464. 464. Na casa de campo de Cusa, a tentativade eleger Jesus rei. O testemunho do Predileto.


30 de julho de 1946.

464.1 No outro lado do rio, perto da passagem pela ponte, já está a espera um carro coberto.

– Sobe, Mestre. Não ficarás cansado, por mais longa que seja a viagem? Não digo pelo comprimento do caminho, pois eu dei ordens para que estejam sempre preparadas várias juntas de bois, a fim de não dar pretextos aos hóspedes mais observantes da Lei… Tenhamos compaixão deles…

– Mas, onde estão eles?

– Já foram à nossa frente em outros carros. Tobiazinho?

– Patrão? –diz o guia que está encangando os bois.

– Os outros hóspedes, onde estão?

– Oh! Já estão muito à frente. Já devem estar chegando à casa.

– Estás ouvindo, Mestre?

– Oh! Nós tínhamos certeza deque terias vindo. Por que não terias de vir?

– Porque! Cusa, Eu vim para mostrar-te que Eu não falto à palavra. Somente faltam à palavra os vilões, os que têm culpas e por isso estão com medo da justiça… A justiça dos homens infelizmente é assim. Eles deveriam ter medo da primeira, da única, daquela de Deus. Mas Eu não tenho culpas, nem tenho medo dos homens.

– Mas, Senhor! Os que estão comigo todos te veneram! Como também eu. E não devemos te causar medo, por motivo algum! Nós queremos prestar-te uma homenagem, mas não insultar-te!

Cusa está entristecido, e quase indignado.

Jesus, sentado à frente dele, enquanto o carro vai rodando lentamente, chiando por entre os verdes campos, responde:

– Mais do que a guerra declarada dos inimigos, Eu devo temer a guerra traiçoeira dos falsos amigos e também a dedicação injusta de amigos que são verdadeiros, mas que ainda não Me compreenderam. E tu és um deles. Não te lembras daquilo que Eu te disse1 em Beter?

– Eu já te compreendi, Senhor –murmura Cusa, mas não muito seguro, e sem responder diretamente à pergunta.

– Sim. Tu me compreendeste. Sob a rajada do vento da dor e da alegria, o teu coração se tinha tornado puro, do mesmo modo como depois de um temporal, que termina com um arco-íris e o horizonte fica claro. Tu estavas enxergando bem. Depois… Volta-te, Cusa, e olha para o nosso Mar da Galileia. Durante a noite, as orvalhadas haviam purificado a atmosfera, e o frescor da noite tinha acalmado a evaporação das águas. O céu e o lago estavam como dois espelhos de safira clara que refletiam, cada um deles, suas belezas, e as colinas, ao redor, estavam frescas e limpas, como se Deus as tivesse criado naquela noite. Mas, olha agora. A poeira das estradas da costa, levantada pelos homens e pelos animais, o ardor do sol, que faz com que se levantem nevoeiros dos bosques e dos jardins, como se fossem umas chaleiras sobre um fogão, incendeia o lago, fazendo que suas águas se evaporem. Olha como tudo is-so perturbou o horizonte. Antes, as margens pareciam estar mais perto, bem visíveis, devido à grande claridade do ar. Mas agora, olha só… Elas parecem estar meio encobertas, indistintas, como certas coisas que vemos por debaixo de um véu de água suja. Foi assim que aconteceu contigo. Primeiramente, veio a poeira: a natureza humana. Depois o sol: o orgulho. Cusa, não fiques perturbando-te…

Cusa inclina a cabeça, fica brincando distraidamente com os adornos de sua veste e com a fivela do seu rico cinto, do qual está pendente a espada.

Jesus fica calado, com os olhos fechados, como se estivesse com sono. Cusa respeita o descanso dele, ou o que ele acha que é um descanso.

464.2 O carro vai indo devagar, rumo ao sudeste, para o lado das leves ondulações do terreno, que são, ou pelo menos me parecem ser o primeiro degrau do altiplano, que é o limite do vale do Jordão, deste lado oriental. Certamente pela abundância das águas subterrâneas ou de alguma corrente, os campos por aqui são muito férteis e belos. Cachos e frutas se deixam ver em todas as copas.

O carro se desvia para uma estrada particular, deixando a estrada mestra, vai penetrando por sob a cobertura bem ramosa de uma alameda, por onde há muita sombra e frescor, pelo menos em comparação com a fornalha que é a estrada ensolarada. Uma casa baixa, branca, de nobre apresentação, está no fundo da alameda. Outras casinhas mais humildes estão espalhadas por aqui e por ali pelos campos e vinhedos. O carro passa por cima de uma pequena ponte, que é o limite, além do qual o pomar se transforma em um jardim, com a alameda coberta de cascalho. Com o barulho diferente produzido pelas rodas sobre as pedrinhas, Jesus abre os olhos.

– Já estamos chegando, Mestre. Aí estão os convidados que já perceberam nossa chegada e já vem se aproximando –diz Cusa.

E, de fato, são muitos, todos da classe rica, que se aglomeram na entrada da alameda, e, com pomposas inclinações, saúdam ao Mestre que chega. Eu estou vendo e reconhecendo Manaém, Timoneu, Eleazar, e me parece estar vendo outros, que para mim não são novos, mas dos quais não sei dizer os nomes. E, além desses, muitos outros que eu nunca vi, nem mesmo em particular. Muitos deles trazem espadas, outros ostentam, em lugar das espadas, uma grande quantidade de ornatos: uns são fariseus, outros sacerdotes e rabis. O carro para e Jesus desce primeiro, saudando a todos com uma inclinação. Os discípulos Manaém e Timoneu dão um passo à frente para fazerem a Jesus uma saudação particular. Depois é Eleazar que vai para a frente (é aquele fariseu do banquete na casa do Ismael), e com ele abrem alas os dois escribas que fazem questão de ficarem conhecidos. Um deles é aquele que em Tariqueia viu ficar curado o seu filhinho no dia da primeira multiplicação dos pães, e o outro é aquele que, aos pés do monte das bem-aventuranças, deu comida a todos. E ainda mais um, um que que abre alas para passar: é aquele fariseu que, na casa do José, no tempo da colheita, foi instruído por Jesus sobre a verdadeira causa do seu injusto ciúme.

Cusa passa a fazer as apresentações, e eu quero poupar a todos o desprazer de ouvi-las, porque perde-se a lembrança entre os muitos Simões, Joãos, Levis, Eleazares, Natanaéis, Josés, Filipes, etc. etc.; saduceus, escribas, sacerdotes, herodianos na maior parte, e até devo dizer que estes últimos são em maior número, um ou outro prosélito ou fariseu, dois sinedritas e quatro sinagogos e, perdido não sei como aqui dentro, até um essênio.

