461. 461. Complô junto a Cusa para a eleição de Jesuscomo rei. O grego Zenon e a carta de Síntiquecom a notícia da morte de João de Endor.


23 de julho de 1946.

461.1 Tiberíades derramou todos os seus habitantes sobre as beiras do lago e sobre o próprio lago, a fim de encontrarem um refrigério na brisa que passa por sobre as águas, e sacode as árvores dos jardins, ao longo da praia. Enquanto os ricos desta cidade, na qual misturam-se muitas raças, que por muitos motivos aí se reuniram, procuram conforto em cômodas barcas esportivas, ou das sombras verdes dos jardins, ficam olhando as evoluções das barcas sobre as águas cor de turquesa, agora já purificadas da cor amarela que para ela havia sido trazida pelo aguaceiro da tarde anterior, os pobres, especialmente os meninos, sobem e brincam alegremente no ponto em que as ondinhas vêm morrer, e os seus gritinhos estridentes, por causa do frio da água que bate neles mais do que eles gostariam, parecem uns gritos de andorinhas.

As barcas de Pedro e de Tiago se aproximam da margem e se dirigem para o pequeno molhe.

– Não. Ao jardim de Joana –ordena Jesus.

Pedro obedece sem falar nada, e a barca, acompanhada pela sua gêmea, com uma virada perfeita que faz uma esteira espumejante em forma de um ponto de interrogação, toma de novo uma rota para o cais do jardim do Cusa e lá atraca, pára. Jesus desce por primeiro, dá a mão às duas Marias, para ajudá-las a descer sobre o pequeno molhe.

– Agora, vós, ide ao grande molhe, e ponde-vos a pregar o Senhor. Vereis um homem que se aproximará de vós, perguntando-vos onde é que Eu estou. É o homem de Antioquia. Conduzi-o a Mim, depois que tiverdes despedido a multidão.

– Sim… mas… Que é que devemos dizer ao povo? Pregar a tua vinda, ou pregar a tua doutrina?

– A minha vinda. Dizer que, lá pela aurora, Eu falarei em Tariqueia e curarei os doentes. Um de vós fique vigiando as barcas, ou, então, colocai algum discípulo a fazê-lo, para que estejam prontos para a partida. Ide, e a paz esteja convosco.

E Jesus se encaminha para o lado da cancela, que se fecha sobre a prancha. As duas Marias o acompanham em silêncio.

461.2 No amplo jardim, onde algumas rosas teimosas estão florescendo, ainda que raras. Não se vê ninguém. Mas já se ouvem os gritos felizes dos dois pequeninos, que estão brincando. Jesus procura, com a mão que passou por entre os arabescos da cancela, fazer correr a tranqueta. Mas não consegue. Procura ver se por ali há alguma coisa com que possa fazer barulho, para chamar a atenção. Mas não há nada. Então, ouvindo já mais de perto as vozes das duas crianças, chama em voz alta:

– Maria!

As vozes emudecem de repente… Jesus repete:

– Maria!

E eis que, lá do meio do prado, nivelado como um tapete, do qual se erguem as moitas bem conservadas dos roseirais, aparece, dando os seus passinhos curtos, olhando ao redor de si, com um dedinho sobre os lábios, com os olhos indagadores olhando para todos os lados, a menina, e depois alguns passos atrás, acompanhado por um cordeirinho branco como uma espuma, vem vindo o Matias.

– Maria! Matias! –grita forte Jesus.

A voz atrai os olhares inocentes. As duas crianças dirigem seus olhares para a cancela, veem a Jesus com o rosto encostado nas barras, e que lhes está sorrindo.

– É o Senhor! Corre, Maria, vai dizê-lo à mamãe… Chama Elias e Miqueias, que eles venham abrir…

– Vai-te! Eu vou ao Senhor… –e saem correndo os dois, com os braços estendidos, como duas borboletas, uma branca e a outra cor-de-rosa com a cabecinha escura.

Mas, por sorte, ao correr, eles chamam os servos, e estes, tendo nas mãos seus regadores e rastelos, chegaram, e finalmente abrem a cancela. As duas crianças vão refugiar-se nos baços de Jesus, que os beija, e passa pela cancela, segurando-os pela mão.

461.3 – A mamãe está em casa com suas amigas. Elas nos mandam para fora, porque não nos querem lá, explica, sem rodeios, Matias.

– Não fales mal assim. A mamãe nos manda para fora, porque aquelas damas são romanas, falam ainda dos seus deuses, e nós, os salvados por Jesus Cristo, devemos conhecer somente a Ele. É por isso, Senhor. Matias é muito pequeno e não entende –diz, de um modo gracioso, com sua sensatez de quem já sofreu, que por isso já está mais madura e mais adulta do que sua idade o permite.

– Ela nos manda para fora, também ao pai, quando chegam os da Corte. E eu gostaria de ficar, porque são quase todos soldados… guerreiros. A guerra! A guerra é bonita. Faz vencer. Manda embora os romanos. Abaixo Roma! Viva o Reino de Israel! –grita valentemente o pequeno.

– Não é bela a guerra, Matias, e muitas vezes não se ganha a guerra, então, de súditas, as pessoas se tornam escravas.

– Mas o teu Reino deve vir. E, para fazê-lo vir é que se fará a guerra. Mandaremos todos embora, inclusive Herodes, e Tu serás o Rei.

– Ora, cala a boca, bobo. Tu já sabes que não deves ficar repetindo as coisas que ouves. Fazem bem em mandar-te para fora. Não sabes que podes estar fazendo mal ao pai, à mãe e até a Jesus, ao ficares falando tais coisas? –diz Maria.

E depois ela explica:

– Veio um dia aquele que é como um príncipe e parente de Herodes, que é teu discípulo, para falar com o pai. E eles gritavam muito alto, pois não estavam sozinhos, mas com muitos outros…

– Todos muito bonitos, com belas espadas, e falavam de guerra… –interrompe Matias.

– Cala a boca, eu te digo! Gritavam tão alto que se podia ouvir, e este bobo agora só sabe ficar falando do que ouviu. Dize-lhe Tu que ele não deve… mamãe já o disse e o pai já o ameaçou de o levar para o cume do grande Heron, e colocá-lo lá numa gruta, com um escravo surdo e mudo, até que ele aprenda a calar a boca. E lá ele teria que calar-se, porque, se falar com o escravo, ele não ouve, nem responde, e, se gritar, vêm as águias e os lobos devorá-lo..

– Um castigo verdadeiramente terrível –diz Jesus sorrindo e acariciando o menino, que já perdeu toda a valentia, e se agarra em Jesus, como se já estivesse vendo as águias e os lobos prontos para devorá-lo todo inteiro, a começar por sua língua imprudente–. Um castigo verdadeiramente terrível, repete.

