335. 335. A falsa amizade de Ismael ben Fabie o hidrópico curado em dia de sábado.


11 de setembro de 1944.

335.1 Vejo Jesus caminhar rapidamente por uma estrada mestra, que o vento frio de uma manhã de inverno está varrendo e endurecendo. Os campos, de um lado e do outro da estrada, tem apenas uma rala penugem das plantações que despontam, uma coberta verde na qual há uma promessa de futuro pão, mas uma promessa na qual mal se acaba de pensar. Há sulcos sombreados ainda privados deste verde abençoado, e somente os que estão nos pontos mais ensolarados é que mostram um verdejar muito leve e já festivo porque fala da próxima primavera. As árvores frutíferas ainda estão nuas, nem mesmo um broto desabrocha sobre os seus ramos escuros. Somente as oliveiras possuem seu eterno cinzento verde, tristes tanto sob o sol de agosto como sob esta claridade do começo de uma manhã de inverno. E, junto com elas, mostram seu verde, um verde pastoso de cerâmica que acabam de ser pintadas, as folhas carnudas das cactáceas.

Jesus caminha, como de costume, a dois ou três passos à frente dos discípulos. Todos estão bem cobertos com suas capas de lã.

Em certo ponto, Jesus pára e se vira, interpelando os discípulos:

– Conheceis bem este caminho?

– O caminho é este, mas onde está a casa não se sabe, porque ela fica para dentro do terreno… Talvez esteja lá adiante, onde se vêem aquelas oliveiras…

– Não. Deve ser mais lá para o fundo, onde estão aquelas árvores grossas e sem folhas…

– Devia haver uma estrada para os carros…

Em suma, não sabem nada de preciso. Pessoas pela estrada ou pelos campos não se vêem. Vão indo ao acaso, para frente, procurando o caminho.

Encontram uma casinha de gente pobre, com dois ou três pequenos campos ao redor. Uma mocinha vem trazendo água de um poço.

– Paz a ti, menina –diz Jesus, parando no limite marcado pela sebe, onde há uma passagem, para quem vai e para quem vem.

– Paz a ti. Que queres?

– Uma informação. Onde é a casa de Ismael, o fariseu?

– Estás fora da estrada, Senhor. Deves voltar até a encruzilhada, e tomar a estrada que vai para o ponto do pôr-do-sol. Mas tens que caminhar muito, porque deves voltar até a encruzilhada, e depois andar e andar. Já comeste? Está fazendo frio, e o estômago vazio o faz sentir mais. Entra, se quiseres. Nós somos pobres. Mas Tu também não és rico. Por isso podes adaptar-te. Vem.

E grita com sua voz aguda:

– Mamãe!

335.2 Aparece na soleira uma mulher dos seus trinta e cinco, quarenta anos. Tem um rosto honesto, mas um pouco triste. Traz nos braços um menino de uns três anos, meio despido.

– Entra! O fogo está aceso. Eu te darei leite e pão.

– Eu não estou sozinho. Estou com estes amigos.

– Que entrem todos e a bênção de Deus esteja com os peregrinos que eu hospedo.

Entram em uma cozinha baixa e escura que alegra um fogo vivo. Sentam-se aqui e ali sobre caixa-bancos rústicos.

– Agora, eu vos vou preparar… É manhã… Não pus ainda nada em ordem. Desculpai-me.

– Vives sozinha?

É Jesus quem pergunta.

– Tenho marido e filhos. Sete. Os dois maiores estão ainda na feira de Naim. Eles devem ir lá porque meu marido está doente. Uma grande dor!… As meninas me ajudam. Este é o menorzinho. Tenho um outro, só um pouco maior.

O pequenino, agora vestido com sua pequena túnica, corre de pés descalços para Jesus e o olha curiosamente. Jesus lhe sorri. A amizade está feita.

– Quem és tu? –pergunta, confiante, o menino.

– Sou Jesus.

A mulher se vira para olhá-lo atentamente. Permaneceu com um pão nas mãos, entre o fogão e a mesa. Abre a boca para falar, mas depois cala.

O menino continua:

– Para onde vais?

– Pelos caminhos do mundo.

– Fazendo o que?

– Abençoando os meninos bons e as casas deles, onde são fiéis à Lei.