Jesus faz uma inclinação a cada nome pronunciado, fixando um penetrante olhar em cada rosto, e às vezes, esboçando um leve sorriso, como quando alguns deles, para tornarem mais claras suas identidades, o fazem lembrar de algum fato que os pôs em relacionamento com Jesus.

Assim, por exemplo, aconteceu com um certo Joaquim de Bozra, que diz:

– Minha mulher Maria foi curada por Ti da lepra. Bendito sejas Tu.

E o essênio também diz:

– Eu te ouvi, quando falaste perto de Jericó e um dos nossos irmãos deixou as margens do Mar Salgado para seguir-te. E tive ainda notícias de Ti, quando do milagre sobre o Eliseu de Engadi. Naquelas terras nós também Te estávamos esperando.

O que eles esperavam, eu não sei. Só sei que, ao dizer isso, aquele homem ficou olhando, com um certo ar de superioridade, um pouco exagerado para os outros que certamente não tinham rostos de místicos, mas, em sua maior parte, parecem estar usufruindo, muito alegres, do bem-estar que a posição lhes proporciona.

464.3 Cusa afasta o seu Hóspede daquelas cerimônias das saudações, o leva para um cômodo compartimento onde podem lavar-se, e lá o deixa para as abluções de costume, que, com o calor que está fazendo, devem ter sido bem recebidas. Volta para os seus convidados com os quais conversa demoradamente, até quase que começam uma discussão, porque os presentes são de pareceres diferentes. Alguns querem entabular logo a conversa sobre os seus assuntos… Que assuntos? Outros, ao contrário, propõem que não se comece invectivando logo o Mestre, mas que se procure persuadi-lo pois eles lhe querem tributar um profundo respeito. Quem vence é este último grupo, que é o mais numeroso. Cusa, como dono da casa, chama os seus servos para prepararem um banquete, que deve estar pronto lá pela tarde, deixando assim o tempo para Jesus, “que está cansado, como se pode ver, de tanto ficar parado.” Todos aceitam esse parecer, a tal ponto, que, quando Jesus torna a aparecer, os convidados o saúdam, se afastam com grandes inclinações, deixando-o sozinho com Cusa, que o leva para um salão sombreado, onde há uma cama baixa, forrado com ricos tapetes.

Mas Jesus ficou lá somente até depois de ter entregue a um servo as sandálias e as vestes, para que ele sacudisse delas a poeira e alisasse os amarrotamentos provenientes das peregrinações do dia anterior. Ele não tem dormido. Sentado, então, à beira da pequena cama, com os pés descalços sobre uma esteira no pavimento, vestido com a túnica curta e a capa íntima, que lhe cobre o corpo até os cotovelos e os joelhos, está preocupado em profundos pensamentos. E, se o seu vestuário, que ficou tão reduzido, faz que Ele pareça mais jovem, pela perfeita e esplêndida harmonia do traje com seu corpo viril, a profundidade do seu pensamento, que certamente não é alegre, faz que lhe apareçam no rosto umas rugas, e o torna meio sombrio, com uma dolorosa expressão de cansaço, que o faz parecer ter mais idade do que a que tem.

Na casa não há nenhum barulho, nem nos campos, onde os cachos vão ficando maduros com este forte calor. Os toldos escuros, descidos diante das portas e das janelas, não têm o menor movimento.

464.4 E assim passam as horas… A penumbra vai crescendo com o descer do sol. Mas o calor ainda continua. E continua a meditação de Jesus. Enfim, a casa dá sinais de ter despertado. Ouvem-se vozes, o ruído dos que já acordaram e as ordens que estão sendo dadas.

Cusa move lentamente o toldo, para poder ver sem incomodar.

– Entra! Eu não estou dormindo –diz Jesus.

Cusa entra. Ele já está com sua veste ornada para o banquete. Olha depois e vê que a pequena cama não dá sinais de ter acolhido um corpo.

– Tu não dormiste? Por quê? Estás cansado…

– Eu descansei no silêncio e na sombra. Para Mim, basta.

– Vou mandar vir uma veste para Ti…

– Não. A minha certamente já está enxuta. Eu gosto mais dela. O que Eu te peço é que tomes providências para que Eu tenha o carro e a barca a minha disposição.

– Como quiseres, Senhor… Eu gostaria de deter-te até amanhã cedo.

– Não posso. Eu preciso ir…

Cusa faz uma inclinação e sai. Ouve-se um grande falatório.

Passa ainda muito tempo. O servo está de volta com a veste de linho lavada e fresca, com um bom cheiro de sol, com as sandálias já limpas da poeira e amaciadas com óleo ou com a graxa, que as torna brilhantes e flexíveis. Um outro servo vem atrás dele, levando uma bacia, uma ânfora e um pano para enxugar as mãos, e põe tudo sobre uma mesa baixa. Depois eles saem…

464.5 Jesus se reúne aos convidados no átrio que divide a casa de norte a sul, criando um espaço ventilado e agradável, com muitas cadeiras, todo adornado com toldos leves e de várias cores que, sem criar obstáculos à entrada do ar, ainda amenizam a luz. Agora eles estão puxados para um lado, deixando ver-se a cornija verde que circunda a casa.

Jesus está numa postura magnífica. Ainda que não tenha dormido, parece ter-se provido de forças, e os seus passos majestosos são os de um rei. O linho de sua veste, que Ele acabou de colocar, é alvíssimo, e seus cabelos, tornados brilhantes pelo banho da manhã, também resplendem suavemente, como um adorno de cor dourada, aos lados de seu rosto.

– Vem, Mestre. Nós estamos esperando somente a Ti –diz Cusa, e o introduz, em primeiro lugar, na sala onde estão as mesas.

Assentam-se, depois de terem feito a oração e mais uma ablução das mãos, e começam a refeição, muito pomposa como sempre, mas silenciosa a princípio. Mas depois o gelo se quebra.

Jesus está perto de Cusa e Manaém está do outro lado, tendo por companheiro Timoneu. Os outros vão sendo colocados pelo Cusa, por sua experiência como cortesão, aos lados da mesa, que tem a forma de um U. Somente o essênio é que se recusou obstinadamente a ir tomar parte no banquete e a ir sentar-se à mesacom os outros. Somente quando um dos servos, por ordem de Cusa, lhe oferece um pequeno cesto cheio de frutas, é que ele aceita ir sentar-se diante de uma mesa baixa, depois de não sei quantas abluções, e depois de ter arregaçado as compridas mangas de sua veste alva, pelo temor de manchá-las, ou por aquilo fazer parte do rito... eu não sei.