– É sim. E eu fico com medo de que o levem, que eu fique sem Matias, e choro… Mas ele não tem piedade nem de mim, nem da mamãe, e vai fazer-nos morrer de dor…

– Eu não o faço de propósito… ouvi dizer… e digo. É tão bonito… pensar que os romanos sejam vencidos, que Herodes seja expulso junto com Filipe, e que Jesus seja o Rei de Israel –termina, com um sussurro, escondendo o rosto nas dobras das vestes de Jesus, para abafar ainda mais o som de sua voz.

461.4 – Matias não dirá estas coisas nunca mais. A Mim ele o promete e cumprirá. Não é verdade? Assim ele não será devorado, Joana e Maria não morrerão de dor, Cusa não ficará inquieto e Eu não serei odiado. Porque, presta atenção, Matias! Tu fazes que Eu seja odiado ao dizeres essas coisas. Tens prazer em ver que Jesus seja perseguido? Pensa que remorso terias, se um dia tivesses que dizer a ti mesmo: “Eu fiz que perseguissem a Jesus que me salvou, tudo isso porque eu fiquei repetindo tudo o que casualmente eu ouvi.” Eles eram homens e os homens muitas vezes perdoo diante dos olhos de Deus, mesmo pecadores. Não vendo Deus, não veem a Sabedoria, fazem dos erros uma meta boa, ou creem que o fazem. Mas as crianças são boas. Seus espíritos veem a Deus, e Deus vem repousar em seus corações. Por isso elas devem entender as coisas com sabedoria e dizer que meu Reino não se estabelecerá por meio da violência armada sobre esta terra, mas com o amor nos corações. E devem rezar para que os homens compreendam como é este meu Reino, como o entendem os pequeninos. As orações dos meninos são levadas pelos anjos deles ao Céu e o Altíssimo as transforma em graças. E Jesus precisa dessas graças para fazer dos homens que pensam em guerras e num Reino temporal, uns apóstolos que compreendem que Jesus é paz, e que o Reino dele é espiritual e celeste. Estais vendo este cordeirinho? Poderia ele despedaçar alguma coisa?

– Ah! Não. Se ele pudesse, o pai não no-lo teria dado, para não sermos despedaçados por ele.

– Aí está! Falaste bem. Também o Pai, que está nos Céus, nunca me teria mandado, se Eu tivesse tido o poder e a vontade de despedaçar. Eu sou o Cordeiro e o Pastor, não com a lança e a capa de guerreiro. Compreendeste? E me prometes a Mim, a Mim mesmo, que não falarás mais dessas coisas?

– Sim, Jesus. Mas… ajuda-me Tu… porque eu sozinho…

– Eu te ajudarei. Olha, Eu te acaricio nos lábios, assim eles saberão ficar fechados.

461.5 – Mestre meu! Santa esta tarde que me concedes para ver-te! –diz Jônatas, saindo da casa e indo prostrar-se aos pés de Jesus.

– A paz esteja contigo, Jônatas. Posso ver Joana?

– Ela já está vindo. Ela despediu-se das romanas para vir a Ti.

Jesus olha para ele, como quem quer fazer uma pergunta, mas não a faz. Vai caminhando na direção da casa, ouvindo Jônatas que está falando de Cusa “que está desgostoso com Herodes”, e que diz:

– Pelo amor de minha patroa, eu te peço que o freies, porque quer fazer coisas que… não fariam bem nem a Ti, nem a eles, mas sobretudo a Ti.

461.6 Joana, com uma esplêndida veste branca sobre a qual desce da cabeça um véu que parece uma filigrana de prata, de tão bordado que é com prata, e eu nem sei como é que a beleza do tecido suporta aquele bordado entretecido com prata, cingida com o sutil diadema, feito um pouco afilado na frente, como uma mitra adornada com pérolas, pérolas nos pesados brincos, pérolas nos pulsos e nos dedos, vem lépida ao encontro do Senhor, e, sem reparar em sua bela veste, prostra-se na poeira no chão do caminho, e beija os pés de Jesus.

– A paz esteja contigo, Joana!

– Quando Tu estás comigo, há sempre paz em mim e em minha casa… Mãe!

E faz o gesto de quem ia beijar os pés de Maria, mas esta a acolhe entre seus braços, beijando-a. O beijo é trocado também com Maria de Alfeu.

Jesus, depois das saudações, diz:

– Preciso falar-te, Joana.

– Aqui estou, Mestre. Maria, a casa é tua. Manda no que for preciso. Eu vou ficar com o Mestre…

Jesus já saiu dali e está andando pelo prado, bem à vista de todos, mas isolado o tanto suficiente para que ninguém possa ouvi-lo. Joana aproxima-se dele.

– Joana, eu devo receber um mensageiro de Antioquia, com uma mensagem, certamente de Síntique. E pensei em vir fazê-lo em tua casa. Aqui no jardim…

– Tu és dono de tudo o que for de Joana.

– Até do teu coração?

E Jesus a fixa penetrantemente.

– Tu já sabes, Mestre. Disto eu estava quase certa. Agora, já o estou completamente. Cusa… Como é grande a incoerência dos homens! Seu espírito de interesse é muito forte! E sua piedade para com as mulheres é tão pouca! Nós somos… Que somos nós, até nós, mulheres dos melhores? Somos como uma joia que se ostenta, ou que se esconde, conforme a vantagem que daí resulte… Uma atriz, que deve rir ou chorar, mostrar-se ou ficar escondida, conforme o Senhor quiser… sempre conforme o interesse dele… É triste a nossa sorte, Senhor! E também degradante!

– Em compensação vos é dado subir mais alto no espírito.

– Isto é verdade. Soubeste por ti mesmo, ou te falaram? Tens visto Manaém? Ele te estava procurando.

– Não, Não vi ninguém. Ele está aqui?

– Sim. Todos estamos aqui… Quero dizer: todos os cortesãos de Herodes… e muitos para odiá-lo. Entre estes estão Cusa, desde quando, pela vontade de Herodíades, Herodes se compraz em humilhar seu intendente… Senhor, estás lembrado de como em Beter ele te disse que queria separar-me de Ti, porque temia morrer no desfavor de Herodes? Não são passados mais do que poucos meses… E ele quer agora que eu te persuadisse a aceitares a ajuda dele para te tornares rei no lugar do Tetrarca… Eu o devo dizer, porque sou mulher, sujeita por isso ao homem, e, além disso, mulher hebreia, por isso mais do que sujeita à vontade do esposo. E eu o digo… E não te aconselho… porque espero ficar sabendo já que Tu… Oh! não te irás fazer rei com o favor das lanças assalariadas. Oh!… que foi que eu disse! Eu não devia falar assim… Devia deixar-te primeiro ouvir Cusa e Manaém e outros… E, se eu ficasse calada, não faria mal? Senhor, ajuda-me a ver o que é justo…

