99. 99. Em Tiberíades na casa de Cusa.


6 de fevereiro de 1945.

99.1 Vejo a bela e nova cidade de Tiberíades. Que ela seja nova e rica é o que me diz todo o seu conjunto, que tem um plano regulador mais ordenado do que o das outras cidades palestinas, e apresenta um conjunto harmonioso e urbano, como nem mesmo Jerusalém possui.

Belas alamedas e ruas retas, dotadas já de um sistema de escoamento, pelo qual não estagnam águas e imundícies pelas estradas, vastas praças com fontes, as mais belas, feitas com largas bacias de mármore. Palácios com ares ao estilo de Roma, com pórticos bem arejados. De alguns portões, abertos a esta hora matutina, nossos olhos podem ver amplos vestíbulos, peristilos de mármores decorados com magníficas cortinas, com cadeiras e mesas. Quase todos têm ao centro, um pátio lajeado com mármore, com uma fonte de repuxo, e tanques de mármore, cheios de plantas em flor. Em suma, é uma imitação da arquitetura de Roma, muito bem copiada e ricamente arremedada. As casas mais bonitas estão nas ruas mais próximas ao lago. As três primeiras, paralelas ao mesmo, são verdadeiramente senhoris. A primeira, ao longo da alameda, que segue a suave curva do lago, é absolutamente esplêndida.

A última parte da cidade é uma série de vilas, que têm a fachada principal para a rua posterior, e na direção do lago com opulentos jardins, que descem, até serem lambidos pelas ondas. Quase todas as casas têm um pequeno porto, no qual se vêm barcos de passeio com baldaquinos preciosos e cadeiras purpúreas.

Jesus parece ter descido do barco de Pedro, não no porto de Tiberíades, mas em algum outro lugar, talvez nos subúrbios, e caminha pela alameda ao longo do lago.

– Nunca estiveste em Tiberíades, Mestre? –pergunta Pedro.

– Nunca.

– Ah! Antipas fez bem as suas coisas, e em grande estilo, para adular a Tibério! É um belo vendido, aquele ali!…

– Parece-me esta mais uma cidade de repouso, que de comércio.

– O comércio fica do outro lado. Mas ela tem também muito comércio. É uma cidade rica.

– Estas casas são de palestinos?

– Sim e não. Muitas são de romanos, mas muitas… Oh! Sim! Por mais que estejam cheias de estátuas e semelhantes fábulas, são de hebreus.

Pedro suspira e murmura:

– … se nos tivessem tirado apenas a independência… mas nos levaram a fé… Estamos tornando-nos mais pagãos do que eles!…

– Não por culpa deles, Pedro. Eles têm os seus costumes e não nos forçam a adotá-los. Mas somos nós que queremos corromper-nos. Por alguma vantagem, por ser moda, por servilismo…

– Dizes bem. Mas o primeiro é o Tetrarca…

99.2– Mestre, estamos chegando –diz o pastor José–. Esta é a casa do intendente de Herodes.

Estão parados no fim da alameda, onde esta apresenta uma bifurcação, pela qual torna-se a segunda das ruas, enquanto as casas ficam entre ela e o lago. A casa indicada é a primeira, belíssima, toda rodeada por um jardim florido. Fragrâncias e ramos dos jasmineiros e das roseiras se espalham até o lago.

– É aqui que está Jônatas?

– Aqui, me disseram. É o intendente do intendente. Ele se deu bem aqui. Cusa não é mau, e é justo ao reconhecer os méritos do seu intendente. É um dos poucos da corte que é um homem honesto. Queres que eu vá chamá-lo?

– Vai.

José vai até o alto portão e bate. Acorre o porteiro. Conversam entre eles. Vejo que José faz um gesto de desapontamento e que o porteiro põe para fora sua cabeça cinzenta, e olha para Jesus, e depois pergunta alguma coisa, a qual José anui. Eles continuam a falar.

Depois, José vem em direção a Jesus, que esperou pacientemente à sombra de uma árvore.