335.3A mulher torna a fazer um gesto. Depois ela faz um sinal a Judas Iscariotes, que é o que está mais perto dela. Ele se inclina para a mulher que pergunta:

– Mas, quem é teu amigo?

E Judas, inchado, (fica parecendo que o Messias é quem é pelo merecimento e bondade dele):

– É o Rabi da Galiléia, Jesus de Nazaré. Não o sabias, mulher?

– Este é caminho fora de mão e eu tenho tantos sofrimentos!… Mas poderei dizer a Ele?

– Podes –diz tranqüilamente Judas.

Parece-me um desses grandes do mundo, quando concedem audiência…

Jesus continua a falar com o menino, que lhe pergunta se Ele também tem meninos.

Enquanto a menina já vista e uma outra um pouquinho maior estão trazendo leite e vasilhas, a mulher vai para perto de Jesus. Fica um pouco hesitante, depois dá um grito sufocado:

– Jesus, piedade do meu marido!

Jesus se levanta. A ultrapassa com sua altura, mas a olha com tanta bondade que ela se anima.

– Que queres que Eu faça?

– É muito doente. Inchado como um odre, não pode dobrar-se e trabalhar. Não acha descanso porque se sufoca e fica impaciente… E nós temos meninos ainda pequenos…

– Queres que eu o cure? Mas, por que o queres de Mim?

– Porque Tu és Tu. Eu não te conhecia, mas ouvi falar de Ti. A sorte te trouxe à minha casa depois de ter-te procurado três vezes em Naim e Caná. Por duas vezes estava também meu marido. Procurava-te, ainda que viajar de carro o fizesse sofrer muito… Agora mesmo ele está fora com o irmão dele… Deram-nos a notícia de que o Rabi, depois de sair de Tiberíades, iria para a Cesaréia de Filipe… E ele foi para lá, a fim de esperar-te…

– Eu não fui a Cesaréia. 335.4Vou até o fariseu Ismael e depois irei em direção ao Jordão…

– Tu, que és bom, vais à casa do Ismael?

– Sim. Porque?

– Porque… Porque… Senhor, eu sei que Tu dizes de não julgar, de perdoar e amar-nos. Eu nunca te vi. Mas tenho procurado saber de Ti o mais que eu podia e pedia ao Eterno que eu pudesse ouvir-te pelo menos uma vez. Não quero fazer coisa que te desagrade… Mas, como podes deixar de julgar Ismael e amá-lo? Eu não tenho nada de comum com ele e por isso nada tenho a perdoar-lhe. As insolências que ele nos dirige quando encontra a nossa pobreza em seu caminho, a sacudimos para longe de nós com a mesma paciência com que sacudimos a lama e a poeira que ele nos joga quando ele passa veloz com suas carruagens. Mas amá-lo, e não julgá-lo, é difícil demais… Ele é muito mau!

– É muito mau com quem?

– Com todos. Oprime os servos, empresta com usura e exige cruelmente. Só se ama a si mesmo. É o homem mais cruel desta região. Não merece, Senhor!

– Eu sei. Tu dizes a verdade.

– E Tu vais lá?

– Ele me convidou.

– Desconfia, Senhor. Ele não terá feito por amor. Não te pode amar… E Tu… não o podes amar.

– Eu amo até os pecadores, mulher. Eu vim para salvar a quem se perdeu…

– Mas a este não salvarás. Oh! Perdão por ter julgado! Tu sabes… Tudo o que fazes está bem. Perdoa à minha língua estulta e não me castigues.

– Eu não te castigo. Mas não o faças mais. Ama mesmo aos malvados. Não pela sua malvadeza, mas porque é com o amor que se obterá a misericórdia que converte. Tu és boa e desejosa de o ser ainda mais. Tu amas a verdade, e a Verdade, que te está falando, te diz que te ama, porque és piedosa, segundo a Lei1, para com o hóspede e o peregrino e assim é que tens educado os teus filhos. Deus será a tua recompensa. 335.5Eu devo ir à casa de Ismael que me convidou para mostrar-me a muitos amigos seus que me querem conhecer. Eu não posso atender mais do que a teu marido, saibas, já está no caminho de retorno. Mas, dize a ele que sofra ainda um pouco e vá logo à casa do Ismael. Vai tu também. Eu o curarei.

