas pela correnteza. Então a chuva começa a cair de novo, batendo sobre a água vagarosa do rio, que está com a cor cinzenta das nuvens, e vai desenhando círculos que se formam e desaparecem em seguida, como um jogo de madrepérolas que reluzem.

Parece uma paisagem deserta. Sobre as margens, passando-se pelas frentes das pequenas vilas aos lados do rio, não se vê ninguém. A chuva faz que as casas estejam fechadas e os caminhos desertos, de tal modo que, ao chegar o crepúsculo, quando eles desembarcam lá onde é o lugarejo de Salomão, encontram vazia e silenciosa a estrada, chegam até a casa sem terem sido vistos por ninguém. Batem à porta. Nada. Somente o arrulho dos pombos, o balir das ovelhinhas e o barulho da chuva que cai.

– Não há ninguém. Que faremos?

– Ide às casas do povoado. A do pequeno Miguel em primeiro lugar –ordena Jesus.

Enquanto os apóstolos mais jovens vão indo depressa, Jesus, com os mais velhos, fica perto da casa, observando e comentando.

– Está tudo fechado. Até a cancela está bem travada e firme. Olha! Tem até um prego grosso. E as janelas estão fechadas durante a noite. Que tristeza. E aquele lamento das ovelhas e dos pombos? Que achas, Mestre?

Jesus inclina a cabeça. Está cansado e triste…

504.7Voltam correndo os apóstolos. André é o primeiro a chegar e grita, enquanto está ainda à distância de alguns metros:

– Ele morreu… Ananias morreu… Não se pode entrar na casa porque ainda não foi purificada… Faz poucas horas que ele foi sepultado. Se pudéssemos ter chegado ontem… Agora vem vindo a mulher, a mãe de Miguel.

– Mas o que é que nos persegue? –prorrompe Bartolomeu.

– Pobre velho! Estava tão feliz. Sentia-se tão bem! como? Quando foi que ficou doente?

Falam todos juntos.

Acaba de chegar a mulher e, ficando longe de todos, diz:

– Senhor, a paz esteja contigo. Minha casa está aberta para Ti. Mas… eu não sei se… preparei bem o morto. Por isso é que fiquei aqui assim de longe. Mas eu te posso indicar as casas que vos acolherão.

– Sim, mulher. Deus te recompense, e contigo aos que usam de piedade para com os viandantes. Mas como foi que o homem morreu?

– Oh! Não sei. Ele não estava doente. Anteontem ele estava bem. Sim. É verdade. Ele estava bem. Miguel tinha vindo de manhã, a fim de pegar as duas ovelhas para ajuntá-las com as nossas. Estava combinado. E eu lhe tinha trazido de tarde as roupas, que havia lavado para ele. Estava sentado à mesa e comia, completamente são. À tarde, Miguel havia voltado com as ovelhas e lhes deu a beber duas bilhas de água, tendo-lhes dado também duas pequenas fogaças que ele havia feito. Ontem de manhã, meu filho veio buscar as ovelhas. Encontrou tudo fechado como agora e ninguém respondeu aos gritos do menino. Ele empurrou a cancela, mas não conseguiu abri-la. Estava bem fechada. Então Miguel se espantou e veio correndo até mim. Eu e meu esposo fomos correndo, e outros conosco. Abrimos a cancela e fomos bater à porta da cozinha… Tivemos que forçar a porta. Ele estava sentado perto do fogão com a cabeça inclinada para a mesa, a lâmpada ainda perto dele, mas já apagada como ele, com um canivete a seus pés e uma tigela de madeira já meio entalhada. A morte o pegou assim… Ele estava sorrindo… Estava em paz. Oh! Com que rosto de justo ele ficou! Parecia até mais bonito… Eu pouco cuidei dele. Mas eu me havia afeiçoado a ele… e choro…

– Ele está em paz. Tu mesma o disseste. Não chores! Onde o colocastes?

– Nós sabíamos que o amavas muito e então o colocamos no sepulcro que Levi construiu há pouco, o único, porque Levi é rico. Nós não somos ricos. Fica lá no fundo do terreno, do outro lado da estrada. Agora, se tu queres purificaremos tudo e…

– Sim. Ficarás com as ovelhas e os pombos, e o resto conservai-o para mim e para os meus. Que Eu possa permanecer aqui alguma vez. Deus te abençoe, mulher. 504.8Vamos ao sepulcro.

– Queres ressuscitá-lo? –pergunta espantado Tomé.

– Não. Para ele não seria uma alegria. Lá onde está está mais feliz. E é o que ele desejava.

Mas Jesus está muito abatido. Parece que tudo se une para aumentar sua tristeza. Nas portas das casas algumas mulheres estão olhando, saudando e comentando.

Logo foram para o sepulcro: é um pequeno cubo recentemente construído. Jesus reza ao lado dele. Depois Ele se vira, com os olhos úmidos pelo pranto, e diz:

– Vamos… Para as casas do povoado. Em nossa casinha não há mais quem nos espera para abençoar-nos… Meu Pai! A solidão está enfaixando o teu Filho, o vazio vai ficando sempre mais vasto e fosco. Aqueles que me amam vão-se embora e ficam os que Me odeiam. Meu Pai! Que a tua vontade se faça sempre e seja bendita…

Voltam para o povoado, dois para um lado, três para o outro, e vão entrando nas casas daqueles que não tocaram no morto, a fim de lá encontrar abrigo e algum alimento.