115. 115. Cura do menino atingido pelo cavalode Alexandre. Jesus expulso do Templo.


22 de fevereiro de 1945.

115.1 Vejo o interior do Templo. Jesus está, com os seus, perto do Templo verdadeiro e propriamente dito, ou seja, do Lugar Santo onde só entravam os sacerdotes. É um bonito e grande pátio, ao qual se chega por um átrio, e do qual, passando-se por um outro ainda mais opulento, vai-se para o alto terraço no qual está o lugar do Santo.

É inútil! Se eu visse mil vezes o Templo, e o descrevesse duas mil, seja pela complexidade do lugar, seja por minha ignorância dos nomes e pela incapacidade de fazer um gráfico, seria sempre incompleta, ao descrever este pomposo e labiríntico lugar…

Parece que estão rezando. Muitos outros israelitas também, todos homens, ali estão, rezando cada um em particular. Desce a tarde antecipada por uma plúmbea jornada de novembro.

Há um vozerio, no meio do qual sobressai a voz estentórea e irritada de um homem, que está blasfemando até em latim, misturando-a com estridentes e agudas palavras hebraicas. Há uma confusão que parece uma luta, e uma voz feminina aguda, que grita:

– Oh! Deixai-o passar, pois diz que Ele o salvará.

O recolhimento do suntuoso pátio é rompido. Muitas cabeças se viram em direção ao ponto de onde estão vindo as vozes. Vira-se também Judas Iscariotes, que também se encontra com os discípulos. Alto como ele é, vê o que está acontecendo e diz:

– Um soldado romano está lutando para entrar! Está violando, já violou o lugar sagrado! Que horror!

Muitos fazem eco às suas palavras.

– Deixa-me passar, cães judeus! Aqui está Jesus. Eu sei! Eu o quero! De vossas pedras obtusas, nem sei o que fazer. O menino está morrendo, e Ele o salva. Fora! Hienas hipócritas…

Jesus, que ao compreender que estava sendo desejado, logo se dirigiu para o átrio, sob o qual se agitava a briga, aproxima-se e diz:

– Paz e respeito ao lugar e à hora da oferta!

– Oh! Jesus! Salve! Eu sou o Alexandre. Abri caminho, ó cães!

E Jesus sereno:

– Sim, abri caminho. Eu levarei para outro lugar o pagão que não sabe o que é para nós este lugar.

O círculo se abre e Jesus alcança o soldado, que está com a couraça ensanguentada:

– Estás ferido? Vem. Aqui não se pode ficar, e o conduz para um outro pátio.

– Não sou eu que estou ferido. É um menino… O meu cavalo, perto da Fortaleza Antônia, me tomou as rédeas da mão, e o atropelou. Os cascos lhe abriram a cabeça. Próculo disse: “Não há nada a fazer!” Eu… não tenho culpa… mas foi por causa de mim que aconteceu, e a mãe está aí desesperada. Eu te tinha visto passar… e vi que vinhas aqui… Eu disse: “Próculo não, mas Ele sim.” “Mulher, vem. Jesus o curará.” Aqueles dementes me detiveram… e talvez o menino já esteja morto.

– Onde está ele? –pergunta Jesus.

– Debaixo daquele pórtico, no colo da mãe –responde o soldado, que já foi visto na porta dos Peixes.

– Vamos.

E Jesus vai mais rápido ainda, seguido pelos seus e por um acompanhamento de muitas pessoas.

115.2 Sobre os degraus que limitam o pórtico, encostada a uma coluna, está uma mulher angustiada, que chora sobre seu filhinho moribundo. O menino está lívido, com os lábios roxos entreabertos, no estertor característico dos que foram lesados no cérebro. Uma faixa, tingida de vermelho na nuca e na fronte, lhe envolve a cabeça.

– A cabeça está aberta na frente e atrás. O cérebro está à vista. Naquela idade o cérebro é tenro e o cavalo era grande e estava com ferradura nova –explica Alexandre.

Jesus está junto à mulher, que nem falando está mais, agonizante sobre o filho moribundo. Jesus põe a mão sobre a cabeça dela.

