283. 283. Síntique fala de seu encontro com a Verdade.
2 de setembro de 1945.
283.1Jesus está sentado no pátio dos pórticos, que fica na parte interna da casa de Betânia. É o pátio que eu vi cheio de discípulos na manhã da Ressurreição de Jesus. Sentado em uma cadeira de mármore coberta com almofadas, e com as costas viradas para a parede da casa, rodeado pelos donos da casa, pelos apóstolos e discípulos, por João e Timoneu, além de José e de Nicodemos e das piedosas mulheres, em diversas posições: uns sentados em cadeiras, outros no chão, alguns em pé e outros apoiados em colunas, ou à parede.
– … Era uma necessidade. Para não sentir todo o peso da minha condição. Era não estar nem querer estar persuadida de que estava sozinha, escrava e exilada longe da pátria. Devia pensar que a mãe e os irmãos, que o pai e a tão meiga e doce Ismene não estavam para sempre perdidos. E também que, se todo o mundo se esforçava para separar-nos, assim como Roma nos havia afastado uns dos outros e vendido, nós, que éramos livres, estávamos sendo uns animais de carga, mas um lugar haveria de nos ter reunidos, depois desta vida. Tínhamos de pensar que o nosso viver não é somente uma coisa material, uma matéria que vai se transformando. Mas dentro da vida existe uma força livre, que nenhuma transformação detém, a não ser a transformação voluntária de quem quer viver na desordem moral e no desregramento materialista.
Vós chamais a isso “pecado”. Ele e os outros, que eram as minhas luzes na escuridão da minha noite de escrava, dão um outro nome a isso. Mas também eles admitem, que uma alma escravizada ao corpo, pelas paixões perversas e corporais, não chega àquilo que vós chamais Reino de Deus, e que nós chamamos a convivência com os deuses no Hades. E, para isso, é preciso evitar cair no materialismo e esforçar-se para conseguir a liberdade do corpo, obtendo para si uma herança de virtude, a fim de poder ter posse de uma imortalidade feliz, e poder também reunir-se com os seus seres amados.
Tínhamos de pensar que a alma dos mortos não fica impedida de estar junto às almas dos vivos, e de sentir por isso perto de si a alma da mãe, encontrar de novo o olhar e a voz dela falando com a alma de sua filha, e poder dizer-lhe: “Sim, minha mãe. Para ir a ti, sim. Para não fazer que se perturbe o teu olhar, sim. Para não pôr lágrimas na tua voz, sim. Para não te vestir de luto. Para tudo isso eu estarei com minha alma livre. É a única posse que eu tenho, e que ninguém me poderá tirar. E que eu quero conservar para poder raciocinar de acordo com a virtude.”
Pensar assim era liberdade e alegria. E assim eu quis pensar. E agir. Porque não é somente uma filosofia pela metade, e falsa, ficar pensando, e depois agindo de modo diferente do que se pensou. Pensar assim era como que reconstruir para si uma pátria no exílio. Uma pátria no eu, com os seus altares, a sua fé, sua instrução e seus afetos…Uma pátria grande, misteriosa e, no entanto, não a tal ponto por aquilo que a alma tem de misterioso, que sabe que não está ignorando o que está do outro lado, ainda que, por enquanto, só o conheça como um marinheiro que, lá do meio do vasto mar, em uma manhã nevoenta, conhece os pormenores da costa: de um modo confuso, como um esboço, apenas com um ou outro ponto que se delineia nítido, mas que lhe basta, oh! que basta ao cansado navegante, que as tempestades andaram torturando, para dizer-lhe: “Lá está: é o porto, é a paz.” A pátria das almas, o lugar de onde somos, o lugar da vida. Porque a vida é gerada pela morte…
283.2Oh! Isto eu compreendia pela metade, enquanto eu não sabia de uma das tuas palavras. Depois, depois foi como se um raio de sol batesse no diamante do meu pensamento. Tudo virou luz, e eu compreendi até onde eram justos os mestres da Grécia, e como depois se extraviaram, faltando-lhes conhecer um ponto, um só, para resolverem o teorema da vida e da morte. O ponto era este: o Verdadeiro Deus, Criador e Senhor de todas as coisas.
Posso eu dizer o seu nome com estes meus lábios pagãos? Sim, que o posso. Porque dele, como todos, eu também venho. Porque Ele pôs capacidade nas mentes de todos os homens, e nos mais sadios pôs uma inteligência superior, pela qual verdadeiramente eles parecem uns semideuses, pois seu poder ultra-humano. Sim, porque Ele fez escrever aquelas verdades, que já são da religião, se não divina como a tua, moral, e capaz de conservar as almas “vivas”, não só por este espaço de tempo que é a nossa parada na terra, mas para sempre.