461.7 – O que é justo está em teu coração, Joana. Nem com as cortes romanas, nem com as lanças israelitas Eu me farei rei, ainda que Roma e Israel quisessem pacificar esta região por meio de Mim. Eu já compreendi o suficiente para reconstruir as coisas. Matias teve imprudentes palavras. Jônatas se referiu a desgostos. Tu estás dizendo o resto. Eu completo assim: uma ideia louca sobre o meu reino está excitando os bons, mas não ainda os justos, como Manaém, a criar movimentos capazes de instaurar o Reino de Israel, segundo a ideia fixa da maior parte. Há uma pungente, ardente necessidade de vingar-se de uma afronta, que excita outros, entre os quais o teu esposo para a mesma coisa. Sobre estes dois motivos está se apoiando a astúcia farisaica, saduceia, escriba e até herodiana, como se usasse dessas coisas como de uma alavanca, para conseguir desfazer-se de Mim, fazendo-me aparecer aos olhos dos que nos dominam como Eu não sou. Tu despediste as romanas para dizer-me isto, não querendo trair Cusa, nem Manaém, nem os outros. Mas Eu te digo em verdade que entre todos quem me compreendeu melhor foram os gentios. Eles me chamam de filósofo, talvez até me julguem um sonhador, alguém que não está com os pés no chão, um infeliz segundo eles, para os quais tudo se resolve com a violência. Mas já compreenderam, pelo menos eles, que Eu não sou desta terra e que o meu Reino não é desta terra. Eles não têm medo de Mim, mas dos meus seguidores. Eles têm razão. Eles, uns por amor, outros por orgulho, seriam capazes de fazer qualquer coisa para realizarem a sua ideia: fazer de Mim o Rei dos reis, o Rei Universal, um pobre rei de um pequeno estado… Em verdade, Eu preciso guardar-me mais desta insídia, que se está armando na sombra, instigada pelos meus verdadeiros inimigos que não vivem no palácio proconsular de Cesareia, nem no do Legado de Antioquia, nem na Fortaleza Antônia, mas por baixo dos tefilins, das fímbrias e zizits das vestes hebraicas, especialmente sob os amplos tefilins e zizits1 colocados nas amplas vestes dos fariseus e escribas, para mostrar a sua mais ampla adesão à Lei. Mas a Lei está no coração, e não sobre as vestes… Se estivesse no coração, aqueles que se odeiam, mas que agora se reúnem, esquecendo-se do ódio para fazerem o mal, o ódio que cava profundos precipícios entre uma e outra das castas de Israel que agora não está separado, mas está nivelado, porque os precipícios estão cheios de ódio a Mim. Se a Lei estivesse no coração deles, não pendurada ou amarrada às suas vestes, na fronte, na mão, assim como fazem os selvagens, que se cobrem de amuletos, de conchas, de ossos, de bicos de abutres, por superstição e como enfeite; se estivesse no coração esta Lei, se a Sabedoria não estivesse escrita dentro dos tefilins, mas sobre as fibras do coração, eles compreenderiam quem Eu sou, e que, contra Mim, para destruir-me como Verbo e como Homem, eles não podem vir. Eu devo, pois, defender-me dos amigos e dos inimigos injustos, igualmente, em seus ódios, como nos seus amores. Devo procurar guiar os amores e acalmar os ódios. Eu o faço para cumprir o meu dever. E o farei até que Eu tenha edificado o meu Reino, molhando as pedras com o meu Sangue, para que formem uma argamassa. Quando Eu vos tiver aspergido com o meu Sangue, os vossos corações não vacilarão mais. Estou falando dos corações que me são fiéis. Do teu, Joana, que estás na luta contra as duas forças e os dois amores, que estão acima de ti e em ti: Eu-Cusa.

– Mas Tu vencerás, Senhor.

– Eu vencerei, sim.

– Procura, porém, salvar também Cusa… Ama a quem eu amo.

– Amo a quem te ama…

– Ama Cusa che ti ama…

– A mentira não é para aquela fronte pura como as pérolas que a cingem, que agora enrubesce, no esforço de querer persuadir-se a si mesma e a Mim de um amor de Cusa.

– Contudo, ele te ama.

– Sim. Por um seu interesse. Como por seu interesse não me amava em Ziv e em Sirão… 461.8Mas eis Simão de Jonas com o estrangeiro. Vamos a eles…

Vão indo até o vestíbulo que está atrás da casa e de um pórtico meio redondo, aberto sobre o parque que é um vestíbulo num semicírculo aberto para o jardim, ornado com colunas, com ramos de roseiras, que agora estão sem flores, e ramagens gentis de jasmineiros cheios de flores e de outras trepadeiras purpurinas, cujo nome eu ignoro.

– A paz esteja contigo, estrangeiro. Querias falar comigo?

– Saúde e glória. Eu queria. Trago uma carta para Ti. Foi-me entregue por uma mulher grega de Antioquia. Sou… não, não sou mais grego, porque passei a ter cidadania romana para poder continuar o meu contrato. Eu sou fornecedor das milícias romanas. Eu os odeio. Mas provê-los de vitualhas é muito bom. Por todo o mal que eles já nos fizeram, eu deveria misturar cicuta com as farinhas, mas seria necessário envenená-los todos. A poucos só, não serve. Eles fariam mais mal do que antes… Eles creem que para eles tudo é permitido, porque são fortes. Comparados com os gregos, eles são uns bárbaros. Roubaram-nos tudo para se enfeitarem com o que era nosso e se fingiram de civilizados. Mas, raspa um pouco a crosta, que está tingida com a nossa civilização, e encontrarás sempre um Amúlio, um Rômulo, um Tarquínio… Encontrarás sempre um Bruto, matador de seu benfeitor. Agora eles têm Tibério! É pouco ainda para eles. Já têm Sejano. Já têm o que lhes fica bem. O ferro, as correntes, os delitos que eles têm cometido fazem que eles se revoltem contra si mesmos, mordam as carnes dos animais romanos. É pouco, ainda é muito pouco. Mas o que é lei acontecerá. Quando o monstro tiver ficado enorme, ficará tombado pelo seu próprio peso e apodrecerá. E os vencidos se rirão sobre o enorme cadáver, se tornarão de novo os vencedores. Assim seja. Todos os pés dos conquistadores pisarão naquela que tudo esmagava com sua expansão brutal… Mas, perdoa-me, Senhor. A antiga dor me revoltou de novo… 461.9Eu te disse que uma grega me deu uma carta para Ti, e me disse que Tu és o virtuoso perfeito. Virtuoso… És jovem para sê-lo… os grandes espíritos da Hélade consumiram suas vidas para se tornarem um pouco virtuosos… Contudo, a mulher me disse quais são as tuas ideias. Se realmente Tu crês no que ensinas, então tu és grande. É verdade que Tu vives preparando-te para a morte, para dar ao mundo a sabedoria de viver como deuses e não como animais, desse jeito que agora os homens estão vivendo? É verdade que Tu afirmas que que só existe uma riqueza digna de ser acumulada, a riqueza da virtude? É verdade que Tu vieste para redimir, mas que a redenção deve começar em nós mesmos, seguindo os teus ensinamentos? É verdade que nós temos a alma, que devemos tratá-la com cuidado, por ser ela uma coisa divina, imperecível, incorruptível por natureza, mas que nós, nós sozinhos, vivendo como uns animais, podemos desdivinizá-la, ainda que não possamos destruí-la? Responde-me, ó Grande!