– Jônatas não está aqui. Ele está no Alto Líbano. Foi levar Joana de Cusa para tomar aquele ar fresco e puro, pois ela está muito doente. Diz o servo que ele foi, porque Cusa está na corte, e não pode voltar, depois do escândalo da fuga de João, o Batista. A doente piorava e o médico dizia que aqui ela morreria. 99.3  Mas o servo diz para entrar e descansar. Jônatas falou do Messias menino. Também aqui és conhecido de nome, e esperado.

– Vamos.

O grupo se põe em movimento.

O porteiro, que olhou de relance, vê, e chama outros servos, abre completamente o portão, até agora entreaberto, e corre ao encontro de Jesus, com verdadeiro respeito.

– Derrama, Senhor, a tua bênção sobre nós e sobre esta triste casa. Entra. Oh! Como o Jônatas vai ficar triste, por não ter estado aqui! Era a sua esperança: ver-te. Entra, entra, e Contigo os teus amigos.

No átrio estão servos e servas de todas as idades. Todos respeitosamente se inclinam na saudação, também com curiosidade. Uma velhinha chora em um canto.

Jesus entra e abençoa com o seu gesto e a sua saudação de paz. Oferecem-lhe alguma coisa para comer. Jesus assenta-se em uma cadeira, e todos vão colocar-se ao seu redor.

– Vejo que não sou um desconhecido para vós –observa Jesus.

– Oh! Jônatas nos nutriu falando-nos de Ti. O Jônatas é bom. Ele diz que é assim, somente porque o beijo que te deu o tornou bom. Mas também é porque ele o é.

– Eu dei e recebi beijos… mas, como tu dizes, só nos bons é que eles aumentaram a bondade. Agora está ausente? Eu vim por causa dele.

– Eu disse: está no Líbano. Lá tem amigos… É a última esperança para a jovem patroa; se esta não ajudar…

99.4 A velhinha, em seu canto, chora mais forte. Jesus a olha interrogativamente.

– É Ester, a ama de leite da patroa. Está chorando porque não é capaz de resignar-se com a ideia de perdê-la.

– Vem, mãe. Não chores assim –convida Jesus–. Vem aqui junto a Mim. Não está dito que doença quer dizer morte!

– Oh! É morte! É morte! Desde quando teve aquele único e infeliz parto, ela está morrendo! As adúlteras têm partos secretos, e aí estão vivas, e ela, ela que é boa, honesta, querida, tão querida, vai morrer!

– Mas, que é que ela tem agora?

– Uma febre que a consome… É como uma lâmpada acesa, na ventania… cada dia mais forte, e ela mais fraca. Oh! Eu queria ir com ela. Mas Jônatas quis servas novas, porque ela está sem forças e deve ser levantada nos braços, e eu não estou mais boa… Boa para isso, não… mas para amá-la, sim… Eu a recolhi do seio de sua mãe… eu também era uma serva casada, e fazia um mês que tinha tido um filho, e eu lhe dei de mamar, porque a mãe dela, fraca, não podia… eu lhe servi de mãe, quando ela ficou órfã e só sabia dizer “mamãe”. Enchi-me de cabelos brancos e de rugas, velando-a em suas doenças… eu a vesti de noiva, a conduzi ao tálamo… sorri às suas esperanças de mãe… chorei com ela pelo filho nascido morto… Todos os sorrisos e lágrimas de sua vida recolhi… Todos os sorrisos e confortos do meu amor lhe dei… e agora ela está morrendo, e eu não estou perto dela…

A velha causa pena. Jesus a acaricia, mas não adianta.

– Escuta, mãe. Tens fé?

– Em Ti? Sim.

– Em Deus, mulher. Podes crer que Deus tudo pode?

– Eu creio, e creio que Tu, seu Messias, o podes. Oh! Já se fala na cidade do teu poder! Aquele homem ali (e mostra Filipe), há tempos, falava dos teus milagres perto da sinagoga. E Jônatas lhe perguntou: “Onde está o Messias?”, e ele disse: “Não sei.” Jônatas me disse, então: “Se Ele estivesse aqui, eu te juro que ela sararia.” Mas Tu não estavas aqui… e ele foi-se embora com ela… e agora ela morrerá…

– Não. Tem fé. Diz-me exatamente o que tens no coração: podes crer que ela não morrerá, por causa da tua fé?

