636. 636. A Páscoa suplementar.


23 de abril de 1947.

636.1A ordem de Jesus foi seguida ao pé da letra desta vez, e Betânia está lotada de discípulos. Eles estão nos prados, nas trilhas, nos pomares, nos olivais de Lázaro, que não conseguem conter tanta gente que não quer danificar os bens do amigo de Jesus; de fato, além destes, muitos outros estão espalhados também pelos olivais que de Betânia conduzem a Jerusalém pelos caminhos dos Olivais. Estão mais próximos da casa os discípulos mais antigos, mais distantes os outros e ainda outros. Rostos pouco conhecidos ou desconhecidos de fato. Mas quem consegue ainda reconhecer tantos rostos e saber seus nomes? Eu creio que sejam uns cem. De vez em quando, no bando, um rosto ou um nome me lembram faces já vistas entre aqueles que foram beneficiados ou convertidos por Jesus, talvez na última hora. Mas vai além da minha capacidade recordar tantos rostos e tantos nomes, reconhecer todos eles. Seria como pretender que eu tivesse reconhecido quem estava no meio da multidão que se apinhava ao longo das ruas de Jerusalém no domingo de Ramos ou naquela dolorosa Sexta-feira, ou quem cobria o Monte Calvário com um tapete de rostos, em sua maioria marcados pelo ódio.

Da casa de Simão entram e saem os apóstolos, circulando pelo meio do povo para conservá-lo tranquilo e para responder às perguntas. Lázaro e Maximino também os ajudam. Das portas-janelas do andar de cima de Simão, aparecem e desaparecem os rostos de todas as discípulas: cabeleiras grisalhas ou escuras, por entre as quais reluzem as cabeças louras de Maria de Lázaro e de Áurea. De vez em quando, uma ou outra desponta, a fim de olhar, e depois se retira. Lá estão todas, todas mesmo, jovens e velhas, até aquelas que nunca foram lá, como Sara de Afeque.

No terraço estão brincando os meninos, lá reunidos por Sara, os netos de Ana de Meron, Maria e Matias, o menino Xialém, que era aleijado e neto de Naúm, e que agora está feliz e são, e outros ainda. Parecem um bando de passarinhos, felizes, vigiados por Marziam e por outros discípulos jovenzinhos, como o pastorzinho de Enon e Jaia de Pela. Estou vendo agora entre as crianças também o menino de Sidon, que era cego. Compreende-se que foi seu pai que o trouxe consigo.

636.2O sol começa a se pôr, num crepúsculo maravilhoso.

Pedro vai conversar com Lázaro e os seus companheiros:

– Eu acho que é bom despedir o povo. Que dizeis? Hoje também ele não virá. E muitos desses aí deverão hoje de tarde consumar a pequena Páscoa –diz Pedro.

– Sim. É bom despedi-los. Talvez o Senhor terá julgado bom não vir hoje. Em Jerusalém estão reunidos todos os do Templo. Não sei como chegou a eles a notícia de que Ele vinha… –diz Lázaro.

– E se assim for, que é que lhe poderão fazer ainda? –diz, preocupado, Tadeu.

– Tu estás esquecido de que eles são assim. E nestas minhas palavras está tudo dito. Mesmo que a Ele não possam fazer nada de mal, podem fazer muito mal a estes que vieram para adorá-lo. E o Senhor não quer que se faça mal aos seus fiéis. Além disso, pensas tu que eles, cegos pelo seu pecado e por seus pensamentos, sempre os mesmos, imutáveis, não tenham — no meio de um grande contraste de ideias que eles têm na cabeça — também a ideia de que o Senhor ressuscitou, isto é, que Ele nunca tinha morrido, e tenha saído de lá como alguém que desperta por si mesmo ou pela cumplicidade de muitos? Vós nem sabeis que bosque selvagem de pensamentos, que emaranhamento, que tempestade de suposições está na cabeça deles. Eles inventaram coisas para não confessarem a verdade. Realmente pode-se dizer que os cúmplices de ontem se dividiram hoje pela mesma causa que os conservava unidos antes. E qualquer pessoa fica seduzida pela conversa deles. Estais vendo? Alguns já não estão mais entre os discípulos –diz Lázaro.

– Deixa que eles se vão! Vieram outros melhores! Certamente entre aqueles que lá se foram devem constar aqueles que disseram ao Sinédrio que o Senhor estará aqui no décimo quarto dia do segundo mês. E, depois dessa delação, não tiveram mais coragem de vir. Fora! Fora! Basta de traidores! –diz Bartolomeu.