– É verdade. Tudo é verdade.

– Por Zeus! Era assim que falava o nosso Sumo. Parecia-me uma música à qual faltava uma nota, uma lira, à qual faltasse uma corda. De vez em quando percebia-se um vazio, atravessado pelo filósofo. Tu o preencheste, se realmente vieste não só para ensinar, mas também para morrer, não constrangido a isso por alguém, mas pela própria vontade de obediência a Deus, o que transforma a tua morte de suicídio em sacrifício… Pela divina Palas! Nenhum dos nossos deuses jamais fez isso. Por isso, eu deduzo seres Tu mais do que eles. A grega diz que eles não existem, que só Tu existes… Estou eu, então, falando com um Deus? E pode um Deus ficar ouvindo assim um provedor de vitualhas, ladrão e cheio de ódio do inimigo, um homem miserável? Por que me ficas escutando?

– Porque Eu estou vendo a tua alma.

– Tu a estás vendo? Como é que ela é?

– Retorcida, suja, tem serpentes em lugar de cabelos, triste, ignorante, não obstante ser o teu intelecto bem diferente do dos bárbaros. Mas, dentro desse templo feio, há um altar que está esperando, como aquele que está lá no areopago, esperando a mesma coisa. Está esperando o Deus verdadeiro.

– Então é a Ti, porque a grega diz que Tu és o Deus verdadeiro. Mas, por Zeus! É verdade o que dizes de minha alma? És mais claro e seguro do que o oráculo de Delfos? Mas Tu pregas paz, amor e perdão. Virtudes difíceis. E ser assim é ser maiores do que os deuses, porque eles, oh! não são pacíficos, nem honestos, nem magnânimos! Eles são a perfeição das paixões más do homem, exceto Minerva, que, pelo menos, é sábia… A própria Diana… Pura, mas cruel… Sim. Ser assim como Tu pregas, é ser mais do que os deuses. Se eu chegasse a ser isso… pelo belíssimo Ganimedes! Ele que, desde jovenzinho, foi transformado em águia olímpica e escanção dos deuses. Mas Zenon, de fornecedor de cereais aos bárbaros seus patrões, chegar a ser deus… 461.10Mas deixa que eu me concentre neste pensamento, e Tu lê a carta da mulher, enquanto isso… –e o homem põe-se a passear como um peripatético.

Pedro, cansado, vendo que a conversa era longa, se havia sentado comodamente em uma cadeira do átrio e, naquele fresco ambiente, na maciez das almofadas jogadas sobre as cadeiras, põe-se tranquilamente a cochilar… Mas deve ter ficado com um ouvido vigilante, porque foi despertado pelo barulho do selo quebrado e do pergaminho ao ser desenrolado, põe-se de pé, esfregando os olhos cheios de sono. Ele se aproxima do Mestre, que está lendo, posto de pé perto de uma lâmpada com placas de mica, de uma delicada cor violácea. E, sendo fraca aquela luz, preparada para iluminar o local, sem tirar-lhe o encanto de uma lua em noites serenas, Jesus tem que segurar altas as folhas para poder ler as palavras, e Pedro, sendo muito mais baixo do que o Mestre, tendo ficado ao lado dele, espichando o pescoço, procura levantar-se na ponta dos pés, para ver, mas não o consegue.

– É Síntique, não? Que diz ela? –pergunta ele duas vezes, e suplica–: Lê alto, Mestre!

Mas Jesus lhe responde:

– Sim. É ela… Depois…

E continua a ler até terminar a primeira folha, dobra-a e a coloca nas dobras da cintura, continuando a leitura na segunda folha.

– Quantas coisas ela escreveu, hein? Como vai João? E quem é aquele homem?

Pedro fica insistindo como uma criança. Jesus está de tal modo absorto que nem ouve mais. Também a segunda folha terminou, e segue o caminho da primeira.

– Aí, elas acabam se perdendo. Dá-mas, que eu as seguro…

E certamente o pensamento dele é este: “e eu dou uma olhadinha nelas.” Mas, levantando os olhos para ver as mãos do mestre, que estão desenrolando a terceira e última vê brilhar uma lágrima suspensa nos louros cílios de Jesus.

– Mestre, estás chorando? Por quê, mestre meu? –diz ele e se aperta ao encontro de Jesus, abraçando-o pela cintura, com seu braço musculoso e curto.

– João morreu…

– Oh! Pobrezinho! Quando?

– Com os primeiros grandes calores… sempre desejando muito ver-nos…

– Oh! Pobre João! Mas já… estava acabado! A dor de separar-se… Tudo por causa das serpentes. Se as conhecesse pelo nome! Lê alto, Senhor. Eu queria bem ao João!

– Depois. Depois Eu lerei. Agora cala-te.

Jesus está lendo com atenção. O Pedro se espicha ainda para ver. A leitura terminou. Jesus toma e dobra a folha, e diz:

– Chama a minha Mãe.

– Não vais ler?

– Estou esperando os outros… Enquanto isso, vou despedir-me daquele homem.

461.11 E, enquanto Pedro entra na casa onde estão as discípulas com Joana, Jesus vai falar com o grego:

– Quando vais partir?

– Oh! Eu devo ir à Cesareia, ao Procôsul, e depois a Jope, depois de ter adquirido as mercadorias, partirei dentro de um mês, em tempo para evitar as tempestades de novembro. Partirei por mar. Tens necessidade de mim?

– Sim, para mandar a resposta. A grega diz que posso confiar em ti.

– Dizem que nós somos falsos. Mas temos também a capacidade de não o ser. Confia em mim. Podes preparar o escrito e procurar-me na festa dos Tabernáculos, perto de Cleante, que é quem me abastece de queijos da Judeia para as mesas dos romanos. Eu fico na terceira casa depois da fonte da vila de Betfagé. Não podes errar.

– Também tu não podes errar, se fores pelo caminho no qual puseste o pé. Adeus, homem. A civilização grega te levará à cristã.

– Não me censuras por ter ódio?

– Achas que eu deveria fazê-lo.

– Sim, porque tu reprovas o ódio como uma paixão indigna, e aborreces a vingança.

– E tu, que achas disso?

– Que aquele que não odeia, perdoa, é maior do que Júpiter.

– Procura, então, atingir aquela grandeza… Adeus, homem. Que a tua família ame Síntique e, no exílio em que estais, tomai os caminhos da Pátria imortal: o Céu. Quem crê em Mim e pratica as minhas palavras terá aquela Pátria. Que a Luz te ilumine. Vai em paz.

O homem faz as saudações e sai. Depois para, volta e pergunta:

– E eu não te ouvirei falar?

