617. 617. A Ressurreição.
1 de abril de 1945.
617.1Revejo1 a radiante e potente Ressurreição de Cristo.
Na horta há um profundo silêncio e um brilho da orvalhada. Sobre ela, o céu vai-se tornando da cor de uma safira cada vez mais clara, depois de ter deixado o seu azul escuro bordado pelas estrelas que ficaram vigiando o mundo durante a noite inteira. A aurora empurra do oriente para o ocidente estas partes ainda escuras, do modo como fazem as ondas durante o tempo de uma maré alta, que avança cada vez mais, cobrindo a praia escura e substituindo o cinzento escuro da areia e dos escolhos pelo azul da água do mar.
Algumas estrelinhas não querem morrer ainda e ficam olhando, cada vez mais fracas, por baixo da onda de luz branca esverdeada da aurora, com uma cor leitosa esfumada de cinzento, como o dos ramos das oliveiras sonolentas, que fazem uma coroa ao redor daquela colina pouco distante. Depois naufraga, submersa pela onda da aurora, como um ponto da terra que a água submerge. E depois mais uma desaparece… Depois outra, e outra, e mais outra. O céu perde assim os seus rebanhos de estrelas, e somente lá ao longe, no extremo ocidente, há três, depois duas, depois só uma, que são as que restaram para ficar olhando aquele prodígio que acontece cada dia, que é o surgir da aurora.
E eis que, quando um fio cor de rosa traça uma linha sobre a seda cor de turquesa do céu oriental, um suspiro do vento passa por cima das copas das árvores e por sobre as ervas, como que dizendo:
– Despertai. O dia ressurgiu.
Mas desperta unicamente os ramos e as ervas, que estremecem por baixo dos seus diamantes de orvalho e fazem um leve farfalhar, arpejado pelas gotas que caem. Os passarinhos ainda não despertaram por entre os ramos frondosos de um cipreste muito alto, que parece dominar como um senhor em seu reino, nem no enredado entrelaçamento de uma sebe de loureiros, que fazem um anteparo contra o vento do Norte.
617.2Os guardas, entediados, enregelados, sonolentos, em poses diversas, vigiam o Sepulcro, cuja porta de pedra foi reforçada, em seu orlo, com uma grossa camada de argamassa, como se fosse um contraforte, e sobre o branco opaco destacam-se as grandes rosáceas de cera vermelha, impressas diretamente na argamassa fresca do sigilo do Templo.
Os guardas devem ter acendido um pequeno fogo durante a noite, porque ainda há cinzas e alguns tições mal queimados no chão. E eles devem ter jogado e comido, pois ainda se veem restos de comida e pequenos ossos limpos, que certamente foram usados para algum jogo, como o nosso dominó, ou o jogo de que os meninos gostam, o dos dados, que eles jogaram sobre um velho tabuleiro riscado no chão. Depois eles se cansaram e deixaram tudo como estava, para irem procurar algum canto mais ou menos cômodo para dormirem ou para vigiarem.
617.3No céu, que está com um trecho todo rosado do lado do oriente, e que se espalha cada vez mais no céu sereno, onde ainda não se vê nenhum raio de sol, se apresenta — vindo de profundidades desconhecidas — um meteoro esplêndido, que desce como bola de fogo de insustentável esplendor, seguida por um rastro cintilante, que talvez seja só a lembrança do seu fulgor em nossa retina. Precipita-se rapidamente em direção à terra, emanando uma luz tão intensa, fantasmagórica, amedrontadora em sua beleza, que a luz rosada da aurora se anula, suplantada por essa incandescência branca.
Os guardas levantam a cabeça, espantados, também porque, com aquela luz, ouve-se um estrondo muito forte, mas cheio de harmonia, solene, que enche por si mesmo todo o mundo. Ele vem das profundezas do Paraíso. É o aleluia, o glória dos anjos que acompanha o espírito de Cristo que volta em sua Carne gloriosa.
O meteoro bate contra o inútil lacre do Sepulcro, o desfaz, o enterra, fulmina de terror e de fragor os guardas lá colocados como carcereiros do Dono do Universo, produzindo, com aquele seu retorno sobre a Terra, um novo terremoto, como aconteceu quando havia fugido da terra o Espírito do Senhor. Entra no sepulcro escuro, que fica todo claro por aquela luz indescritível, e, enquanto ela continua no ar, imóvel, o Espírito se infunde de novo no Corpo rígido que está sob as bandagens fúnebres.
Tudo isso se dá não em um minuto, mas numa fração de minuto, de tão rápido que é o aparecimento, a descida, a penetração e o desaparecimento da Luz de Deus…
617.4E o “quero” do Espírito Divino dito à sua Carne fria não produz rumor. É pronunciado da Essência à Matéria imóvel. Mas nenhuma palavra é percebida pelo ouvido humano. A Carne recebe o comando e obedece com um respiro profundo… Nada mais por alguns minutos.