É um banquete estranho, no qual todos agem mais por meio dos olhares do que por palavras. Ouvem-se apenas algumas frases curtas de cortesia e ficam estudando um ao outro, isto é, Jesus estuda os presentes, e esses O estudam.

464.6 Finalmente Cusa faz sinal aos servos para que se retirem, depois de terem posto sobre as mesas grandes bandejas com frutas bem frescas que talvez tenham sido conservadas no poço, muito bonitas, e eu diria que é como se estivessem geladas, pois estão mostrando aquele aspecto característico das frutas tiradas de uma geladeira. Os servos saem, depois de terem acendido as lâmpadas, que, por enquanto, são inúteis, visto que ainda está de dia e o dia continua bem cheio de luz, durante todo o demorado pôr do sol do verão.

– Mestre –começa Cusa–, Tu deves ter perguntado a Ti mesmo qual a causa desta nossa reunião e deste nosso silêncio. Mas o que nós temos a dizer-te é muito grave, e os ouvidos dos imprudentes não o devem ouvir. Agora estamos sós e podemos falar. Tu o estás vendo. Há em todos os presentes o maior respeito para contigo. Estás entre os homens que Te veneram como Homem e como o Messias. A tua justiça, a tua sabedoria, os dons com os quais Deus te agraciou são conhecidos e admirados por nós. Para nós, Tu és o Messias de Israel. Messias no sentido espiritual e no sentido político. És o Esperado, que porá um fim à dor e ao aviltamento de um povo inteiro. E não somente deste povo encerrado dentro dos limites de Israel, ou melhor, da Palestina, mas do Povo de todo Israel, das milhares e milhares de colônias da Diáspora espalhadas por toda a terra e que fazem ecoar o nome de Javé sob todos os céus para que sejam conhecidas as promessas e as esperanças que agora estão se cumprindo, de um Messias restaurador, de um Libertador e Criador da verdadeira independência da Pátria e de Israel, isto é, da maior das Pátrias que podem existir no mundo, a Pátria rainha e dominadora, canceladora de toda lembrança do passado e de todo sinal vivo de servidão, o Hebraísmo triunfante sobretudo e sobre todos e para sempre, porque assim foi dito e assim se cumpre. Senhor, aqui, diante de Ti tens todo Israel, nós representantes das diversas classes deste povo eterno, castigado, mas bem amado pelo Altíssimo, que o proclama “seu”. Tens contigo o coração que pulsa, o coração sadio de Israel com os membros do Sinédrio e os sacerdotes; tens o poder e a santidade com os fariseus e os saduceus; tens a sabedoria com os escribas e os rabis; tens a política e a coragem com os herodianos; tens as rendas com os ricos; tens o povo com os mercadores e possessores; tens a Diáspora com os prosélitos e tens até os separados, que agora estão querendo reunir-se, porque estão vendo em Ti o Esperado: os essênios, os desunidos essênios. Olha, ó Senhor, para este primeiro prodígio, este grande sinal da tua missão, da tua verdade. Tu, sem violência, sem teres meios, sem ministros, sem milícias, sem espadas, reúnes todo o teu povo, assim como um reservatório reúne as águas de mil nascentes. Tu, quase sem dizeres nada, completamente sem imposições, nos reúnes, um povo dividido pelas desventuras, pelos ódios, pelas ideias políticas e religiosas, e nos pacifica. Ó Príncipe da Paz, alegra-te por teres redimido e restaurado, mesmo antes de teres recebido o cetro e a coroa. O teu Reino de Israel já começou. As nossas riquezas, as nossas forças, as nossas espadas estão a teus pés. Fala! Dá ordens! A hora chegou.

464.7 Todos aprovam o discurso de Cusa. Jesus, com os braços cruzados sobre o peito, fica calado.

– Não dizes nada? Não respondes, ó Senhor? Talvez o assunto te tenha espantado… Talvez te sintas despreparado, tenhas dúvidas sobretudo se Israel está preparado… Mas não o está. Escuta as nossas vozes. Eu falo, e comigo fala Manaém, a favor de um Palácio Real. O que aí está não merece mais existir. Ele é a vergonha malcheirosa de Israel. É a tirania desonrosa, que oprime um povo e se inclina servilmente para adular a um usurpador. Mas a hora dele chegou. Ergue-te, ó Estrela de Jacó, espanta as trevas daquele coro de delitos e vergonhas. Aqui estão aqueles que, chamados herodianos, são os inimigos dos que profanam esse nome para eles sagrado de herodianos. Falai, vós.

– Mestre. Eu estou velho, e me lembro do que era o esplendor daquele tempo. Assim como o nome de um herói foi posto em uma carniça fedorenta, assim também o nome de Herodes foi transmitido aos degenerados descendentes que desprezam o nosso povo. É hora de repetir o gesto, muitas vezes feito em favor de Israel, quando alguns indignos monarcas assentavam-se sobre as dores do povo. E somente Tu és digno de fazer esse gesto.

Jesus permanece calado.

– Mestre, achas que ainda possamos duvidar? Temos andado escrutando as Escrituras. Tu és o Esperado. Tu deves reinar –diz um escriba.

– Tu deves ser Rei e Sacerdote. Como um novo Neemias, e maior

do que ele2, deves vir e purificar. O altar foi profanado. Que o zelo do Altíssimo te estimule –diz um sacerdote.

– Muitos de nós te têm combatido. São aqueles que têm medo do teu reinar sábio,mas o povo está contigo, os melhores de nós estamos com o povo. Precisamos de um sábio.

– Precisamos de um puro.

– De um verdadeiro rei é que precisamos.

– De um santo.

– De um Redentor. Estamos sendo sempre escravos de tudo e de todos. Defende-nos, Senhor!

– No mundo somos pisados, porque, não obstante o nosso número e a nossa riqueza, somos como umas ovelhas sem pastor. Manda dar o toque de chamada, junto com o velho grito: “Para as tuas tendas, ó Israel”, e de todos os pontos da Diáspora, como uma multidão, levantar-se-ão os teus súditos, para fazerem soçobrar os vacilantes tronos desses poderosos, que não são amados por Deus.

Jesus continua calado. É o único que ainda está sentado, calmo, como se não se estivesse tratando dele, no meio de uns quarenta muito agitados, dos quais eu recolhi apenas um décimo dos motivos pelos quais falam todos juntos em uma confusão como nas feiras, enquanto Ele conserva sua postura e seu silêncio.

Todos gritam:

– Dize uma palavra! Responde!

Jesus põe-se de pé lentamente, apoiando com firmeza as mãos na beira da mesa. Faz-se um profundo silêncio. Queimado pelo fogo de oitenta pupilas, Ele abre os lábios, e os outros também abrem os seus, como para aspirar a resposta dele. E a resposta é breve e clara:

– Não.