– Eles sempre existirão, meu amigo! O homem!… O homem cede demais às impressões e pressões. Mas não devemos ter medo. O Senhor sempre tem dito que não devemos temer –diz Zelotes.

– E não temamos. Há poucos dias, nós ainda tínhamos medo. Estais lembrados? Eu, pela minha parte, tinha medo de voltar aqui. Agora me parece não ter mais aquele medo. Mas não confio demais em mim mesmo, e vós também não confieis demais em vosso Céfas. Porque eu já mostrei uma vez que sou uma argila que se esfarinha, ao invés de ser um granito compacto. 636.3Pois bem, vamos despedi-los. Cabe a ti, Lázaro.

– Não, Simão Pedro. A ti. Tu és o chefe… –diz Lázaro benignamente, passando o braço ao redor das costas de Pedro e empurrando-o para a escada e, subindo por ela, para o terraço que rodeia a casa de Simão.

Pedro faz o gesto de quem quer falar, e as pessoas que estão perto dele se calam, enquanto as que estão longe dele se aproximam. Pedro espera que a maior parte se aproxime, e depois diz:

– Homens de todas as partes de Israel, escutai. Eu vos exorto a voltardes para a cidade. O sol já começou sua descida. Por isso, ide. Se o Senhor vier, nós vo-lo faremos saber a qualquer custo. Deus esteja convosco.

Depois ele se retira, entrando em um quarto arejado onde estão todas as discípulas mais fiéis ao redor da Virgem, e também as outras mulheres que amavam o Senhor como Mestre, mesmo sem o terem nunca acompanhado em suas peregrinações. E Pedro vai sentar-se em um cantinho, olhando Maria que lhe sorri.

As pessoas, do lado de fora, pouco a pouco se separam em duas partes. A dos que vão ficar e a dos que vão voltar para a cidade. Vozes de adultos que estão chamando os meninos, a vozinha dos pequeninos que lhes respondem. Depois o murmúrio diminui o seu tom.

– Já é hora –diz Pedro–, e iremos também…

– Pai, mas o Senhor disse que teria ficado aqui!…

– É. Eu sei disso. Mas, como estás vendo, Ele não veio. E este era o dia prescrito…

636.4– Sim, e o meu irmão já preparou tudo para vós, e Marco de Jonas vem para vos conduzir e abrir o portão para vós. Mas eu também vou. Iremos todos nós. Lázaro tomou providências para todos –diz Maria de Magdala.

– E onde iremos consumar a ceia com tanta gente?

– Servirá de Cenáculo o próprio Getsêmani. Dentro da casa há o cômodo para aqueles que Jesus falou. Fora, perto da casa, estão as mesas dos outros. Assim é que ele quis.

– Quem? Lázaro?

– O Senhor.

– O Senhor? Mas quando foi que Ele veio?

– Ele veio… Que é que te importa o dia? Ele veio e falou com Lázaro.

636.5– Eu creio que Ele já venha, aliás, já veio até cada um de nós, mesmo se nenhum de nós o diz, conservando aquela alegria como a sua pérola mais querida, que teme até mesmo mostrar com receio de que ela perca a sua luz mais bonita. Os segredos do Rei! –diz Bartolomeu, e olha o grupo das discípulas virgens, que ruboriza no rosto como se um raio do pôr do sol as tocasse.

Mas é chama espiritual de alegria intensa essa que se acende.

Maria, a Virgem das Virgens, branca em suas vestes de linho, como um lírio revestido de candor, inclina a cabeça, sorrindo sem falar. Como Ela ficou semelhante, neste momento, à Virgem da Anunciação!

– Com certeza… Sozinhos Ele não nos deixa, mesmo que não apareça visivelmente. Eu digo que é Ele quem coloca em meu pobre coração e na ainda mais pobre mente certos pensamentos… –confessa Mateus.

Os outros nada dizem… Olham um para o outro, enquanto vão pondo os mantos e espiando como estão ficando, e vice-versa. Mas o mesmo cuidado com o qual alguns cobrem o mais possível o rosto, para conservarem encoberta a onda de alegria espiritual, que refloresce ao pensarem nos divinos encontros secretos, denuncia-os como sendo os favoritos.