– Oh! Senhor!…

A mulher está de joelhos aos pés de Jesus, e olha para Ele, rindo e chorando. Depois ela diz:

– Mas hoje é sábado!…

– Eu sei. Eu preciso que seja um sábado para que possa dizer alguma coisa a Ismael a respeito disso. Tudo o que eu faço, o faço com um fim claro e sem erro. Ficai sabendo disso todos, também vós, meus amigos, que estais com medo e quereríeis que eu seguisse uma conduta segundo as conveniências humanas, para não ficar prejudicado em nada. É o amor que vos guia. Eu o sei. Mas precisais saber amar melhor do que amais. Não desprezando nunca os interesses divinos por causa do interesse do vosso amado. Mulher: Eu vou e te vou atender. A paz seja perene nesta casa, onde se ama a Deus e sua lei e é respeitado o cônjuge e educada santamente a prole, onde o próximo é amado e procurada a Verdade. Adeus.

Jesus pousa a mão sobre a cabeça da mulher e das duas jovenzinhas, depois se inclina para beijar os meninos menores e sai.

Agora um sol de inverno tempera a aspereza do ar. Um rapazinho de uns quinze anos, está esperando com um carro rústico muito desconjuntado.

– Só tenho este, Senhor. Mas sempre irá mais depressa, e com mais comodidade.

– Não, mulher. Conserva descansado o cavalo, para irdes com ele à casa de Ismael. Mostra-me somente a estrada mais breve.

O rapazinho se põe a seu lado e, por campos e prados, vão em direção de uma ondulação do terreno, além da qual há uma grande depressão de alguns hectares, bem cultivada, ao no centro da qual há uma bonita casa larga e baixa, cercada por uma faixa de jardim bem tratado.

– A casa é aquela, Senhor, diz o rapaz. Se não precisas mais de mim, vou voltar para casa, a fim de ajudar minha mãe.

– Vai, e sê sempre um bom filho. Deus está contigo.

335.6… Jesus entra na suntuosa casa de campo do Ismael. Os servos, em grande número, correm ao encontro do Hóspede, certamente esperado. Outros vão avisar o patrão, o qual sai com grandes inclinações ao encontro de Jesus.

– Sê bem-vindo, Mestre, à minha casa.

– Paz a ti, Ismael ben Fabi. Desejaste-me. Eu vim. Por que me querias aqui?

– Para ser honrado por ter-te em minha casa e apresentar-te aos meus amigos. Quero que sejam também teus. Como quero que Tu sejas meu amigo.

– Eu sou amigo de todos, Ismael.

– Eu sei. Mas sabes? É bom ter amizades entre os grandes. E a minha e a dos meus amigos são assim. Tu perdoa se te digo, descuidas muito daqueles que te podem dar uma mão…

– E tu és desses? Por quê?

– Eu sou desses. Por quê? Porque te admiro, e quero que Tu sejas meu amigo.

– Amigo! Mas sabes tu, Ismael, qual o significado que Eu dou a essa palavra? Para muitos, amigo quer dizer conhecido, para outros, cúmplice, para outros, servo. Para Mim, quer dizer: fiel à Palavra do Pai. Quem não for assim, não pode ser meu amigo, nem Eu dele.

– Mas é justamente porque eu quero ser fiel, que eu quero a tua amizade, Mestre. Não acreditas? 335.7Olha: eis Eleazar que chega. Pergunta a ele como eu te defendi junto aos Anciãos. Eleazar, eu te saúdo. Vem, que o rabi quer te perguntar uma coisa.

Grandes saudações e recíprocos olhares indagadores.

– Dize-me tu, Eleazar, o que foi que Eu falei do Mestre, na última vez em que estivemos reunidos –diz Ismael. E depois se vai, deixando o amigo junto a Jesus.

– Oh! Um verdadeiro elogio! Uma defesa apaixonada! Um grande desejo de ouvir-te me veio, então, por quanto Ismael falou de Ti Mestre, como do maior profeta que já veio ao povo de Israel! Recordo-me que disse que ninguém tem palavras mais profundas do que as tuas, fascínio maior e que, se como sabes falar souberes também manejar a espada, não haverá rei maior do que Tu em Israel.

– O meu Reino!… Não é humano esse Reino, Eleazar.

– Mas o Rei de Israel?