– Ao romper do dia, vou falar em Tariqueia. Depois Eu vou para a Sírio-Fenícia e em seguida, não sei por qual estrada, irei para Jerusalém.

– Eu te procurarei. Amanhã estarei em Tariqueia, para julgar se és tão eloquente quanto sábio.

E vai-se embora definitivamente.

461.12 As mulheres estão no átrio e, com Pedro, estão comentando a morte de João. Mas vieram também os que tinham ficado pela cidade para avisar que amanhã de manhã o Rabi estará em Tariqueia. Todos estão falando do pobre João de Endor e estão ansiosos por saber notícias dele.

– Ele morreu, meu Filho? –pergunta Maria.

– Sim. Está na paz.

– Na verdade, ele parou de sofrer –suspira Pedro.

– Saiu para sempre do cárcere.

– Teria sido justo que ele não tivesse sofrido a última dor do exílio

–observa com impeto Judas de Alfeu.

– Foi mais uma purificação.

– Oh! Eu não quereria para mim uma purificação assim. Qualquer outra, mas não a de morrer longe do Mestre! –grita Tiago de Zebedeu.

– E, no entanto, morreremos todos assim… Mestre… leva-nos embora contigo –diz André, depois dos outros.

– Não sabes o que estás pedindo, André. Este é o vosso lugar, até o dia em que Eu vos chamar. 461.13Mas ouvi agora o que a Síntique escreve:

“Síntique de Cristo ao Cristo Jesus, saudações.

O homem que te levará estas folhas é um compatriota, prometeu-me procurar-te, deixando para o último lugar Betânia, onde deixará a carta em casa de Lázaro, se não tiver podido encontrar-te em nenhum lugar. Ele já é um que se está refazendo, como pode, de todos os males que recebeu, ele e os seus avós, da parte de Roma. Por três vezes Roma os golpeou, de muitos modos, e sempre com os seus métodos. Ele, com sua argúcia grega, diz que agora está mungindo as vacas tiberinas para fazer que elas cuspam as cabras helênicas. É fornecedor da casa do Legado e de muitas casas romanas desta pequena Roma e grande cidade do Oriente. Além disso, depois de usar de modos refinados para com os ricos, conseguiu, de um modo astuto, com homenagens servis, para encobrir seu ódio incurável, o direito de ser o fornecedor das cortes do Oriente. Seu método, eu não aprovo. Mas cada um faz o que pode. Eu teria preferido o pão pedido pelo caminho aos cofres de ouro que o opressor tem. Assim eu teria feito sempre, se agora um outro motivo, que não me traz vantagem, não me tivesse obrigado a imitar o grego, para os meus projetos.

Mas no fundo é um bom homem, boa é sua mulher, suas três filhas e um filho. Eu os conheci na pequena escola de Antigônio, e, tendo a mãe adoecido no começo da primavera, eu a curei com o bálsamo, assim foi que entrei na casa deles. Muitas casas me teriam recebido com prazer, como mestra e bordadeira. Eram casas de nobres e casas comerciais, mas eu preferi esta, por um motivo, que não é por ser ela uma casa de gregos. E agora te explicarei.

E te peço que tenhas dó de Zenon, mesmo que tu não possas aprovar o pensamento dele. Ele é como certos terrenos áridos, quartzíferos na superfície, mas ótimos por baixo da crosta dura. Eu espero ter resultado, ao levantar essa crosta criada por tantas dores, e descobrir o bom terreno. Seria uma grande ajuda para a tua Igreja, sendo Zenon conhecido, estando em ligação com muitos da Ásia menor e da Galácia, além de Chipre, Malta e até da Ibéria, onde, em todos os lugares, ele tem parentes e amigos, como ele gregos e perseguidos, ou então também romanos das milícias ou das magistraturas, que serão muito úteis um dia à tua Causa.

461.14 Senhor, enquanto estou escrevendo, aqui de um dos terraços da casa, estou vendo Antioquia com os seus molhes à beira do rio, o palácio do Legado na ilha, as suas estradas reais, seus muros com centenas e centenas de torres poderosas e, se eu me virar, verei o cume do Sulpio, que está para cima de mim com suas casernas, e o outro palácio do Legado. Estou assim entre as duas manifestações do poderio romano, eu, uma pobre mulher sujeita e sozinha. Mas eles não me causam medo. Pelo contrário, eu penso que o que não pode a ira dos elementos nem a força de todo este povo revoltado, o fará a aparente fraqueza, desprezível aos olhos dos poderosos, de quem é uma força, porque possui a Deus: Tu.

Eu penso e to digo, que esta força romana será a força cristã, quando ela te tiver conhecido, e que das cidadelas da romanidade pagã é que será preciso iniciar-se o trabalho, porque elas serão sempre as donas do mundo, uma romanidade cristã quererá dizer uma cristandade universal. Quando será isso? Não sei. Mas percebo que assim será. Por isso eu olho com um sorriso estes testemunhos do poder romano, pensando naquele dia em que porão suas insígnias e sua força a serviço do Rei dos reis. Eu os olho como se olha para os amigos úteis, que ainda não sabem o que são, que farão sofrer antes de serem conquistados. Mas que, quando forem conquistados, levarão a Ti e o conhecimento de Ti até os confins do mundo.

Eu, uma pobre mulher, ouso dizer aos meus irmãos em Ti que, quando for a hora da conquista do mundo para o teu Reino, não será de Israel, fechado demais no seu rigorismo mosaico, áspero pelo dos fariseus e outras castas para poder ser conquistado, mas daqui, do mundo romano, das ramificações dele — os tentáculos com que essa Roma destroça todas as fés, todo amor, toda liberdade que não seja a que ela quer, e que a ela é útil —, daqui é que deverá iniciar-se a conquista dos espíritos para a Verdade.

Tu o sabes, Senhor. Mas eu falo para os irmãos que não podem crer que também nós, os gentios, temos anseios pelo Bem. Aos irmãos eu digo que, sob esta couraça pagã, há corações desiludidos com o vazio pagão, enojados da vida que levam, porque assim é o costume, cansados como estão de ódio, de vício e de dureza. Há espíritos honestos, mas que não sabem onde apoiarem-se para acharem uma satisfação ao seu anseio pelo Bem. Dai-lhes uma fé que os contente. Eles morrerão por ela, levando-a sempre mais para a frente, como um archote no meio da escuridão, como faziam os atletas nos jogos helênicos.”

461.15 Jesus está dobrando a primeira folha, e, enquanto os ouvintes estão comentando o estilo, a força e as ideias de Síntique, ficam perguntando porque é que ela não está mais em Antigônio. Jesus desenrola a segunda folha.

Pedro, que até agora estava sentado, volta a aproximar-se, como se fosse para ouvir melhor, e começa de novo a levantar-se sobre as pontas dos pés para ver, ficando bem encostado em Jesus.

– Simão, está fazendo muito calor, tu me estás apertando –diz Jesus sorrindo–. Volta para o teu lugar. Não estavas ouvindo até agora?