– Pois dizei-o! –falam os outros–. Nós não somos ciumentos! Nem somos indiscretos para o querermos saber! Mas será para nós um conforto podermos esperar que não seremos para sempre privados de sua vista! Lembrai-vos das palavras1 de Rafael a Tobias: “É bom conservar escondido o segredo do Rei, mas é honroso revelar e publicar as obras de Deus.” Tem razão o Anjo de Deus! Guardai o segredo das palavras que Ele vos disse, mas revelai o seu contínuo amor por nós.

Tiago de Alfeu olha para Maria, como para receber dela uma luz e, tendo percebido pelo seu sorriso que Ela consente, diz:

– É verdade. Eu vi o Senhor.

E nada mais. E ele é o único que o diz. Os outros dois, que se cobriram bem, isto é, João e Pedro, não dizem nada.

636.6Saem todos em grupos, os onze na frente, depois Lázaro com as irmãs e as discípulas ao redor de Maria, por último os pastores e muitos dos setenta e dois discípulos. Encaminham-se em direção a Jerusalém pela estrada alta que conduz ao Horto das Oliveiras. As crianças que ficaram, correm pra frente e pra trás, felizes.

Marcos ensina uma estradinha que não passa pelo Campo dos Galileus nem pelas zonas mais transitadas, e os conduz diretamente à cerca nova do Horto das oliveiras. Ele a abre, fá-los passar e fecha. Muitos discípulos estão cochichando uns com os outros, e alguém vai interrogar os apóstolos, especialmente João. Mas eles fazem um sinal para que esperem, pois não é ainda hora de fazer o que eles estão perguntando, e todos ficam quietos.

Quanta paz neste vasto olival, ainda beijado pelos últimos raios do Sol em suas partes mais altas, enquanto as partes mais baixas já estão na sombra! Um leve sopro de vento por entre as folhas de um verde prateado e um alegre cantar dos passarinhos que estão saudando o dia que morre.

636.7Eis a casinha do vigia. No terraço, que faz as vezes do teto, Lázaro fez com que montassem um pavilhão de tendas, e o terraço se transformou em um cenáculo pênsil para aqueles discípulos que não puderam consumar a Páscoa um mês antes. Embaixo, no pequeno celeiro muito limpo, há outras mesas. Dentro da casa, no melhor cômodo, a mesa para as discípulas.

Para as diversas mesas dos que não fizeram ainda a Páscoa, são levados os cordeiros assados, a alface, os pães ázimos e o molho avermelhado, e colocam também o cálice do rito. Na mesa das mulheres, porém, não se põe o cálice do rito, mas muitas taças, uma para cada comensal. Compreende-se que as mulheres estavam dispensadas daquela parte da cerimônia. Nas mesas daqueles que já consumaram a Páscoa no tempo previsto está o cordeiro, mas não estão os pães ázimos e a alface com o molho avermelhado.

Lázaro e Maximino providenciam tudo. E Lázaro se inclina para Pedro a fim de dizer-lhe algo que faz o apóstolo mover a cabeça violentamente, numa negação inflexível.

– Contudo… Cabe a ti –diz Filipe que está a seu lado.

Mas Pedro diz, mostrando Tiago de Alfeu:

– Toca a ele.

636.8Enquanto estão discutindo, eis que o Senhor aparece na entrada do pequeno celeiro, e saudar:

– A paz esteja convosco.

Todos se põem de pé e o barulho serve de aviso para as mulheres sobre o que está acontecendo. Estão para sair, mas Jesus entra na casa saudando as mulheres também.

Maria diz:

– Meu Filho!

E o venera mais profundamente do que todos, ensinando com aquele gesto que, por mais que Jesus possa ser amigo, amigo e parente a ponto de ser até filho, Ele sempre é Deus. E deve ser venerado como Deus. Venerado sempre, em espírito de adoração, mesmo que o seu amor por nós seja tão generoso a ponto de fazer que Ele se doe com toda a confiança, como Irmão e como Esposo nosso.

– A paz a ti, minha Mãe. Sentai, comei. Eu vou lá para cima, onde Marziam está esperando o seu prêmio.

Jesus sai e sobe pela escadinha, e chama em voz alta:

– Simão Pedro e Tiago de Alfeu, vinde aqui.

Os dois mencionados sobem atrás dele, e Jesus vai sentar-se à mesa do centro onde está Marziam, dizendo aos dois apóstolos:

– Vós fareis o que Eu vos disser!