– Abram-se as vossas mentes para compreender o sentido das palavras arcanas. Virá o Reino do Rei dos Reis. Mas não segundo as medidas humanas. Não para o que perece, mas para o que é eterno. A ele se chega, não por um caminho florido de triunfos nem sobre tapetes encarnados pelo sangue inimigo. Mas por um áspero caminho de sacrifício e pela humilde escada do perdão e do amor. As vitórias contra nós mesmos é que nos darão este Reino. E queira Deus que a maior parte de Israel possa entender-me. Mas não será assim. Vós pensais no que não é. Na minha mão haverá um cetro e o povo de Israel é que nela o terá colocado. Real e Eterno. Nenhum rei poderá tirá-lo da minha Casa. Mas muitos em Israel não poderão, sem fremirem de horror, porque ele terá um nome terrível para eles.

– Tu não nos achas capazes de seguir-te?

– Se o quisésseis, poderíeis. Mas não quereis. E por que não quereis? Vós já sois anciãos. A idade deveria dar-vos compreensão e justiça. Justiça também para convosco mesmos. Os jovens… esses poderão errar e arrepender-se depois. Mas vós! A morte está sempre perto dos anciãos. Eleazar, tu estás menos enredado nas teorias de muitos dos teus semelhantes. Abre o teu coração à Luz…

335.8 Ismael volta com cinco outros pomposos fariseus.

– Vinde, pois, na casa –diz o dono dela.

E, tendo deixado o átrio, rico de cadeiras e tapetes, entram em uma sala aonde foram levadas ânforas e bacias para as abluções. Dali passam depois para a sala de jantar, muito ricamente preparada.

– Jesus fica a meu lado. Entre Mim e Eleazar –ordena o dono da casa.

E Jesus, que se havia detido no fundo da sala junto aos discípulos um pouco atemorizados e abandonados, deve ir sentar-se no ponto de honra.

O banquete começa com numerosos pratos de carne e de peixe assados. Vinhos e, ao que me parece, licores, ou pelo menos água com mel, passam e repassam.

335.9Todos procuram fazer Jesus falar. Um velho, todo trêmulo, pergunta, com a voz rouca de decrépito:

– Mestre, é verdade o que se diz por aí, que Tu pretendes anular a Lei?

– Eu não mudarei nem um jota da Lei. Antes –(e Jesus marca bem as palavras)– Eu vim justamente para torná-la de novo íntegra, como quando foi dada a Moisés.

– Quer dizer que foi mudada?

– Nunca. Apenas ela teve a triste sorte de todas as coisas excelentes, quando são postas na mão do homem.

– Que queres dizer? Explica-te.

– Eu quero dizer que o homem, por uma antiga soberba ou pelo antigo estímulo da tríplice luxúria, quis retocar a reta palavra e fez dela uma coisa que oprime os fiéis, enquanto que, para os retocadores, ela não é mais do que um amontoado de frases… que vão sendo impingidas aos outros.

– Mas, Mestre! Os nossos rabinos…

– Isto é uma acusação!

– Não nos decepciones em nosso desejo de te ajudar!…

– Ah! Ah! ELes têm razão em dizer-te rebelde!

– Silêncio! Jesus é meu hóspede. Que fale livremente.

– Os nossos rabinos começaram seus grandes trabalhos com a santa intenção de tornar mais fácil a aplicação da Lei. O próprio Deus começou esta escola, quando às palavras dos dez Mandamentos, Ele acrescentou muitas minuciosas elucidações. Isto para que o homem não tivesse a desculpa de dizer que não tinha conseguido entender. Portanto, foi um trabalho santo o dos Mestres, que partem em pedacinhos, para os pequenos, o pão para os seus espíritos, dado por Deus. Mas é santo se tem reta intenção. E isso nem sempre aconteceu. E hoje em dia o é menos que nunca. Mas, por que quereis que Eu fale, vós, que vos sentis ofendidos, quando eu vos enumero as culpas dos mais poderosos?

– Culpas? Culpas? Que culpas temos nós?

– Eu gostaria que tivésseis só méritos!

– Mas não os temos. Tu assim pensas, e os teus olhos o dizem.

335.10Jesus, não é criticando que se granjeia a amizade dos poderosos. Tu nunca reinarás. Nem sabes a arte.

– Eu não vos peço para reinar como vós entendeis, nem mendigo amizades. Quero amor. Mas honesto e santo. Um amor que vá de Mim para aqueles que Eu amo, e que se manifeste, usando para com os pobres aquilo que Eu prego que seja usado: a misericórdia.