– Ouvindo? Sim. Mas não estava vendo. E agora quero ver, porque foi daquela folha ali que Tu mudaste, e choraste… mas não é só por causa de João… Que ele estava para morrer, já se sabia…

Jesus sorri, mas, para impedir a Pedro de ficar dando olhadelas por detrás dele sobre a carta, encosta-se na coluna que está mais perto, sem tomar cuidado para não ficar longe da lâmpada que, em compensação, se não ilumina a folha, ilumina muito o rosto de Jesus.

Pedro, bem decidido a ver, a compreender, arrasta um banquinho em frente de Jesus, e se senta, tendo os olhos fixos no rosto do Mestre.

– “Tão convicta estou disso, que, tendo ficado sozinha, deixei Antígônio por Antioquia, certa como estava de poder trabalhar mais neste terreno, onde, como em Roma, todas as raças se fundem e se misturam, mais do que onde impera Israel. Não posso eu, uma mulher, partir para a conquista de Roma. Mas, se a Urbe me é inatingível, da filha mais bela da Urbe, a mais semelhante à mãe em todo o Orbe, é que eu lanço a semente. Sobre quantos corações ela cairá? Em quantos deles ela germinará? Por quantos ela será transportada para outros lugares, e lá ficará esperando os apóstolos para germinar? Não sei. Não pergunto para saber. Eu faço. Ofereço ao Deus que eu conheci e que alegra o meu espírito, o meu intelecto e o meu trabalho. Neste Deus eu creio como sendo o Deus único e onipotente. Sei que Ele não decepciona a quem é de boa vontade. Isto me basta e me sustenta no trabalho.

461.16 Mestre, João morreu no sexto dia, antes das nonas de junho, segundo os romanos, quase na lua nova de tamus, conforme os hebreus. Senhor… Para que dizer-te aquilo que tu sabes? Contudo, eu o digo para os irmãos. João morreu como um justo e, para dizer a verdade sobre os seus sofrimentos, como um mártir. Eu, que o assisti com toda a piedade que uma mulher pode ter, com todo o respeito que se tem por um herói, com todo amor que se tem por um irmão. Mas isso não impediu um sofrimento tão grande, que eu, não por desgosto ou cansaço, mas por compaixão, rezava ao Eterno, pedindo que o chamasse à paz. E ele dizia: ‘À liberdade’.

Que palavras saíam de sua boca! Como pode um homem, que desceu até o fundo, como ele dizia, subir a um grau tão alto de Sabedoria? Oh! A morte é mesmo o mistério que revela a nossa origem, e a vida é o cenário que esconde esse mistério. Um cenário que se apresenta a nós, não em desenhos, e sobre o qual podemos fazer o que quisermos. Sobre isso ele havia escrito muitas coisas, mas nem todas bonitas. As últimas, porém, foram sublimes. Do céu, embaçado por baixo, sobre o qual havia desenhos de dor humana e de humana violência, como um sábio artífice, ele tinha passado a sinais sempre mais luminosos, ornando com virtudes o restante de sua vida cristã, terminando na luminosidade fulgente de uma alma perdida em Deus. Eu to digo: não falou, mas cantou o seu último poema. Não morreu, mas surgiu. Nem eu poderia distinguir com exatidão quando era ainda o homem que estava falando, ou quando já era o espírito filho de Deus que falava.

Senhor, Tu sabes que eu li todas as obras dos filósofos, a fim de procurar um alimento para a alma ligada pelas duplas correntes da escravidão e do paganismo. Mas elas eram obras de homens, eram palavras de super-homens, de espíritos reais, de espíritos semi-divinos. Eu velei sobre o mistério, que não teria sido compreendido de outro modo por aqueles que nos hospedavam: bons com o homem, mas israelitas no mais amplo e completo sentido do nome… E quando, nos últimos gestos de amor, João não era mais do que um amor falante, eu afastei a todos e recolhi sozinha o que Tu certamente sabes…

Senhor… aquele homem morreu, saiu finalmente da carne, foi para a liberdade, como ele dizia, com aquele fio de voz dos últimos dias, e com o olhar aceso em êxtase, apertando-me a mão, revelando-me o Paraíso com suas palavras. Aquele homem morreu ensinando-me a viver, a perdoar, a crer e a amar. Ele morreu, preparando-me para o último tempo de tua vida. Senhor, eu sei tudo. Ele me havia instruído sobre os profetas nas tardes de inverno, eu conheço o Livro como uma verdadeira israelita. Mas sei também aquilo que o Livro não especifica. Mestre meu e meu Senhor… eu o imitarei! E eu quereria o mesmo favor, mas penso que seja mais heróico não pedi-lo, e fazer a tua vontade…”

461.17 Jesus dobra a folha e faz o gesto de querer pegar a terceira.

– Não não, Mestre! Não pode ser… Há ainda uma outra. Não pode ter terminado assim de repente a folha! –exclama Pedro–. Tu não leste tudo. Por quê, Senhor? Vós, protestai. Síntique escreveu mais para nós do que para Ele, e Ele não lê para nós.

– Não fiques insistindo, Pedro.

– Sim, que eu insisto! Ora, se insisto! Eu vi, tu sabes, que o teu olhar estava olhando mais para baixo, de relance, e que é claro, não leste as últimas linhas. Não ficarei quieto, enquanto não leres o fim daquela folha. Antes Tu estavas chorando… E por quê? Havia motivo para chorar naquilo que estavas lendo? É desagradável, sim, saber que ele morreu… mas uma morte assim não faz chorar! Eu pensava que ele tivesse morrido mal, perdendo o seu espírito… Mas, ao contrário… Lê, tu, então, ó Mãe! Tu, ó João! Vós conseguis tudo…

– Escuta-o, meu Filho, e, se houver alguma coisa penosa para se beber, beberemos todos o cálice…

– Seja como quereis…

“Conheço o Livro como uma verdadeira israelita. Mas sei também o que o Livro não especifica, isto é, que a tua Paixão não tardará a cumprir-se, visto que João morreu, e tu lhe prometeste uma curta parada no Limbo. Ele o disse a mim. Ele me disse que Tu lhe havias prometido tirá-lo, antes que ele conhecesse como e até onde pode chegar o ódio de Israel contra Ti, isso para impedir que, por amor a Ti, ele odiasse os teus torturadores. Agora ele morreu… e Tu, portanto, estás perto de morrer… Não. De viver. Verdadeiramente de viver, com a tua Doutrina, estando Tu mesmo em nós, com a Divindade em nós, depois que o teu Sacrifício nos der a vida da alma, a Graça, a união com o Pai, com o Filho e o Espírito Santo.