– Mas, como? Mas, por quê? Tu nos estás traindo? Estás traindo o teu povo? Renegas, então, a missão de Rei? Rejeitas a ordem de Deus!…

É uma grande vozearia. Um tumulto! Rostos que ficam vermelhos, olhos que soltam chispas, mãos que estão quase ameaçando… Mais do que fiéis, eles parecem ser uns inimigos. Mas é assim mesmo, quando os mansos viram umas feras para os que estão contra as ideias deles.

464.8Àquele grande tumulto sucede um estranho silêncio. Parece que, tendo exaurido todas as suas forças, eles se sintam extenuados. Olham-se uns aos outros, desolados… e alguns estão inquietos…

Jesus corre o olhar ao redor de Si e diz:

– Eu sabia que era para isso que me queríeis aqui. E sabia da inutilidade dos passos que estáveis dando. Cusa pode dizer o que falei a ele em Tariqueia. Eu vim para mostrar-vos que não tenho medo de nenhuma cilada, porque ainda não chegou a hora. E não a temerei, quando a hora da cilada já estiver sobre Mim, porque foi para isso que Eu vim. Vim para persuadir-vos.

Vós, não todos, mas muitos dentre vós, estão de boa fé. Eu devo corrigir o erro, no qual de boa fé caístes. Estais vendo? Eu não vos censuro. Não censuro a ninguém, nem mesmo àqueles que, por serem meus discípulos fiéis, deveriam saber com justiça e regular suas próprias paixões com justiça.

Não te estou censurando, ó justo Timoneu. Mas Eu te digo que, no fundo, em vez do teu amor que Me quer honrar, é ainda o teu eu que se agita e sonha com tempos melhores, nos quais possas ver feridos aqueles que te feriram.

Eu não censuro a ti, Manaém, ainda que mostres ter-te esquecido da sabedoria e do exemplo, todos espirituais, que recebes-tes de Mim e do Batista, antes de Mim. Mas Eu te digo que também em ti existe uma raiz de humanidade, que se levanta depois do incêndio do amor por Mim.

Eu não te censuro, Eleazar, homem tão justo com a velha que te foi deixada, sempre justo, mas que agora não és justo.

Eu não te censuro, ó Cusa, ainda que o devesse fazer, porque em ti, mais do que em todos aqueles que me quereis por rei, em sua boa fé, está vivo o teu eu. Rei, sim, tu me queres. Não há cilada em tuas palavras. Tu não vens para pegar-me em falta, nem para denunciar-me ao Sinédrio, ao Rei, a Roma. Mas, mais do que o amor, tu achas que tudo é amor, mas não é; mais do que pelo amor, tu trabalhas para vingar-te das ofensas que o Paço Real te houver feito. Eu sou teu convidado. Deveria silenciar sobre a verdade dos teus sentimentos. Mas Eu sou a Verdade em tudo, em todas as coisas. E falo. Para o teu bem. A mesma coisa digo de ti, Joaquim de Bozra, e de ti, escriba João. E de ti também, e de ti, e de ti.

E vai mostrando este, aquele, aquele outro, sem rancor, mas com tristeza… e depois continua:

– Eu não vos censuro. Porque não sois vós que quereis isso, espontaneamente. É a insídia, é o Adversário que trabalha, e vós… Vós sois, sem o saberdes, uns súcubos em suas mãos. Até o amor, o vosso amor, ó Timoneu, ó Manaém, ó Joaquim, ó vós que realmente me amais, até da vossa veneração, ó vós que em mim julgais ter encontrado o Rabi perfeito, até disso ele, o Maldito, se serve para fazer o mal. Mas Eu vos digo, como aos que não pensam como vós, mas têm suas vistas voltadas para o que desce sempre mais para baixo até chegarem às traições e delitos, e gostariam que Eu aceitasse ser rei, Eu lhes digo: “Não. O meu reino não é deste mundo. Vinde a Mim para que Eu instaure o meu Reino em vós, e não para outra coisa.” 464.9E agora deixai-me ir.

– Não, Senhor. Nós estamos decididos. Nós já pusemos em movimento as nossas riquezas, já preparamos os planos, decidimos sair desta incerteza que deixa Israel inquieto, e da qual se aproveitam os outros para prejudicar Israel. Tu vives cercado de ciladas. É verdade. Tens inimigos até no próprio Templo. E eu, um dos Anciãos, não o nego. Para pôr fim a isso, o remédio é este: a tua unção. Nós estamos prontos para a dar a ti. Não é a primeira vez que em Israel alguém é proclamado rei assim, para pôr um fim às desgraças nacionais e às discórdias. Aqui está quem, em Nome de Deus, pode fazê-lo. Deixa-nos agir –diz um dos sacerdotes.

– Não. Não vos é lícito. Não tendes autoridade para isso.

– O Sumo Sacerdote é o primeiro a querer isso, ainda que ele não esteja aqui presente. Ele não pode mais admitir o estado atual de dominação romana e dos escândalos do rei.

– Não mintas, sacerdote. Sobre os teus lábios a blasfêmia é duplamente impura. Talvez tu não saibas, e estejas enganado. Mas no Templo não é isso que se quer.

– Crês, então, que nossa afirmação é uma mentira?

– Sim. Se não de todos vós, mas de muitos de vós. Não mintais. Eu sou a Luz, ilumino os corações…

– Em nós se pode crer –gritam os herodianos–. Nós não amamos ao Herodes Antipas, nem a nenhum outro.

– Não. Vós amais somente a vós mesmos. É verdade. E não podeis me amar. Eu faria de vós uma alavanca para derrubar o trono, a fim de abrir-vos caminho para um poder ainda mais poderoso, para agravar o povo com uma opressão pior ainda. Seria um engano feito a Mim, ao povo e a vós mesmos. Roma esmagaria tudo, depois que já vos tivesse esmagado a todos.

– Senhor, entre as colônias da Diáspora há homens prontos para uma insurreição… e as nossas posses são para isso –dizem os prosélitos.

– As minhas também, e todo apoio da Auranítide e da Traconítide –grita aquele de Bozra–. Eu sei o que estou dizendo. Os nossos montes podem sustentar um exército e, se não houver insídias, poderá sustentá-lo depois, como um bando de águias a teu serviço.

– A Pereia também.

– Também a Gaulanítide.

– O Vale do Gabás está contigo!

– E contigo estão as margens do Mar Salgado, com os nômades que nos acham uns deuses, se Tu consentires em unir-te a nós –grita o essênio e prosegue com um discurso exaltado que se perde no clamor.

– Os montanheses da Judeia são da raça dos reis fortes.

– E os da Galileia são da têmpera de Débora. Até as mulheres, até os meninos são heróis!