– Eu, desde que te ouvi, não emprestei mais com usura –diz um deles.

– E Deus te recompensará por isso.

– O Senhor é minha testemunha, se eu espanquei os meus servos que mereciam umas varadas, desde que me foi dita uma das tuas parábolas –diz um outro.

– E eu? Mais de dez alqueires de cevada eu deixei nos campos para os pobres! –diz ainda um outro.

Os fariseus estão se louvando em alto estilo.

Ismael ainda não falou nada. Jesus o interpela:

– E tu, Ismael?

– Oh! Eu! Eu sempre usei de misericórdia. E não tenho nada mais a fazer, do que continuar como sempre fiz.

– Boa coisa para ti! Porque, se assim é realmente, tu és o homem que não conhece o que são os remorsos.

– Oh! É certo que não!

Jesus o traspassa com seus olhos de safira.

335.11 Eleazar lhe toca, com a mão, no braço:

– Mestre, escuta. Eu tenho um caso especial para submeter ao teu parecer. Eu adquiri, faz pouco tempo, uma propriedade de um infeliz, que se viu arruinado por uma mulher. Ele ma vendeu, mas sem dizer-me que nela morava uma velha serva, a sua nutriz, já cega e meio hebetizada. O vendedor não a quer. Eu… não a quereria. Mas, jogá-la no meio da estrada… Que farias Tu, Mestre?

– E tu, o que farias, se tivesses de dar um conselho a outrem?

– Eu diria: “Conserva-a. Não será por um pão que irás ficar arruinado.”

– E por que falarias assim?

– Ora!… por que eu penso que faria assim? Porque eu gostaria que assim me fosse feito…

– Tu estás bem perto da Justiça, Eleazar. Faze como tu aconselharias, e o Deus de Jacó estará sempre contigo.

– Obrigado, Mestre.

Os outros estão resmungando entre si.

– Por que estais murmurando? –pergunta-lhes Jesus–. Será que não falei certo? Este homem também não falou certo? Ismael defende os teus hóspedes, tu, que sempre usaste de misericórdia.

– Mestre, Tu falas bem, mas… Se fizesse sempre assim!… Seríamos vítimas dos outros.

– E é melhor, na tua opinião, que sejam os outros as nossas vítimas, não é verdade?

– Eu não digo isto. Mas há casos…

– A Lei manda ter misericórdia…

– Sim, para com o irmão pobre, para com o forasteiro, o peregrino, a viúva e o órfão. Mas esta velha, que veio cair nos braços de Eleazar, não é irmã dele, nem é peregrina, nem forasteira, nem órfã, nem viúva. Ela não é nada dele. Nem mais nem menos do que uma mobília velha, que não é dele, mas ficou esquecida pelo seu antigo dono, na hora da entrega do que ele vendeu. Portanto, Eleazar poderia até expulsá-la, sem mais escrúpulos. Enfim, a culpa pela morte da velha não seria dele, mas do seu verdadeiro patrão…

– … o qual não a pode mais manter, pois ele também é pobre, e por isso, também ele está livre de obrigações. De modo que, se a velha morrer de fome, a culpa é da velha, não é assim?

– Assim é, Mestre. Esta é a sorte dos que… não servem mais para nada: os doentes, os velhos, os incapazes. Esses estão condenados à miséria, à mendicância. E a morte é a melhor coisa para eles. Assim foi, desde que o mundo existe, e assim será…

335.12 – Jesus, tem piedade de mim!

É uma voz lamentosa, que entra pelas janelas abertas, pois a sala está fechada e com os lampadários acesos. Talvez fechada por causa do frio.

– Quem está me chamando?

– Só pode ser algum importuno. Eu vou fazer que o expulsem. Ou talvez seja algum mendigo. Farei que lhe dêem um pão.

– Jesus, eu estou doente. Salva-me!

– Eu já o disse. É um importuno. Vou castigar os servos, por o terem deixado passar.

E Ismael se levanta.

Mas Jesus, mais novo que ele pelo menos uns vinte anos, e mais alto a partir da base do pescoço para cima, faz que ele se assente, pondo-lhe a mão no ombro e dando-lhe esta ordem:

– Fica quieto aí, Ismael. Eu quero ver quem é esse que me está procurando. Fazei que ele entre.