Por baixo do Sudário e do Lençol, a Carne gloriosa se recompõe em beleza divina, desperta do sono da morte, volta do “nada” em que estava, torna a viver depois de ter estado morta. Certamente o coração desperta e dá a primeira batida, empurra para dentro das veias o sangue gelado que ainda existe e repentinamente cria a medida total das artérias esvaziadas, nos pulmões imóveis, no cérebro obscurecido, e faz voltar o calor, a saúde, a força e o pensamento.
Mais um instante, e eis que se faz um movimento repentino por baixo do pesado lençol. É tão repentino o movimento que, do momento em que Ele move as mãos cruzadas até o momento em que Ele aparece em pé, imponente, esplêndido em sua veste de matéria imaterial, sobrenaturalmente belo e majestoso, com uma gravidade que o muda e eleva, embora deixando-O como é, os nossos olhos mal têm tempo de perceber a transição. E agora o admira: Ele está tão diferente de tudo o que nossa mente recorda, bem arrumado, sem feridas nem sangue, mas somente fulgurante daquela luz que irrompe em jatos das cinco chagas e emana de todos os poros de sua epiderme.
617.5Quando Ele dá o primeiro passo — e nesse movimento os raios jorram das Mãos e dos Pés, formando ao redor dele uma auréola de lâminas luminosas: da Cabeça coroada de uma guirlanda feita de inúmeras pequenas feridas, que não vertem mais sangue mas somente fulgor, até a orla da veste, quando Ele, abrindo os braços cruzados no peito, deixa à mostra a região de uma luminosidade vivíssima, que atravessa a veste acendendo-a como um Sol na altura do coração — então realmente é a “Luz” que tomou corpo.
Não é a pobre luz desta Terra, não é a pobre luz dos astros, não é a pobre luz do Sol. Mas é a Luz de Deus: todo o fulgor do Paraíso que se concentra em um só Ser e lhe doa os seus azuis inconcebíveis para as pupilas, os seus fogos dourados para os cabelos, os candores angelicais como veste e colorido, e tudo o que existe de indescritível por meio de palavras humanas, o supereminente ardor da Santíssima Trindade, que, com o seu poder ardente, anula todo o fogo do Paraíso, absorvendo-o em Si para gerá-lo de novo em cada um dos momentos do Tempo eterno, Coração do Céu, que atrai e espalha o seu sangue, as inumeráveis gotas do seu sangue incorpóreo: os bem-aventurados, os anjos, tudo o que há no Paraíso: o amor de Deus, o amor a Deus, tudo isso é a luz que existe, que forma o Cristo ressuscitado.
617.6Quando Ele se move, vindo em direção à saída, e os olhos podem ver para lá dos seus fulgores, eis que duas luminosidades esplêndidas, mas semelhantes a estrelas em comparação com o sol, aparecem uma de um lado e outro do outro lado da soleira, prostradas em adoração a Deus, que passa envolvido em sua luz, beatífico em seu sorriso, e sai, abandonando aquela gruta fúnebre e pisando de novo na terra, que desperta cheia de alegria e brilha toda ela em orvalhadas, com as cores das plantas e das roseiras, nas infinitas corolas das macieiras, que prodigiosamente se abrem ao beijo do primeiro sol e do Sol eterno que vai passando por elas.
Os guardas estão lá entorpecidos… As forças corrompidas do homem não veem a Deus, enquanto que as forças puras do universo — as flores, as plantas, os pássaros — admiram e veneram o Poderoso que passa num nimbo de luz própria e num nimbo de luz solar.
O seu sorriso, o olhar que pousa sobre as flores, as ramagens, que se eleva para o céu sereno, aumentam em tudo sua beleza. As mais macias e esfumadas flores de um sedoso roseiral são milhões de pétalas que formam uma espuma florida sobre a cabeça do Vencedor. E mais vívidos são os diamantes das orvalhadas. Mais azul é o céu, que espelha os seus Olhos fulgurantes, e festivo está o sol que pincela com traços de alegria uma nuvenzinha transportada por um vento leve, que vem beijar o seu Rei com fragrâncias raptadas aos jardins e com carícias de pétalas sedosas.
Jesus levanta a mão e abençoa, e depois, enquanto os passarinhos estão cantando mais forte e o vento traz perfumes, desaparece de minha vista, deixando-me numa alegria que cancela até a mais leve lembrança de tristezas e sofrimentos e dúvidas sobre o dia de amanhã…
1 Revejo, porque já vista e descrita mais concisamente (ver nota em 587.13) em 21 de fevereiro de 1944.
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