161. 161. Cura do neto do fariseu Eli de Cafarnaum.


11 de maio de 1945.

161.1 De barco, Jesus vai-se aproximando da cidade de Cafarnaum. O dia já vai chegando ao fim, e o lago tem um grande reflexo de luz amarelo-avermelhada.

Enquanto as duas barcas fazem as manobras para atracar, João diz:

– Agora eu vou até à fonte, buscar água pura para a tua sede.

– A água aqui é boa –diz André.

– Sim, é boa. Mas para Mim é o vosso amor que a faz melhor ainda.

– Eu vou levar o peixe para casa. As mulheres o prepararão para a ceia. E depois, Tu falarás a nós e a elas?

– Sim, Pedro.

– Como é bom voltar para casa! Antes, parecíamos estar vivendo como uns nômades. Mas, lá em casa, com as mulheres, há mais ordem, mais amor. E, além disso, iremos ver tua mãe, e só isso já faz passar todo o nosso cansaço. Não sei…

Jesus sorri e fica calado.

A barca se arrasta sobre a areia. João e André, que estão de túnicas curtas, pulam na água e, com a ajuda dos empregados, puxam a barca para a beira colocando a tábua para servir de prancha. Jesus desce, em primeiro lugar, e fica esperando que a segunda barca também encoste à beira, a fim de unir-se a todos os seus. Depois, a passos lentos, vão para a fonte. É uma fonte natural, uma nascente que ali brota perto da cidade, onde a água cai numa bacia de pedra, muito fresca, abundante e muito clara. Ela mesma se convida a beber, de tão límpida que é. João, que tinha corrido na frente com um jarro, está de volta, e apresenta a vasilha a Jesus, que bebe em longos sorvos.

– Com que sede estavas, meu Mestre! E eu, tão tolo fui, que não cuidei de levar água comigo.

– Não faz mal, João. Agora tudo já passou –e o acaricia.

161.2 Estão para voltar da fonte, quando vêem que vem chegando, com toda a velocidade de que é capaz, Simão Pedro, pois tinha ido até a casa levar o seu peixe.

– Mestre! Mestre! –grita ele com o fôlego meio entrecortado–. A cidade inteira está em rebuliço, porque o único neto do fariseu Eli está à morte, mordido por uma serpente. Ele tinha ido juntamente com o velho, e contra a vontade da mãe, ao olival deles. Eli estava acompanhando os trabalhos, enquanto o menino ficou brincando nas raízes de uma velha oliveira. Ele enfiou a mão em um buraco, esperando achar alguma lagartixa, e o que achou foi a serpente. O velho parece ter ficado doido. A mãe do menino que, por sinal, odeia, com razão, o sogro, acusa-o de ser um assassino. O menino vai ficando mais frio, a cada momento que passa. Dentro da família, eles nunca se amaram. E que parentes podem ser assim!

– Uma coisa feia são os ódios em família!

– Mas, Mestre, eu digo que as serpentes não tiveram amor à serpente que é Eli. E lhe mataram oo filhote. Desagrada-me que ele me tenha visto e gritado: “O Mestre está aí?” Desagrada-me por causa do pequeno. Era um belo menino, e não tem culpa de ser neto de um fariseu.

– Sim. Ele não tem culpa disso…

161.3 Vão caminhando para a cidade, e vem vindo ao seu encontro um grande grupo de pessoas que gritam e choram. À frente do grupo, está o velho Eli.

– Ele nos encontrou. Vamos voltar!

– Mas, por quê? Aquele velho está sofrendo!

– Aquele velho te odeia, lembra-te disso. Um dos mais encarniçados e primeiros acusadores de Ti no Templo.

– Eu me lembro que sou a Misericórdia.

O velho Eli, despenteado, muito agitado, com as vestes em desordem, corre para Jesus, com os braços estendidos, e cai aos pés dele, gritando:

– Piedade! Piedade! Perdão! Não te vingues sobre o inocente, por causa da minha dureza. Só Tu podes salvá-lo. Deus, teu Pai, foi quem te trouxe aqui. Eu creio em Ti. Eu te venero! Eu te amo! Perdão! Eu tenho sido injusto! Mentiroso! Mas estou sendo castigado. Só estas horas já são um castigo. Ajuda-me. Ele é o filho homem. O filho do meu filho que morreu. E ela me acusa de havê-lo matado –e chora batendo, ritmadamente, com a cabeça no chão.

– Levanta-te! Não chores assim. Queres morrer sem veres crescer o teu neto?

– Ele está morrendo! Está morrendo! Talvez já esteja morto. Faze que eu também morra. Não quero viver naquela casa vazia! Que tristes estes meus últimos dias!

– Eli, levanta-te, e vamos…

– Tu… vais mesmo? Mas, sabes quem eu sou?