Entra um homem de cabelos ainda pretos. Pode ter uns quarenta anos. Mas está inchado como uma barrica e amarelo como um limão maduro. Tem os lábios arroxeados e semi-abertos, em uma boca ofegante. Vem acompanhando-o a mulher da primeira parte desta visão.

O homem anda para frente com dificuldade, tanto por causa da doença, como pelo medo que tem. Ele se vê olhado com más intenções! Mas Jesus deixou o seu posto, e foi para perto do infeliz, pegando-o pela mão, e levando-o para o centro da sala, para um espaço vazio, por entre as mesas dispostas em forma de “u”Disegno%20p.%20234%20(Q.%2030%2c%20p.%203400). E precisamente bem debaixo do lampadário.

– Que desejas de mim?

– Mestre… eu tenho procurado muito… e há muito tempo… Nada mais quero, a não ser a saúde… também para os meus filhos e minha mulher… Tu podes tudo… Olha a quê fiquei eu reduzido!

– E crês que Eu te possa curar?

– Se eu creio!… Cada passo que eu dou é para mim uma dor… cada sacudidela um sofrimento… e, no entanto, eu andei quilômetros para procurar-te… e depois, com o carro, ainda vim vindo atrás de Ti… mas nunca te alcançava… Se eu creio! … Eu estou espantado é por não estar ainda curado, quando a minha mão está dentro da tua, pois tudo de Ti é santo, ó Santo de Deus.

O pobrezinho sopra como um fole por causa do esforço que fez para dizer todas aquelas palavras. A mulher olha para o marido e para Jesus, e chora.

335.13 Jesus olha para eles, e sorri. Depois se vira, e pergunta:

– Tu, velho escriba –(dirige-se ao velho trêmulo, que falou por primeiro)–, responde-me: é permitido curar aos sábados?

– Aos sábados não é permitido fazer obra alguma.

– Nem mesmo salvar alguém do desespero? Isso não é um trabalho braçal.

– O sábado é consagrado ao Senhor.

– Que obra há mais digna de um dia sagrado do que a de fazer que um filho de Deus possa dizer ao Pai: “Eu te amo e te louvo, porque me curaste?”

– Isso ele deve fazer, mesmo que seja um infeliz.

– Cananias, estás sabendo que, neste momento, o teu bosque mais bonito está completamente incendiado, e que em toda a encosta do Hermon se esta refletindo a cor purpúrea das chamas?

O velhinho dá um salto, como se uma cobra o houvesse picado:

– Mestre, estas dizendo a verdade ou estás brincando?

– Eu digo a verdade. Eu estou vendo, e sei.

– Oh! Infeliz de mim! O meu bosque mais belo! São milhares de siclos que viraram cinza! Ó maldição! Que sejam malditos os cães que nele puseram fogo. Que pegue fogo nas vísceras deles, como pegou nas minhas árvores!

O velhinho está desesperado.

– É apenas um bosque, Cananias, e tu te lamentas tanto! Por que não dás louvor ao Senhor, no meio desta desventura? Este homem aqui não está perdendo a madeira das árvores, que tornam a nascer, mas sem a vida e o pão dos filhos, e deveria ele dar o louvor, que tu não dás. Portanto, escriba, não será lícito curar este aqui num sábado?

– Maldito sejas Tu, ele e o sábado. Eu tenho coisa bem diferente em que pensar…

E, tendo dado um empurrão em Jesus, que lhe havia posto uma mão sobre o braço, sai dali furioso, e ouve-se como ele brada, com sua voz rouca, que lhe tragam o seu carro.

– E agora? –pergunta Jesus, correndo o olhar sobre os outros–. E agora, dizei-me: É lícito, ou não?

Ninguém lhe responde. Eleazar inclina a cabeça, depois de ter entreaberto os lábios, que ele torna a cerrar, atingido pelo ar gelado, que desceu sobre todos na sala.

– Pois bem, Eu vou falar –diz Jesus.

Ele está impressionante e trovejante, em seu aspecto e sua voz, como acontece sempre quando está para operar algum milagre.

– Eu vou falar. E falo. E digo: Homem, que te seja feito conforme a tua fé. Tu estás curado. Dá louvor ao Eterno. Vai em paz.

O homem fica como se fosse uma estátua. Talvez até pensasse que iria ficar de repente esbelto como era antes. E lhe parece que não está curado. Mas, que erá que ele está sentindo? Ele dá um grito de alegria e se joga aos pés de Jesus e os beija.