Mestre, meu Salvador, meu Rei, meu Deus… forte é a minha tentação, ou melhor, foi forte, de ir ao teu encontro, agora que João está com seu corpo dormindo no sepulcro, e repousa com o espírito na espera. Ir ao teu encontro para estar com as outras pessoas, ao lado do teu altar. Mas os altares serão ornados não somente com a vítima, mas com grinaldas, em honra do Deus, por cujo amor se celebra o sacrifício. Eu ponho a minha grinalda roxa, grinalda de discípula distante, aos pés do teu altar. Aí eu coloco a obediência, o trabalho, o sacrifício de não poder ver-te e ouvir-te… Ah! Isso vai ser bem duro! É bem duro, agora que terminaram os teus colóquios sobrenaturais com João, e eu não posso mais ter o prazer de ouvi-los! Senhor, levanta a tua mão sobre a tua serva, para que ela saiba fazer somente a tua vontade, e te saiba servir.”

461.18Jesus dobra a folha e olha para os rostos dos ouvintes. Eles estão pálidos. Mas Pedro murmura:

– Não compreendo porque estavas chorando… Pensava que fosse outra coisa…

– Eu estava chorando, porque tinha diante de Mim o uxoricida, o galeote daqueles tempos, a escrava pagã e muitos em Israel.

– Eu compreendi. Ficas angustiado porque os hebreus são inferiores aos gentios, os sacerdotes e príncipes aos galeotes. Tens razão. Eu era um estulto. Que mulher, esta mulher. Que pena que ela tenha precisado ir-se embora!

Jesus desenrola a terceira folha.

– “E saiba imitar em tudo o discípulo e irmão que já está na paz e que para lá foi, depois de ter completado toda a purificação… em tua honra e para aliviar os teus sofrimentos.”

– Ah! Isso, não!

Pedro pulou com agilidade sobre a cadeira, antes que Jesus possa afastar-se, e vê que não é possivel mais ficar lá onde Jesus está olhando. É preciso ter presente que o pergaminho se enrolou por si mesmo, à medida que ia sendo solto lá em cima e por isso muitas linhas já ficaram escondidas no alto da folha.

Jesus levanta a cabeça e, com um rosto mais entristecedor do que triste, doce, mas firme, corrige o seu apóstolo, dizendo:

– Pedro, o teu Mestre sabe o que é que te faz bem. Deixa que eu te dê aquilo d que te é bom…

Pedro fica chocado por aquelas palavras e mais ainda pelo olhar de Jesus, como o de quem implora, tendo nos olhos luzentes uma lágrima que está para cair. E desce da cadeira, dizendo:

– Eu obedeço… Mas quem vai poder ficar ali?

461.19 Jesus continua a ler:

– “E agora, depois de falar de outros, vou falar de mim. Deixei Antigônio, depois do sepultamento de João. Não porque me maltratassem. Mas porque eu percebi que não era o meu lugar. Por que eu percebi? Não sei. Mas eu percebi. Como eu te dizia, eu tinha conhecido muitas famílias, porque muitos haviam vindo a nós. E preferi ir colocar-me perto da família de Zenon, justamente porque ela está no ambiente onde espero trabalhar.

Uma mulher romana me queria em sua esplêndida casa, perto das Colunatas de Herodes. Uma síria riquíssima me convidava para ser mestra na oficina de tecidos que seu marido de Tiro, implantou na Selêucia. Uma viúva prosélita, mãe de sete meninas, moradora de perto da ponte Selêucia, me queria, por respeito ao João, mestre dos meninas; uma família grego-assíria, com empórios em uma estrada perto do Circo, me pedia que eu fosse morar com ela, porque no tempo dos jogos, eu podia ser-lhe útil. Finalmente, um romano, que eu acho que é centurião, mas com certeza é um militar, que por aqui ficou, não sei por qual motivo, que também se curou com o bálsamo, insistia para ter-me consigo. Não. Eu não queria os ricos nem os mercadores. Eu queria almas, almas gregas e romanas, pois eu penso que com estas é que deverá ter começo a expansão da tua Doutrina pelo mundo.

E aqui estou, na casa de Zenon, nos declives do Sulpio, perto das casernas. A cidadela está ameaçadora, lá no cume. No entanto, sendo tão carrancuda como é, é melhor do que os ricos palácios do Onfolo e do Ninfeu, lá eu tenho amigos. Há um soldado que te conhece, chamado Alexandre. É um coração simples de criança, em um corpo robusto de soldado. O próprio tribuno, há pouco chegado aqui da Cesareia, por baixo da sua clâmide, tem um coração reto. Em sua simplicidade rústica, ele se aproxima da verdade de Alexandre. Mas o tribuno também, que te admira como um reitor perfeito, um filósofo “divino”, como ele diz, não é hostil à Sabedoria, mas também, não pode ainda dar acolhida à Verdade. Contudo, conquistar estes e suas famílias, com um mínimo de conhecimento de Ti, já quer dizer o lançamento da semente desse conhecimento no norte e no sul, porque as milícias são como os grãos agitados na peneira, ou melhor, são como as folhas secas que o pé-de-vento que, neste caso, significa a conduta dos Césares e as necessidades de domínio se espalham por toda parte.

Quando virá o dia em que os teus apóstolos, como uns pássaros que se puseram a voar, se espalharão sobre a terra, encontrarão grande ajuda, se encontrarem nos lugares do seu apostolado um só que seja que não ignore quem é que Tu foste. Por causa desta ideia, eu cuido dos membros dos velhos gladiadores e das feridas dos jovens gladiadores. Por isso é que eu não evito as mulheres romanas, por isso eu suporto aqueles que me causaram sofrimento… Tudo. Por Ti. Se eu errar, aconselha-me com a tua sabedoria. Só Tu sabes, mas o sabes, que os meus erros vêm da minha incapacidade, mas não da maldade.

Senhor, a tua serva já te falou muito… mas ainda é como um nada do tudo que eu tenho no coração. Mas Tu estás vendo o meu espírito, Senhor… Quando verei o teu rosto? Quando tornarei a ver tua Mãe e os irmãos? Esta vida é um sonho que passa. A separação cessará. Eu estarei em Ti e com eles, será para mim a alegria e a liberdade, também para mim, como o foi para João.

Eu me prostro aos teus pés, meu Salvador. Abençoa-me com a tua paz. A Maria de Nazaré, às discípulas, paz e bênção. A Ti, Senhor, glória e amor.”

461.20 Já li, minha Mãe, vem comigo. E vós, esperai-me, ou então, ide descansar. Eu não vou entrar de novo. Vou ficar em oração com minha Mãe. Joana, se alguém me procurar, estou no quiosque, perto do lago.

Pedro puxa Maria para um lado e lhe fala, excitado, mas em voz baixa. Maria lhe sorri e murmura qualquer coisa. Depois vai ao encontro de seu Filho, que vai indo por um caminho, que de noite mal se vê.

– O que queria Simão de Jonas?

– Queria saber, meu Filho. É como um menino… um grande menino. Mas é muito bom.