– Achas que somos poucos? Somos fileiras e mais fileiras. O povo está todo contigo. Tu és o rei da estirpe de Davi, o Messias! Este é o grito que está sobre os lábios de sábios e de ignorantes, porque este é o grito dos corações. Os teus milagres… as tuas palavras… Os prodígios.

É uma confusão que eu não consigo acompanhar. Jesus, como uma rocha bem firme no centro de um turbilhão, não se move, nem reage. Está impassível. Mas o alvoroço ao redor dele, dos que fazem pedidos e imposições, dos que declaram suas razões, continua.

– Tu nos decepcionas. Por que é que queres a nossa ruína? Queres agir sozinho? Não o podes. Matatias Macabeu não recusou a ajuda dos Assideus, Judas livrou Israel com a ajuda deles… Aceita!

De vez em quando os gritos se unem para dizerem esta palavra. Mas Jesus não cede.

464.10 Um dos anciãos, já de bastante idade, está conversando com um sacerdote e um escriba mais velhos do que ele. Eles vão para a frente. Impõem silêncio. Fala o velho escriba, que chamou para ajudá-lo também o Eleazar e os dois escribas Joãos:

– Senhor, por que não queres cingir a coroa de Israel?

– Por que não é minha. Eu não sou filho de príncipe hebreu.

– Senhor, talvez Tu não o saibas. Eu, com este aqui e este outro fomos chamados um dia, porque três sábios vieram perguntar-nos onde estava aquele que tinha nascido para ser o rei dos hebreus. Compreendes? “Nascido para ser rei.” Nós fomos todos juntos, os príncipes dos sacerdotes, e os escribas do povo até o Palácio de Herodes, o Grande, para darmos a resposta. Conosco estava Hilel, o Justo. Nossa resposta foi esta: “Em Belém de Judá.” Tu, conforme nos consta, lá nasceste, e grandes milagres acompanharam o teu nascimento. Entre os teus discípulos há testemunhas dele. Podes Tu negar que foste adorado como Rei pelos três Sábios?

– Eu não nego.

– Podes negar que o milagre te precede, e te acompanha, e te segue como sinal do Céu?

– Não nego.

– Podes negar ser o Messias prometido?

– Não nego.

– Então, em Nome do Deus vivo, por que queres decepcionar as esperanças do povo?

– Eu venho para cumprir as esperanças de Deus.

– E quais são elas?

– São as da Redenção do mundo, da formação do Reino de Deus. O meu Reino não é deste mundo. Guardai vossas posses e dai descanso às armas. Abri vossos olhos e o vosso espírito para lerdes as Escrituras e os Profetas, para acolherdes a minha Verdade, e tereis o Reino de Deus em vós.

– Não. As Escrituras falam de um rei libertador.

– Libertador da escravidão satânica, do pecado, do erro, da carne, do gentilismo, da idolatria. 464.11Oh! Que foi que vos fez Satanás, ó hebreus, ó povo sábio, a ponto de fazer-vos cair em erro sobre as verdades proféticas? Que vos faz, ó meus discípulos, chegardes ao ponto de não vos compreenderdes mais? A maior desventura de um povo e de quem tem fé é a de cair na falsa interpretação dos sinais. Aqui se está cumprindo essa desventura. Interesses pessoais, preconceitos, exaltações, falta de amor à Pátria, tudo serve para criar o abismo… O abismo do erro no qual um povo perecerá por desconhecer o seu Rei.

– Tu te desconheces?

– Vós vos desconheceis e me desconheceis. Eu não sou um rei humano. E vós… Vós, três quartos de vós, aqui reunidos, o sabeis, e quereis o meu mal, não o meu bem. Agis por ódio, não por amor. Eu vos perdoo. Digo aos retos de coração: “Volvei a vós mesmos, não sejais os servos inconscientes do mal.” Deixai-me ir. Não há mais nada a dizer.

Faz-se um silêncio de quem está pasmado…

Eleazar diz:

– Eu não sou teu inimigo. Pensava estar fazendo o bem. E não estou sozinho… Alguns amigos bons pensam como eu.

– Eu sei. Mas diz-me, tu, e seja sincero: o que diz Gamaliel?

– O Rabi?… Ele diz… Sim, ele diz: “O Altíssimo dará o sinal se este é o seu Cristo.”

– Ele diz bem. E que diz José, o Ancião?

– Que Tu és o Filho de Deus, que reinarás como Deus.

– José é um justo. E Lázaro de Betânia?

– Ele está sofrendo… Pouco fala… Mas diz… que tu reinarás, somente quando os nossos espíritos te acolherem.

– Lázaro é um sábio. Quando os vossos espíritos me acolherem. Por enquanto, vós, mesmo aqueles que Eu julgava espíritos acolhedores, não acolheis o Rei e o Reino. Nisso é que está a causa de minha dor.

464.12 – Afinal, Tu te recusas? –gritam muitos.

– Vós o dissestes.

– Tu nos fizeste comprometer-nos, Tu nos prejudicas, nos… –outros também gritam: herodianos, escribas, fariseus, saduceus, sacerdotes…

Jesus deixa a mesa e vai para o lado deste grupo, dardejando-o com seus olhares! Eles, involuntariamente, emudecem, encolhem-se junto à parede… Jesus vai colocar-se bem na frente deles, e diz em voz baixa, mas de modo bem incisivo, sem rodeios e cortante como a lâmina de um sabre:

– Está dito3: “Maldito quem fere às escondidas o seu próximo, aceita presentes para condenar à morte um inocente.” E Eu a vós digo: Eu vos perdoo. Mas o vosso pecado é bem conhecido pelo Filho do Homem. Se Eu não vos perdoasse… Por muito menos foram reduzidos a cinzas por Javé muitos em Israel. Mas Jesus está tão terrível ao dizer isso, que ninguém ousa mover-se. Jesus levanta a pesada cortina dupla, e sai para o átrio, sem que ninguém ouse fazer um gesto.

Somente quando o toldo para de mover-se, isto é, depois de alguns minutos, é que eles parecem despertar.

– É preciso apanhá-lo… É preciso prendê-lo… –dizem os mais enfurecidos.

– É preciso pedir perdão –suspiram os melhores, que são Manaém, Timoneu, alguns prosélitos, aquele de Bozra, os retos de coração, afinal.

Eles se agrupam fora da sala. Procuram e perguntam aos servos:

– O Mestre, onde está?

O Mestre? Ninguém o viu, nem mesmo aqueles que estavam aos lados das duas portas do átrio. Ele não está. Com tochas e archotes o estão procurando por entre as sombras do jardim e no quarto onde Ele havia descansado. Não está, nem o seu manto, que Ele havia deixado sobre a cama, nem sua bolsa deixada no átrio…

– Ele fugiu de nós. É um Satanás! Não. É Deus. Ele faz o que quer. Ele nos trairá. Não. Ele nos conhecerá por aquilo que somos.