– Por causa da minha fé? Oh! Se a queres, ei-la aqui. Até minha vida, toma-a, a minha velha vida… Somente faz que eu a veja curada.

– Eu sou a Vida. Dou vida e não morte. Tu lhe deste a vida um dia, com o leite do teu seio, e era uma pobre vida, que podia acabar. Agora, com a tua fé, lhe dás uma vida sem fim. Sorri, mãe.

– Mas ela não está aqui…

A velha está entre a esperança e o temor:

– Ela não está aqui, e Tu estás aqui…

– Tem fé. Escuta. Eu agora vou a Nazaré por alguns dias. Lá também tenho amigos doentes… Depois irei ao Líbano. Se Jônatas voltar dentro de seis dias, manda-o a Nazaré, procurar Jesus de José. Se ele não for, eu virei.

– Como o encontrarás?

– O arcanjo de Tobias me guiará. Tu fortalece-te na fé. Só isto te peço. Não chores mais, mãe.

A velha, ao invés, chora mais forte. Ela está aos pés de Jesus, com a cabeça sobre os divinos joelhos, beijando a mão bendita, e sobre ela derramando lágrimas.

Jesus, com a outra mão, a acaricia e, visto que outros servos docemente a repreendem porque está se acabando com aquele choro, Ele diz:

– Deixa-a chorar. Agora é um choro de alívio. Faz bem a ela. Ficais todos contentes, se a patroa recupera a saúde?

– Oh! Ela é tão boa! Quando alguém é assim, não é patrão, é um amigo, e há de ser amado. Nós a amamos. Podes crer.

– Eu leio em vossos corações. Sede vós também sempre melhores. Eu me vou. Não posso esperar. Tenho que pegar o barco. Eu vos abençoo.

– Volta, Mestre, volta outra vez!

– Eu voltarei. Mais e mais vezes. Adeus. A paz a esta casa e a todos vós.

Jesus sai com os seus, acompanhado pelos servos que o aclamam.

99.5 – És mais conhecido aqui do que em Nazaré –observa tristemente o primo Tiago.

– Esta casa foi preparada por alguém que teve verdadeira fé no Messias. Para Nazaré, Eu sou o carpinteiro… Nada mais.

– E… e nós não temos a força para anunciar-te, por aquilo que és…

– Não a tendes?

– Não, primo. Não somos heroicos como os teus pastores…

– Achas assim, Tiago?

Jesus sorri, olhando para o seu primo, que tanto se parece com seu pai adotivo, naquela cor castanha escura nos olhos e nos cabelos, e um ligeiro amorenado no rosto, enquanto que Judas é mais pálido na moldura de uma barba muito escura, e dos cabelos ondulados e tem seus olhos de um azul quase violeta, que vagamente lembram os de Jesus:

– Pois bem, Eu te digo que não te conheces. Tu e Judas sois dois fortes.

Os primos sacodem a cabeça.

– Vós ficareis persuadidos de que não estou errado.

– Vamos mesmo para Nazaré?

– Sim. Quero falar com minha Mãe e… fazer mais outra coisa. Quem quiser ir, vai.

Todos querem ir. Os mais contentes são os primos.

– É por causa do pai e da mãe, entendes?

– Entendo. Passaremos por Caná e depois iremos para lá.

– Por Caná? Oh! Então iremos à casa de Susana. Ela nos dará ovos e frutas para o pai, Tiago.

– E, certamente também do seu bom mel de que ele tanto gosta!

– E o nutre.

– Pobre pai! Sofre tanto! Como uma planta que foi desarraigada, sente faltar-lhe a vida… e não quereria morrer…

Tiago olha para Jesus. Com um mudo pedido… Mas Jesus não demonstra vê-lo:

– José também morreu assim de dores, não é verdade?

– Sim –responde Jesus–. Mas ele sofria menos porque estava resignado.

– E, além disso, ele te possuía.

– Alfeu também poderia possuir-me…

Os primos suspiram tristes, e tudo termina.