– Sim muito bom. E foi perguntar a ti, que és boníssima, para ficar sabendo… Ele descobriu os pontos fracos: tu e João. Eu sei. Eu pareço não saber, mas Eu sei. Mas não posso ceder sempre para contentá-lo… Não era preciso, Jônatas. Ficaríamos também no escuro

–diz Jesus, vendo que Jônatas vem vindo com uma lâmpada de prata e com umas almofadas, que ele põe sobre a mesa e sobre as cadeiras do quiosque.

– Foi Joana que o mandou fazer. A paz esteja contigo, Mestre.

– E contigo.

Permanecem sozinhos.

– Eu estava dizendo que nem sempre posso contentá-lo. Esta tarde Eu não podia. Somente Tupodes saber quais os pontos sobre os quais silenciei. Eu te quis comigo por isso e para estar contigo, minha Mãe… Estar contigo nas últimas horas, antes de uma separação e reunir muita desta doce força para enriquecer-se com ela durante as muitas horas de solidão, pelo meio de um mundo que não me entende, ou que me entende mal. Estar contigo, nas primeiras horas depois de um retornor, equivale a retemperar-me logo em tua doçura para todos os cálices que Eu tenho que beber no mundo… e que são tão desgostosos e amargos!

Maria o acaricia, sem nada dizer. Erguida, de pé perto dele que está sentado, é a Mãe que conforta o Filho. Mas Ele faz que ela se assente, e lhe diz:

– Escuta…

E então Maria, em posição de muito atenção à frente dele, torna-se a discípula, que está pendente dos lábios de Jesus, Mestre.

461.21 – Síntique escreve, falando de Antigônio: “Aqui o querer, não sei distinguir onde que cessa o que é dos homens e começa o que é de Deus, porque não sou sábia; aqui o querer, mais forte do que o meu desejo, me arrastou, e talvez isso não tenha sido tudo vontade de Deus. O certo é que, quase seguramente por uma graça do céu, eu já amo esta cidade que, com os cumes do Cásio e do Amã a velar por ela de dois lados, e as cristas verdes das Montanhas negras, lá mais ao longe, tudo muito me faz lembrar da Pátria perdida. E parece-me que isso seja o primeiro passo de volta para a minha terra, não mais um passo de peregrina cansada que está voltando para morrer, mas de uma mensageira de vida, que vem dar vida a quem foi sua mãe. Parece-me que daqui, como uma andorinha descansada para voar, nutrida pela Sabedoria, eu deva voar para a cidade, onde eu vi a luz, e da qual eu quero, quereria subir para a Luz, depois de ter dado a Luz que me foi dada.

Os meus irmãos em Ti, eu sei, não aprovariam este pensamento. Querem somente para eles a Sabedoria. Mas estão errados. Um dia compreenderão. Um dia compreenderão que o mundo está esperando, que o mundo desprezado será o melhor. Eu preparo o caminho para eles. Não aqui somente, mas com todos os que vão à frente, e voltam para outros lugares. Eu não distingo nem se são gentios ou prosélitos, gregos ou romanos, nem se são do império ou da Diáspora. Eu falo, excito a vontade de conhecer-te. O mar não é feito só de uma nuvem que se descarrega. É formado por nuvens, nuvens e mais nuvens, que se descarregam sobre a terra e tornam a ser derramadas no mar. Eu serei uma das nuvens. O mar será o cristianismo. Quero multiplicar o conhecimento de Ti para contribuir na formação do mar do cristianismo. Eu, uma grega, sei falar aos gregos, não somente na língua deles, mas à compreensão deles. Eu, que já fui escrava de romanos, sei trabalhar os romanos, cujos pontos sensíveis eu conheço. E, pelo fato de ter eu vivido entre hebreus, sei como tratar com eles, especialmente aqui onde os prosélitos são numerosos. João morreu pela tua glória. Eu viverei pela tua glória. Abençoa os nossos espíritos”.

461.22 E noutro ponto, quando ela fala da morte de João, naquele ponto que eu não deixei que Simão lesse, está escrito: “João morreu, depois de ter feito toda a purificação, até a última, dando o perdão àqueles que, com seu modo de agir, o mataram, e te constrangeram a afastá-lo. João me revelou isso ao dizer: ‘Desconfia sempre dele. É um traidor. Ele me traiu, trairá a Ele e aos seus companhieros. Mas eu perdoo a Iscariotes, como Ele o perdoará. É já tão grande o abismo em que ele se meteu, que não quero torná-lo mais profundo com meu ato de deixar de perdoá-lo, por me ter matado, ao separar-me de Jesus. O meu perdão não o salvará. Nada o salvará, porque ele é um demônio. Eu não deveria dizer isso, eu que fui um assassino, mas eu tinha pelo menos recebido uma ofensa, que me fez enlouquecer. Ele ataca a quem não lhe fez mal, acabará traindo ao seu Salvador. Mas eu lhe perdoo, porque a bondade de Deus fez de sua raiva contra mim o meu bem. Estás vendo? Eu expiei tudo. Ele, o Mestre, o disse a mim ontem de tarde. Eu expiei tudo. Agora estou saindo do cárcere. Agora estou verdadeiramente na liberdade, livre também do peso de ficar me lembrando do pecado de Judas de Keriot contra um infeliz, que havia encontrado a paz junto ao seu Senhor.’

Eu também, seguindo o exemplo dele, o perdoo, por me ter arrancado de Ti, da Mãe bendita, das irmãs discípulas, que te ouvíamos e seguiamos até à morte, a fim de estarmos presentes ao teu triunfo de Redentor. Eu o faço por Ti, em tua honra e para aliviar os teus sofrimentos. Fica em paz, meu Senhor. O nome do opróbrio que está entre as filas dos teus seguidores não sairá de meus lábios e com ele não sairá nada de tudo o que eu ouvi de João, quando o seu eu falava com a tua invisível e confortadora Presença. Eu fiquei na dúvida se devia ir a Ti, antes de ir para a nova morada. Mas achei que me teria traído com o horror pelo Iscariotes, que te teria prejudicado, diante dos teus inimigos. Fiz um sacrifício até desse conforto, certa de que o sacrifício não ficará sem fruto e sem prêmio.”

461.23 Eis, minha Mãe. Podia Eu ler isto a Simão?

– Não. Nem a ele, nem aos outros. Na minha dor, sinto alegria por essa morte santa de João… Meu Filho, rezemos para que ele sinta o nosso amor e… para que Judas não seja o opróbrio… Oh! é horrível! Contudo, nós perdoaremos.

– Rezemos…

Levantam-se e rezam, à luz trêmula da lâmpada, por entre as cortinas dos ramos pendentes, enquanto a ressaca continua sua respiração entrecortada contra a praia…

1 dos tefilins, as fímbrias e zizits,estes ornamentos poderiam ter vários nomes que a lei precrevia aos israelitas para que se recordassem dos comandos do Senhor como é mencionado em Números 15,37-42; Deuteronômio 6,6-8; 11,18; 22,12. Encontramo-los também em 40.7 (sobre a forma de “faixas”), 201.5 (como “franjas” e “faixas”), 381.7.9 e 501.4.


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