533. 533. Para Jerusalém com Judas Iscariotes.


25 de novembro de 1946.

533.1A aurora vem clareando o horizonte. O bosque das oliveiras, que cobre o monte, vai-se iluminando pouco a pouco e saindo da sombra, e os troncos, que ainda estão na sombra, parecem estar ausentes, enquanto que as copas prateadas já são visíveis. Parece que alguma névoa já se estendeu por sobre o monte, mas não é mais do que o acinzentado das frondes à luz ainda incerta da manhã.

Jesus está sozinho debaixo de uma oliveira. Mas não está no Getsêmani. Porque o Getsêmani fica paralelo, por assim dizer, ao Monte Mória, e o Mória está à sua frente. Portanto, estamos ao norte de Jerusalém, para além das tumbas dos reis. Jesus está rezando ainda e não cessa de fazê-lo, nem mesmo quando os chilreios dos passarinhos já lhe dizem que o dia chegou. Somente quando o primeiro raio do sol que já se levantou acende um ponto de ouro, até agora apagado, nas cúpulas do Templo, é que Ele se põe em pé, levanta-se, sacode o manto, que está cheio de poeira e de algumas folhinhas secas, que se agarraram ao pesado tecido, alisa com a mão a barba e os cabelos, depois ajusta as vestes e a cintura, examina as correias das sandálias, torna a vestir o manto, e já vai descer do monte por uma senda mal aberta no meio dos troncos. Talvez Ele se dirija para aquela casinha que fica a meia encosta, de cujo telhado está saindo um pouco de fumaça. Mas, não. Ele se desvia para uma estradinha mais larga, que desce para a estrada mestra, indo para a cidade.

533.2Atrás de Jesus, como se o monte estivesse se desfazendo, vem vindo Iscariotes. Eu digo “como se o monte estivesse se desfazendo”, porque ele vem correndo como um doido para alcançar o Mestre. E tendo chegado ao ponto de alcance de sua voz, ele chama Jesus. E Jesus para. Judas, ofegante, chega até Ele:

– Mestre, foi bom para mim ter pensado em vir procurar-te! Irias embora assim, sem mim? Antes me dizias que te esperasse na casa, que com certeza virias. Mas, pelo que vejo…

– Eu não disse a todos que vos esperaria na Porta de Herodes ao romper da aurora? Pois aí está a aurora. E Eu vou indo para a Porta de Herodes.

– Sim, mas… isso era para os outros. Mas nós dois estávamos juntos.

– Juntos?

Jesus está muito sério.

– Sim, Mestre. Nós viemos embora juntos. Tu assim quiseste. Depois preferiste ir rezar sozinho. Mas eu estava disposto a ir contigo.

– Em Nobe mostraste claramente que não te agradava passar a noite em oração com o teu Mestre. E Eu te poupei o teres que fazer um ato forçado de virtude, pois não teria servido para nada. O bem, é preciso que se saiba fazê-lo espontaneamente, para que tenha o seu perfume e seja fecundo. Do contrário, não é mais do que uma… pantomima e, às vezes, até pior do que uma pantomima.

– Mas eu… 533.3Por que estás tão severo comigo de uns tempos para cá? Será que não me amas mais?

– Com maior razão do que tu, Eu poderia perguntar-te: Não me amas mais? Mas Eu não te pergunto. Mesmo porque essa pergunta seria inútil. Eu não faço nunca coisas inúteis.

– É. Isso mesmo. Porque Tu sabes que eu te amo.

– Eu quereria sabê-lo, Judas de Keriot. E gostaria de poder dizer-te: Eu sei que tu me amas. Mas como não faço nunca coisas inúteis, assim também não digo palavras falsas. Por isso Eu não te digo que sei que tu me amas.