Há um clamor de pareceres e de insultos recíprocos. Os bons gritam:

– Vós nos seduzistes! Traidores! Nós devíamos ter pensado nisso!

Os maus, isto é, a maior parte, ameaçam, e aquela cambada, tendo perdido de vista o seu bode expiatório, contra o qual queriam virar-se, viram as duas partes contra si mesmas…

464.13 E Jesus, onde está? Eu o estou vendo, por vontade dele, muito longe, perto da ponte sobre a desembocadura do Jordão. Ele vai rapidamente, como se estivesse sendo levado pelo vento. Seus cabelos fazem ondas ao redor de seu rosto pálido, sua veste vai se sacudindo como uma vela, por seu modo rápido de andar. Depois, quando Ele tem certeza de já estar bem longe, vai amoitar-se no meio dos juncos da margem, depois segue para o lado do oriente e, logo que encontra os primeiros escolhos do alto rochedo, sobe por ele, sem tomar cuidado com a falta de claridade que torna perigoso subir pela costa muito íngreme. Sobe, vai subindo até a uma outra rocha, que se projeta sobre o lago, sombreada por um carvalho secular. Lá se assenta, pondo um cotovelo sobre o joelho e sobre a palma da mão coloca o queixo. Com o olhar fixado na vastidão do ar que já escurece, mal pode ainda ser visto pela brancura de sua veste e pela palidez do seu rosto, e está…

464.14 Mas houve alguém que o acompanhou: João. João está seminu, isto é, só com sua veste curta de pescador, com os cabelos hirtos de quem tinha estado na água, ofegante, mas também pálido. Ele se aproxima devagar do seu Jesus. Parece uma sombra que vai deslizando sobre a rocha escabrosa. Ele pára, não muito longe. E fica vigiando a Jesus… Não se move. Parece um penhasco, perto de outro penhasco. Sua túnica escura o faz desaparecer ainda mais, só o seu rosto, as pernas e os braços nus é que são ainda visíveis na sombra da noite.

Quando ele não está vendo Jesus, ou também o ouve chorar, aí ele não resiste mais, e vai-se aproximando dele até poder dizer-lhe:

– Mestre!

Jesus ouve o barulho e levanta a cabeça, e, pronto para fugir, recolhe suas vestes.

Mas João grita:

– Que foi que te fizeram, Mestre, para que Tu nem conheças mais João?

Jesus reconhece, então, o seu Predileto. Estende-lhe os braços e João se lança neles. Os dois choram por dois sofrimentos diferentes, mas por um só amor.

Depois o pranto se acalma e Jesus, por primeiro, volta a ter a clara visão das coisas. Ele escuta, vê João seminu, com a túnica úmida, as carnes geladas, descalço.

– Como é que estás assim nesse estado? E por que não estás com os outros?

– Oh! Não me repreendas, Mestre. Eu não podia ficar lá… Não podia deixar-te ir embora. Por isso me despojei da veste e de tudo menos disto, e me joguei a nado voltando para Tariqueia, e de lá, pela margem, correndo para a ponte, depois caminhando, vim atrás de Ti. Cheguei, escondendo-me no fosso do lado da casa, pronto para vir em tua ajuda, ou pelo menos para saber se te haviam raptado, se te estavam maltratando. Ouvi, então, muitas vozes, umas contra as outras e, depois, te vi, quando passaste diante de mim. Parecias um anjo. Por seguir-te sem te perder de vista, eu caí em buracos e poças d’água, estou todo enlameado. Talvez eu tenha sujado a tua veste… Eu estive te olhando, desde que estás aqui… Estavas Tu chorando?

464.15Que foi que te fizeram, meu Senhor? Eles te insultaram? E te bateram?

– Não. Eles me queriam fazer rei. Um pobre rei, João. E muitos queriam fazer isso de boa fé, por um verdadeiro amor, com uma intenção boa… Mas os outros… para poderem denunciar-me e prender-me.

– Quem são estes tais?

– Não o perguntes.

– E os outros.

– Não perguntes nem o nome desses. Não deves odiar, nem criticar… eu os perdoo…

– Mestre… havia também discípulos? Diga-me isso apenas.

– Sim.

– E apóstolos?

– Não, João. E nenhum apóstolo.

– É verdade, Senhor?

– É verdade, João.

– Ah! Graças a Deus por isso. Mas, por que ainda estás chorando, Senhor? Eu estou contigo. Eu te amo por todos. Também Pedro, André e os outros… Quando viram que eu me joguei no lago, disseram que eu estava doido, e o meu irmão dizia que eu queria morrer nos redemoinhos. Depois é que me compreenderam, e gritaram: “Deus esteja contigo. Vai, vai…” Nós te amamos. Mas nenhum como eu, um pobre rapaz.

– Sim. Nenhum como tu. Estás com frio, João? Vem cá sob o meu manto…

– Não, aos teus pés, assim… Mestre meu! Por que será que todos não te amam, como este pobre jovem, que eu sou?

Jesus o puxa sobre seu coração, sentando-se ao lado dele.

– É porque eles não têm o teu coração de jovem…

– Eles te queriam fazer rei? Mas não compreenderam ainda que o teu Reino não é desta terra.

– Não compreenderam.

464.16 – Sem falar os nomes, conta como foi, Senhor…

– Mas tu não irás dizer que fui eu quem te disse?

– Se assim Tu queres, eu não o direi…

– Tu não o dirás, a não ser quando os homens quiserem mostrar-me como um daqueles caudilhos populares. Um dia isto vai acontecer. E tu estarás lá. E dirás: “Ele não foi rei da terra, porque não quis. Porque o seu Reino não era deste mundo. Ele era o Filho de Deus, o Verbo encarnado, não podia aceitar o que era terreno. Ele quis vir ao mundo e revestir-se com uma carne, para redimir as carnes, as almas e o mundo, mas não se submeteu às pompas do mundo e aos estímulos para o pecado, nada de carnal ou mundano houve nele. A luz não se deixou enfaixar pelas Trevas, o Infinito não se apegou a coisas finitas, mas sim às criaturas limitadas pela carne e pelo pecado e fez delas criaturas que lhe fossem iguais, levando os que tivessem fé nele à realeza verdadeira, instaurando o seu Reino nos corações, antes de instaurá-lo nos Céus, onde ele será completo e eterno, estando com todos os que foram salvos.” Isto é o que dirás, João, aos que quiserem dizer que Eu sou todo homem, ou que Eu sou todo espírito, e a quem negar que Eu tenha sofrido tentação… e dor… e que eles, os homens, foram redimidos, também pelo meu pranto…

– Sim, Senhor. Como sofres, Jesus!