– Um infeliz. Vamos…

O velho se levanta, e diz:

– Eu vou na frente, mas Tu corre, corre, anda depressa!

E lá se vai ele com a velocidade que lhe dá aquele desespero, que fere seu coração.

– Mas, Senhor, achas que o mudarás com isto? Vai ser um milagre desperdiçado! Deixa morrer aquela pequena serpente! O velho também morrerá do coração… e terás um a menos em teu caminho. Deus pensou em…

– Simão! Em verdade, a serpente agora és tu.

Jesus rechaça severamente a Pedro, que fica depois de cabeça inclinada, e vai andando para a frente.

161.4 Perto da praça maior de Cafarnaum há uma bela casa, diante da qual a multidão está fazendo um grande barulho… Jesus se dirige para lá, e quando da porta escancarada o velho vem saindo, acompanhado por uma mulher de cabelos desgrenhados, e que vem apertando com seus braços um pequeno ser agonizante. O veneno já lhe paralisou os órgãos, e a morte está próxima. A mãozinha está pendurada e pode-se ver nela o sinal da mordida, na raiz do dedo polegar. Eli não cessa de gritar:

– Jesus! Jesus!

E Jesus, comprimido pelo aperto da multidão, que quase torna impossível fazer seja o que for, pega a mãozinha e a leva à boca, suga a ferida, depois sopra levemente sobre o rostinho já cor de cera, com os olhos semifechados e já vidrados. Depois se ergue.

– Eis aí –diz Ele–, agora o menino está acordando. Não o fiqueis espantando com todos esses vossos rostos transtornados. Só a lembrança da serpente já lhe fará medo.

De fato, o pequeno, cujo rosto começa a ficar cor-de-rosa, abre a boca para um longo bocejo, esfrega os olhinhos, depois os abre, e fica espantado por se ver no meio de tantas pessoas. Em seguida vai-se lembrando, e faz como se quisesse fugir dali, e dá um salto tão de repente, que cairia, se Jesus não estivesse pronto para recebê-lo entre seus braços.

– Bom, bom! De que é que estás com medo? Olha, que sol bonito! Lá está o lago, lá está tua casa, aqui está a mamãe, aqui o vovô.

– E a serpente?

– Não está mais aqui. Aqui estou Eu.

– Tu. Sim…

O menino ficou pensando… depois, com a voz da verdade inocente, ele diz:

– O vovô me dizia que eu te chamasse de ‘maldito’. Mas eu não te chamo assim. Eu te quero bem.

– Eu? Eu te disse isto? O pequeno está delirando. Não creias nele, Mestre. Eu sempre te respeitei.

O medo que está lhe desaparecendo, faz reaparecer a sua antiga natureza.

– As palavras têm e não têm valor. Eu as aprecio por aquilo que valem. Adeus, pequenino. Adeus, mulher. Adeus, Eli. Procurai querer-vos bem, e querei bem a Mim, se o puderdes.

Jesus vira as costas e vai para a casa em que está hospedado.

161.5 – Por que, Mestre, não quiseste fazer um milagre espetacular? Devias ordenar ao veneno que saísse do pequeno. Devias mostrar que eras Deus. Mas Tu apenas sugaste o veneno, coisa que qualquer pobre homem pode fazer.

Judas Isacariotes não está contente. Queria algo de espetacular. Os outros também são do mesmo parecer:

– Devias tê-lo esmagado, como a um inimigo, com o teu poder. Não percebeste? Logo voltou a soltar veneno…

– Isso do veneno não tem importância. Mas pensai bem que, se Eu tivesse feito como vós quereis, ele teria dito que Eu estava sendo ajudado por Belzebu. Em sua alma arruinada ainda pode admitir o meu poder como médico. Não mais do que isso. O milagre só leva à fé àqueles que já estão a caminho dela. Mas naqueles que não têm humildade — a fé prova sempre que existe humildade numa alma — leva à blasfêmia. Por isso, é melhor evitar este perigo, e usar de recursos que tenham aparência humana. A miséria dos incrédulos é uma miséria incurável. Nenhum dinheiro pode acabar com ela, por que nenhum milagre os leva a crer, nem a serem bons. Mas isso para Mim não tem importância. Eu faço a minha tarefa. E eles seguem a sua má sorte.

– Mas, por que o fizeste, então?

– Porque Eu sou a Bondade e para que não se possa dizer que Eu tenho sido vingativo com os inimigos e provocador com os provocadores. Eu amontôo carvões sobre a cabeça deles. E eles mesmos mos oferecem para que Eu lá os amontoe. Seja bom, Judas de Simão. Tu, procura não fazer como eles. E basta. Vamos agora para a minha mãe. Ela ficará contente, ao saber que Eu curei um pequenino.