– Mas como, Mestre? Eu não te amo? Eu não trabalho para Ti? Podes duvidar disso? Isso me entristece. Eu que, logo que compreendo que uma coisa te entristece, não a faço mais e procuro que ela não seja feita! Olha: eu compreendi que te desagradava que eu… saísse de noite. E não saí mais. Compreendi que te cansavam além das medidas as disputas com os teus adversários. Eu fui e não me foram poupadas as ofensas; fui dizer a eles que deixassem daquilo, e tu estás vendo que não estás sendo mais importunado. E espero que não o sejas nem no Templo. Não és justo, Mestre, com o pobre Judas.

– És o primeiro entre os que me acompanham que me censura por injustiça…

– Oh! Perdão! Mas as tuas palavras, a tua severidade tanto me entristecem que eu nem sei mais refletir. Isso me endoidece, podes crer. Ora, vamos, minha paz, façamos a paz entre nós. Eu quero estar contigo. Como se formasse uma só coisa contigo. Juntos sempre…

– Há tempo estávamos assim. Mas agora, dize-me, Judas: quando é que o estamos?

– Estás falando ainda daquela noite? Ou, então, porque eu não estive contigo em Betábara? Mas Tu sabes por que eu não fui. Para o teu bem… E aquela noite… porque eu sou um homem jovem, Senhor! Mas tirando aqueles momentos nos quais, eu o confesso, eu posso ter errado, ou melhor, em que com certeza eu errei, eu estou sempre perto de Ti.

– Não é da proximidade corporal que Eu falo, mas da espiritual, daquela de pensamento e coração. Tu estás longe, Judas, do teu Salvador, e sempre mais te afastas dele.

– Eis! A mim todas as censuras! No entanto, vês com que humildade eu as recebo. Eu te disse: “Manda-me embora.” Mas Tu me detiveste… e agora, que queres de mim?

– O que Eu quero? Eu quereria não ter assumido inutilmente uma Carne por ti. Isto Eu quereria! Mas tu já és de um outro pai, de um outro país, já falas outra língua… 533.4Oh! Que hei de fazer, ó meu Pai, para limpar o Templo profanado deste teu filho e meu irmão?

Os olhos de Jesus lacrimejam. Ele está muito pálido ao falar a seu Pai.

Judas também fica cor de terra e se afasta um pouco. Jesus passa para diante dele alguns passos, de cabeça inclinada, fechado em sua tristeza. E é aí que Judas faz um gesto de escárnio, de ameaça, eu diria de um cruel juramento, por detrás do Inocente. Seu rosto, até então mascarado com um hipócrita verniz de doçura e humildade, torna-se ambíguo, duro, feio e cruel. Verdadeiramente demoníaco. Todo o ódio, mas um ódio não humano, está no fogo de suas ardentes pupilas, e o fogo desse ódio se concentra sobre a excelsa pessoa de Jesus. Depois, com um jogo de ombros, e uma batida de pé cheia de ira, Judas põe um ponto final ao seu propósito interior. E se põe de novo a caminho, todo confiante em si mesmo, como alguém que já tomou uma decisão irrevogável.

533.5A cidade com sua muralha já está perto. Há muita gente se aglomerando nas portas. Há forasteiros, hortelãos, moradores dos lugares vizinhos. Entre os que estão perto dos muros estão os onze apóstolos que, vendo o Mestre, vão ao seu encontro.

– Mestre, enquanto nós estávamos esperando aqui, veio um homem procurar-te. Ele disse que Valéria te pede que vás à sinagoga dos libertos romanos. Mas que vás mesmo. Que ela estará lá.

– Está bem. Nós iremos. Antes, vamos a José de Séforis, porque a minha veste não está limpa.

– Onde foi que dormiste, Senhor? –pergunta Pedro.

– Em nenhum lugar, Simão. Fiquei rezando no monte. A terra estava úmida e lamacenta. Tu estás vendo.

– Por que rezar assim a céu aberto, Senhor? Poderia fazer-te mal…

– Os elementos não fazem mal ao Filho do homem. As coisas de Deus são boas… Os homens é que odeiam o Homem.

Pedro suspira… Afastam-se dali, indo para a casa do galileu, acompanhados pelos outros.