– Como Eu redimo! Mas tu me consolas no sofrimento. Ao raiar da aurora, partiremos daqui… E encontraremos uma barca. Tu acreditas, se Eu te disser que poderemos navegar sem remos?

– Eu acreditaria, mesmo se Tu dissesses que poderíamos navegar sem barca…

Os dois ficam abraçados, envolvidos no úmido manto de Jesus, e João, sentindo-se aquecido, acaba adormecendo, cansado como estava, como um menino nos braços de sua mãe.

31 de julho de 1946.

464.17 Diz Jesus:

– Eis que aos retos de coração foi dada esta página do Evangelho, desconhecida, mas muito, muito instrutiva. João, ao escrever depois de muitos lustros o seu Evangelho, faz uma breve alusão4 a esse fato.

Obediente ao desejo do seu Mestre, do qual ele põe em evidência, mais do que os outros evangelistas, a natureza divina, revela aos homens um ponto particular e ignorado, e o revela com aquele seu recato virginal que adornava todas as suas ações e palavras, com um pudor humilde e penitente.

João, o meu confidente nos fatos mais graves de minha vida, nunca quis ficar se gloriando desses meus favores. Antes, pelo contrário, lede bem, parece que ele sofre, quando precisa revelá-los, e chega a dizer: “Devo dizer isto, porque é uma verdade que exalta o meu Senhor, mas eu vos peço perdão por dever mostrar-me como o único a saber dela”, e, com palavras bem concisas, vai fazendo alusão a uma verdade da qual só ele foi feito conhecedor.

464.18 Lede o primeiro capítulo do seu Evangelho, onde ele narra o seu encontro comigo: “João Batista estava novamente com dois de seus discípulos… Os dois discípulos, tendo ouvido estas palavras… André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido as palavras de João, e haviam acompanhado a Jesus. O primeiro com quem André se encontrou…” Ele não diz o seu próprio nome, pelo contrário, ele se esconde atrás de André, cujo nome ele faz aparecer.

Em Caná ele estava comigo, e diz: “Jesus estava com os seus discípulos que creram nele.” Eram os outros que tinham necessidade de crer. Ele já cria Mas ele se ajunta aos outros como uma criatura necessitada de ver milagres para crer.

Testemunha da primeira expulsão dos mercadores do Templo, durante o colóquio com Nicodemos, no episódio da Samaritana, ele nunca diz: “Eu estava lá”, mas conserva a linha de conduta que ele escolheu em Caná, e diz: “os seus discípulos”, mesmo quando ele estava sozinho, ou ele e algum outro. E assim continua, não dizendo nunca o seu nome, pondo sempre na frente os companheiros, como se ele não tivesse sido o mais fiel, o sempre fiel, o perfeitamente fiel. Lembrai-vos da delicadeza com que ele faz alusão ao episódio da Ceia, do qual se conclui que ele era o predileto, reconhecido como tal até pelos outros, que a ele recorrem, quando querem saber os segredos do Mestre: “Começaram, então, os discípulos a olhar uns para os outros, não sabendo a quem o Mestre se referia. Estava um deles, o predileto de Jesus, pousando a cabeça sobre o peito dele. E a ele, Simão Pedro fez um sinal, perguntando: ‘De quem e que Ele está falando?’ E ele, encostado como estava sobre o peito de Jesus, perguntou-lhe: ‘Mas, quem é, Senhor?’”

Ele nem mesmo põe o seu nome, como tendo sido chamado no Getsêmani, junto com Pedro e Tiago. Também ele não diz: “Eu acompanhei o Senhor”, mas diz: “Acompanhou-o Simão Pedro e um outro discípulo, esse outro discípulo, sendo conhecido do Pontífice, entrou com Jesus no átrio do Pontífice.” Sem João, eu não teria tido o conforto de vê-lo, junto com Pedro, nas primeiras horas da captura. Mas João não se gaba disso. Sendo um dos personagens principais nas horas da Paixão, o único apóstolo que esteve sempre presente, amorosamente, piedosamente, heroicamente presente perto do Cristo, perto de sua Mãe, enfrentando uma Jerusalém desenfreada, omite o seu nome até no episódio tão relevante da Crucifixão e das palavras do moribundo: “Mulher, eis aí o teu filho.” “Eis aí a tua Mãe.” E o “discípulo”, o sem nome, sem outro nome senão aquele que é a sua glória, depois de ter sido a sua vocação: “discípulo.”

Tendo-se tornado o “filho” da Mãe de Deus, nem mesmo depois de receber essa honra, ele se exalta, e na Ressurreição ainda diz: “Pedro e o outro discípulo (ao qual Maria de Lázaro havia falado do sepulcro vazio) saíram e foram andando… Iam correndo… mas aquele outro discípulo correu mais do que Pedro, chegou antes, inclinou-se e viu… mas não entrou…”, Esta passagem está cheia de uma suave humildade! Pois ele deixa, ele, o fiel, que Pedro, o chefe, embora pecador por covardia, entre em primeiro lugar. Ele não o julga. Pois é o seu Pontífice. Mas o socorre com sua santidade, porque também os “chefes” sentem necessidade dos seus súditos, de serem socorridos. Quantos súditos existem melhores do que os seus “chefes”, os chefes que não sabem suportar, ou nos quais a fumaça da honra produz cegueira e embriaguez. Sede, ó súditos santos, sede os cireneus dos vossos Superiores, sede, e sê tu, ó meu pequeno João, porque a ti Eu falo para todos os “Joãos”, que guiam os “Pedros”, que não sabem compreender e crer, chegam a mostrar-se e a fazer crer que são uns obtusos e incrédulos, eles também, como os “Pedros”.

Lede o episódio sobre o lago de Tiberíades. É ainda João que, repetindo um ato feito outras vezes, reconhece o Senhor no Homem que está de pé sobre a margem e, depois de ter partido o pão junto com os outros, à pergunta de Pedro: “E a este que é que acontecerá?”, é sempre “o discípulo”, e nada mais.

Em tudo o que se refere a ele, ele se anula. Mas, quando é preciso dizer alguma coisa, que faça resplender, com uma luz cada vez mais divina o Verbo de Deus Encarnado, eis que João levanta os véus, revela um segredo.