– Não chores, mulher –diz com toda a suavidade de que é capaz, ou seja, infinita–. Tem fé. Dá-me o teu menino.

A mulher o olha apatetada. A multidão impreca contra os romanos e se compadece do moribundo e da mãe. Alexandre fica entre o contraste da ira pelas acusações injustas, a piedade e a esperança.

Jesus se assenta perto da mulher, pois vê que ela não sabe mais fazer gesto algum. Inclina-se. Pega entre as suas longas mãos a pequena cabeça ferida, inclina-se mais ainda, dobra-se sobre aquela pequena face cor de cera, sopra sobre a boquinha agonizante… Alguns instantes. Depois, há um sorriso, que mal se vê entre os cachos de cabelo caídos para a frente. Endireita-se. O menino abre os olhinhos e faz um gesto para sentar-se. A mãe teme que seja a última tentativa dele e grita segurando-o sobre o seu coração.

– Deixa-o andar, mulher. Menino, vem a Mim –diz Jesus, ainda sentado ao lado da mulher, e estendendo-lhe os braços com um sorriso. E o menino se joga seguro naqueles braços, e chora com um pranto não de dor, mas do medo que volta, à medida que recomeça a pensar.

– O cavalo não está aqui, não –tranquiliza-o Jesus–. Tudo já passou. Está te fazendo mal aqui?

– Não. Mas estou com medo, estou com medo!

– Estás vendo, mulher. O que ele tem é só medo. Já vai passar. Trazei-me água. O sangue e a faixa o estão impressionando. Dá-me uma das maçãs que tens, João… Pega, pequenino. Come. É gostosa…

Levam-lhe água, aliás é o soldado Alexandre que a leva em seu elmo. Jesus começa a soltar a faixa.

Alexandre e a mãe dizem:

– Não! Ressurge… Mas a cabeça está aberta!

Jesus sorri e solta a faixa. Uma, duas, três, oito voltas. Põe de lado as tiras ensanguentadas. Da metade da fronte até a nuca, ao lado direito, há somente um grumo de sangue ainda fresco entre os cabelinhos do menino. Jesus molha uma faixa e lava.

– Mas debaixo está a ferida… se tiras o grumo voltará a sangrar –insiste Alexandre.

A mãe tapa os olhos para não ver.

Jesus lava, lava, lava. O grumo solta-se… eis os cabelinhos limpos. Estão úmidos, mas debaixo não há ferida. Também a fronte está sã. Só há um pequeno sinal vermelho onde originou-se a cicatriz.

O povo grita maravilhado. A mulher ousa olhar e quando vê, não se contém mais. Desaba inteira sobre Jesus e o abraça junto ao menino e chora. Jesus suporta aquela expansão e aquela chuva de lágrimas.

– Eu te agradeço Jesus –diz Alexandre–. Eu estava entristecido por ter matado este inocente.

– Tiveste bondade e confiança. Adeus, Alexandre. Vai para o teu serviço.

115.3 Alexandre está para ir embora, quando chegam, como uns furacões, alguns oficiais do Templo e sacerdotes.

– O Sumo Sacerdote, por meio de nós, te intima a saíres do Templo, Tu e o pagão profanador. Já! Perturbastes a oferta do incenso. Este entrou onde é lugar de Israel. Não é a primeira vez que, por tua causa, se forma esse barulho no Templo. O Sumo Sacerdote e com ele os Anciãos de turno, te ordenam que não ponhas mais os pés aqui dentro. Vai, e fica com os teus pagãos.

– Nós não somos cães. Ele diz: “Há um só Deus, Criador dos judeus e dos romanos.” Se esta é a sua Casa, e se eu fui criado por Ele, poderei entrar aqui eu também –responde Alexandre, magoado pelo desprezo com que os sacerdotes dizem “pagãos.”

– Fica calado, Alexandre. Eu falo –intervém Jesus que, depois de ter beijado o pequeno o devolveu à sua mãe e se pôs de pé.

Ele diz ao grupo que o quer expulsar:

– Ninguém pode proibir a um fiel, a um verdadeiro israelita, que ninguém pode provar que é réu de pecado, que venha rezar junto ao Santo.