Depois, eu compreendi o que quer dizer “a vida é gerada pela morte.” Aquele que o disse foi como alguém não completamente ébrio, mas já com a inteligência em dificuldades. Disse uma palavra sublime, mas não a entendeu completamente. E, perdoa, ó Senhor, o meu orgulho, eu compreendi mais do que ele, e, desde aquele momento, me sinto feliz.
– Que foi que compreendeste?
– Que esta existência não é mais do que o princípio embrionário da vida, e que a verdadeira vida tem início, quando a morte nos dá à luz… ao Hades, eu diria como pagã, à Vida Eterna, digo como alguém que crê em Ti. Terei falado errado?
– Falaste bem, mulher –diz Jesus aprovando-a.
283.3Nicodemos interrompe:
– Mas, como pudeste saber das palavras do Mestre?
– Quem está com fome, procura o alimento, senhor. Eu vivia procurando o meu alimento. Leitora, porque tenho cultura, e tendo boa voz e pronúncia, eu podia ler muito nas bibliotecas dos meus patrões. Mas eu não estava ainda satisfeita. Percebia que havia outras coisas, do outro lado das paredes cheias de lendas da ciência humana, e, como uma prisioneira em um cárcere de ouro, eu batia os nós dos dedos, procurava forçar as portas para sair, para achar… Vindo para a Palestina com meu último patrão, tive medo de cair nas trevas… mas, ao contrário, eu estava vindo ao encontro da Luz. As palavras dos servos de Cesareia eram como uns golpes de picareta, que abriam nas paredes uns buracos cada vez maiores, pelos quais entrava a tua Palavra. E eu ia recolhendo aquelas palavras e notícias. E, como uma criança, que vai colocando pérolas em um fio, eu as alinhava para mim, e com elas me enfeitava, tirando delas a força para ficar sempre mais purificada, a fim de receber a Verdade. Na purificação eu ia percebendo que a teria encontrado. E já desde esta terra. A custa da vida, eu quis ser pura para o encontro com a Verdade, com a Sabedoria, com a Divindade. Senhor, eu estou dizendo palavras loucas. Estes me estão olhando espantados. Mas foste Tu que as pediste…
– Fala, fala. É necessário.
– Com fortaleza e esperança, eu consegui resistir às pressões externas. Eu teria podido ser livre e feliz, segundo o mundo, e bastava que eu tivesse querido. Eu não quis trocar o saber pelo prazer. Porque sem sabedoria nada vale ter as outras virtudes. Ele, o filósofo, já o disse: “Justiça, Temperança e Fortaleza, se não forem acompanhadas da Sabedoria, serão semelhantes a um cenário pintado, uma virtude realmente de escravos, sem nada de sólido e real.” Eu queria ter coisas reais. O patrão, um estulto, falava de Ti na minha presença. Foi, então, como se as paredes se transformassem num véu. Bastava querer para se rasgar o véu, e unirmo-nos à Verdade. E foi isto que eu fiz.
283.4– Tu não sabias que nos terias encontrado –diz Iscariotes.
– Eu sabia crer que o deus premia a virtude. Eu não queria ouro, nem honras, nem liberdade física, nem mesmo esta. Mas eu queria a Verdade. A Deus eu pedia ou isto, ou morrer. Eu queria ser poupada do aviltamento de ser tratada como um “objeto”, e mais ainda: de consentir que o fizessem. Renunciando a tudo o que é corporal, ao procurar-te, Senhor, porque as pesquisas por meio dos sentidos são sempre imperfeitas - e Tu as viste quando, por ter-te visto, eu fugi, levada ao engano por meus olhos - eu me abandonei a Deus, que está acima de nós, e em nós, e que por Si mesmo informa a alma. E eu te encontrei, porque a alma me conduziu a Ti.
– A tua é uma alma pagã –diz ainda Iscariotes.
– Mas a alma tem sempre em si algo de divino, especialmente quando, com seu esforço, ela se preserva do erro… E, por isso, ela se inclina para as coisas de sua própria natureza.
– Tu te comparas com Deus, tu?
– Não.
– E, então, por que dizes isso?
– Como? E tu, discípulo do Mestre, me fazes esta pergunta? Quando Ele fala, tu não o estás ouvindo? Ou em ti o fermento do corpo é tão forte, que te torna obtuso? Não diz Ele sempre que nós somos filhos de Deus? Portanto, deuses somos, filhos do Pai, daquele que é Pai dele e nosso Pai, e do qual Ele fala sempre. Tu me poderás censurar por não ser humilde, mas não uma incrédula e desatenta.
– Desse modo, então, tu crês mais do que eu? Crês que dos livros da tua Grécia aprendeste tudo?