464.19 No sexto capítulo do Evangelho, ele diz: “Tendo percebido que queriam arrebatá-lo para o fazerem rei, fugiu de novo sozinho para o monte.” E tornou-se conhecida para os que tinham fé, esta hora do Cristo, para que os que têm fé saibam como multíplices e complexas foram as tentações e as lutas contra o Cristo nas suas diversas características de Homem, de Mestre, de Messias, de Redentor, de Rei, e que os homens e Satanás, o e-erno instigador dos homens, não pouparam nenhuma cilada ao Cristo, para diminuí-lo, abatê-lo, destruí-lo. Contra o Homem, o Eterno Sacerdote, o Mestre, o Senhor, moveram-se em assalto as malícias satânicas e humanas, mascaradas com os preceitos que podiam ser mais aceitáveis como bons, assim as paixões dos cidadãos, dos patriotas, do filho, do homem, tudo foi instigado ou tentado para descobrirem algum ponto fraco, por baixo do qual introduzissem a alavanca.

Oh! Filhos meus, que não refletis senão na tentação inicial e na última tentação, que das minhas fadigas de Redentor, só vos parecem “fadigas” as últimas, e que dolorosas só foram as extremas, que amargas e decepcionantes só o foram as últimas experiências, tomai, por uma hora, o meu lugar, fazei de conta que sois vós aqueles aos quais vem a projetada paz com os compatriotas, a ajuda deles, a possibilidade de completar as purificações necessárias para tornar santo o País amado, a possibilidade de restaurar, reunir os membros espalhados de Israel e de pôr um fim à dor, à escravidão política e ao sacrilégio. Eu não digo: tomai o meu lugar, pensando que vos está sendo oferecida uma coroa. Eu só vos digo que tenhais o meu Coração de Homem, por uma hora e digais: “é uma proposta sedutora.” Como teríeis vós ficado? Triunfadores, fiéis à divina Ideia, ou, antes, uns vencidos? Nem teríeis ficado santos e espirituais, ou teríeis destruído a vós mesmos, aderindo à tentação ou cedendo às ameaças? E, com que coração teríeis ficado, depois de haverdes verificado até que ponto Satanás arremessava suas armas para ferir-me em minha missão e em meus afetos, desviando-me para um caminho errado e também aos discípulos bons, pondo-me em luta aberta com os inimigos, agora desmascarados e tornados ferozes, por terem sido descobertos em suas tramas?

464.20 Não fiqueis com o compasso e a régua na mão, com o microscópio e a ciência humana, não fiqueis com argumentações pedantes de escribas, a medir, a confrontar, a discutir se João falou bem, até onde é verdade isto ou aquilo. Não apliqueis a frase de João ao episódio acontecido ontem, a fim de poderdes ver se os contornos das coisas se ajustam. João não errou por uma fraqueza de velho, como não errou o pequeno João por sua fraqueza de enferma. Este disse o que viu o grande João, muitos lustros depois do fato, narrou o que sabia, e, com uma fina concatenação dos lugares e dos fatos, revelou o segredo, conhecido só por ele, da tentada, e não sem malícia, coroação do Cristo.

Em Tariqueia, depois da primeira multiplicação dos pães, surge no meio do povo a ideia de fazer do Rabi de Nazaré o Rei de Israel. Estão presentes Manaém, o escriba e muitos outros que, imperfeitos ainda no espírito, mas honestos no coração, acolhem a ideia, e dela se fazem fautores para prestar honra ao Mestre e pôr um fim à luta injusta contra Ele, por um erro de intepretação das Escrituras, erro difundido por todo Israel, encegueirado por sonhos de uma realeza humana e pela esperança de santificar a Pátria contaminada por muitas coisas.

Muitos, como é natural, aderem simplesmente a esta ideia. Mas muitos outros fingem, traiçoeiramente, que aderem a ela para me prejudicarem. Unidos estes últimos pelo ódio contra mim, esquecem-se dos seus ódios de casta, que sempre os obrigou a ficar separados, se aliam para tentar-me, a fim de depois poderem dar uma aparência legal ao delito, que já estava decidido em seus corações. Eles estão esperando por alguma minha fraqueza, por algum ato meu de orgulho. Estes, o orgulho e a fraqueza e a minha aceitação da coroa a mim oferecida, teriam servido como uma justificação para as acusações que queriam lançar contra Mim. E depois… Depois procurariam dar paz ao seu espírito, traiçoeiro e castigado pelos remorsos, porque teriam dito uns aos outros, esperando que se pudesse crer: “Foi Roma, não nós, quem puniu o agitador Nazareno.” A eliminação legal do seu Inimigo, pois assim era considerado por eles o Salvador deles… Eis as razões da proclamação que tentaram fazer. Eis a chave que abriu caminho para os mais fortes e sucessivos ódios. Eis, enfim, a alta lição do Cristo. Vós a compreendeis? É uma lição de humildade, de justiça, de obediência, de fortaleza, de prudência, de fidelidade, de perdão, de paciência, de vigilância, de tolerância, para com Deus, para com sua própria missão, para com os amigos, para com os decepcionados, para com os inimigos, para com Satanás, para com os homens, seus instrumentos de ten-ação, para com as coisas, para com as ideias… Tudo deve ser contemplado, aceito, repelido, amado ou não, olhando-se para o fim santo do homem: o Céu, a vontade de Deus.

464.21 Pequeno João. Esta foi uma das horas de Satanás para Mim. Como as teve o Cristo, assim as têm os pequenos cristos. É preciso sofrê-las e superá-las sem soberbas e sem desconfianças. Elas não são sem uma finalidade. E finalidade boa. Mas não temas. Deus, durante essas horas, não abandona, mas ajuda a quem é fiel. Depois desce o Amor para transformar os fiéis em reis. E, mais ainda, tendo terminado o tempo desta Terra, sobem os fiéis para o Reino, em paz para sempre…

A minha paz, pequeno João, coroado de espinhos. A minha paz.

1 disse, em 402.2/7.
2 maior do que ele, do qual se fala no libro de Neemias. Seguiram outras alusões bíblicas: Deuteronômio 5,30; Juízes 4,4-16; 1 Samuel 10,1; 16,1-13; 2 Samuel 2,1-4; 5,1-3; 1 Reis 1,32-40; 1 Macabeus 2,42-44; 3,1-9.
3 Está dito, em Deuteronômio 27,24-25.
4 breve alusão, isto é, a de João 6,14-15, inserida no fim do episódio da primeira mutliplicação dos pães, que ocupa os versos anteriores 1-13. A multiplicação dos pães, que na obra se encontra no capítulo 273, não foi contemporânea à tentativa de proclamação de Jesus como Rei (como aparentava pelo Evangelho de João), mas serviu para suscitar a ideia, tanto que o evangelhista une a narração a dois fatos distantes no tempo, como se dirá mais abaixo, em 464.20. Pela cronologia dos Evangelhos, Jesus falará ainda em 468.1; e dos fatos silenciosos dos Evangelhistas em 594.9.


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