– Mas de vir explicar a Lei no Templo, sim. Tu te apoderaste deste direito sem o teres, e sem pedi-lo. Quem és? Quem te conhece? Como podes usurpar um nome e um lugar que não é teu?

115.4 Jesus olha para eles … depois diz:

– Judas de Keriot, vem para a frente.

Judas não parece entusiasta do convite. Procurara eclipsar-se, mal chegaram os sacerdotes e os oficiais do Templo (os quais, porém, não trajam uniforme militar: deve ser um cargo civil). Mas deve obedecer porque Pedro e Judas de Alfeu empurram-no para frente.

– Judas, responde-me. E vós, olhai para ele. Vós o conheceis. Ele é do Templo. Não o conheceis?

Eles devem responder: “Sim”.

– Judas, que foi que Eu te mandei fazer1 quando falei aqui pela primeira vez? E tu, de que foi que ficaste admirado? E que foi que Eu te disse em resposta? Fala, e sê sincero.

– Ele me disse: “Chama o oficial de turno, para que Eu lhe possa pedir licença para instruir.” E Ele deu o seu nome e a prova de ser quem era, e de qual era a sua tribo… e eu me admirei, por julgar ser inútil aquela formalidade, visto que Ele se diz o Messias. E Ele me disse: “É necessário, e quando chegar a hora, lembra-te de que Eu não faltei com o respeito para com o Templo e para com os seus oficiais.” Sim. Disse assim. E em testemunho da verdade, eu o devo dizer.

Judas no início falava um pouco incerto, meio aborrecido. Mas depois, com um daqueles seus impulsos bruscos, próprios dele, tornou-se convicto, e quase arrogante.

– Admiro-me muito de que tu o defendas. Traíste a nossa confiança em ti –censura-o um dos sacerdotes.

– Eu não traí a ninguém. Quantos entre vós são do Batista! E são traidores por isso? Eu sou de Cristo. Aí está.

– Pois bem. Esse não deve falar aqui. Que Ele venha como um fiel. É até demais para um amigo de pagãos, meretrizes e publicanos…

– Respondei-me agora –diz Jesus, severo mas calmo–. Quem são os Anciãos de turno?

– Doras e Félix, judeus, Joaquim de Cafarnaum e José da Itureia.

– Entendi. Vamos. Ide dizer aos três acusadores, visto que o itureu não pôde acusar, que o Templo não é Israel inteiro, e Israel não é o mundo todo, e que a baba dos répteis, ainda que seja muita e bastante venenosa, não submergirá a Voz de Deus, nem o seu veneno paralisará o meu andar entre os homens, enquanto não chegar a hora. Além disso… oh! ide dizer-lhes que depois os homens farão justiça com os carrascos e lhes tomarão a Vítima, fazendo Dela o seu único amor. Ide. E nós nos vamos.

E Jesus se cobre com seu grande manto escuro e sai em meio aos seus.

115.5 No fim do grupo está Alexandre, que permaneceu na discussão. Fora do recinto, junto à Torre Antônia, ele diz:

– Eu te saúdo, Mestre. E te peço perdão, por ter sido causa da censura feita a Ti.

– Oh! Não te incomodes. Eles estavam procurando um pretexto. E o encontraram. Se não tivesses sido tu, seria outro… Vós, em Roma, fazeis os jogos no Circo com feras e serpentes, não é verdade? Pois bem, Eu te digo que nenhuma fera é mais feroz e traiçoeira do que o homem que quer matar outro homem.

– E eu te digo que, a serviço de César, percorri todas as regiões de Roma. Mas nunca, em meio a tantos indivíduos que encontrei, um mais divino do que Tu. Não, pois os nossos deuses também não são divinos como Tu! Eles são vingativos, cruéis, rixentos, mentirosos. Tu és bom. Tu és verdadeiramente Homem, não um homem. Saúde, Mestre.

– Adeus Alexandre. Prossiga na Luz.

Tudo termina.



1 Eu te mandei fazer, em 68.1/2.