– Vai! Vai! Sê sempre bom. Adeus!

O homem sai, acompanhado pela mulher, que até o fim se vira para saudar a Jesus.

335.14 – Mas, Mestre… Na minha casa… Em dia de sábado…

– Tu não o aprovas? Eu sei. E por isso Eu vim. Tu, meu amigo? Não. Meu inimigo. Não és sincero comigo, nem com Deus.

– E ainda me ofendes agora?

– Não. Eu digo a verdade. Tu disseste que Eleazar não está obrigado a socorrer aquela velha, porque ela não é de sua propriedade. Mas tu tinhas dois órfãos2 em tua propriedade. Eram filhos de dois servos teus, fiéis, que morreram no trabalho, um com a foice na mão, e a outra, morta pelo demasiado cansaço por ter-te devido servir como tu exigiste dela, que trabalhasse por si mesma e pelo marido. E tu ainda dizias: “Eu combinei com duas pessoas no trabalho e, para conservar-te, quero que faças o teu trabalho e o do morto.” E ela fez aquele trabalho e nele morreu, depois de ter concebido. Pois aquela mulher era mãe. E não houve para com ela nem a compaixão que se tem para com um animal que dá cria. Onde estão agora aquelas duas crianças?

– Não sei. Um dia elas desapareceram.

– Não fiques mentindo agora. Ter sido cruel já basta. Não é preciso fazer uso da mentira, para tornar ainda mais odiosos aos olhos de Deus os teus sábados, mesmo que sejam passados sem obras servis. Onde estão aquelas crianças?

– Não sei. Não o sei mais, podes crer.

– Eu sei. Eu as encontrei uma manhã de novembro, uma manhã fria, chuvosa, escura. Eu as encontrei esfaimadas e trêmulas, perto de uma casa, como dois cachorrinhos à procura de um pedaço de pão… Malditas e expulsas por quem tinha-as vísceras de um cão. Porque até um cão teria tido compaixão dos dois orfãozinhos. E tu e aquele homem não a tivestes. Os pais delas não te serviam mais, não é verdade? Eles tinham morrido. Os mortos só podem chorar em seus sepulcros, ao ouvirem os soluços de seus infelizes filhos, que os outros ainda desprezam. Mas os mortos levam os seus prantos e os prantos de seus filhos a Deus, dizendo: “Senhor, faze por nós as nossas vinganças porque o mundo nos oprime quando não pode mais aproveitar-se de nós.” Não te serviam mais os dois pequeninos, não é? Sim e não, já que a menina servia para respigar… E tu os expulsaste, negando-lhes até aqueles poucos bens que eram do pai e da mãe deles. Podiam morrer de fome, como dois cães em algum carreador. Podiam viver, tornando-se ele um ladrão e ela uma prostituta. Porque a fome leva ao pecado. Mas, que te importava isso?

Há pouco tempo, tu citavas a Lei, em apoio de tuas teorias. Pois, então, a Lei não diz: “Não façais mal à viúva e ao órfão, porque, se lho fizeres, e eles levantarem suas vozes, recorrendo a Mim, Eu ouvirei o grito deles, e o meu furor dardejará raios. Eu vos exterminarei pela espada, e as vossas mulheres é que ficarão viúvas, e os vossos filhos, órfãos?” Não diz assim a Lei? E, então, por que tu não a cumpres? Tu, que me defendes diante dos outros? Por que, então, não defendes a minha doutrina com o teu modo de viver? Tu queres ser meu amigo? E, então, por que fazes o oposto do que Eu te digo? Um de vós está correndo, a ponto de perder o fôlego, arrancando os cabelos, por causa da perda do seu bosque. Mas, por que não os arranca das ruínas do seu coração! E tu, que estás esperando para fazê-lo?