– Não. Nem isto nem aquilo. Mas os livros dos sábios, sejam eles de onde forem, deram-me o mínimo para eu me poder dirigir. Não duvido que um israelita seja mais do que eu. Mas eu estou feliz na minha sorte, que de Deus me vem. Que posso desejar mais? 283.5 Tudo eu encontrei, ao encontrar o Mestre. E acho que esse era o meu destino, porque, na verdade, eu vejo que vela sobre mim um Poder, que traçou para mim um grande destino, para mim, que nada mais fiz, a não ser acompanhá-lo, tendo percebido como Ele era bom.
– Bom? Tu foste escrava, e de patrões cruéis. Se o teu último patrão te tivesse tornado a apanhar, por exemplo, como terias caminhado para o teu destino, tu que és tão sábia?
– Tu te chamas Judas, não é mesmo?
– Sim, e daí?
– Daí… não se segue nada. Eu quero lembrar-me do teu nome, e da tua ironia. Olha, que a ironia é desaconselhável também aos virtuosos… Como teria eu acompanhado o destino? Eu teria me matado. Porque, realmente, em certos casos, é melhor morrer do que viver, ainda que o filósofo diga que isso não é bem, e que é ímpio, e que é uma coisa ímpia procurarmos o bem por nós mesmos, porque só os deuses é que têm o direito de nos chamar para eles. E essa ideia de ficar esperando um sinal dos deuses para fazê-lo foi sempre o que me conteve, quando eu estava acorrentada naquela minha triste sorte. Mas agora, em alguma nova captura pelo asqueroso patrão, eu teria visto o último sinal. E teria preferido morrer a viver. Eu também tenho uma dignidade, homem.
– E, se ele te tornasse a apanhar agora? Estarias sempre nas mesmas condições…
– Agora eu não me mataria mais. Agora eu sei que as violências feitas à carne não lesam o espírito, que não consente. Agora, eu resistiria, até ser dominada pela força, ser morta pela violência. Porque também isso eu tomaria como um sinal de Deus de que com aquela violência, Ele me haveria chamado. Agora eu morreria tranquila, sabendo que não ia perder nada mais do que o que é perecível.
– Respondeste bem, mulher –diz Lázaro, e Nicodemos também o aprova.
– O suicídio nunca é permitido –diz Iscariotes.
– Muitas são as coisas proibidas, e não se respeita a proibição. Mas tu, Síntique, deves pensar que Deus, como sempre te guiou, assim te teria preservado também da violência de si mesma. 283.6Agora, vai. Eu gostaria que tu fosses procurar o menino, e mo trouxesses –diz Jesus com doçura.
A mulher se inclina até o chão, e lá se vai.
Lázaro murmura:
– E é sempre assim! Eu não consigo compreender como é que as coisas que para ela foram ‘vida’, para nós de Israel foram ‘morte’. Se tiveres um modo de examiná-la de novo, verás que no próprio helenismo, que nos corrompeu, há possuidores de uma sabedoria que a salvou. Por quê?
– Porque admiráveis são os caminhos do Senhor. E Ele os abre para quem os merece. E agora, meus amigos, Eu me despeço de vós, pois a tarde já vai bem adiantada. Fico contente por todos vós terdes ouvido a grega falar. Da comparação de como Deus se revela aos melhores, tirai a lição de que querer excluir a todos os seres, que não sejam de Israel, das fileiras de Deus, é uma coisa odiosa e perigosa. Tomai isto como uma norma para o futuro… Não fiques resmungando, Judas de Simão. E tu, José, não tenhas esses escrúpulos fora de lugar. Não estais contaminados por nada, depois de ter-vos aproximado de uma grega. Fazei, por onde não vos aproximardes do demônio. Adeus, José. Adeus, Nicodemos. Poderei eu ver-vos ainda, enquanto estou aqui? Aí vem Marziam… Vem cá, menino, saúda os chefes do Sinédrio. Que dizes a eles?
– A paz esteja convosco e… na hora do incenso, rezai por mim.
– Tu não precisas disso, pequeno. Mas, por que logo naquela hora?
– Porque, na primeira vez que eu entrei no templo com Jesus, Ele me falou1 da oração da tarde… Oh! Como é bonito!
– Tu, que rezarás por nós? Quando?
– Rezarei… Rezarei pela manhã e pela tarde. Para que Deus vos preserve do pecado durante o dia e durante a noite.
– E que dirás, pequeno?
– Eu direi: “Senhor Altíssimo, faze de José e de Nicodemos verdadeiros amigos de Jesus.” E isso bastará, porque quem é amigo verdadeiro, não entristece o amigo. E quem não entristece a Jesus está certo de possuir o Céu.
– Deus te conserve assim, pequeno! –dizem os dois sinedritas, acariciando-o.
Depois, eles saúdam o Mestre, em seguida a Virgem, e a Lázaro em particular, e a todos os outros de uma só vez, e vão-se embora.
1 me falou, em 197.5.
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