195. 195. Uma lição de João de EndoraIscariotes e chegada a Jerusalém.


20 de junho de 1945.

195.1 O céu está ameaçando chuva, e Pedro me parece Eneias invertido, porque ele, em vez de estar levando embora o próprio pai, tem sobre os ombros o pequeno Jabé, bem coberto agora com o capote de Pedro. A cabecinha se vê aparecer acima da cabeça branca de Pedro, que está com os braços do pequeno ao redor de seu pescoço e rindo, enquanto vai chapinhando nas pequenas poças de água barrenta.

– Podia nos ter poupado esta –murmura Iscariotes, nervoso por causa da água que cai do céu e da que o chão espirra em sua roupa.

– Ora! Poderíamos estar livres de muitas coisas! –responde João de Endor, fitando bem o belo Judas com o seu olho único que, eu creio, vale por dois.

– Que queres dizer?

– Pretendo dizer que é inútil exigir que os elementos tenham cuidado conosco, quando nós não o temos com os nossos semelhantes e em assuntos bem mais graves do que umas duas gotas de água ou algum salpico de lama.

– É verdade. Mas eu gosto de entrar na cidade bem arrumado e limpo. Tenho muitas amizades entre os grandes.

– Toma cuidado, então, para não levares algum tombo.

– Estás querendo provocar-me?

– Naão! Mas eu sou um velho mestre e… um velho aluno. Desde que nasci, estou aprendendo. Primeiro, eu aprendi a vegetar, depois fui observando a vida, depois conheci as amarguras da vida, procurei exercitar-me inutilmente numa justiça, a de ir “sozinho” contra Deus e contra a sociedade. Deus me castigou com o remorso, a sociedade com os grilhões e, por isso justiçado, por fim, acabei sendo eu. Mas agora eu aprendi, estou aprendendo a “viver.” Agora, sendo mestre e aluno, bem podes entender que me seja natural ficar repetindo as lições.

– Mas eu sou apóstolo…

– E eu sou um infeliz, eu sei, e não deveria tomar a liberdade de permitir-me ensinar a ti. Mas, vê bem: ninguém nunca sabe o que é que vai ser. Eu pensava que iria morrer como um honesto e venerado pedagogo em Chipre, e me tornei um homicida e um encarcerado. Mas, quando eu puxava minha faca para tirar vingança e quando arrastava minhas correntes odiando o universo, se alguém me tivesse dito que eu iria virar um discípulo do Santo, teria ficado em dúvida quanto à sanidade mental de quem o tivesse dito. E, no entanto, tu estás vendo! Por isso, quem sabe se a ti, apóstolo, eu não poderia dar alguma boa lição. Lição dada pela minha experiência. Não pela minha santidade. Eu nem penso nisso.

– Tem razão aquele romano de chamar-te de Diógenes.

– Está bem. Mas porém Diógenes procurava um homem e não o encontrou. E eu, mais feliz do que ele, encontrei uma serpente onde pensava que estivesse uma mulher e um cuco onde eu pensava que estivesse um homem amigo. Mas, depois de ter andado vagando durante tantos anos e de me ter tornado louco ao verificar isso, encontrei o Homem, o Santo.

– Eu não conheço outra sabedoria, a não ser a de Israel.

– Se assim é, já tens com que salvar-te. Mas é que agora tens também a ciência, a Sabedoria de Deus.

– É a mesma coisa.

– Oh! Não. É como um dia nublado, comparado a um cheio de sol.

– Afinal, o que queres é ensinar-me? Eu não tenho desejo disso.

– Deixa-me falar! Antes, falava aos meninos: eram distraídos. Depois, às sombras: me maldiziam. Depois eu falei aos frangos: eram já melhores do que os dois primeiros, muito melhores. Agora, eu falo comigo mesmo, porque ainda não posso falar com Deus. Por que queres impedir que o faça? Eu só tenho meia vista, uma vida estragada nas minas, um coração doente há tantos anos. Deixa, pelo menos, que não fique estéril a minha mente.

– Jesus é Deus.

– Eu sei disso, eu creio. Mais do que tu. Porque eu renasci por obra dele, e tu não. Mas, por mais que Ele seja o Bom, é sempre Ele: é Deus e o pobre infeliz que eu sou não ousa tratá-lo com a familiaridade com que tu o tratas. Fala-lhe a minha alma… mas o lábio não ousa. A alma, eu penso que Ele a ouça em seus prantos de reconhecimento e de penitente amor.

195.2 É verdade, João, Eu ouço a tua alma –diz Jesus, entrando no meio da conversa dos dois. Judas enrubesce de vergonha e o homem de Endor, de alegria–. Eu ouço a tua alma, é verdade. E também o trabalho da tua mente. Disseste bem. Quando estiveres formado em Mim, ficarás muito alegre por teres sido mestre e aluno atento. Fala, fala, até contigo mesmo…

– Uma vez, Mestre, e não há muito tempo, me disseste que não é bom ficar falando com seu próprio eu –observa, impertinente, Judas.

– É verdade. Eu o disse1. Mas foi porque tu estavas fazendo murmuração com o teu próprio eu. Este homem não fica murmurando: ele medita, e com boa intenção. Ele não faz mal.

– Em resumo: eu estou errado! –diz Judas, agressivo.