E ao chefe da mesa, que é Matias:

– Começa o banquete pascal.

Jesus nesta tarde tem Marziam a seu lado, no lugar onde estava João na outra vez. Pedro e Tiago estão atrás do Senhor, esperando suas ordens.

636.9E esta ceia procede com o mesmo ritual da Ceia Pascal: os hinos, os pedidos, as libações. Não sei se nas outras mesas acontece o mesmo. Eu me fixo onde está Jesus. Lá onde está Jesus eu me fixo, a menos que uma sua vontade não me obrigue a ver outra coisa, e de tudo esqueço para contemplar o meu Senhor, que agora oferece os bocados melhores do seu cordeiro — Ele o pegou no prato mas não o come, assim como não toma verduras nem molhos, nem bebe ao cálice — a Marciam, que está até exstasiado.

Jesus no princípio fez um sinal a Pedro, para que se inclinasse a fim de ouvi-lo, e Pedro, depois de tê-lo ouvido, disse em voz alta:

– Neste momento o Senhor ofereceu por todos nós o cálice, sendo Pai e Chefe de sua Família.

Agora Ele fez um novo sinal a Pedro, que de novo o ouve, e depois se levanta para dizer:

– Neste ponto o Senhor se cingiu, para purificar-nos e ensinar-nos como nós mesmos devemos fazer para consumar dignamente o Sacrifício Eucarístico.

A ceia continua até que, a um outro sinal feito a Pedro, ele diz ainda:

– Neste momento, o Senhor pegou o pão e o vinho, ofereceu-os e, orando, abençoou-os e, dividindo-os em partes, distribuiu-as a nós, dizendo: “Este é o meu Corpo e este é o meu Sangue do Novo Testamento eterno, que por vós e por muitos será derramado em remissão dos pecados.”

636.10Jesus se levanta. É majestoso. Ordena a Pedro e a Tiago de pegar um pão e dividi-lo em pequenas porções; de encher o cálice, o maior dos que estão sobre as mesas. Eles obedecem e seguram diante Dele o pão e o vinho, e Jesus estende sobre eles as suas Mãos, rezando, sem nenhum gesto ou palavra, a não ser o seu olhar contemplativo…

– Distribuí os pedaços do pão partido e oferecei o cálice fraternal. Todas as vezes que assim fizerdes, vós o fareis em memória de Mim.

Os dois apóstolos obedecem, cheios de veneração…

Enquanto está sendo feita a distribuição das Espécies, Jesus desce até as mulheres. Eu penso, mas não vejo porque não entro onde elas estão, que Jesus dá a Comunhão à sua Mãe com suas próprias Mãos. É um pensamento meu. Não sei se ele corresponde à verdade. É que eu não entenderia porque Ele teria ido até lá, a não ser para fazer isso.

636.11Depois Ele retorna ao terraço. Não se senta mais. O jantar está chegando ao fim.

Ele diz:

– Tudo está consumado.

– Tudo está consumado, Senhor.

– Foi assim que Eu fiz sobre a cruz. Levantai-vos. Vamos rezar.

Ele estende os braços, como se estivesse na cruz, e entoa a oração do Pai Nosso.

Não sei por que é que estou chorando. Penso que talvez seja a última vez que eu ouço rezar esta oração… E como nenhum pintor poderá nunca dar-nos a verdadeira efígie de Jesus, assim também ninguém, por mais santo que seja, poderá dizer, tão virilmente e docemente ao mesmo tempo, o Pai Nosso. Eu terei sempre muita saudade desses Pais Nossos ditos por Jesus, um verdadeiro colóquio da alma com o Pai muito amado e adorado dos Céus, esse grito de honra, de obediência, de fé, de submissão, de humildade, de misericórdia, de desejo, de confiança… tudo!

– Ide! E a Graça do Senhor esteja em todos vós e a sua paz vos acompanhe –diz Jesus, despedindo-se deles.

E se despede em um fulgor de luz que supera de muito o clarão da lua, que já está cheia e bem no alto, sobre o Monte das Oliveiras silencioso, e o das lâmpadas acesas colocadas sobre a mesa.

Não se ouve mais nenhuma voz. Há lágrimas nos rostos, adorações nos corações… e nada mais… A noite está presenciando e conhece, juntamente com os anjos, as palpitações daqueles benditos corações.”

1 palavras, que estão em: Tobias 12,7.


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