335.15 Por que é que quereis julgar-vos perfeitos, vós que, por uma eventualidade, vos dizeis grandes? E, se o fôsseis em alguma coisa, por que é que não procurais sê-lo em tudo? É porque me odiais, por descobrir Eu as vossas mazelas? Eu sou o Médico de vossas almas. Pode um médico curar, se ele não descobrir e limpar as feridas? Mas, não sabeis vós que muitos, e aquela mulher que acabou de sair é uma, merecem o primeiro lugar no banquete de Deus, ainda que na aparência eles sejam uns pobres desprezíveis? Não é a parte de fora, mas a de dentro, é o coração, é o espírito o que vale. Deus vos vê, lá do alto do seu trono. E Ele vos julga. Quantos deles, não vê Ele como melhores do que vós? Então, escutai. Como regra, agi sempre assim: Quando vos convidarem para um banquete de casamento, ide ocupar sempre o último lugar. Porque depois vos sentireis honrados, com dupla honra, quando o dono da casa vos disser “Meu amigo, vem mais para diante.” Será uma honra por merecimento e uma honra para a vossa humildade. Enquanto que… Que triste hora para um soberbo, ter que ficar envergonhado, ao ouvir que lhe dizem “Vai lá para o fundo, porque aqui está alguém que é mais do que tu.” Pois bem. Fazei o mesmo, quando se trata do banquete secreto do vosso espírito em suas núpcias com Deus. Quem se humilha, será exaltado, e quem se exalta, será humilhado.

335.16 Ismael, não fiques com raiva de Mim, que estou te curando. Eu não te tenho ódio. Eu vim para curar-te. Tu estás mais doente do que aquele homem. Tu me convidaste para dar um brilho a ti mesmo, e para satisfazer aos amigos. A maior parte deles sem vontade, por soberba, e para se alegrarem. Não faças assim. Não convides os ricos, os amigos, os parentes. Mas, abre a tua casa, abre o teu coração aos pobres, aos mendigos, aos aleijados, aos coxos, aos órfãos e às viúvas. Eles te darão em troca as suas bênçãos. Mas Deus as transformará para ti em graças. E no fim… Oh! No fim, que sorte feliz vai ser a de todos os misericordiosos, que de Deus receberão a retribuição, na ressurreição dos mortos! Ai daqueles que acariciam somente a esperança de levar vantagem e depois, fecham seus corações ao irmão, que não lhes pode mais servir. Ai deles! Eu farei a vingança pelos abandonados.

– Mestre… eu… eu quero te contentar. Vou tomar ainda aquelas crianças.

– Não.

– Por quê?

– Ismael?!

Ismael abaixa a cabeça. Ele quer fazer-se de humilde. Mas é uma víbora, da qual se espremeu o veneno, e não morde, porque sabe que está sem ele, e fica esperando, porém, para morder…

335.17 Eleazar procura ter paz, dizendo:

– Felizes daqueles que se banqueteiam com Deus em seus espíritos e no Reino eterno. Mas, podes crer, Mestre. Por vezes é a vida que lhes cria obstáculos para isso. Os cargos… as ocupações…

Jesus diz aqui a parábola3 do banquete, e termina:

– Os cargos… as ocupações, tu disseste. É verdade. Mas por isso é que Eu te disse, no começo deste banquete, que o meu Reino se conquista com vitórias sobre si mesmos, e não com a vitória das armas em campo de batalha. O lugar na grande Ceia é para estes humildes de coração. Contanto que aquele coração queira. E basta uma palavra. E Eu vos tenho dito tantas. E fico olhando. Em um coração está nascendo uma planta santa. Em outro, há espinheiros para Mim, e dentro dos espinheiros há áspides e escorpiões. Não importa. Eu vou pelo meu caminho reto. Quem me ama, que me siga. Eu vou indo, e chamando. Os que são retos, venham a Mim. Eu vou indo e instruindo. Os que buscam a Justiça, que se aproximem da Fonte. Quanto aos outros… Quanto aos outros, julgá-los-á o Pai Santo. Ismael, Eu te saúdo. Não me odeies. Medita. E acredita que Eu fui severo por amor, não por ódio. Paz a esta casa e aos seus moradores, paz a todos, se merecerdes a paz.

1 Lei, para o estrangeiro em geral, está em: Êxodo 22,20; 23,9; Levítico 19,10.33-34; 23,22; Deuteronômio 10,19; 24,14.17-22; 26,11-13; 27,19. Jesus aponta em 55.2, o peregrino é “protegido pela lei de Deus.” O autor observa, 405.1, em Israel havia “o velho hábito de ser hospitaleiro para o peregrino.”
2 dois órfãos, isto é Maria e Mateus, encontrados em 298.2/6 e 299.2/8.
3 parábola, que não é relatada e que pode ser encontrada em: Lucas 14,16-24, a que se refere MV numa cópia datilografada.


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