– Não. O que tens são sombras no coração. Mas nem sempre se pode estar sereno. Os camponeses desejam a chuva. É uma caridade rezar para que ela venha. Também esta é uma caridade. Mas olha: eis um belo arco-íris que de Atarot termina o seu arco em Ramá. Estamos já além de Atarot: o triste e grande vale foi superado. Aqui está tudo cultivado, tudo está sorrindo por baixo deste sol, que vem rasgando as nuvens. Quando estivermos em Ramá, já estaremos a trinta e seis estádios de Jerusalém. Nós a veremos de novo depois daquela colina, que marca o lugar onde houve aquela horrenda libidinagem, cometida pelos gabaonitas2. Uma coisa horrível é a mordida da carne, Judas…

Judas não responde, mas se afasta dali, chapinhando com raiva pelas pequenas poças de água suja.

195.3 – Mas, que é que ele tem hoje? –pergunta Bartolomeu.

– Cala-te, antes que Simão de Jonas ouça. Evitemos discussões e… não exasperemos Simão. Ele está tão feliz com o seu menino!

– Sim, Mestre. Mas não fica bem. Eu vou dizer-lhe.

– Ele é jovem, Natanael. Tu também o foste…

– Sim… mas… Ele não deve faltar-te com o respeito!

E, sem querer, ele levanta a voz.

Aí Pedro chega:

– Que está acontecendo? Quem é que falta com o respeito? Será o novo discípulo? –e olha para João de Endor, que se havia retirado discretamente, logo que compreendeu que Jesus estava corrigindo o discípulo, e está agora conversando com Tiago de Alfeu e Simão Zelotes.

– Nem por sombra! Ele é respeitoso como uma menina.

– Ah! Está bem. Senão… era o olho dele que corria perigo. Então… então, é Judas…

– Escuta. Simão, não poderias ir cuidar do teu pequeno? Tu o tiraste de mim, e ainda queres preocupar-te com uma conversação amigável entre Mim e Natanael. Não te parece que queres preocupar-te com coisas demais?

Jesus sorri de um modo tão sereno, que Pedro fica na dúvida sobre o seu juízo. Ele olha para Bartolomeu… mas este já levantou o rosto aquilino e está perscrutando o céu… Pedro sente cair a suspeita.

O aparecimento da Cidade, já bem perto, visível agora em toda a sua beleza de colinas, de oliveiras, de casas, e especialmente pelo Templo, esta vista que deve ter sido sempre causa de emoção e de orgulho para os israelitas, acaba por distraí-lo completamente. O sol já bem quente de abril da Judeia, bem depressa enxugou as pedras da rua consular. Agora, as poças d’água precisam ser procuradas. Os apóstolos estão se arrumando, à beira da rua, descendo as vestes que tinham sungado, lavando em um córrego de águas claras, os pés cheios de barro, pondo em ordem os cabelos e vestindo suas capas. O mesmo faz Jesus. E vejo que todos estão fazendo assim.

195.4 A entrada em Jerusalém devia ser uma coisa importante. Apresentar-se diante dos muros, nestes dias de festa, era como apresentar-se diante de um soberano. A Cidade Santa era a “Verdadeira” rainha dos israelitas. Eu o compreendo bem neste ano em que posso notar, nesta rua consular, as turbas e o seu comportamento. Aqui os cortejos das diferentes famílias se põem em ordem, as mulheres todas juntas, os homens em outro grupo, os meninos em um dos grupos ou no outro, mas todos sérios e, ao mesmo tempo, serenos. Alguns tornam a dobrar a capa mais usada e tiram dos sacos de viagem uma outra nova, ou trocam de sandálias. Depois disso, até seu modo de andar muda e se torna mais solene e até mesmo religioso. Em cada um dos grupos há um solista, que dá o tom, e os hinos são entoados, os antigos e gloriosos hinos de Davi. As pessoas agora se olham com olhares melhores, como que abrandadas por terem visto a Casa de Deus, e olham para esta Casa Santa, este enorme cubo de mármore, encimado pelas cúpulas douradas e colocado como uma pérola no centro do recinto do Templo.

Aqui — na comitiva apostólica que assim está formada: na frente, Jesus e Pedro, tendo entre eles o menino; atrás vem Simão, Iscariotes e João; depois André, que obrigou João de Endor a ficar entre ele e Tiago de Zebedeu; na quarta fila, os dois primos do Senhor, com Mateus; por último, Tomé com Filipe e Bartolomeu — aqui é Jesus quem entoa, com sua poderosa e belíssima voz, de um ligeiro tom barítono, misto — para torná-lo mais belo — a vibração de tenor, e Judas Iscariotes responde. Ele é um tenor puro. João, com sua voz límpida de quem é ainda muito jovem. As duas vozes dos barítonos, que são os primos de Jesus, e a de quase baixo de Tomé, que é de um barítono tão grave, que quase não é mais tal. Os outros, dotados de vozes menos belas, acompanham em surdina o coral cheio, formado por aqueles que são os virtuoses do grupo. (Os salmos são aqueles conhecidos, chamados graduais3).

O pequeno Jabé, com uma vozinha de anjo, por entre as vozes robustas dos homens, canta muito bem, talvez porque conheça melhor do que os outros, o salmo 121:

– Alegrei-me por aquilo que me foi dito: ‘Iremos à Casa do Senhor’.

Verdadeiramente tudo está iluminado pela alegria no rostinho que, há bem poucos dias, estava muito triste.

Eis que os muros já estão perto. Aqui está a Porta dos Peixes. Aí estão as ruas apinhadas de gente.

Logo irão eles para o Templo para uma primeira oração. Depois é a paz, paz do Getsêmani, depois a ceia e o descanso.

A viagem a Jerusalém terminou.



1 Eu o disse a ele em 183.1.
2 libidinagem, cometida pelos gabaoitas narrada em Juízes 19,22-28.
3 graduais são ditos nos Salmos 120-134 segundo a nova numeração. O Salmo 121, citado mais abaixo, tornou-se Salmo 122.